Os Deuses da Mitologia
156 WILL - Um susto nas margens de Istambul
Notas iniciais

WILL
Os barulhos da luta do lado de fora entre Anúbis e o monstro de pedra, Ullikummi, continuavam. Nós quatro nos dividimos em cada janela, eu e Nico em uma, Sadie e Sam na outra, enquanto gritamos um para o outro alguma ideia de plano e o caos na cidade continuava.
— TEMOS QUE TENTAR TIRAR ELE DO MEIO DA CIDADE PELO MENOS! — gritou Sadie provavelmente tentando fazer Anúbis escutar também.
Acho que não precisava ela gritar, pois imagino que Anúbis estava com a mesma ideia. A forma luminosa gigante com cabeça de chacal dele só alcançava o peito de pedra do monstrengo gigante de pedra hitita, mas provavelmente quanto mais o centro de Istambul se aproximava, maior ficaria a concentração de pessoas, prédios e carros. Isso era um mau sinal. No momento ainda estávamos dando sorte que estávamos numa rodovia espaçosa, pois tinha espaço para o monstro correr, mas isso não tirava o impacto que era cada passo pesado que ele dava. Era como um terremoto.
Carros na rua já tinham parado de seguir, achando que era de fato um terremoto, e imagino que as rachaduras na pista não deixassem ninguém mais tranquilo também. Prédios tremiam, pessoas gritavam, sirenes começavam a soar… era o caos.
O jeito que Anúbis encontrou de atrasar o Ullikummi sem causar muitos danos e mortes devido ao pouco espaço foi uma espécie de briga de forças. Um cabo de guerra sem corda, por assim dizer. Tinham trocado uns golpes no começo, o Ullikummi tentou brigar com Anúbis algumas vezes, outras tentou se livrar dele e continuar o caminho atrás de nós. Mas naquela altura, estavam se empurrando pelas palmas das mãos, o que certamente não era muito vantajoso para Anúbis, que tinha menos altura que o Ullikummi. Os dois se empurravam, mas pela altura também significava que Anúbis tinha que empurrar para cima também além de pra frente e o Ullikummi para baixo, o que era muito mais fácil. As rachaduras embaixo dos pés luminosos de Anúbis já mostravam qual lado estava com vantagem naquela briga de força bruta.
— PARA ALI! — gritou Sam repentinamente.
— VIRANDO ALI! — completou Sadie, apontando para o lado de fora da janela.
— O que tem aí? — perguntei.
— Não tem prédio algum! — disse Sam apressadamente — Parece ser um campo vazio que vai dar no mar.
— E o cocheiro tá sequer entendendo vocês? — perguntou Nico apressadamente indo para a janela da frente, que dava logo de cara com o cocheiro.
Eu corri atrás de Nico. Nenhum dos dois sabendo francês, o cocheiro até agora não demonstrando saber nada além de francês. Nico colocou a cabeça pra fora sem rodeios e começou a gritar em italiano.
— Girarsi! in quel campo! verso il mare!
— El mar! El mar! — tentei no pouco espanhol que tinha adquirido na escola.
Continuamos apontando para a direção que Sadie e Sam apontavam, seja lá como era “mar” em francês, ele pegou a mensagem. Ele fez uma curva brusca, antes que perdesse a última oportunidade que poderíamos ter de fugir do caos da cidade grande. A carruagem sacudiu violentamente enquanto passávamos por cima dos obstáculos que separam a estrada da entrada do campo, e continuou tremendo de leve quando o asfalto virou o terreno irregular da natureza.
— ANÚBIS! — gritou Sadie, e me perguntei se ele ainda estava perto o suficiente para ouvir o grito dela em meio ao caos dos mortais achando que estavam passando por um terremoto — DEIXA ELE SEGUIR A GENTE PRA CÁ!
Logo provando que eu tinha subestimado as capacidades auditivas de Anúbis, ele soltou Ullikummi e rapidamente saiu da frente. Repentinamente sem o obstáculo sobre o qual fazia força em sua frente, o Ullikummi cambaleou para frente e quase caiu. As pessoas gritaram e o chão se quebrava com os passos pesados dele.
De toda forma, ele foi correndo atrás da gente apesar de alguns segundos de hesitação entre continuar a briga com Anúbis ou continuar a ir atrás da gente. Ou assim foi como eu interpretei os segundos tensos que ele ficou meio perdido, balançando a cabeça de um lado para o outro… Era difícil interpretá-lo, já que não tinha olhos nem sobrancelhas.
— Espero que vocês tenham pensado num plano além de uma zona de batalha. — falei.
— Não muito. — disse Sam.
— Eu posso ajudar! — gritou o Sharur na bolsa de Alex, mais pro fundo da nossa carruagem.
Ela foi correndo pegá-lo, acho que estava mais acostumada com seu machado, então o coitado estava se sentindo meio excluído agora, relegado a bagagem.
A carruagem parou de sacudir para todo lado quando o cocheiro finalmente parou. Nós saímos correndo da carruagem, e o Ullikummi estava correndo na nossa direção. Meio desengonçado já que lhe faltava o pé esquerdo e isso claramente estava lhe fazendo falta.
O caos da cidade havia ficado para trás, aquele pedaço de terra não parecia ter nada além de uma grande plantação, o mar mais adiante e uma linha de trem. Contanto que o trem resolvesse ficar quieto na dele e não destruíssemos o trilho, tudo deveria ficar bem. Claro, considerando que a gente conseguiria ganhar do monstrengo de pedra…
— Acho bom alguém ter uma ideia genial o mais rápido possível. — eu disse enquanto preparava meu arco e flecha — Anúbis falou que nas histórias da mitologia ganhava desse bicho cortando o pé né?
— Vou voar pra perto do rosto dele e tentar acertá-lo com o sharur e ver se conseguimos fazer algum dano… — sugeriu Sam — Tente ver se suas flechas fazem algo também. Não estou achando muito promissora nossas chances de causar danos considerando que a pele dele é claramente feita de pedra.
Atrás de Ullikummi, Anúbis vinha correndo e, antes que Ullikummi nos alcançasse, ele teve uma ideia mais rápido que a gente, ou provavelmente estava com essa ideia a muito tempo e só esperava poder ficar num campo mais aberto. Ele lançou umas faixas de linho, que se entrelaçavam entre si como uma trança para ficarem mais grossas e resistentes. Elas rapidamente se enrolaram nos joelhos do monstro que, já com equilíbrio debilitado devido a falta de um pé, caiu estrondosamente no chão.
Minhas pernas ficaram bambas, poeira subiu para todo lado e o monstro gritou quando caiu. Nós, que não somos burros, logo aproveitamos a oportunidade. No primeiro sinal de uma pele de pedra, eu atirei uma flecha… para infelizmente só ver ela ricocheteando…
— Isso não é bom… — resmunguei enquanto, ao meu lado, Sam se transformava num pássaro e saía voando em direção à Ullikummi.
Enquanto isso, logo ao lado dela, Sadie fazia sua parte na mágica também, ela se aproximou um pouco mais do monstro e gritou “Tas” e logo uma longa corda apareceu e se juntou às tranças de linho de Anúbis na difícil tarefa de segurar o monstro quieto no lugar. Anúbis segurava a ponta de seus linhos, mas o de Sadie parecia ser só na força de vontade da magia.
— Sinto que eu deveria correr pra atacar também… mas estou com uma sensação que vai ser tão inútil quanto sua flecha. — disse Nico — Mas… não custa nada tentar…
Nico correu na direção do monstro, Sadie e Anúbis se esforçavam em manter ele preso e Sam se des-transformava de passarinho a alguns centímetros de altura em cima da cabeça do monstro e já foi pousando acertando-o o mais forte que conseguia com o Sharur. Eu estava ali, inútil, só conseguindo brilhar, lançar flechas inúteis e curar pessoas sendo que ninguém estava machucado. Então eu lembrei, havia pessoas provavelmente machucadas sim, mais atrás onde o Ullikummi já havia deixado seu traço de destruição pela cidade.
Eu olhei para o cocheiro, me perguntando por um segundo se eu conseguiria sair dali com ou sem carruagem sem atrair atenção do monstro, quando um grito da parte dele puxou toda minha atenção. Usando pura força bruta, Ullikummi havia conseguido se livrar de parte das amarras que o segurava embora ainda estivesse deitado no chão. Na sua súbita conquista de liberdade, o braço de Ullikummi se moveu e acertou (aparentemente sem querer) Nico, que estava bem perto. Nico saiu voando para longe.
— NICO! — eu gritei, correndo na direção dele, enquanto o monstro tentava agarrar Sam, que estava de pé, num equilíbrio bem precário, em cima da sua cabeça.
Sam virou um passarinho no último minuto e o monstro, apesar de claramente saber onde a gente estava ao menos aproximadamente de alguma forma, ainda era claramente cego pois suas tentativas de agarrar Sam novamente eram de uma falta de mira assustadora. A chuva leve que nos perseguiu o caminho inteiro nos alcançou, e logo o chão seco ia se tornando lama.
Alcancei Nico desesperado, já percorrendo os olhos pelo corpo dele em busca de ferimentos graves mesmo antes de o alcançar.
— NICO! TUDO BEM? — gritei, enquanto me jogava no chão ao lado dele e ele, já com hematomas no corpo e cuspindo um pouco de sangue, segurava o braço com cara de dor.
— Acho que o maldito conseguiu quebrar meu braço ou algo do tipo… — resmungou ele.
— Tá… calma… — falei enquanto começava a o curar e ouvia o caos mais atrás recomeçando no meio da briga — Estão tentando prender ele de novo?
Nossa conversa foi interrompida com um ataque do monstro. Como se ele quisesse responder minha pergunta, o monstro ergueu as duas mãos e deu um forte soco na terra, causando um terremoto que atrapalhou principalmente Sadie na tentativa de o prender novamente.
Como Sadie era a única agora que estava exatamente na frente dele, já que eu e Nico estávamos mais na diagonal, Sam voava e Anúbis estava atrás, Ullikummi tentou esticar a mão para agarrá-la. Como a mira dele era muito ruim, ela rolou no último momento e lançou um feitiço que explodiu na mão dele, mas sem parecer ter causado muito dano. Ela se afastou um pouco para continuar a tentar prendê-lo novamente, ele tentava a alcançar, mas as tranças de linho de Anúbis, que puxava logo atrás de Ullikummi, o impediam de avançar. Ullikummi não gostou nada dessas suas coisas e logo fez um forte impulso em direção à Sadie, puxando as tranças de linho quase pra fora de Anúbis e então, acabando por agarrar Sadie apesar da mira ruim.
— SADIE! — gritou Anúbis.
— DEIXA COM A GENTE! — gritei e logo completei para Nico — Terminei aqui.
Anúbis não podia simplesmente deixar o monstro fugir também, então tentou apertar mais e puxá-lo enquanto eu e Nico nos levantamos e começamos a correr em direção à Ullikummi. Infelizmente, nem conseguimos dar dois passos, pois o monstro logo rugiu bem alto e então, depois de juntar alguma força, deu um grande salto… que infelizmente carregando Sadie em sua mão e Anúbis pendurado nas tranças de linho junto.
— SADIE! ANÚBIS! — gritei, enquanto via Ullikummi subir alto no céu e Sam tentando voar para salvar Sadie.
Queria ter alguma forma de ajudar, mas eu e Nico só pudemos ficar lá, sentados no chão esperando pelo impacto. Anúbis começou a escalar as faixas de linho o mais rapidamente que conseguia até conseguir dar uma cotovelada na barriga de Ullikummi. Ao mesmo tempo, suas tranças de linho se enrolavam mais no monstro, tentando alcançar a mão dele e abri-la, para resgatar Sadie.
Mas Sadie também tentava fazer o próprio resgate. Não sei bem o que ela fez, mas uma luz rapidamente irradiou na mão do Ullikummi e no instante seguinte ela estava aberta. Mas logo em seguida eles começaram a cair… porque é assim que a gravidade funciona quando se pula muito alto sem aparentemente saber voar.
Sadie se agarrou numa das tranças de linho, que a puxou para a mão de Anúbis enquanto a queda livre seguia suas leis da física. Toda a cena não demorou mais do que alguns pouquíssimos segundos. E isso era um problema. Anúbis em sua forma luminosa gigante segurou Sadie, Sam se aproximava como um pássaro maior e mais forte para tentar carregar Sadie ou ao menos diminuir a queda. Mas Ullikummi se agarrava à Anúbis, puxando pelas tranças de linho, atacando seu rosto, tentando alcançar Sadie, atrapalhando qualquer tentativa de resgate dela.
Anúbis tentava esticar a mão, as faixas e Sadie para o alto, em direção à Sam, tentando fazer Sam alcançar Sadie. Porque afinal, a física funciona de um jeito que super-herois em filmes esquecem, que não adianta só pegar uma pessoa que está caindo em queda livre de vários metros antes que atinja o chão, dá no mesmo. Tem que ter algum amortecimento. Qualquer coisa que faça a pessoa diminuir a velocidade aos poucos, ao invés de subitamente de uma vez só. Mas não era como se uma queda durasse vários minutos, era só alguns segundos. Era claramente puro desespero já que tudo não passou de alguns poucos segundos desde que Ullikummi pulou.
Foi tudo muito rápido. Eu e Nico nos abaixamos, preparados para o impacto que ia ser um monstro daquele tamanho batendo no chão. Mais do que isso, fiquei pronto para dar uma de socorrista mágico mais uma vez.
Quando Sam estava praticamente segurando Sadie, o chão chegou. O baque foi enorme mas, mais importante que isso, eu não sabia se havia dado tempo de salvar Sadie. Não consegui ver quanto Sam conseguiu diminuir da velocidade antes de tudo cair. Simplesmente saí correndo imediatamente em direção à onde tinham caído e Nico foi correndo junto comigo.
— WILL! — gritou Anúbis desesperado enquanto eu já estava a menos de 2 metros deles.
Quando alcancei o centro do desastre, Sadie estava desacordada e ensanguentada. Uma de suas pernas estava num ângulo que pernas não deveriam fazer. Mas eu vi seu peito mexendo com a respiração, então ao menos estava viva. Sam logo apareceu ao meu lado, olhando para mim com os olhos saltados e mareados. Anúbis ainda estava em sua forma luminosa gigante, cuidadosamente colocando Sadie no chão.
— Pode deixar comigo. Pode deixar. — eu disse apressadamente enquanto praticamente me jogava no chão de joelhos para começar a curar Sadie.
Ullikummi rugiu atrás de mim, Nico e Sam se colocaram entre ele e meu pequeno e desesperado hospital. Mal comecei a curar Sadie e logo minha atenção foi tomada por um outro rugido, diferente do de Ullikummi. Fiquei alguns segundos curando Sadie antes de levantar o olhar atrás da fonte do rugido extra, torcendo para não ser problema extra, mas estava mais preocupado com Sadie. Sentia ao começar a curá-la que foi por pouco que não perdemos ela.
Quando levantei o olhar, tive a certeza de que eu sinceramente não queria ser Ullikummi. Depois de deixar Sadie aos meus cuidados… Anúbis claramente decidiu deixar todo seu ódio à Ullikummi e ao o que o monstro havia feito com Sadie muito bem visível.
A tentativa de Ullikummi de vir para cima de nós foi frustrada com Anúbis correndo na direção dele e o agarrando pela cintura o empurrando para longe de nós. Anúbis até parecia brilhar mais que o normal e o rosto dele… era de puro ódio… pra não dizer talvez até um toque… de intenção assassina talvez?
— A-Acha… que a gente precisa fazer algo? — perguntou Sam, incerta.
— Boa pergunta. — respondeu Nico.
Com um pé faltando, Ullikummi acabou caindo. Anúbis caiu em cima dele mas não perdeu tempo. Já foi prendendo Ullikummi nas tranças de linho novamente… mas em mais tranças do que antes. Eu não precisava ser especialista em poderes divinos para saber que ele devia estar usando mais magia do que antes… até porque agora até doía os olhos continuar olhando para a luta por causa do brilho. Na minha frente, Sadie resmungou fracamente enquanto Anúbis, de joelhos sobre o peitoral do monstro, juntava as duas mãos e começava a socar fortemente a cara do monstro com as duas juntas.
— Tá tudo bem… — disse gentilmente para Sadie, apesar de não saber se ela estava consciente o suficiente para me ouvir — Estou te curando. Eu, Will. Está tudo bem. Não se levante. Fique calma.
Eu tentava ignorar os barulhos de soco que se repetiam, de novo e de novo mais além. Ullikummi rugia com raiva, Anúbis rugia de volta e os socos continuavam. Devia estar certamente assustador olhar aquilo, mas eu tinha que focar na minha paciente.
— V-Vamos ajudar! — disse Sam — Temos que cortar os pés.
— Você conseguiu fazer muito dano?- perguntou Nico.
— Não muito. — admitiu Sam, cabisbaixa — Vamos tentar com a sua espada.
— Vamos… maldito me jogou pra longe quando tentei chegar perto. — resmungou Nico.
— Toma cuidado! — lembrei-os do óbvio enquanto eles saíam correndo em direção à luta de gigantes.
Mesmo em meio ao perigo potencialmente duplicado, os dois correram para o único calcanhar intacto do Ullikummi. Com a respiração de Sadie ficando gradualmente mais constante, ousei alternar o olhar entre ela e a luta. Quando Nico e Sam foram atacar, a espada de Nico simplesmente foi repelida, incapaz de cortar a pele de Ullikummi. Sam continuou o acertando com o Sharur, mas eu não conseguia ver nenhum dano sendo feito.
Então, provando que ainda conseguia ganhar do Anúbis modo-raiva-total, Ullikummi começou a conseguir se soltar de algumas das amarras das tranças de linho. Anúbis parou de soca-lo na cara para recuperar as amarras e impedir que Ullikummi machucasse Nico e Sam. O problema foi que Ullikummi conseguiu se soltar o suficiente para socar Anúbis entre o pescoço e o queixo.
Obviamente, Anúbis não gostou nada disso.Ele prendeu Ullikummi apressadamente nas amarras de novo, usando um pouco de força bruta pra ajudar, e voltou a soca-lo no rosto com muito mais força e velocidade do que antes… e o chão começou a tremer mais do que antes. Tanto que ele começou a rachar… mas perfeitamente deixando eu, Sadie, Nico e Sam longe de qualquer rachadura… o que me fez pensar que essas rachaduras não deviam ser simplesmente o chão desistindo de segurar tanto tremor.
— O q-que está acontecendo? — perguntou Sadie lentamente, claramente meio assustada ao finalmente ir recuperando a consciência enquanto eu começava a ficar um pouco exausto.
— Então.. você se machucou feio, mas estou te curando. Não se preocupe. — respondi enquanto desviava o olhar entre ela e Nico e Sam, que se afastaram um pouco do centro daquela confusão toda — Todos estamos bem e daqui a pouco você vai estar também.
— E o Ullikummi? — perguntou ela fechando os olhos, parecendo cansada e emocionalmente abalada.
— Ainda é um problema, mas talvez logo não seja mais. — respondi enquanto aquele super reconhecível barulho de fantasmas e almas começava a sair das rachaduras e Sadie respirava fundo.
— Me ajuda a sentar… — pediu Sadie fracamente tentando se levantar, mas eu a impedi.
— Ainda não. Melhor não. — falei enquanto as almas começavam a sair das fendas do chão e se agarrar às pedras do corpo de Ullikummi.
Eu estava tentando dividir minha atenção entre a luta e Sadie quando dei um berro de susto quando o cocheiro se aproximou por trás de mim e colocou a mão no meu ombro. Tranquilamente, ignorando o meu súbito susto, ele se endireitou e simplesmente falou:
— Fils d'Apollon…
— Apollon por acaso é meu pai? Parece muito… — respondi, completamente ignorante de francês.
— Acho que é… Já que “fils” acho que é “filho”. — disse Sadie, fracamente ainda deitada ao meu lado.
— Você sabe francês? — perguntei.
— Só uma coisinha ou outra…quase nada… — admitiu ela — Eu tinha aula na escola quando morava na Inglaterra. Mas é um francês bem meia boca.
— Chantez à l'épée du fils d'Hadès. — continuou o cocheiro.
— Seu francês meia boca entendeu alguma parte além de “Hades”? — perguntei.
— Aaahhm…. não… — respondeu Sadie, incerta, enquanto eu ainda a curava — Alguma coisa, alguma coisa, filho de Hades.
— Les deux. — disse o cocheiro.
— Ahm.. acho que é um número… — disse Sadie, tentando novamente se levantar, e dessa vez eu ajudei ela, ela ainda estava com uma cara horrível e com alguns machucados, mas ao menos estava fora de perigo — Un… deux… dois! Os dois. Ele disse “os dois”.
— Os dois.. tá…tenho que fazer algo com Nico então? — perguntei.
— Chanter. — repetiu o cocheiro, por algum motivo segurando a própria mão com a outra mão, mas de forma calma e amigável — Chanter et attaquer ensemble.
— Ok… attaquer ensemble parece “atacar juntos”... — falei — E chanter? O que é chanter?
— Lá lá lá lá lá. — falou o cocheiro de forma completamente calma e monótona.
— CANTAR! — exclamou Sadie mas logo se encolheu, segurando a costela de dor — C-chanter… é cantar…
— Eu tenho que cantar com Nico… — falei, olhando para o cocheiro, que ainda segurava uma mão na outra — segurando na mão dele… ?
— É o melhor que eu consigo traduzir também. — disse Sadie — Acha que vale a pena tentar?
— Não custa nada né? — falei — Fica aqui. Você ainda não tá 100%.
— Pode deixar… não acho eu tenho força pra levantar mesmo… — respondeu ela enquanto eu saí correndo na direção de Nico.
A situação lá na batalha tinha mudado bastante. Ullikummi estava muito mais agitado e irritado, e estava custando toda a atenção e esforço de Anúbis deixar ele quieto para que Nico e Sam pudessem tentar causar algum dano ao pé dele. Sam batia repetidas vezes no tornozelo dele e Nico andava de um lado para o outro, olhando para todo lado, atrás de uma ideia genial para fazer algum dano significativo. As almas que saiam das rachaduras se agarravam à Ullikummi, mas sem as rachaduras conseguirem abrir o suficiente para engolir ele, não era tanta a diferença que elas faziam.
Quando alcancei os dois, segurei na mão de Nico imediatamente e ele me olhou perdido. Afinal, era uma hora aleatória demais para segurar na mão dele, reconheço isso.
— O cocheiro deu uma ideia que sinceramente não sei se vai dar em algo… — expliquei diante do olhar interrogativo dele — Mas é melhor do que não tentar nada novo.
— Ok… — disse ele incerto, levemente corado olhando pra mim e pra nossa mão entrelaçada, enquanto Sam só fez olhar rapidamente para a gente com o canto do olho — Que ideia é essa?
— Seja lá qual ideia seja essa, por favor não demore muito. — pediu Sam.
Atendi aos pedidos de Sam e comecei a cantar docemente. Peguei uma música que ouvia muito na minha infância… me lembrava da minha mãe, que a essa altura estava bem longe e com certeza preocupada comigo. Eu comecei a brilhar, e o brilho ficava cada vez mais forte. Segurei na espada de Nico também e senti essa energia toda passar para Nico e então para sua lâmina de ferro estígio.
A lâmina cresceu envolta em brilho. Sam saiu apressadamente do caminho, Anúbis tentou segurar Ullikummi no lugar e Nico e eu rapidamente nos aproximamos. Atacamos o pé de Ullikummi e sua pele rochosa se cortou como manteiga. Ficamos chocados, Ullikummi gritou de dor, a espada queimava em nossa mão, então acabamos por soltá-la. A espada caiu no chão soltando fumaça enquanto Ullikummi começou a diminuir de tamanho e lentamente virar pó enquanto gritava de dor desesperadamente.
— Acho que vocês conseguiram! — comemorou Sam com um sorriso.
— Conseguimos… — falei, exausto, parando de brilhar.
Olhei para Nico, ele olhou para mim, e não me segurei, imediatamente o abracei e o beijei. Fiquei aproveitando o meu namorado enquanto tive apenas uma mera consciência de Ullikummi sumindo e Anúbis voltando ao normal e correndo em direção à Sadie. Eventualmente me afastei um pouco de Nico, e sorri para ele.
— Belo trabalho em equipe. — falei — Já estava me sentindo meio inútil por minhas flechas não funcionarem nesse monstro.
— Eu também. — disse Nico.
— Sem querer interromper esse lindo momento, mas talvez devêssemos checar como o pessoal da cidade está. — disse Sam — Afinal foi um terremoto bem forte para eles.
— Ah, também tenho que terminar de curar Sadie… — falei, colocando a mão na cabeça e olhando para ela, que estava sentada ainda no chão mas sendo paparicada por Anúbis — Minha cabeça já está pesada… melhor acharmos logo esse gênio depois de arrumar tudo por aqui.
Nico e Sam foram checar a situação da cidade mais além e eu me arrastei de volta para Sadie, cansado, e me ajoelhei lá ao lado dela novamente enquanto o chuvisco irritante continuava a cair.
— Nem tive tempo de perguntar no meio da confusão… Como se sente? — perguntei enquanto re-começava a cura dela.
— Melhor, mas acho que ainda tem alguma coisa quebrada aqui e ali. — respondeu ela com uma leve cara de dor.
Estava tudo indo bem e tranquilo na volta do meu processo de cura, quando Nico e Sam chegaram correndo.
— A polícia e os bombeiros já estão tomando conta da cidade… Mas vimos uns monstros escondidos acompanhando tudo que aconteceu aqui. — disse Sam — Melhor irmos embora.
— Acho que não esperavam que a gente fosse lidar com a nossa festa de boas vindas tão fácil. — falou Nico.
— Vamos sair daqui antes que eles mandem uma segunda festa de boas vindas. — disse Sadie começando a se levantar claramente com um pouco de dor e ignorando minha tentativa de curá-la mas aceitando a oferta de Anúbis de ajudar ela a se levantar — Vamos tentar nos esconder onde estiver esse tal gênio… se ele consegue se esconder, já que não foi tão simples saber dele, a gente também deve conseguir.
— Ainda tenho que terminar e curar suas pernas… não terminei ainda… — falei, preocupado com a minha paciente.
— Na carruagem. Eu consigo me vir- — respondeu ela começando a mancar pra carruagem sendo interrompida quando Anúbis pegou ela nos braços — Você me mima demais…
— Você caiu de muito alto só alguns minutos atrás e Will claramente disse que ainda não terminou a cura. — respondeu Anúbis — Então vamos evitar que deixe qualquer coisa pior só porque quer ir mancando até a carruagem.
— Minha perna não está tão ruim. — ralhou Sadie.
— Você está mancando e seu médico não te liberou ainda. — respondeu Anúbis.
— Eu estou bem o suficiente! — respondeu ela.
— Mas eu não! Então colabore um pouco por favor! — ralhou ele de volta — Você tem ideia do quão perto chegou de morrer?
Sadie então ficou quieta, pelo rosto dela, parecendo entender algo a mais que eu não entendi. Ela deixou ele carregar ela e então entramos na carruagem novamente. Voltei imediatamente a curar Sadie quando voltamos lá para dentro. Mesmo enquanto a curava, dava pra ouvir de longe o caos que deveria estar a cidade com sirenes tocando para todo lado. Não dava pra deixar de se sentir culpado. Teria isso acontecido se não tivéssemos ido até Istambul? Muito provavelmente não. Mas a gente tinha que ir lá para continuar a resolver todos esses problemas e se a gente deixar Naunet e os demais ganharem… aí os danos vão ser muito piores.
Quando terminei de curar Sadie, exausto, fui dormir nas camas dos fundos, torcendo para a chegada na casa do gênio ser tranquila. Quem dera, a carruagem sacudiu algumas vezes, me tirando da cama. A causa eram monstros pequenos nos atacando, segundo Nico me informou quando apareci na frente da carruagem. Não passaram de meras irritações, nada muito complicado. Quando chegamos no endereço que Hipátia tinha nos passado, estávamos diante de um café bem turco no meio do centro turístico da cidade.
— É aqui mesmo? — perguntei, em dúvida.
— Espero que sim… — respondeu Nico.
Descemos da carruagem com cuidado, olhando ao redor nos perguntando se tínhamos sido seguidos. O café era bem escondido, numa pequena ruela sem saída e esquecida. Não havia mais ninguém ali além de nós.
Sam foi a primeira a ir até a porta do café. Ela empurrou a porta de leve e a porta fez aquele barulho de sino quando alguém abre a porta enquanto íamos entrando logo depois. Tal como a ruela na frente do café, o café estava inteiramente vazio. Seus sofás vermelhos com detalhes pretos ao redor de mesas de madeira estavam completamente vazios. Não havia nem mesmo um atendente na longa bancada de pedra, que tinha um grande buraco retangular cheio de areia no meio por algum motivo que eu não tinha a menor ideia.
— Kapalıyız… — disse uma voz lá do fundo, em inglês, por algum motivo.
— Não falamos turco… — respondi enquanto o dono da voz aparecia de uma porta bem aos fundos.
Era um homem com um óculos pequeno e bem redondo, uma barriga avantajada e uma barba bem volumosa que lhe cobria todo o pescoço e um bigodinho que com certeza tinha recebido sua dose de gel nas pontas para ficar mais redondinho. Estava sério, tinha um nariz grande e as roupas eram uma afronta à moda. A camiseta de manga comprida era vermelha com detalhes brancos e azuis sem forma definida na estampa. Mas a calça era uma calça bufante tipo a do Aladdin, mas completamente roxa.
— Estamos fechados. — disse o homem, provavelmente traduzindo o que tinha dito antes para nós, bando de americano burro monolíngue… ou melhor… acho que só eu e Sadie éramos os americanos monolíngues ali por mais que a Sam seja americana, ela não é monolíngue.
— Acho que é você mesmo que viemos atrás. — disse Anúbis — Você é velho… velho demais… pra ser um mortal…
— Isso não é jeito de falar com os mais velhos, garoto. — respondeu o homem.
— Você não é mais velho que eu. — disse Anubis, dando de ombros.
— E você sabe minha idade assim só de olhar por acaso? — perguntou o homem, erguendo o nariz.
— Só uma aproximação grosseira. — respondeu Anúbis — Sua alma é velha… já deveria ter morrido a tempo se fosse mortal.
— E essa sua aproximação grosseira é suficiente então ou só está mentindo para se achar no direito de me chamar de velho assim, completamente sem educação? — perguntou o homem — Não gosto de ser chamado de velho! Se tem algo te deixando vivo ainda também posso muito bem ser mais velho que você ainda nessa sua aproximação grosseira.
— Nah… — resmungou Anúbis, dando de ombros — Não tem muitos que conseguem isso e gênios não são tão antigos assim. Sem falar que minha aproximação grosseira não é TÃO grosseira assim.
— Ok, vejo que realmente sou eu que estão mesmo atrás. Prazer, me chamo Kudret, sou de fato um gênio e, nesse caso, meu café está aberto para vocês. Ele é só de fachada. — respondeu o homem, dando uma piscadela para nós com um sorrisinho no rosto — Foi com vocês que Ullikummi resolveu brigar?
— Então não foi nada sutil mesmo né? — perguntei.
— Não mesmo. — respondeu Kudret — Ullikummi tem estado ali, andando ao redor de Istambul, à semanas. Acabaram com ele ou só fugiram até aqui?
— Acabamos com ele. — disse Sam — Mas vimos outros monstros no caminho até aqui… mas não acho que fomos seguidos.
— Conseguimos acabar com uns no caminho. — completou Nico.
— Ah sim, Istambul tem estado estranha nos últimos meses. Recebi no decorrer da vida da minha loja os mais diversos clientes com inimigos aos seus pés. — disse Kudret — Não vão ser encontrados aqui, mas vocês vão ter que me explicar mais sobre no que estão metidos pois as fofocas que escuto das relações de porque Ullikummi e todos esses monstros estão por aqui, não são nada animadoras. E mais, incluam como a visita de vocês até mim influencia nisso tudo. Afinal, ainda não decidi se quero ajudar vocês com seja lá o que querem.
— Imagino que seja uma longa história… — Sadie disse.
— Tenho tempo… — disse Kudret — Vou preparar um café e vocês contam tudo e se apresentam apropriadamente enquanto isso, que tal?
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