Os Dezessete

8 Capítulo VIII - Albjorn


Notas iniciais
Capítulo escrito por Gabriel Dacoregio (Daka). Revisado por Emily de Farias e Simone Hoffmann

Frio. A neve, caindo do lado de fora da cabana rústica, escondida no meio da mata invernal.

Quente. O fogo, intocado, ardendo na lareira no lado de dentro, crepitando eternamente.

Frio. A mão pálida, que segura e torce o cabo da adaga, firme e letal.

Quente. O sangue vermelho fluindo para a ponta da adaga, saindo fresco da garganta.

Frio. Os olhos azuis, apáticos, penetrantes, brilhando gélidos no semblante vazio.

Quente. Os olhos castanhos, apavorados, incessantes, perdendo rapidamente o brilho da vida.

Frio. O toque do inverno emanando dos meus dedos.

Quente. O cadáver ainda está quente, um resquício da vida que há momentos o habitava.

Barulho. O último suspiro do homem que comandou centenas. Pouco mais que um gemido de desconforto. Nada compreensível, nada com que eu me importe.

Frio. O sangue congela na lâmina da adaga assim que flui da garganta.

Barulho. O crepitar constante da lareira inunda a sala.

Eu tiro minha adaga da garganta do ilustre morto e a limpo com o próprio robe dele. Com dois dedos frios, congelo também o local onde minha machadinha o havia acertado nas costas enquanto ele tentava fugir. Limpo esta com o famoso manto de peles de lobo que o líder Hernarr utilizava, que o tornava conhecido como “Hernarr, o Lobo”. Mas nenhuma pele de lobo pode salvar um homem da morte que eu ofereço, do frio que para o coração. Nenhuma pele de lobo poderia salvá-lo. Nenhuma pele de lobo pôde me salvar, naquele dia.

Silêncio. O fogo que ardia na lareira se torna uma pilha de cinzas congeladas com meu sopro.

Frio. Os olhos de Hernarr se tornaram vidrados, imóveis. Mortos.

Dentro de algumas horas, os homens de Hernarr devem chegar aqui. Posiciono o cadáver de Hernarr contra a parede, que ostenta o brasão de seu povo (uma cabeça de lobo branca, com um capacete viking dotado de chifres em cima), e o prendo lá com uma espada longa, da coleção pessoal de Hernarr. Isso é apenas cosmético, pois a espada não vai segurar o corpo dele de verdade, então eu congelo o corpo junto à parede. Deve durar o suficiente. Não julgo que eu deveria me alimentar com o sangue de um homem tão indigno, mas um mercenário deve ter alguma reputação, portanto eu abro a boca e me aproximo da jugular do morto.

Frio. O sangue, outrora quente, foi resfriado pela minha magia. O gosto já é familiar.

Quando fico satisfeito, retiro as presas do pescoço do morto e me dou um momento para contemplar o lugar. A cabana é pequena, porém obviamente feita para alguém de certa posição. A porta de carvalho entalhada, o tapete de peles de urso e tigre emendados, a lareira adornada de granito. Por fora, a cabana era perfeitamente simples, poderia ser confundida com o lar de um simples caçador. Exceto por um detalhe. Um lobo entalhado na soleira da porta. Um simples gesto para demonstrar poder.

Frio. O ar invernal da noite penetra na cabana pela fenda onde a porta antes estivera.

Uma futilidade que já é de praxe em humanos orgulhosos e cheios de posses. Uma futilidade que me fez congelar a porta e fazê-la em pedaços. Que fez Hernarr, o Lobo, atirar sua caneca ao chão e correr, inutilmente, em direção à janela, embora minha machadinha já estivesse achando suas costas. Uma futilidade que me faz contemplar estas paredes entalhadas, estas tapeçarias importadas do Sul, estas armaduras vikings tradicionais (sem dúvida alguma troféus de guerras passadas) ganhadas pelos homens de Hernarr e também sem dúvida creditadas solenemente a Hernarr, e apenas a Hernarr. Mas Hernarr é apenas um nome agora, cortesia da minha adaga. Novamente, abro o casaco e, do bolso interno, retiro a carta.

“Tenho informações sobre o vampiro branco que você tanto busca. Se as quiser, ponha um fim à guerra entre os Lobos de Gelo e os saqueadores do Chefe Branwulf e desça até o continente principal. Eu o acharei lá. Veremos se o grande mercenário negro, Albjorn, vale mesmo a moeda que cobra.”

A carta não veio assinada, mas apenas marcada com um estranho selo circular um pouco borrado. Estas poucas linhas rabiscadas em tinta negra são o suficiente para me enfurecer. Não tenho um espelho, mas sei que a essa altura, meus olhos azuis assumiram aquele vivo tom de vermelho mais uma vez. Este maldito cliente não apenas zomba da minha capacidade, mas também sabe meu nome. E mais, sabe do objetivo da minha eterna vingança. O vampiro branco. Não ouço sobre ele há 20 anos, não falo sobre ele há 20 anos. Por que agora...?

Vasculho a cabana em busca de espólios e fico satisfeito com duas bolsas de pedras e uma adaga ornamentada, feita com presa de elefante. Olho por uma última vez para meu trabalho da noite. O corpo de Hernarr enfraquecerá os Lobos de Gelo. Ele não era um guerreiro, mas era um líder. O restante dos Lobos são incapazes de liderar, portanto, logo sucumbirão aos seus inimigos. Eu ando em direção ao vão por onde a neve agora entra e não olho de novo para trás.

Frio. A floresta está silenciosa, morta como a noite, morta como eu.

Frio. Dizem que o sul é mais quente, mas o norte é frio, também como eu.

Frio. A honra pode ser uma esposa de verão, mas a vingança é uma amante de inverno.

Notas finais
Muito obrigado pra quem leu tudo, qualquer pequeno feedback seria muito agradável O próximo capítulo deste personagem será mais longo e mais violento, aguardem.