Os Deveres De Um Assassino
4 Capítulo 4
Já era tarde da noite. Estava sentado na minha cama, pensativo. Em uma das minhas mãos, tinha o documento sobre as informações da minha mãe. No outro, tinha uma foto dela.
Pequenas lembranças da minha infância apareceram na minha mente enquanto eu olhava para sua foto em um porta retrato antigo, que eu deixava em um local escondido no guarda-roupa.
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— Ron, venha logo. O jantar está esfriando. – minha mãe abre a porta do meu quarto e me chama.
— Estou indo mãe, só me deixe terminar esta fase. – digo sem olhar para ela, me concentrando no vídeo-game.
— Você pode pausar o vídeo-game, mas não sua fome. Venha logo que já está tarde e você tem escola amanha cedo.
Com relutância, dou pause no jogo e sigo minha mãe em direção a cozinha. Ela tinha preparado arroz, feijão, carne e legumes. Era um jantar simples, porém eu achava delicioso.
Sentamos na mesa e comemos em silêncio. Fazia cerca de dois meses que meu pai tinha morrido, portanto ainda estava um clima tenso em casa. Eu respeitava sua dor, e ela a minha. Ele tinha ido sair no final de semana para ir pescar com os amigos, e então inventou de ir embora para casa ainda bêbado.
O resultado foi inevitável. Ele bateu de frente com um caminhão, morreu na hora. Não deu nem para reconhecer o rosto, apenas sabiam que era ele pela placa do carro e oque deu para ler da identidade que estava na carteira no bolso de sua calça.
Após termos terminado, ajudei a minha mãe com as louças. Precisei do auxílio de um banquinho para poder alcançar a pia. Ela lavava os pratos, e eu em seguida os enxugava e guardava no armário.
— Mãe, me responde uma pergunta? – disse após alguns minutos de silêncio.
— Acabei de fazer isso. – ela disse com um sorriso no rosto.
— Você entendeu. – disse, devolvendo seu sorriso. – Para onde as pessoas vão quando morrem?
Essa pergunta pegou ela de surpresa. Ela estava lavando um dos pratos, e hesitou por alguns segundos. Virou para me encarar, e eu via que estava lutando para que as lágrimas não escorressem pela sua bochecha.
— Espero que seja um lugar bom. – ela disse. – Espero mesmo.
Resolvi não tocar mais no assunto. Quando finalmente acabamos, desci do banquinho e dei uma longa despreguiçada, seguida por um bocejo longo. Estava cansado. Acenei um sinal de tchau para minha mãe e fui dirigindo até o meu quarto.
Após ter vestido meu pijama, deitei na cama. Fiquei longos minutos olhando para o teto, com a luz do abajur ainda ligada. Sentia falta do meu pai. De suas brincadeiras. De seus conselhos.
Meus olhos se encheram de lágrimas, e eu as enxuguei com a palma da mão. Balancei a cabeça para afastar os pensamentos, e desliguei o abajur. Demorei vários minutos para adormecer. Quando minhas pálpebras ficavam cada vez mais pesadas, imagens do rosto do meu pai ficavam cada vez mais nítidas em meu pensamento.
— Eu te amo, pai. – falei baixinho para mim mesmo.
E eu, por algum motivo, sabia que ele podia ouvir.
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Meu telefone toca, me tirando dos meus pensamentos. Dou um pulo na cama de susto, quase derrubando o porta retrato. Coloco os objetos em minha mão em cima da cama e tiro meu celular do bolso.
— Tenho um serviço para você.
— Serviço? Desculpe senhor, mas eu já tenho emprego.
— Ron, precisamos de sua resposta. Irá fazer o contrato ou não? – era o próprio professor em pessoa falando.
Pensei por vários segundos antes de responder. Olhei para o retrato de minha mãe que estava jogado em cima da cama, e por um momento, estava tentado a desistir de tudo.
Porém, ao mesmo tempo, lembro de todo o treinamento rigoroso que tive durante todos esses anos, desde que tinha saído de casa. Lembro da minha perfeição com armas de fogo que tinha alcançado através de muito treinamento.
E eu não queria jogar aquilo tudo fora.
— Sim. – respondi. Não hesitei, minha voz não falhou. Estava determinado a fazer isto.
— Você fez bem. Por um momento, pensei que ia desistir. – ele disse. E antes de eu ter chance de responder, ele desligou.
O arrependimento me atingiu logo após eu ter guardado o telefone no bolso. Eu não poderia matar a minha mãe, o ser responsável por ter me levado até esse mundo. Eu não podia ser tão ingrato desta maneira.
E acima de tudo, eu não poderia ser tão cruel assim. Matar pessoas desconhecidas é, na medida do possível, fácil. Matar a minha mãe já é uma história bem diferente.
Fiquei tentado a retornar a ligação do professor, porém me contive. Eu tinha uma semana para pensar. Esse era o prazo do contrato. E se até lá eu não tiver realizado ele, seria uma demonstração óbvia que eu tinha desistido de tudo.
Minha mente estava uma confusão. Uma parte de mim não iria ter coragem de matar minha própria mãe, porém outra parte não quer largar todos esses anos de treinamento, e jogar tudo no lixo.
A única questão é descobrir qual é a parte dominante dentro de mim.
E eu sentia que já sabia a resposta.
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— Você acha que ele realmente irá fazer este contrato? – pergunta Khalif após o professor ter desligado o telefone.
— Não. – sua expressão estava sombria. – E você sabe o procedimento caso isto aconteça.
— Sim. Eu sei. Não podemos correr o risco de sermos descobertos, portanto teremos de eliminá-lo. – Khalif disse, com um tom de nervosismo na voz.
— Se isto acontecer, eu mesmo farei. – o professor fala. – Ele é um dos melhores alunos que já tive, e ele terá a honra de morrer em minhas mãos.
— Espero que isto não seja necessário.
— Já aconteceu isso antes, e temos que estar preparados caso aconteça de novo. – o professor se levanta da cadeira aonde estava sentado.
Eles estavam em um quarto na fazenda. Tinha muita gente no subsolo esses dias, e acharam que era um local mais reservado ficar na própria casa que servia de fachada.
— Os outros não tiveram de matar sua própria mãe. Era no máximo um primo distante, ou um tio com o qual nunca conversaram.
— É exatamente por isso que me certifiquei que no caso específico de Ron, seja a mãe dele. Para ele se provar de uma vez por todas que é um dos melhores do ramo.
— Então você está dizendo que você quem encomendou a morte da mãe dele? – pergunta Khalif, confuso.
— Você está fazendo muitas perguntas. E se eu continuar respondendo-as, você terminará com ainda mais perguntas do que respostas. – ele interrompe Khalif. – Você é pago para fazer o seu serviço, e não perguntas.
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