Os Dezessete
5 Capítulo V - Elise Burg Feuer
Notas iniciais
Meu nome completo é Elise Burg Feuer, mas prefiro que me chamem por Feuer. Apesar de acabar de ser renegada por todo o reino, inclusive meus pais, meu sobrenome fala muito sobre mim: Feuer significa fogo na minha língua materna. Falando em família, meu atual antigo reino era formado pelos mais vis bárbaros de todos os tempos, e eu me incluo nisso.
Acredito que a coisa mais útil a dizer agora é que eu odeio fazer parte da família real. Não que a realeza seja algo tão cobiçada pelo meu povo, e não que o meu povo seja dos mais inteligentes (são bárbaros), é só que ser da família mais importante e não poder fazer as mesmas coisas que o meu irmão pelo simples fato de que nasci mulher é ridículo.
Enquanto ele sai para saquear vilas, eu sou obrigada a ficar sendo paparicada. Não posso lutar. Não posso correr. Não posso fazer nada. Hábitos que foram sendo adquiridos pelo meu povo desde que meu pai se casou novamente, desta vez com uma saxônica. Esse povo metido a desenvolvido fez meu pai reformular todos os preceitos de nossa aldeia. Antes líder, agora rei.
E não vejo a hora de deixar de fazer parte disso.
Antigamente, as mulheres eram tão importantes quanto os homens. Minha mãe, Anne Feuer, era a mais valente de todos da aldeia, mais forte que todos os homens e ao mesmo tempo a mais delicada de todas as mulheres. Puxei dela os olhos claros, cabelos ruivos e corpo esbelto, com curvas. Já do meu pai puxei a força, que, infelizmente, não posso usar. Por enquanto.
Voltando ao meu irmão, hoje pela manhã ele e outros dos nossos saíram em busca de um reino há muito perdido, cercado por muralhas e impenetrável. Não me deixaram ir junto. Ele teve a coragem de dizer que não é serviço para uma dama.
“Dama é o cacete!”, gritei para ele. E depois gritei para o meu pai. E depois gritei para a minha madrasta, que por fim falou que eu não deveria estar ali, que eu não era adepta aos novos costumes e que, sendo assim, deveria deixá-los. Meu pai logicamente aceitou. Sonhei por tantos anos em deixar esse lugar e viver de verdade que, agora que aconteceu, estou em êxtase. Muitos podem estranhar o fato de eu odiar o dito “berço de ouro”, mas eu não nasci para isso. Eu nasci em meio ao fogo. Eu nasci do fogo.
Corri para os meus aposentos e separei o necessário: bebida e armas. Nunca mais voltaria a pisar naquele lugar, não se as coisas continuassem daquele jeito. No estábulo, restava apenas o Fúria (ele, que acompanhou minha mãe em várias batalhas, agora me acompanharia), um cavalo negro e esguio, o mais rápido de todos.
Montei-o e corremos na direção em que meu irmão havia ido, eu realmente queria saber o que era, o que acontecera com o tal reino e se eles teriam capacidade de derrotar meus bárbaros. Sim, MEUS bárbaros, muitos cresceram comigo e não têm culpa de meu pai ser um imbecil.
Eles partiram 6 horas antes de mim para o leste e atravessariam a Floresta de Gullveig. Reza a lenda que os Deuses aprisionaram a dita feiticeira nesta floresta e deram o nome dela para a mesma, com o intuito de que os viajantes soubessem do perigo que os aguardaria se ousassem atravessá-la.
Já estava escurecendo quando avistei-os ao longe, mas não estavam sozinhos. Haviam sido cercados por homens de veste estranha e armas muito maiores do que estávamos acostumados. Os cavalos haviam sido mortos. E eles haviam sido queimados.
Considerei atacá-los: minha pele não pega fogo (logo, não posso ser queimada), possuo uma arma que eu mesma construí nas minhas costas (apelidei-a de Besta) e duas facas, presas cada uma a uma perna. Porém, eles eram maiores e estavam em maior quantidade. E eu não poderia deixá-los pegarem o Fúria. Então preferi segui-los.
Não demorou muito para que chegássemos na floresta. Eles preferiram uma trilha alternativa, menos iluminada, e a cada passo dado eu agradecia aos deuses pelo Fúria ser mil vezes mais silencioso do que eu, mesmo tendo o dobro do meu tamanho. Eles pararam por um segundo e eu vi a minha deixa. Desci do cavalo, fui para o meio das árvores, escolhi o menor deles e comecei a atirar pedras para chamar sua atenção. Ele, felizmente para mim, logo percebeu a direção e veio até mim, deixando o seu grupo.
Quando chegou perto o suficiente, atirei uma flecha bem no meio de sua testa. Ele não teve tempo de gritar e por sorte não fez muito barulho ao cair. Peguei suas roupas e as vesti. Ficaram um tanto largas em mim e fediam a colônia, mas as usaria por pouco tempo se os Deuses assim permitissem.
Os outros nem ao menos sentiram falta do antigo companheiro. Seria costume eles abandonarem uns aos outros? Não consigo deixar de achá-los estranhos. Estranhamente estranhos. Os meus preferem morrer a deixar um companheiro para trás. Aparentemente até os bárbaros possuem sentimentos, mas estes homens de gelo não os têm.
Quando saímos da floresta, já estava amanhecendo novamente. Não sei dizer quanto tempo passamos lá, acredito que seja escuro durante o dia do mesmo jeito que é durante a noite.
Eu mantinha uma distância segura dos meus “companheiros” de viagem. Eles não me viam, muito menos ouviam, mas eu acompanhava cada passo deles. Coloquei o capuz do que eu imagino ser uma capa para esconder os meus cabelos ruivos; somente os filhos do fogo os têm e em muitos lugares somos acusados de bruxaria.
Eles passaram pelos portões primeiro. Dois guardas que observavam o movimento, me viram chegando e tornaram a fechar a entrada. Quando cheguei perto, um deles falou comigo em uma língua desconhecida. Não respondi.
Eles se olharam por alguns segundos e eu mantive a pose apesar de, dentro de mim, ter uma voz gritando que ia dar merda. Rezei aos Deuses que me protegessem, principalmente à Freya.
Senti um arrepio. Eles me ouviram. Os portões foram abertos.
Eu estava dentro. Do meu lado direito, eu via as crianças brincando. As meninas trançavam os cabelos umas das outras e os meninos tinham suas próprias armas de madeira. Do meu lado esquerdo estavam os adultos, mulheres e homens bebendo juntos, como o meu povo costumava fazer quando minha mãe ainda era viva. E, para o meu espanto, haviam muitos filhos do fogo entre eles.
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