Os Dezessete
2 Capítulo II - Fay Charlotte Valchort
Notas iniciais
Okay. Partir pra um país completamente desconhecido que tem 100% de chances de ser chuvoso e nada tropical (sendo que foi nesse clima que você viveu sua vida inteira) para morar com um tio que você via duas vezes ao ano, onde você não tem certeza de que terá seu dragão de 'estimação' alojado era definitivamente preocupante.
Tudo bem. Eu tenho dezoito anos. Sou uma moça crescida. Mas por favor, né? Até mesmo um adulto de cinquenta anos ficaria receoso com essa ideia.
E se você não visse esse tio há mais de dois anos? E tivesse ficado muito mais alta que a maioria das garotas de sua idade? E se tivesse cortado seu cabelo mais curto do que manda o costume?
Ps. 1: Porque cabelo curto é mais fácil de cuidar, incomoda menos.
Ps. 2: Porque HELLOU?! Ilha tropical, calor infernal.
Ps. 3: Cabelos longos podem ser facilmente queimados na minha profissão, já cabelos curtos não.
Bom, saiba que pelo menos eu estou receosa. E não é pouco.
Sinceramente, estou surpresa em ainda não ter dado meia volta e seguido o caminho de casa.
Não que eu faça o tipo covarde, já que quando se lida com dragões não há como ser covarde, principalmente quando eles têm um machucado, ou pior, um machucado infeccionado, fazendo com que em 75% das vezes eles se tornem mais agressivos e no fim das contas é você quem tem que tratá-los. Porque ou você trata o dragão ou volta pra casa e conta para seu pai que não conseguiu porque é um menininho covarde (afinal uma menininha não teria sido covarde, é óbvio.) Isso tudo só para seu pai lhe dirigir um olhar firme e meio decepcionado e falar:
– Seja uma Valchort de verdade, volte lá e trate daquele dragão ferido ou vai dormir ao relento.
Só é difícil partir sem querer voltar quando se ama o lugar de onde se partiu.
***
Respirou fundo, se ajeitou sobre o saco de dormir para então ouvir o tilintar de sua tornozeleira que havia ganho numa das viagens que fizera com o pai. Observando as estrelas, com as mãos atrás da cabeça e a barriga virada pra cima lembrou-se de como havia sido divertido ganhar aquilo.
Havia uma multidão de adultos vendo algo e todos pareciam maravilhados. Sua curiosidade de menina de oito anos espoleta venceu-a e então ela foi se meter no meio da multidão, lutou arduamente pra passar pelas dezenas de pernas altas que a cercavam, até conseguir chegar num lugar onde conseguia ver bem, e valera o esforço.
Ela viu várias moças de várias etnias, vários tons de pele, várias cores e formas de cabelo. Todas belíssimas, balançando seus corpos animadamente em uma dança que a menina não sabia o nome. Usavam vestidos esvoaçantes de cores vibrantes, usavam infinitas pulseiras de ouro, prata e bronze, usavam cada uma delas uma tornozeleira de ouro ou de prata com moedas penduradas.
Uma das moças, de cabelos escuros e longos, notou-a se balançando timidamente ao ritmo da música e a puxou pra roda. Foi com a alma que a garotinha sentiu a música, e foi com a alma que ela dançou. Após todas pararem de dançar, parou e abriu um sorriso enorme pra moça dos cabelos escuros.
– Pequena, danças com toda a força e pureza do teu espírito, isso é raro. Há tempos não via alguém dançar assim além de mim e minhas irmãs, e como conseguiste me surpreender irei lhe conceder uma tornozeleira como a minha. Se um dia voltares a este país e nos veres dançando, junte-se a nós e dance com essa tornozeleira. Será sempre bem-vinda.
Surpresa com o presente, Fay sentiu que era a criança mais feliz do mundo, não por ganhar a bela tornozeleira, mas sim por ser bem-vinda a dançar novamente com elas.
***
Sorri com a memória e balancei o pé, trazendo aquele tilintar nostálgico para aquela noite silenciosa. Minha disposição e coragem foram renovadas. Então era isso, eu ia enfrentar o que viesse no meu destino. Fiquei de pé em um pulo, tão bem equilibrada como se estivesse no chão, coloquei as mãos na cintura e exclamei para Alabastro:
– Iremos vencer! Seremos os melhores! Não importa o que aconteça, sempre nós esforçaremos ao máximo e ainda conseguiremos nos divertir, afinal isso é só mais uma das nossas aventuras, certo amigão?!
E o dragão rugiu energeticamente em resposta.
Fale com o autor