Os Dezessete

3 Capítulo III - Lif Musspell


Notas iniciais
Capítulo escrito por Beatrice Werneck, revisado por Gabriel Dacoregio de Souza.

Desde bebê, fui considerada a menina mais admirável em Bifrost. Inicialmente, era apenas minha beleza que encantava os moradores – meus cabelos tinham um tom raro de loiro acobreado e meus olhos atingiam um tom de verde comparável ao das folhas na primaveira. Conforme fui crescendo, algumas habilidades foram sendo adquiridas: ganhei meu próprio arco aos 4 anos, com a mesma idade já guiava sozinha uma égua chamada Gna e no ano seguinte me ensinaram a lutar com armas laminadas.

Quando pequena, sempre ouvia meus pais contarem a história de seu casamento, o mais belo de nossa aldeia. Nunca me cansava dela, menos ainda quando era contada pela melodiosa voz de minha mãe, apesar de que tudo soasse um pouco mais aventureiro com a grave voz de meu pai, o líder de nosso povo. E esse era apenas um dos relatos de suas mais maravilhosas e diversas aventuras.

Certa vez, um pouco antes da lua surgir no céu, papai me contou uma de suas experiências mais assombrosas, a descoberta de uma população que nenhum jovem na aldeia imaginava existir.

“Estávamos no meio de uma guerra, aconteceu umas 3 primaveras antes de seu nascimento, Hermodr havia derrotado Kvasir (a última de nossas aldeias aliadas). Nosso líder temia a derrota, nosso povo temia a morte e nossos deuses temiam por seus templos. O fracasso se aproximava, a desgraça era iminente, porém algo aconteceu. Alguns meses se passaram e as forças do inimigo não chegavam, achamos que talvez eles tivessem desistido da disputa, mas não podíamos arriscar baixar a guarda. Fui escolhido e encarregado de descobrir o que acontecera, mas nunca cheguei a encontrar os Hermodrianos, pelo menos não com vida. O que encontrei foi um banho de sangue e alguns humanos com roupas esquisitas e objetos que eu nunca tinha visto antes na vida. Segui-os, precisava saber se eles seriam uma ameaça, mas demonstraram ser muito controlados. Suas trilhas acabaram em muros de pedras mais altos que três de nossos maiores homens e mais largos que dez de nossas aldeias. Aquilo me deixou pasmo, voltei correndo para Bifrost mas ninguém acreditou em mim quanto à grandeza das instalações de nossos “salvadores”. Por fim, a população recebeu tudo como uma boa notícia e eu fui condecorado líder, não apenas por trazê-la, mas também por causa da morte de meu pai enquanto eu estive fora.”

Os tais sujeitos nunca nos incomodaram e por muito tempo achei que essa história fosse apenas um conto, algo que meu pai inventara para que eu não corresse tão longe com Gna.

Entretanto, em algum raiar do sol, no verão seguinte ao meu aniversário de oito anos, cerca de uma dúzia daqueles seres chegaram. Os reconheci das histórias de meu pai assim que os vi, seus trajes eram realmente estranhos e os objetos que carregavam eram diferentes de tudo que já tinha visto antes, as lâminas eram muito maiores do que aquelas com que eu estava acostumada. Admito que eu deveria sentir medo por tudo que tinha ouvido sobre eles, mas tinha apenas curiosidade.

Eles pediram para falar com nosso líder, primeiro o chamaram de rei (palavra estranha essa, não?), mas logo perceberam que nós não tínhamos entendido. Depois de toda a recepção, eles foram levados até minha casa e passaram a tarde conversando com papai, já eu fui convidada a me retirar até o horário do jantar.

Corri como nunca com Gna, visitamos alguns campos que ainda não conhecíamos e eu quase perdi a hora, mas quando o sol começou a baixar, voltamos ainda mais rápido do que havíamos ido. Chegamos na aldeia ao mesmo tempo em que a lua começava a surgir no céu, apenas os Deuses sabem como fiquei aliviada, meu pai era bem rígido quanto ao horário.

O banquete já estava pronto: carne de javali regado ao molho de frutas silvestres, uma das especialidades de minha mãe e também minha comida preferida. Meu pai e os homens sentaram na mesa um pouco depois de mim, pareciam todos contentes, meu pai sorria de orelha a orelha, já os outros eram um pouco mais contidos com seus sorrisos.

No meio da refeição, meu pai abriu seu presente: uma garrafa de alguma bebida realmente cheirosa. Ele serviu aquilo em todos os copos da mesa, mas quando foi servir o meu, o avisaram que aquilo não era bebida para crianças. No momento eu me irritei, como aqueles senhores entravam em nossa casa e sentiam-se seguros em mandar o que eu devia ou não beber? E pior, como meu pai era capaz de respeitar isso? Me retirei para meu quarto, já tinha comido tudo o que queria e mamãe poderia fazer esse prato para mim de novo no dia seguinte.

Ah, como eu estava errada. Minha mãe nunca chegou a fazer aquele prato novamente, porque assim que eu acordei, achei seu corpo e o de meu pai jogados ao chão da sala. Seus copos estavam quase vazios, contudo, todos os outros copos estavam intocados. Aqueles malditos senhores deviam ter colocado algum veneno e escaparam durante a noite.

Peguei Gna e fomos para a floresta, alguns aldeões nos seguiram até uma parte do caminho, mas logo ficaram para trás. Ficamos no meio do mato até o anoitecer, eu nunca tinha visto a lua nascer dali, naquele ponto onde sua luz atravessava a mata e tornava tudo um pouco mais pálido e bonito. Vai ver era por isso que meu pai não me deixava ficar até essa hora do lado de fora, vai ver ele tinha medo de que eu me apaixonasse por essa visão e o abandonasse para que pudesse vê-la sempre. Nesse momento eu fiz minha escolha, voltei até a aldeia, peguei o antigo arco de papai, a adaga de mamãe e deixei Gna (isso me causava uma dor sem tamanho, mas ela estaria melhor cuidada lá).

Fui para a floresta mais uma vez, era impressionante a diferença de velocidade entre minha corrida e a de Gna, mas no fim, consegui chegar muito mais longe do que a gente já havia chegado alguma vez.

9 anos depois

Alguns anos se passaram, fazia quase uma década que meus pais tinham sido assassinados, fazia quase uma década que eu não via qualquer ser humano, fazia quase uma década em que eu não ouvia algo além dos sons da natureza. Assim que vim morar aqui comecei a respeitar os animais, não comia carne há muito tempo. Minha moradia era acima das árvores e fiz amizade com alguns animais (um deles se tornou meu melhor amigo: uma raposa branca).

Como não estava acostumada com barulhos tão diversificados, assim que ouvi aquele som percebi que hava algo de errado. Era algo parecido com o estalar de galhos, porém constante e mais agudo. Comecei a seguir o som para ver onde acabaria, mas não cheguei a descobrir. Algo atingiu minha cabeça e perdi a consciência por algumas horas.

Quando recobrei os sentidos, não reconheci onde estava. O chão era frio e úmido, nada parecido com as folhas secas que cobriam o chão da floresta, abri os olhos e me deparei cercada por paredes de pedra, olhei para cima e percebi que o céu não podia ser visto, eu estava sob algum teto. Não fazia ideia de onde estava, nem quando morava na aldeia eu tinha visto algo do tipo, mas não estava totalmente escuro, do outro lado daquela sala alguma coisa emanava luz. Me recusei a chagar perto, podia ser perigoso.

De repente ouço barulho de passos... Nossa, os humanos realmente conseguiam ser indiscretos se comparados aos animais. Os passos começam a ficar cada vez mais altos, sinal de que, quem quer que fosse seu dono, estava se aproximando. Finjo que anda estou desacordada, em algumas situações isso me salvara na floresta, espero que funcione por aqui também.

Notas finais
Lembrando que os personagens vão sendo apresentados capítulo a capítulo, inicialmente parecendo desvinculados, mas eventualmente serão conectados.