Os Dezessete
6 Capítulo VI - Ana Nicole Alicia Ravel
Notas iniciais
O sol entrava por alguma janela. Eu não sabia identificar de onde vinha essa insuportável claridade, mas queria que alguém apagasse a luz do mundo e apenas me deixassem dormir. Quase conseguia ouvir a voz de de minha mãe cantarolando no corredor. Ouvi os cochichos de Srta Montez, minha governanta (que é quase uma mãe para mim), vindo apressada me acordar e...
– ALICIA!! ACORDE!! Venha Logo!! Chegamos em Malahide!!
Abri os olhos e o que encontrei nada tinha do castelo que até um ano atrás eu morava, ao invés do luxo (como tapeçarias e uma cama dossel), encontrei minha nova morada: uma carroça saltimbanco, chocalhando com os cavalos, colchão de palha e Zilka, minha irmãzinha de consideração, gritando para me acordar. Meus pais e Srta Montez não estavam mais ali, eu não poderia saber nem mesmo se eles estavam bem, ou enviar notícias. Ou seria queimada viva, por bruxaria, que eu nem mesmo sabia explicar ou de onde vinha. Se bem que, até hoje, eu pouco sei sobre mim mesma.
Bem vindo a minha vida. Me chamo Ana Nicole Alicia Ravel (ou eu acho que me chamo). Costumava ser conhecida como “condessa de Landsfeld”, mas muitas vezes parece que isso foi em outra vida.
Há exatamente um ano, em um dia nublado e cinza (muito parecido com esse), num feudo muito distante conhecido como França, meu mundo mudou de uma hora para outra e todas as verdades da minha vida se inverteram. Em apenas um dia descobri que minha família não era o que eu esperava e minha casa não é o que costumam definir como um doce lar. Meio complicado? Deixa eu contar a minha história, no fim você vai preferir esse resumo.Mas tenho que começar essa história bem do início, se não até eu me complico.
Cresci num castelo muito grande e luxuoso. Eu odiava ficar dentro dele, me sentia presa e sozinha, como um bicho enjaulado. Não existiam crianças no castelo, além de mim. Brinquedos me entediavam muito facilmente e os quadros e esculturas eram caros demais para me deixarem brincar com algo que poderia arruiná-los. Perto dele existia uma vila, não tão grande, mas todos os moradores me conheciam, provavelmente por que trabalhavam para o meu pai. Eu gostava de andar por ali, observar o movimento, sentir a energia das pessoas apesar de nunca falar com as pessoas, interações me deixam aflita, acho que usam o termo tímida para descrever pessoas assim.
Meu pai odiava que eu visitasse a vila, mas eu ia mesmo assim. Bem, agora só posso chamá-lo de Duque de, mas eu já chego nessa parte. Ele era um homem muito bom, mas bastante exigente, nunca perdoou nem um tipo traição, por menor que fosse, mas não deixava ninguém passar fome na vila. Já minha mãe, ou Duquesa de Landsfeld. Tem coração de ouro, sempre ajuda a todos, às vezes mais do que pode, principalmente as crianças. Ama muito seu marido, e tenho certeza que me amava muito também. Mas quem realmente me criou foi minha governanta e tutora, Srta. Montez (que já era senhora avó desde que me lembro), pois minha mãe era bastante avoada e ocupada: muitos jantares, viagens e chás.
Como eu não gostava do castelo, todo dia gostava de fugir para floresta, ler embaixo de árvores, e descobrir novas plantas e animais. Eu amava ficar sozinha, me sentir ligada a natureza, sem precisar agir com modos muito certinhos ou me vestir com luxuosos vestidos. Ali era um bom espaço para cantar também, e eu amava cantar. Gostava também de tocar violino, mas nunca fui boa com instrumentos. Na verdade, nunca fui boa com nada artístico. Tentei pintar, tocar todos os tipos de instrumentos musicais, dançar. Não obtive sucesso, algo que sempre me frustrou muito. Quando vi que artes não era exatamente algo que eu era boa comecei a me aventurar em outras áreas, como o esporte, tentei arco e flecha, cavalo, caça, mas, novamente, não me encaixei em nada, sempre muito estabanada, várias vezes me machuquei e fiquei frustrada outra vez. Me encontrei de verdade quando comecei a ter aulas, me encontrei entre livros e histórias, conhecimentos que iam muito além do limite do condado. Mal imaginava eu o quanto ainda tinha a aprender por fora, e o tanto de vida que existia longe daquele castelo.
Srta Montez sempre me encorajava a tentar coisas novas, descobrir novos jeitos e me ajudava a fugir daquela horrível prisão, que muitos chamam de castelo. Ela também me fazia companhia, nos momento que minha mãe desaparecia em algum evento importante da família real. Eu a amo muito, como uma mãe de verdade ,é de quem mais sinto falta. Srta Montez também me levava para brincar no riacho nos arredores do castelo, e foi lá, e com ela, que um episódio que daria muitas pistas do meu destino, um dia, aconteceu:
Foi com mais ou menos uns 10 anos. Estava eu brincando na beira do lago, quando comecei a achá-lo um tanto chato, e, como se agisse a minha vontade, ele começou a ondular e parecer muito com os oceanos dos quais tanto ouvi falar, mas nunca conhecera. Chocada chamei Srta Montez, que estava na beira do lago, provavelmente costurando:
– Srta Montez!! Srta Montez!! Olhe o que eu consigo fazer. O lago parece o oceano dos livros que a senhora sempre me mostra!
Fiquei encarando o lago por vários minutos, tão deslumbrada com aquele momento que não percebi o quanto aquilo era diferente. Foi só no momento que olhei para ela novamente, e vi seu rosto branco feito papel, pálido como a face da morte, que percebi o quanto aquilo não parecia natural.
– Menina, deixe disso, pare com isso já!! Não quero vê-la repetir isso nunca mais! Está me ouvindo? — Disse ela, me puxando a caminho do castelo, novamente — E me prometa que vai manter isso como segredo!
– Eu… eu prometo.
Se hoje você me perguntar o por que prometi aquilo, não saberei dizer, mas a expressão de pavor no seu rosto, naquele momento, foi o suficiente para me fazer guardar esse segredo por tantos anos. Mesmo sabendo, e sentindo, o quão forte eu ficava perto das águas.
O problema foi que eu tenho espírito livre e não consegui me aquietar com essa história. Queria saber o que era aquilo. Por que eu conseguia fazer aquilo e o mais importante: O por que tanto segredo.Virei a biblioteca inteira atrás de informações. Literatura, ciências, enciclopédias, qualquer coisa que fizesse a menor menção a alguém que consegue controlar a água, mas nunca encontrei nada. Quero dizer, achei livros de literatura, uma história para crianças dormirem.Até o dia que decidi invadir o escritório do Conde, um bonito escritório, mas que eu era proibida de entrar. Nunca liguei muito para ele, mas na primeira vez que entrei ali e vi todos aqueles livros, fiquei fascinada, mas o medo de entrar sempre foi maior. Mas ali dentro, eu sabia que encontraria todas as respostas que precisava. Dito e feito. Faltando um mês para o meu aniversário de 16 anos, tomei coragem e entrei no escritório e procurei entre os livros, achei vários livros antigos e gastos. No meio de um livro sobre seres fantásticos e histórias antigas, achei o que procurava. O problema é que aquilo me assustou mais do que deveria: Quem tinha o mesmo poder que eu eram bruxas. todo mundo sabe que bruxas são perigosas, pelo menos era o que eu tinha escutado minha vida toda, e soube na hora por que do medo da Srta Montez.
Mas não tive muito tempo pra pensar nisso, escutei conversas atrás da porta. Reconheci a voz de meu pai, e corri para me esconder nas enormes cortinas no canto da sala. Eu estaria muito encrencada se fosse pega ali. Meu pai e seus conselheiros entraram na sala e pelo barulho das cadeiras sendo arrastadas, e o silencio das bocas, eu soube que o assunto era sério. Apurei os ouvidos, sabe-se lá quanto tempo eu ficaria por ali. O problema é que, o que escutei não me deixou nada animada: Estavam tratando do meu casamento.
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