Os Deuses da Mitologia

161 GROVER - Desesperos Sem Fim


Notas iniciais
no momento, estão em locomoção os grupinhos: — Indo pra o Sudão: Carter, Zia, Paulo, Drew — saindo do Brasil: Leo, Calipso,Magnus, Jacques, Alex, Festus, André (Brasileiro que tava na Nigéria e não sabe jogar futebol), Meg e Apolo no momento, estão na ÁSIA, os grupinhos: — Indonésia: Lavínia, Hazel, Annabeth, Kayla, Grover, Percy, Piper, no momento, estão na ÁFRICA, os grupinhos: — Nigéria : Olujime no momento, os grupos que estão na EUROPA são: — Indo para a Itália: Caçadoras de Ártemis (Thalia, Ártemis, etc), Clarisse, Reyna, Ciara — Inglaterra: Blitzen, Hearthstone, Mestiço, Mallory — Turquia : Sam, Anúbis, Sadie, Will, Nico — Alemanha: Maias-Astecas: Victoria, Micaela (a menina q parece Annabeth) e Eduardo (guri chato que o Mestiço deve estar querendo esganar)

GROVER

Claro que estava tudo um caos. Era pedir demais um dia nosso ser minimamente calmo. Mas ser atacado por monstros mitológicos japoneses junto com uma bruxa indonésia ainda era novidade na minha lista de confusões que eu acabava me metendo. Num momento no meio do caos, o chão congelou devido ao ataque de uma moça de kimono completamente branco. Piper quase caiu, Lavínia de fato caiu e logo a mulher elegante de kimono se aproximou com sua espada, pronta para fazer Lavínia de espetinho.

Mas não, ainda não estava ruim o suficiente. Enquanto Hazel e Kayla tentaram salvar Lavínia, um homem pássaro gigante agarrou Kayla e saiu voando com ela. Onde eu estava no meio de tudo isso? Ocupadíssimo tocando minha flauta tentando manter aquela horda de monstros longe dos meus amigos. O bom de estar no interior de um país é que, ao contrário de Nova York, lá tinha várias plantas que eu podia usar para também tentar prender os monstros.

O fato de por algum motivo as ruas ali terem um córrego ao lado (que por favor, eu espero que não seja o esgoto) também havia bastante água para Percy trabalhar com. Mas claro, apesar de tudo isso, o sequestro de Kayla era um lado ruim para a gente.

Sem deixar de me concentrar na minha música, vi Hazel conseguindo salvar Lavínia de virar espetinho. A lâmina de Hazel cortou o pescoço da mulher que tentava atacar Lavínia, e Lavínia por sua vez rolou para longe e logo se levantou. Mas Kayla ainda era um problema que nem conseguíamos mais ver.

— TEMOS QUE IR ATRÁS DA KAYLA! — gritou Annabeth.

— VAMOS ABRIR CAMINHO! — gritou Hazel.

— Posso ajudá-los nisso. — disse Calon — Mas não percam a chance.

Calon começou a falar palavras no idioma dela enquanto gesticulava com as mãos, e eu continuava tocando a minha flauta. Então, de repente, outros três de mim apareceram, e também de Percy, Annabeth, Piper, Lavínia, Hazel e Calon. No meio do caos que era uma batalha normal, nem eu sabia mais qual era o original entre meus amigos.

— Isso é tão estranho… — resmungou Lavínia ao meu lado e de um segundo Grover, que também tocava a sua flauta concentradíssimo.

Percy fez chicotes d’água para abrir caminho no meio dos monstros em direção ao templo e à onde Kayla foi vista pela última vez por nós. Imediatamente fomos atrás dele, ainda tínhamos que lutar um pouco no caminho, e os monstros gritando em japonês (eu acho) me deixaram preocupado com a possibilidade de eles logo entenderem qual de nós não éramos ilusões criadas por Calon.

O lado bom, era que como o nosso grupo era bem grande, não apenas três pessoas, como costumava ser nas missões, lentamente eu ficava com a impressão de que a quantidade de monstros ao nosso redor ia diminuindo. O lado ruim, é que mais a frente eu vi um esqueleto gigante com olhos esbugalhados aparecendo aparentemente do nada. Ele estava longe demais para nos atacar, mas ainda assim era mais um problema para a nossa lista, já bem grande, de problemas.

— De onde esse bicho veio? — perguntou Lavínia.

— Gashadokuro… — resmungou Calon.

— Saúde. — disse Percy.

— Não… Gashadokuro é o nome do esqueleto gigante. — explicou Calon apressadamente.

— Sabe o nome de algum outro monstro aqui? — perguntou Hazel apressadamente enquanto lutava contra um Oni, um dos poucos que sabíamos o nome.

— Só que o bicho que levou sua amiga foi um Tengu. — explicou Calon — Não sou profissional em mitologia japonesa.

O esqueleto gigante, também conhecido como Gashadokuro, estava ainda longe. Casas, árvores e mais monstros ainda nos separavam dele. Mas parecia que ele estava ocupado em sua própria batalha, se movimentando como um gigante, se defendendo e atacando de alvos pequenos. Provavelmente parte desses pequenos alvos tinham poderes parecidos com o de Percy, pois eu via jatos d’água serem atirados fortemente contra o esqueleto, desmontando seus ossos um a um.

— Parece ter alguém lutando contra o esqueleto. — disse Hazel, ofegante em meio ao seu próprio combate, notando a mesma coisa que eu.

— Vamos ver se Kayla está por lá… não que eu ache que esses jatos d’água sejam obra dela. — sugeriu Piper.

Continuamos a abrir espaço no meio do completo caos. Não havia mais sinal de nossas duplicadas feitas por Calon. Ou haviam ficado para trás, ou já tinham sumido. Eu estava ficando cansado, meus lábios e garganta estavam secos. Os demais com certeza também estavam ficando cansados. O esqueleto do qual nós nos aproximávamos repentinamente cair e sumir de nossa vista não era uma notícia boa o suficiente para a gente ficar com mais energia.

Até porque, quanto mais avançávamos, mais as coisas ficavam estranhas. Tudo parecia ter sido engolido por um filtro de filme de terror. Se o sol havia terminado de nascer, então a escuridão já tinha o empurrado para longe. Tudo parecia frio, cinza, arrepiante, morto e desconfortável. Até o barulho da luta parecia ser engolido por aquele estranho ambiente.

Tudo ia bem na medida do possível apesar de tudo. Percy, Annabeth e Hazel abriam caminho, eu ia logo no meio com Calon, e logo atrás, Lavínia e Piper estavam impedindo que eu fosse acertado pelas costas enquanto tocava. O problema foi que do nada, saindo de trás de um muro de uma das casas do lado, uma mulher de kimono branco pulou na minha direção e me derrubou no chão. A outra mulher de gelo de kimono branco ao menos usava um kimono elegante e tinha o cabelo bem arrumado. Essa que me derrubou não.

O kimono branco dela era rasgado na barra e nas mangas, estava sujo de sangue e seu cabelo preto e completamente liso estava todo bagunçado e arrepiado. Mas a pior parte não era essa. A pior parte foi a bocarra dela escancarada, tão grande que fazia a boca do Coringa parecer pequena. Ela tinha dentes afiados por toda sua extensão de sua boca gigantesca, que ia quase até as orelhas. Ela gritava algo que eu não entendia, e eu gritava de volta em desespero.

— ME SOLTA! — gritei, tentando empurrar ela pra longe do jeito que conseguia, chutando-a e socando em qualquer brecha que aparecia.

— GROVER! — gritou Percy.

A mulher era muito forte e, pior, a boca cheia de presas dela estava muito mais perto do meu pescoço do que Percy, ou qualquer outro, estava de mim. Sem falar que minha flauta voou para longe quando caí. Eu sentia o bafo podre dela desconfortavelmente queimando minha narina quando ela resolveu morder meu pescoço. Um vampiro teria sido mais gentil com suas duas presas para puxar sangue. Ela não queria simplesmente meu sangue, ela queria me destroçar. Eu já não tinha força pra gritar, meu sangue jorrou, a dor explodiu no meu pescoço, os gritos ao meu redor começaram a fazer menos sentido e tudo ficou turvo.

Tive uma mera noção do caos ao meu redor. De Percy jogando a mulher para longe de mim. Annabeth desesperada checando se eu estava bem (não estava) enquanto os demais acabavam com a mulher-Coringa e qualquer outro que tentasse chegar perto de mim. As vozes estavam abafadas, minha cabeça leve demais e meu pescoço, sangrando, parecia espalhar um frio estranho pelo meu corpo todo.

Percy entrou no meu campo de visão, tentei falar alguma coisa, nem lembro exatamente o quê. Mal pude deduzir que o que saiu da boca dele em seguida foi “não fale”. E talvez seguido de um “vai ficar tudo bem” sem muita confiança. Mas eu sinceramente não tinha muita certeza de que essas foram as palavras. Até porque minha atenção foi tomada por outra coisa que apareceu no meu campo de visão.

Um menino arrepiante de no máximo uns 5 anos apareceu logo em cima de mim, agachado perto da minha cabeça de modo a me encarar. Ele apareceu do nada, com um kimono completamente preto, olhos completamente pretos e pele cinza. Tentei, naquele estado que estava, reagir de alguma forma, mas não tinha mais tanta força. E pior, parecia que ninguém via o menino.

Tentei esticar a mão na direção de Percy, sofrendo com o pescoço latejando horrivelmente e dificultando minha respiração, enquanto o menino misterioso e fantasmagórico só ficava olhando para meu desespero e para o que eu sentia que ia ser meus últimos minutos. Sentia sangue entalado no que eu ainda tinha de garganta, tentei comunicar Percy com o olhar sobre a presença do menino, mas era uma informação complicada demais para passar e Percy também não parecia estar bem fisicamente. A nossa empatia não devia estar deixando ele se sentir muito bem, ou ter muitas forças para me ajudar. Não acredito que eu iria morrer tão longe de casa, e sem ver Júniper mais uma vez. Sem virar uma plantinha perto dela. Ao menos não estava sozinho, pensei. Talvez pudessem fazer uma muda para me levar de volta.

O menino misterioso se esticou mais, me forçando a olhar para ele, naqueles olhos que pareciam esconder toda a escuridão da noite, ao invés de para os meus amigos, que tentavam de tudo para estancar o sangramento e encontrar alguém que pudesse me curar. Calon tentava fazer o que podia, mas era claro que cura não era a especialidade dela. Minha visão ficava escura, mas vi um sorriso arrepiante aparecer no rosto do garoto estranho. Não sei se assim era a morte na Ásia, ou qualquer outra coisa do tipo, mas sentia que o menino estava comemorando minha morte, mesmo que pra mim isso significasse virar uma planta.

Tinha muita comoção ao meu redor e não tinha muita ideia do que acontecia de fato. Uma pena que logo Kayla foi arrancada para longe demais, ela poderia ter me curado. Com certeza minha hora estava próxima. Já mal sentia dor alguma e minha mente divagava. O desespero dos demais, as tentativas de Calon de ajudar, dos demais de impedir de os monstros causarem um estrago maior, o menino me encarando me dando calafrios… tudo parecia muito longe enquanto eu tinha uma leve sensação que engasgava. Sensação essa que antes era muito grande e extremamente desconfortável e enlouquecedora. Isso ter mudado para um leve engasgo não parecia um bom sinal. Ouvi uma vez falar que era quando toda a dor ia embora que a morte ficava mais perto.

Meus olhos cansavam. O sorriso no rosto do menino estranho sumiu por algum motivo, logo ele se mostrou irritado com alguma coisa, que eu não sabia o que era. O sono parecia muito mais pesado do que o normal quando eu vi uma coluna de fogo abrindo caminho até mim. Percy olhou para a origem do fogo e disse alguma coisa que eu não sei se eu não consegui ouvir, ou se ouvi e não consegui processar. Minha cabeça estava muito confusa. Talvez ouvindo as minhas preces, Kayla subitamente surgiu junto com um garoto asiático. Talvez eu estivesse delirando e estivesse vendo coisas.

Fechei os olhos, sem força de os manter aberto mais. Queria dizer algumas coisas… pedir para passarem recados e terem certeza que eu amava todos ali… mas não tinha forças para falar. Até tentei, mas não tinha certeza se talvez só estivesse murmurando. Que jeito decepcionante de morrer. Me pergunto que planta eu iria virar… Sentia a terra me chamando, cada vez mais quente e confortável. Como um abraço, ou uma cama quentinha com o melhor cobertor do mundo que por acaso tinha um cheiro gostoso de terra molhada.

Pensei em Juniper… em Percy e Annabeth ali comigo, e deixei a escuridão me engolir. Tudo estava silencioso e tranquilo e eu não sentia mais nada. Senti que o ar ali era melhor do que qualquer ar de Nova York seria, talvez não fosse um lugar tão ruim para criar minhas raízes finais. A última coisa que senti foi uma lágrima escorrendo pelo meu rosto e a terra me chamando.

E então… nada.

O nada pareceu durar tanto toda a eternidade como apenas alguns minutos. O tempo não fazia mais sentido. Minha cabeça não fazia mais sentido pra mim. Tudo era apenas sensações, o ar puro, a terra pulsando por mim. Até que senti alguém apertando minhas mãos firmemente comprovando que ainda tinha mãos.

Então senti o chão abaixo de mim, não a terra me chamando, mas o contato do chão duro de uma rua irregular. Depois de deixar o silêncio tomar conta de mim anteriormente, gradualmente recomecei a ouvir também os sons inteligíveis dos demais. Meu pescoço começou a me incomodar de novo, os sons começaram a fazer sentido. Logo notei que sentia dor no pescoço, então ainda tinha pescoço, e se eu tinha pescoço, então eu tinha olhos. Os abri com um esforço enorme e vi o brilho típico de poderes de cura sendo usados em mim por Kayla e o garoto desconhecido que chegou com ela. E melhor, não vi o menino arrepiante.

— Ele abriu os olhos! — gritou Annabeth, com lágrimas nos olhos vermelhos.

— Grover! — exclamou Percy logo ao lado dela, com uma cara horrível — Não me mata do coração cara!

— Ele ainda não está fora de perigo. — disse Kayla, concentradíssima no meu pescoço — Ele perdeu muito sangue e a ferida é muito grande.

— Pe… — comecei a falar, com grande dificuldade e muita dor na garganta.

— Shiu. Fique quietinho até eu terminar aqui. — alertou Kayla, que eu ainda não tinha entendido de onde tinha vindo.

Aceitei a ordem de bom grado. Meu pescoço doía tanto que parecia que eu ia desmaiar. Tentando me concentrar em outra coisa para não acontecer exatamente isso, eu olhei ao meu redor. Hazel, Calon, Piper e Lavínia protegiam com ferocidade vingativa o nosso cantinho hospitalar no meio da rua de outros monstros que atacavam. Um grupo que eu não conhecia estava ajudando elas. De one eles tinham vindo? Quem era eles?

— Ah, esse é Hàoyu. — disse Kayla, como se entendesse o questionamento que eu tentava silenciosamente funcionar enquanto indicava o rapaz que a ajudava a me curar — Ele e os amigos são semi-deuses chinês.

— E tem a Mayu que é japonesa. — disse Hàoyu.

— Isso. — afirmou Kayla — Foram eles que me salvaram do homem pássaro. Mais especificamente aquele ali, Chèng, o que tá nesse exato momento se transformando num urso. Estávamos lutando contra monstros também quando comecei a ouvir os gritos desesperados de vocês por você ter sido atacado… então segui os gritos.

Eu conseguia ver apenas uma parte da luta na qual o urso estava entretido. Não queria ousar mexer o meu pescoço. Hàoyu eu conseguia ver mais claramente. Era claramente um gótico. Mas de um nível que faria parecer que Anúbis e Nico só andam de rosa. O cabelo dele estava na frente de um dos olhos e ele tinha uma coleção incontável de piercings nos lábios e na orelha que provavelmente seria considerada exagerada por 95% da população (e os 5% restantes devem sonhar em ter iguais ou de fato ter).

Não sabia quem era Mayu, mas, tirando o urso que agora lutava fora do meu campo de visão, as restantes eram todas meninas, três. Então podia ser qualquer uma delas. Inclusive, uma delas aparentemente era a responsável pelo fogo de antes, enquanto as outras duas pareciam ambas terem poderes bem Percyanos com água.

Enquanto eu tentava analisar os recém chegados, fui começando a me sentir melhor. Com minha garganta lentamente começando a chegar no nível de uma dor de garganta aguda, resolvi arriscar.

— De onde… eles… saíram? — perguntei, cada sílaba arranhando a garganta dolorosamente.

— Estávamos seguindo esses monstros e toda essa confusão tem um tempo. — disse Hàoyu — Explicamos um pouco para Kayla. Também queremos chegar no templo de Borobudur.

— Temos amigos que se separaram de nós por aí também! — disse uma das garotas que defendiam meu círculo de cura quando ela achou um tempo para respirar no meio da luta contra os monstros — Me chamo Hua, prazer.

Hua tinha um cabelo preto bem longo preso em duas tranças e era uma das meninas que usavam água para atacar e defender. E tal como o garoto que agora eu via se destransformando em urso, o tal de Chèng, Hua usava vermelho. Agora destransformado, notei que Chèng também era capaz de lutar com armas, no caso, algo que parecia uma adaga só que maior e com a lâmina mais desenhada, acho que o nome desse tipo de arma era cimitarra.

— Não posso ficar aqui deitado então fazendo a gente perder tempo. — falei, meio rouco, mas com a garganta já bem melhor.

— Tem certeza? — perguntou Percy — Cara, você quase matou a gente de susto! Você literalmente quase morreu cara! Eu senti! Ainda bem que a Kayla chegou. Se quiser um tempo mais para se recuperar…

— Eu tô bem. — falei, tentando me levantar e consequentemente interrompendo a cura um pouco — Obrigado por toda a ajuda.

— Não precisa agradecer. — disse Kayla, sorrindo — Como está se sentindo?

— Como se estivesse saindo de um resfriado forte. — falei — Não tá tão ruim. Vocês por acaso viram um garoto pequeno e sinistro se agachando perto de mim aqui mais cedo?

— Um garoto? — perguntou Annabeth, confusa — Tem vários monstros tentando atacar mas não chamaria nenhum deles de “garoto” e nenhum conseguiu passar por nós.

Olhei para os demais, e todos pareciam tão perdidos quanto eu. Não gostei daquilo. Um calafrio passou por mim rapidamente. Não queria em hipótese nenhuma ver aquele garoto de novo. Não me pareceu coisa boa de jeito nenhum. Mas tínhamos que seguir em frente, então respirei fundo e me levantei devagar.

— Aqui. — disse Lavínia se afastando rapidamente da luta para me dar, de forma apressada, a minha flauta — Não sei se está inteira, mas resgatei ela para você quando a vi no chão.

— Obrigado. — falei, feliz por ver minha flauta viva.

A aparência dela não era das melhores, mas não parecia também um caso perdido. Experimentei tocar algumas notas, alguns dos vários canos que a formavam estavam leve ou duramente danificados. Havia perdido a capacidade de tocar algumas notas, mas a maioria estava intacto ou eu conseguia lidar. Uma parte de mim ficou triste pelo estado de minha querida flauta, mas a consertaria quando tivesse tempo para isso.

— Vamos logo então. — disse Hàoyu — Não temos muito tempo.

Fizemos uma formação de batalha digna dos romanos, tudo organizado por Annabeth e Hazel, claro. Alguns de nós iam na frente, para abrir caminho, e os demais iam aos lados ou atrás, protegendo aqueles, como eu, cujas habilidades eram melhor empregadas à longa distância. Era uma formação muito boa, mas também não posso dizer que não tivemos nossos feridos. Na verdade, tínhamos feridos desde muito antes. Mas o único preocupante até então tinha sido eu… e também uns minutos depois que Piper entrou na proteção de nossa formação para ter o braço, estraçalhado pela garra de algum monstro, curado por Kayla e Hàoyu.

Quanto mais avançávamos, mais as coisas pareciam vindas de um filme de terror e menos casas haviam ao nosso redor. Mas também menos monstros víamos. Chegou num ponto em que já estávamos apenas correndo por ruas cercadas unicamente de verde, sem quase nenhum monstro para nos perturbar. Certeza que aquele verde originalmente era lindo, mas no momento as árvores exalavam uma aura assustadora de floresta mal-assombrada.

Enquanto corríamos, mesmo com o fôlego complicado, aproveitamos a chance para tentar nos informar melhor. Não era o melhor jeito de conversar, já que não podíamos parar de correr. Mas era o que tínhamos.

— Sabem quem são esses monstros que estamos enfrentando? — perguntou Hazel.

— O homem pássaro é um Tengu. — disse a garota de cabelo curto e que alguns minutos antes eu tinha entendido ser a Mayu, a única japonesa do grupo e também mais uma com poderes aquáticos — Os ogros são Oni.

— Essa parte sabemos. — disse Lavínia — Quem é a mulher de gelo?

— São Yuki-Onna. — respondeu uma das meninas chinesas, ela havia se apresentado momentos antes como Yǔ xī, ela era a com poderes de fogo — E o esqueleto é o Gashadokuro. São todos japoneses.

— Sinto necessidade de pedir desculpa. — disse Mayu.

— Pra quê? — perguntou Percy — Só por serem japoneses?

— Exatamente. — disse Mayu.

— Relaxa. — disse Piper — Não tem nada a ver com você. Não é como se você tivesse enviado eles para cá. Não precisa pedir desculpa.

— Mas foi meu pai que enviou. — disse Mayu.

— Seu pai? — perguntou Hazel.

— Susanoo. Ele é meu pai. — explicou Mayu.

— Por isso está tentando lutar contra ele? — perguntei.

— Sim. — respondeu Mayu — Me sinto responsável. Perdi amigos até chegar até aqui e deixei alguns para trás para não os perder também. Acabei conhecendo Hua, Chèng, Yǔ xī, Hàoyǔ e os amigos deles na fronteira da China com o Vietnã.

— E não deixamos ela se livrar da gente assim. — completou Chèng.

— Mas ela bem que tentou. — disse Hua, rindo.

— Não queria envolver vocês nisso. São deuses e monstros japoneses. — respondeu Mayu.

— Que estão trabalhando juntos com deuses de mais mitos que eu consigo contar. — lembrou Hazel.

— Exatamente. — concordou Hàoyǔ — Estávamos investigando e lutando desde antes de encontrar você. Inclusive te encontramos justamente assim. Então relaxa. Vamos nessa até o fim.

— Inclusive, estão sabendo que “o fim” aparentemente é no Egito? — perguntou Annabeth.

— Ouvimos falar. — respondeu Hua, seriamente — Vocês tem um meio de chegar até lá?

— Temos um pequeno barco e um submarino quebrado, e vocês? — respondeu Percy.

— Temos um barco também. — respondeu Chèng.

— Acho que vamos nos ver no Egito então. — falou Kayla — Vai ser uma chance de todos se conhecerem.

— Tem mais de vocês? — perguntou Hàoyǔ.

— Nem faz ideia. — falei, rindo.

— Os egípcios, os nórdicos… Também conhecemos mais gente no caminho… — lembrou Percy — Tem os mexicanos…

— Os nigerianos… — listou Annabeth — Os brasileiros…

— Vai ser uma baita festa então. — disse Hua, com um sorriso de um canto a outro como se estivessemos prometendo para ela o Carnaval ou o Ano Novo Chinês.

Entramos então numa área infelizmente cheia de corpos de mortais, rodeada de barracas e muito bem organizada. Parecia a entrada do templo. Acho que eu via a pontinha dele mais além no horizonte, mas longe demais e escondido demais por árvores para ver com clareza como ele era. Mas, voando sobre ele, eu também vi um barco à vela enorme com a velha toda enfeitada com quadrados com desenhos de tons de azul, verde e branco.

— O barco é o Takarabune… — disse Mayu — Ele foi roubado dos deuses por Susanoo.

— E deixa eu adivinhar… pediram para você recuperar ele? — perguntou Piper.

— Também. — respondeu Mayu.

— Gente… vocês também tão vendo isso né? — perguntei.

Bem mais a frente do caminho, quase totalmente envolto pela escuridão, o garoto sinistro apareceu de novo. Tenho certeza de que 2 minutos antes ele não estava ali. Ele estava parado, encarando a gente com um olhar arrepiante.

— S-Sim… — respondeu Lavínia, confirmando que eu não era o único vendo o garoto dessa vez — Quem é esse?

— Um fragmento de Amatsu-Mikaboshi… — sussurrou Mayu, tensa e assustada.

Reconhecendo o nome de uma das duas maiores fontes de problema que teríamos por hoje, eu fiquei tenso. Mas não tive tempo para fazer qualquer outra coisa, pois em questão de segundos, Amatsu-Mikaboshi se aproximou numa velocidade impossível de nós. Não correndo, mas sumindo e reaparecendo mais a frente repetidas vezes em questão de milésimos de segundos como se impulsionado pela escuridão, que parecia se concentrar mais profundamente nele. Rápido demais para ter qualquer reação, repentinamente Amatsu-Mikaboshi estava logo na minha frente, segurando o meu rosto e quase tocando o nariz no meu enquanto flutuava no ar e gritava um grito tão grotesco e agudo que meus ouvidos latejavam e a minha vontade era de chorar e sair correndo.

O grito saiu de sua boca escancarada, com dentes afiados e estupidamente longos. A boca estava mais aberta do que era fisicamente possível, aberta o suficiente para engolir minha cabeça se assim quisesse. E ao mesmo tempo, um líquido preto escorria de seus olhos

Meu coração se apertou, eu não conseguia me mexer, meus ouvidos estouraram, com apenas cheiro de sangue ao meu redor, desmaiei.

Sei lá quanto tempo passei desmaiado, mas quando acordei, o silêncio ao meu redor era perturbador. Não me sentia melhor nem pior do que quando desmaiei, e também estava no mesmo lugar que estava antes. a diferença, dessa vez, era que todos ao meu redor estavam estirados no chão, mortos.

Gritei, tanto que senti minha garganta pedindo socorro. Não via sinal de Calon e dos asiáticos, mas isso não importava, meus amigos estavam ali, estirados no chão, sem vida. Nem me dei ao trabalho de me erguer direito, fui de joelhos, desesperado e quase caindo, até Percy e Annabeth, que estavam um lado do outro, de mãos dadas.

— PERCY! ANNABETH! — gritei, os sacudi, chorei, mas eles continuaram só encarando o céu sem vida.

Não teria Kayla para nos salvar, era tarde demais e, pior ainda, ela estava logo ao lado também estirada sem vida. Sentindo as lágrimas e o catarro escorrendo, olhei ao redor desesperado em busca de alguma coisa milagrosa que pudesse salvar meus amigos. Mas não via nada, e era tarde demais, apesar de não querer admitir.

— ALGUÉM! POR FAVOR! ALGUÉM! — gritei, mais que o máximo que minha garganta e pulmões conseguiam.

Me arrastei para cada um deles, desesperado e desamparado,tentando achar qualquer pedacinho de esperança. Não havia nenhum sinal de vida de Hazel, Piper, Kayla e Lavínia. Não importava o tanto que eu gritasse e me esgoelasse. Sem saber mais o que fazer, sentindo que a escuridão dentro do meu coração estava pior do que a ao meu redor, desabei a chorar sobre o peito de Percy. Ele era o filho de Poseidon! Já tinha vencido lutas incríveis! Eu era um mero sátiro! Não fazia sentido ele morrer assim tão fácil. Nenhum deles fazia sentido. A vida não fazia sentido.

Gritei tentando esbravejar toda a minha dor no grito. Mas era impossível, a dor era imensa e por mais que eu tentasse, meus pulmões tinham limite. E o horror do que acontecia ao meu redor parecia prensar meus pulmões, tirando deles cada fragmento de ar possível. Como se a tristeza e o desespero quisessem me matar, já que seja lá o que matou meus amigos não havia conseguido.

Estava completamente desesperado, rodeado pelo nada e pelo silêncio. Estava tão desesperado e angustiado que nem me toquei que algo mais estava errado. Onde estavam os outros? Calon e os demais. Onde estavam os corpos que vi antes? Porquê a empatia com Percy não estava funcionando como deveria? Ou melhor, funcionava de certa forma, mas sentia também angústia e desespero, não a morte. Continuei a gritar, sentindo minha garganta rasgar a cada grito. Gritei tanto pelos nomes de cada um de meus amigos e por ajuda, que não notei a fraca voz de Calon falando algo, vinda de algum lugar.

Notas finais
favor não entrem em desespero nem desistam de mim kkk