Os Dezessete

19 Capítulo XIX - Joana Salvatore


Notas iniciais
Capítulo escrito por Kamilah Carriço, revisado por Emily de Farias.

— Vejamos o que temos aqui na minha armadilha – a voz era grave e bonita, de um homem ou um moço com certeza.

Quando pude enxergar o que eu teria que enfrentar, vi um jovem de olhos cor de âmbar, de cabelos castanhos e rebeldes, forte e alto. Se eu desse um jeito de descer dessa árvore, tinha certeza que poderia dar um jeito nele, o único perigo eminente era a aljava em suas costas e o arco na mão. Eu conseguia sentir o sangue se acumulando na minha cabeça, graças a aquela pressão incomoda que se sente ao estar virada do avesso.

— Argh, arqueiros – bufei. Apesar de saber usar um arco, não simpatizava muito com seus donos, muitos deles são covardes demais para aceitar um combate direto,um combate que não seja à distância.

Ouvi um zunido de flecha sendo atirada. Pensei “pronto, morri” no exato momento em que eu despenquei da altura em que estava, indo de encontro ao chão. Fiquei uns instantes me recuperando da queda e escutei uma risada masculina, peguei a adaga e lancei mirando na mão que segurava o arco sem pensar duas vezes.

— Como ousas rir de mim? – esbravejei – Depois de ter me feito de presa em uma armadilha simplória e depois ainda me fazer cair de uma altura enorme, seu filho de uma meretriz?

— Ai – ele larga o arco abruptamente e aperta com a outra mão o lugar em que minha adaga deixara um corte. – E pelo que posso ver tenho aqui uma espécie furiosa e das mais perigosas, posso saber o nome da Milady?

— Como poderei saber se és digno de minha confiança? – indaguei do meu jeito desconfiado de ser e apontando minha espada recém desembainhada diretamente para garganta dele.

— Se eu quisesse o covarde aqui já poderia a ter matado antes mesmo de lançar sua adaga, então começarei me apresentando, já que não fazes questão. – respondeuele de forma polida. – Chamo-me Robbin e frequento as florestas, de vez em quando costumo colecionar coisas por ai e ajudar pessoas, não tenho ninguém. E a senhorita?

— Joana – respondi relutante – Não tenho ninguém além de Milo e estou sem rumo por enquanto.

Quase que se Milo tivesse visto a deixa, a raposa aparece correndo em meu campo de visão e pula em cima de Robbin, o levando ao chão. Gargalheiincansavelmente ao ver a expressão de medo em seu rosto.

— Milo, se afaste – ordenei entre risos – Não vale a pena. – obediente, a raposa se senta ao meu lado.

— Acho que estamos quites agora. Ambos poderíamos ter matado um ao outro, mas acho que o destino não quis que fosse assim – falou Robbin, enquanto selevantava do chão e limpava a terra das vestes – Gostaria de me acompanhar até a minha toca? Acho que é o mínimo que posso fazer depois desse desentendimento.

Olhei no fundo dos olhos dele para ver se havia algum traço de mentira e nesse, mesmo momento, senti algo sutilmente estranho, como se alguém estivesse brincando com a minha mente. A voz era de Robbin:

“A moça é corajosa, bonita e inteligente. Gostei dela. Quem sabe podemos ser grandes parceiros.”

— Desculpe, mas você disse algo? – indaguei, levanto as mãos à minha têmpora.

— Sim, acabei de convida–la para ir a minha toca. Já está escurecendo, não é seguro ficar andando por estas florestas depois que o Sol se põe.

— Não, depois disso.

— Não... Tem algo de errado? Parece que estais com algum problema.

— Foi só uma sensação estranha, logo já passa. Então vamos indo! – falei.

Andamos por cerca de uns 15 minutos pela floresta até achar algo que parecia mais como um esconderijo, se alguém passasse por ali nem desconfiaria que houvesse alguém morando. Mas, surpreendentemente, dentro da toca parecia ter espaço para tudo necessário, não se comparava a um castelo por exemplo, mas era aconchegante.

Todos os “cômodos” eram interligados, tinha uma lareira com um tapete na frente com umas poltronas, uma cama, uma mini cozinha e várias quinquilharias.

— Sei que estás acostumada com o luxo, princesa, mas é isso o que eu tenho – comentou Robbin assim que atravessei o que deveria ser a porta.

— Mas eu não sou princesa e muito menos nasci na nobreza, quem me dera tivesse tido uma boa vida.

— Admito que mentes bem – rebateu, pensativo – Mas com esse vestido não vais enganar nem uma criança. Acho que ficas melhor sem ele. – disse ele em um tom malicioso.

— Cale a boca e me trás logo algo para beber. – respondi, revirando os olhos.

Joguei-me em uma das poltronas colocando a perna sobre o apoiador de braço como se fosse a dona da casa, uma vez que eu estava muito cansada para ter modos no momento. Queria beber para me anestesiar e me esquecer de tudo que tinha acontecido até agora, e pelo menos naquele instante, me senti merecida de uma folga dessa vida.

— Por mais nobre que a senhorita tenha sido um dia, não tem os modos de uma. Gosto disso, mas é um tanto quanto mandona também. – comentou ele enquanto me espiava da cozinha.

Quando ele voltou com duas garrafas de cerveja barata eu já estava vidrada nofogo, de pé ao lado dalareira, pensando no passado. Tenho que perder essa mania, porque isso só me atrapalha e me faz sentir péssima.

Peguei uma das garrafas e brindamos. Não sei o exato motivo do brinde, não tinha nada pelo que comemorar, o que me restava era afogar-me em minhas próprias magoas e agradecer a sorte de ter bebida para por no estomago.

— Onde exatamente estamos? – lembrando-me que faziam dias que fugi sem saber pra onde e que estava totalmente perdida em terras estranhas.

— Floresta de Sherwood, perto do Condado de Nottigham, em terras Germânicas, pra ser mais exato. E de onde a senhorita veio?

— Feudo de Castella, terras ibéricas ao norte da península.

— Já estive pelas redondezas de lá uma vez, terras calientesé o que dizem as bocas por ai – falou Robbin, com um sorriso travesso brincando nos lábios.

— Era um lugar agradável sem levar em conta algumas coisas, mas o que você faz da vida? Além de capturar garotas com armadilhas e depois leva-las para seu lar, é claro.

— Sou um ladino, gosto de pegar coisas de meu interesse ou que ajude outras pessoas, um mero colecionador como você pode ver – e fez um gesto mostrando suas quinquilharias.

— Então você quer dizer que é um ladrão? Deveria eu estar com medo de frequentar a casa de um malfeitor? – para minha surpresa, minha garrafa já tinha acabado e eu estava levemente alterada.

— Assim Vossa Senhoria me ofende, não são todos que podem nascer em berço de ouro como certas madames perdidas por ai...

— Como ousas falar de mim sem ao menos conhecer-me? – gritei,abruptamente, com a cerveja fazendo meu sangue ferver. – Não sabes absolutamente nada sobre minha vida e age como se eu tivesse vivido uma vida maravilhosa. Pois então, como punição, vou lhe contar o que se sucedeu até eu ter a infelicidade de lhe encontrar.

E assim eu contei tudo aos berros, porque estava furiosa. Furiosa com esse energúmeno que estava na minha frente, furiosa com a vagabunda da Gothel vulgo minha madrasta, furiosa com o Rei de merda Santiago, furiosa com a vida e principalmente furiosa porque não pude ajudar os que eu amei. Talvez a bebida tenha ajudado um pouco com essa minha reação, mas isso são meros detalhes.

— Vai com calma, princesinha.

— Calma? Eu estou calmíssima, pois não notas? E não me chame de princesinha! – e com isso atirei minha garrafa já vazia em sua direção, ele desviou o corpo de forma displicente.

— Já vi que queres descontar em alguma coisa, quer me bater? Pode vir, só cuidado para não despentear o cabelo, Vossa Excelência.

Era nítido que ele estava me provocando, mas eu queria mostrar que eu não era uma garotinha qualquer e aproveitaria para dar-lhe uma surra inesquecível.

Antes que ele pudesse esperar algum movimento recuei meio passo e, com a mão cerrada em punho, alavanquei todo meu peso em direção ao nariz dele. Senti seusangue quente jorrar pelo meu punho. Aproveitei sua distração com a dor e impulsionei meu joelho de forma certeira em seu estômago fazendo Robbin arquejar sem ar, antes de conseguir que minha perna voltasse a tempo ele a pega e com um rápido movimento me faz perder o equilíbrio. Ele me imobiliza no chão.

— E agora, parece que não és mais tão valentona assim não é? — falou ele.

— Falas demais, acho que está na hora de alguém aprender a calar a boca.

Todos os homens tem seu ponto fraco, enfim dei-lhe um chute nos culhões e coloquei toda a minha força na outra perna e nos quadris para poder girá-lo e ficar por cima. Seu punho foi de encontro a minha boca antes que eu pudesse segurar suas mãos, senti escorrer um fio quente no canto de meus lábios com um leve gosto de ferro, sorri e minha têmpora foi de encontro a sua maçã do rosto abrindo um pequeno corte na região.

Robbin já não mostrava qualquer tipo de resistência, então resolvi mostrar misericórdia, me sentei a seu lado e lhe estendi minha mão como um sinal de trégua e, em um primeiro momento, ele parece aceitar com um sorriso.

Não tínhamos noção do barulho que estávamos fazendo, pois Milo, lá de fora, captou uma movimentação estranha na toca e resolver checar para ver se eu não corria perigo. Milo teve dificuldade para passar pela entrada, com suas patas pesadas me separou de Robbin e se posicionou de forma defensiva entre nós dois. Afaguei sua pelagem para mostrar que estava tudo bem.

— Acho que depois dessa deveríamos dormir – comentei rindo. – Vamos limpar os ferimentos e descansar.

Depois de limpar e cuidar do corte que tinha em meu lábio inferior, joguei-me contra as almofadas ainda com a roupa de baixo e adormeci ali mesmo, sem sonhos e sem perturbações, pela primeira vez em tanto tempo consegui ter uma noite de paz.

Acordei com sons de passarinhos já cantando em uma doce melodia, anunciando que o sol já estava ao alto com todo seu esplendor. Vasculhando a toca em busca de algo para vestir e comer, achei uma túnica verde perdida, cortei a barra de forma que não ficasse enorme em mim e se ajustasse ao meu corpo, cortei uma das calças justas e pretas jogadas ali para que ficassem do meu tamanho também e continuei com minha bota de couro.

Robbin não estava em nenhum lugar que eu pudesse ver.

Depois de saborear uma deliciosa maçã doce, peguei um arco, uma aljava e um alvo e fui treinar lá fora. O ar estava propício para atirar, sem muito vento, de forma que eu coloco o alvo pendurado em uma árvore resistente o bastante.

Posicionei-me com os dois pés afastados paralelamente um ao outro, posição ereta, com o braço estendido e cotovelo esquerdo levemente inclinado para fora, enquanto a mão direita posicionava a flecha em um ângulo de noventa graus em relação ao arco. Miro no centro do alvo e puxo a corda do arco até a minha maçã do rosto. Prestando atenção a tudo ao meu redor, solto a flecha que com sua velocidade surpreendente, porém não com muita precisão acaba acertando acima do que eu tinha intenção.

Escuto um leve farfalhar de folhas logo atrás de mim de modo que viro já em posição para atirar com uma nova flecha em mãos, e aponto para quem quer que fosse que estivesse me atrapalhando.

— Bela tentativa — falou,Robbin ironicamente.

Cruzei os braços emburrada, eu havia aprendido a atirar sozinha, só que fazia milênios que não praticava, então eu estava sem prática e enferrujada.

— Faremos o seguinte, eu te treino com o arco e a senhorita me ensina atirar facas e a usar uma espada, o que me diz?

— Aceito, mas depois vamos descansar, ainda estou com uma enxaqueca horrível. – respondi.

— Foi a bebida, daqui a pouco passa.

— É mais forte que isso. É algo bem profundo que vem de dentro da minha cabeça e não sei o que pode haver de ser, é como se mil dragões estivessem dançando em cima do meu cérebro.

— Então vamos tentar fazer coisas para distrair você, se não funcionar posso tentar procurar nas minhas coisas algo que venha a ser útil.

Ele voltou para o interior da toca e saiu com um arco e uma aljava na mão, parou para se posicionar e atirou daquela distância mesmo, sem quase nem parar para pensar ou analisar o ambiente. A flecha perfurou profundamente o centro do alvo.

— É assim que se faz, aprenda com o mestre aqui. Nunca hesite antes de atirar uma flecha ou ela irá perder a estabilidade e não vai chegar ao seu alvo com tanta precisão. Deixe a coluna reta e nunca encurvada, o arco levemente inclinado para a direita para a flecha não escapar do arco antes de ser solta e pés paralelos e em direção retilínea ao seu alvo.

Segui todas as instruções e, já na primeira tentativa fui um pouco melhor, a flecha estava mais estável. Robbin continuava me encorajando e apenas na quarta tentativa fui capaz de acertar o centro. Senti uma leve tontura, mas resolvi ignorar e continuar o treino, atirei mais algumas dúzias de flechas, que ocasionalmente se perderam na floresta, e depois fui ensinar a atirar facas.

— Facas são mais simples e é o mesmo princípio – fui explicando, enquanto tirava as flechas do alvo e me afastava dele. – Posição ereta e a perna esquerda na frente levemente dobrada. Quando for atirar não pode levar o tronco junto ao movimento, só o braço que faz o arremesso transferindo a força para faca e assim não atrapalha a trajetória indo diretamente ao alvo, assim... – atirei uma faca, que foi exatamente no centro, para demonstrar como que se fazia.

Robbin arremessou até conseguir chegar próximo ao centro do alvo, ou seja, incontáveis tentativas. Ainda faltava a espada, rapidamente passei as lições mais simples que eram espetar com a ponta, não sentir medo e nunca abaixar a guarda sem se garantir e alguns golpes extras. Eu já estava exausta e não via a hora de voltar para a toca.

— Minha cabeça está explodindo. – reclamei.

— Tente meditar um pouco, faz bem para a mente. Você só tem o trabalho de relaxar.

Entramos, eu sentei de pernas cruzadas no chão, que tinha uma temperatura fria porém agradável, e fiquei tentando relaxar, o que parecia uma eternidade até que eu não aguentei mais.

— Cansei, meditar é muito maçante, tenho mais o que fazer do que ficar sentada pensando na morte da bezerra.

— Mas não se passaram nem dois minutos, mulher – disse ele.

— Preciso de algo mais efetivo, deixa de ser inútil e tenta procurar algo nessa toca para me ajudar, deve ter alguma coisa por ai.

Comecei a vasculhar tudo, coisinha por coisinha, verifiquei todos os frascos de uma prateleira. Todos tinham temperos inúteis. Fui folhear livros e nada, até que achei um livro de capa prateada com escrita resbruscada. Eu não entendia a língua que estava escrita, algo fora do comum. Porém, em uma das páginas, via-se o que parecia um mapa, indicando o caminho para um lugar importante, uma espécie de vila. Minha intuição dizia que parada eu não deveria ficar, e que talvez lá deveria ser o meu destino.

— Robbin, já sei o que irei fazer e você vai me ajudar. Achei esse livro aqui que está escrito em uma língua estranha que nunca vi, e tem esse mapa aqui que me parece esconder algo interessante. Eu decidi que quero chegar até lá.

— Estou vendo que vais me meter em encrenca – falou Robbin, revirando os olhos diante minha obstinação. – Mas estou no tédio então eu topo.

Arrumamos umas trouxas com coisas essenciais como armas, frutas, odres de água, roupas extras e fomos atrás de uma aventura. Montei em Milo e Robbin conseguiu um cavalo sabe-se lá de onde (eu suspeito que tenha roubado) e mergulhamos de encontro ao desconhecido.

Notas finais
A autora mandou beijos na testa dos leitores que leram até o final