Os Dezessete
10 Capítulo X - Hael
Notas iniciais
Parei de correr para tomar fôlego. Olhei para as minhas mãos. De onde viera tanto sangue mesmo? Aquele ganso maldito! Senti passos se aproximando. Voltei a correr. Parei. Dando alguns passos para trás, pude ver uma árvore perfeita. Aquela droga de mochila que eu carregava se enroscava nos galhos, o que me atrasava. Escalei a árvore para me acomodar em um galho no alto. Estava bem escuro. Demoraria algumas horas ainda para começar a clarear. Minha respiração estava ofegante. Meu coração martelava meu peito. Minha garganta estava seca, arranhando, mas não ousei tocar na porcaria daquele vinho. Keneh me devia essa, aquele inútil. Esperei um tempo (muito tempo, na minha opinião), mas ainda estava escuro. Desci da árvore, todos os sentidos em prontidão. Não ouvi passos que não fossem meus nem respiração que não a minha. Voltei a correr como uma mula condenada.
***
Keneh estava pior que eu, mas pelo menos ele chegara pontualmente.
– O que você fez? – gritei ao vê-lo mancando e cheio de sangue, senti meu rosto pegar fogo de raiva. – Seu idiota! Agora qual sua próxima ideia, esperar para morrer ou mancar em direção à morte? Seu imbecil! Agora resolva essa droga que você começou!
Jogando a bolsa para Keneh, saí bufando em direção ao riacho, cansada demais para correr ou resmungar. Acabei me deitando na beira do riacho e adormecendo. Quando acordei o Sol ainda não havia passado do meio-dia. Limpei-me, tirando o sangue seco com a água gelada e, finalmente, matei a sede. Voltei para o “acampamento”. Minha bolsa estava exatamente no lugar de antes e Keneh estava deitado na sombra de uma árvore.
– Seu imbe... – Comecei a xingá-lo, mas parei ao ver seu estado. O cabelo de Keneh estava encharcado de suor, grudando no rosto, seus lábios, contraídos e pálidos, suas mãos tremiam e pior, sua perna direita tinha um corte longo e profundo.
– Talvez eu seja meio idiota mesmo... – Keneh fala ao me ver.
– Idiota é você acreditar nas coisas que falo.
Foi trabalhoso e demorado, mas no final do dia ele estava limpo e com uma faixa com unguentos improvisadamente enrolada na perna. Tudo o que tínhamos conseguido durante a noite passada estava reunido e organizado. Comíamos peixe com gosto de nada.
– Keneh, você ainda não me explicou para que usaremos todas essas tralhas que pegamos.
– Era, digo, será uma grande invenção, todos os mais ricos e nobres senhores feudais vão querer e não passaríamos por isso...
***
Dois dias se passaram. Keneh não podia estra pior. Tremia, estava sempre febril, mal comia e, se não estava dormindo, ficava rabiscando na droga dos papéis. Foi na noite do terceiro dia depois do corte. Já tínhamos comido e eu estava trocando a faixa da perna dele. Sua pele estava quente como brasa e ele estava mais sonolento que nunca.
– Seu bocó, fique acordado – fiz uma pausa. – Ei! Keneh, concentre-se em baixar a febre.
Foi então que a tosse começou. Ele vomitou. A mistura de vômito e sangue me enjoou, mas estava preocupada demais para prestar muita atenção nisso.
– Keneh... – Eu simplesmente não sabia o que fazer.
– Estou bem. Pegue logo aquela droga de vinho. — Ele resmungou ainda meio ofegante.
Dei um gole. Era meio adocicado, mas não demais. Keneh fez o mesmo. A tosse não parou.
– Perdão, Hael. – Ele disse com dificuldade.
– Que droga, Keneh! Não me venha com essa! Está tudo bem, já vai passar. – minha voz saiu estridente, comecei a ficar desesperada.
– Juro, pelas Nossas Estrelas, eu nunca vou te aban... – mais uma crise de tosse.
– Seu idiota, cale a boca! Você não vai morrer! Muito menos falando essa droga de frase de história de criança.
Mais tosse. Mais sangue.
– Você é um idiota mesmo. – falei servindo água. – Tente água pura.
– Hael... – ele sussurrou depois de engolir a água.
Não tive tempo nem de responder. O garoto se foi. Aquele abobalhado maluco e sonhador. O maldito garoto mais velho, a droga do irmão mais velho. Pelo menos as drogas de últimas palavras não foram aquela babaquice. Foi o meu nome. A maldita da primeira e última palavra que ele me falou. Revirei os olhos.
–Você é uma idiota também! – falo para mim mesma. -Se tivesse sido mais inteligente, não teria deixado Keneh fazer aquilo. Teria feito ele desistir. Mas que tipo de amiga eu seria se fizesse isso? Que tipo de pessoa? Aí sim teria sido idiota. Melhor morrer lutando pelo que acredita do que fugindo pelo que duvida. Porém seria mesmo essa a hora para ele morrer? Que droga! Agora, além de estar sozinha de novo, tenho que resolver a porcaria que sobrou de Keneh. — toquei sua pele, ainda estava quente...
Enterrar estava fora de questão. Nunca dormiria em paz pensando no corpo de Keneh apodrecendo nas profundezas da terra. A única solução era trabalhosa demais.
– A droga da noite passada também era trabalho demais, não por isso Keneh deixou de fazer... — Reviro os olhos. — Daqui a pouco vou seguir com a porcaria da sua invenção.
Como eu previa, foi trabalhoso, só não tanto como eu imaginava. Ter algo para fazer não me dava espaço para pensar, para lamentar. A sensação era como se ele tivesse me pedido para fazer aquilo enquanto ele estava fora, daqui a pouco ele voltaria. A parte difícil com certeza foi de colocá-lo no meio. Eu não poderia montar uma droga de fogueira em volta dele, ele estava perto demais daquela árvore inútil. E pior: antes disso, precisei pegar tudo o que tinha nos seus bolsos. Um livreto com cheiro de ovelha, uma moeda desconhecida. Eu sabia que era isso o que ele queria que eu fizesse.
– Depois de morto, qual a diferença? Por mim não importa se me cobrirem de ouro ou se me cobrirem de terra. O importante é com o que cobrirão aqueles que deixei para trás. – ele dissera.
Era um dia ensolarado, descontraído. Falávamos de morte como se fala de comida, lembro-me que chegamos à conclusão de que ambos os assuntos estão profundamente ligados... Seus colares eram legais. Um anel de pedra negra, uma pena, uma concha, uma chave e um potinho esquisito com um líquido mais esquisito ainda.
– Hael, não o culpe. Todos nós somos meio esquisitos... Bem, pelo menos depois que morremos.
Com tudo pronto, vê-lo pegando fogo me queimou por dentro.
– Que raiva! A culpa era minha! Dele! De todo mundo! Todos iriam apodrecer um dia! Qual o problema de pelo menos alguém nos ajudar?! – esbravejei.
E, conforme as chamas subiam rumo ao céu em crepúsculo, mais eu sentia a raiva, a frustração crescer dentro de mim. Corri em volta da fogueira. Chutei pedras, soquei árvores, gritei o máximo que minha voz pode. Tive vontade me jogar no fogo, que era belo e quente, assim como fora Keneh. Porém, algo me impediu. Algo de dentro e de fora de mim, algo que mostrava que assim eu seria pior do que quem não nos ajudou. Desistir é pior. Desistir é sempre pior.
Dormir era um pesadelo. Literalmente. De olhos abertos ou fechados, eu via Keneh. Morto ou vivo, saudável ou ferido. Não importava. Ele estava por tudo. Menos com as costas nas minhas. As minhas estavam frias e vulneráveis. Foi a noite mais longa da minha vida. E eu já tive noites longas, bem longas. Mas, como toda noite, uma hora o dia chega. O céu estava nublado e o ar cheio de névoa.
Olhei para fogueira. O que restava não era mais Keneh. Eu me senti completamente sozinha. Simples assim. Eu não tinha mais ninguém. Nenhuma companhia. Nem para viver, nem para conversar. Nem mesmo para me olhar nos olhos. Eu estava sozinha mais uma vez. Recolhi tudo de importante que tínhamos. Olhei na direção onde o sol se punha. Eu estava realmente sozinha. E dessa vez, não tinha esperança.
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