Os Deuses da Mitologia
171 APOLO - A Escuridão nas Ruínas Milenares
Notas iniciais

APOLO
Não foi fácil chegar até Luxor. Eu, divino e tudo mais, estava tenso, com certeza com olhos esbugalhados, talvez com o corpo sujo de suor misturado com a água da chuva que continuava caindo como se o Saara repentinamente decidida ter virado uma floresta tropical. As lutas para chegar até aqui não foram fáceis, e isso provavelmente estava óbvio em meu rosto.
Nem tive tempo de sair da minha carruagem, no momento, um ônibus, para ver o tal Templo de Hatshepsut que a gente estava. Eu estava cheio de feridos para tomar conta, o cheiro metálico de sangue já impregnando o ar, dentre eles Will. Deixei então para Sadie, Anúbis e Ereshkigal criarem nossa base ali, com escudo de proteção mágico e tudo, para impedir que aqueles Rabisu idiotas continuassem nos atacando. Eles já haviam feito vítimas demais, e agora elas eram um problema meu. Leo era vítima dos Ajoguns, não dos Rabisu, mas ainda estava desacordado. E pela cara esperar era a única coisa que eu poderia fazer por ele agora, o que me corroía por dentro. Então eu me preocupava, com o coração batendo acelerado, rápido demais, completamente desesperado, em curar ao mesmo tempo Noor e Will.
Minhas mãos estavam sujas de sangue de ambos, quentes, escorregadias, o brilho da cura mal passava pelo sangue que se acumulava. Apesar da minha preocupação de pai, quem estava em pior situação era Noor. Will ainda resmungava nomes e palavras que eu mal entendia, mas Noor havia apagado completamente e estava sangrando muito, tão silenciosa que aquilo me aterrorizava mais do que qualquer grito. Minha cabeça já estava latejando enquanto eu me forçava a usar o máximo de poder que tinha ali para curar os dois, ou melhor… os três… conforme senti rapidamente quando havia começado, sei lá quantos minutos antes, a curar Noor. Fechei os olhos me concentrando, não queria nem pensar no tanto de gente no fundo do ônibus também precisando de cura enquanto só eu estava lá para cuidar de todos.
Eu tentava me apegar à aquelas três vidas. Will, a mais forte entre elas. E logo voltei minha atenção para Noor quando senti que tudo o que Will precisava era de um tempo para acordar. Eu queria deixar Will 100%, mas sentia uma demanda maior em Noor e o peso das duas vidas nas minhas mãos. Dei tudo de mim, o ônibus brilhava ardentemente como se um pedaço do sol estivesse ali. Mas ainda assim, as lágrimas em meu olhar se acumulavam enquanto eu sentia aquela mais fraca, tão nova, um mero sopro de vida, começar a sumir, escorrendo por entre meus dedos apesar de todo o meu esforço. Aquela coisa horrenda, Lamashtu, tinha feito um estrago grande demais não só em Noor, mas também naquele pequeno ser que ela carregava.
Aquela pequena vida então sumiu, de forma abrupta e cruel, sem deixar nada pra trás além de eu fungando com lágrimas escorrendo. Foi nessa hora também que a voz de Will me tirou da minha concentração:
— Pai?
— Hey… — respondi sentindo a voz pesada e o nariz entupido, cada palavra saindo como se tivesse atravessado vidro quebrado, desde quando eu era tão emotivo?
— A Noor tá bem? — perguntou ele preocupado se sobressaindo com minha reação.
— Vai ficar… acho… — respondi engolindo as lágrimas pela vida perdida, me perguntando se Noor chegou a saber que não estava sozinha, se aquela pequena vida que se foi sentiu, nem que fosse por um instante, que alguém lutou por ela até o fim — É outra coisa… Deixa pra lá. Como você se sente?
— Como se tivesse sido atropelado por um caminhão. — respondeu ele embora ainda me encarasse tentando entender.
— Foi um pouco menos tecnológico e mais mitológico do que isso. — respondi — Consegue me ajudar com os feridos? Mas sem exagerar também.
— Consigo… consigo.. nem que depois de um ou dois seja no bom e velho primeiros socorros. — respondeu ele — Você consegue cuidar da Noor?
— Consigo. Deixa ela comigo. Veja os demais por favor. — pedi.
Ele lentamente se levantou e foi tratar do resto de feridos que resmungavam ou já tinham até dado seu último suspiro, corpos imóveis que eu evitava encarar por tempo demais. Mas a escolha de começar por Noor e Will foi minha. E as escolhas de um médico geralmente não são fáceis. Não era uma situação boa, não mesmo. Até mesmo Leo lentamente abrindo os olhos não havia sido uma notícia boa o suficiente, não depois do que já tínhamos perdido. Os magos mortos me lembravam do resto do pessoal ainda nos barcos, seguindo o Nilo, ou espalhados pelo mundo indo para o Egito. Eu torcia para que ninguém mais morresse.
Estávamos exaustos, com mais feridos do que conseguíamos tratar e o resto de nós ainda estava muito ao sul, tentando chegar até ali sem aumentar demais a lista de feridos.
Então, de trás de mim, chegou Sadie.
— Ereshkigal foi ajudar o resto do pessoal e Anúbis está cuidando da barreira e ficando de olho em tudo. — explicou ela — Ajudo em algo aqui?
— Ajude Will. — pedi, ainda focado em Noor, incapaz de me afastar dela por mais de um segundo.
— É pra já. — falou ela.
Assim, ficamos nós três ali, naquele hospital improvisado que cada vez mais parecia ter saído de um filme de terror e obviamente afetava o nosso humor, marcando cada um de nós de um jeito silencioso que não iria embora tão cedo.
A gente precisava de uma vitória, mas parece que todo mundo chegar em Luxor já era pedir demais. E ainda tinha que lembrar que o destino final era o Cairo, ainda longe demais pro meu gosto. Ainda assim, senti uma pequena grama de alívio, do tamanho da semente de uma azeitona, quando notei que no fundo do ônibus havia feridos que já estavam bem o suficiente para cuidar dos demais.
Quando o céu ficou laranja, parte dos magos estava do lado de fora do ônibus, esperando novidades que não vinham e esticando as pernas. Ninguém conversava muito. Era mais fácil ficar calado. Leo também estava lá fora, esperando o resto do pessoal. Sadie e Will ainda estavam ali comigo, ajudando os casos restantes, quando Noor acordou, um movimento pequeno, cansado e sofrido.
— Hey. — disse lentamente, com medo de assustá-la — Você está segura. Estamos no Templo.
— Hey Noor. — disse Sadie delicadamente ao se aproximar de nós — Como está se sentindo?
— Horrível... — respondeu ela soando muito fraca, mas me olhando intensamente, com um olhar de quem já sabe a resposta antes de perguntar — Você que me curou, certo?
— Eu mesmo. — respondi, suspirando, sem saber se aquilo soava como orgulho ou culpa ou sei lá — Sadie... pode me deixar falar com ela a sós?
— Ah? Por q — Sadie começou à falar, mas eu a interrompi.
— Por favor — repeti, encarando-a mais firme, porque eu não conseguiria dizer aquilo com plateia.
Não sei que emoção ler no rosto de Sadie, mas ela atendeu ao pedido. Enquanto isso, no rosto de Noor, parecia que ela já sabia o que eu iria falar. Parece que eu não era o único que sabia da existência daquele bebê. As lágrimas já se acumulavam no rosto dela, mas ela ainda não chorava. Estava se segurando.
— O bebê? — perguntou ela com a voz , sempre firme, dessa vez quebrando como caco de vidro mesmo em meio aos sussurros de nossa conversa.
— Dei meu melhor, mas… — para um pouco para respirar, mas era muito difícil — O ataque.. Não tinha muito que eu pudesse fazer. Era praticamente uma maldição, me desculpe. Você está bem, parecia específica para atingir mais o bebê. Mas eu sei que queria que eu trouxesse notícias melhores.
Silenciosamente, ela colocou o braço sobre o rosto e começou à chorar. Sem som no começo. Só o corpo tremendo. Mais longe, quase sentia o olhar pesado dos demais que viam a cena, mas não ouviam nem entendiam o motivo das lágrimas e dor. Fiquei ali com ela, torcendo para minha presença ajudar de alguma forma mesmo que minúscula. Depois de algum tempo, com a voz embargada, ela disse.
— Não conte a ninguém.
— Não vou. — prometi.
— Tudo bem aí? — perguntou Will enquanto Noor se encolhia ficando de costas para mim.
— Não… — respondi — Mas não tem muito o que fazer…
Não foi a melhor coisa para se dizer. Noor se encolheu mais ainda, como se tivesse levado outro golpe, e Will e Sadie se levantaram, ameaçando ir para mais perto de nós. Indiquei com a mão para eles esperarem, não sei se Noor estava pronta para tanta gente assim, chutaria que não. Numa tentativa de ajudar, coloquei a mão delicadamente no ombro dela e ela imediatamente se mexeu, empurrando minha mão para longe enquanto continuava enrolada como uma bola. A mensagem era clara, ela queria ficar sozinha. Mais tarde tentaria acalmar os ânimos dela novamente, como se tivesse alguma coisa que eu conseguisse fazer para preencher o vazio sem fundo que deveria assolar o peito dela, mas não achava bom deixar ela muitas horas sozinha embora talvez aquela solidão inicial fosse bem vinda para digerir os acontecimentos.
Me levantei, deixando Noor sozinha e indo ao encontro de Will e Sadie, que descabelados, cansados, com olheiras nas olheiras e sujos de sangue, tentavam entender o que acontecia.
— O que aconteceu? — perguntou Sadie.
— Não posso falar. — respondi — Mas fiquem de olho nela às vezes ok?
— Algo grave que tenho que ficar de olho? — perguntou Will, pensando como um médico.
— Não… Só… Só ter certeza que ela não vai ficar emocionalmente pior. — respondi, tentando evitar o verdadeiro motivo do estado de Noor enquanto também me perguntava silenciosamente quem era o pai — Alguém mais precisando de cura?
— Acho que não. — respondeu Will — O que dava para curarmos, curamos. Ainda tem alguns arranhões e hematomas, mas nada muito grave. Agora o que todos precisam é descanso, comida e água. Mas perdemos quatro magos.
Ninguém respondeu. Não havia o que responder.
Se a ideia era fazer um minuto de silêncio, ele logo se tornou horas de silêncio. Todos estavam cansados, física e mentalmente. Em certo ponto, Sadie saiu do ônibus e voltou com Anúbis. Silenciosamente, eles começaram a tirar os mortos de dentro do ônibus. Como eram quatro, não era algo que eles conseguiriam resolver em uma viagem só. Sem falar nada, eu e Will fomos ajudar e saímos também pela primeira vez de dentro do ônibus desde que chegamos. A chuva ainda caía, mas o caminho até o templo era perfeitamente asfaltado com pedras de tamanhos diferentes que não destoavam da arquitetura do Antigo Egípcio. O templo também tinha várias salas perfeitamente cobertas, perfeitas para se esconder da chuva, e era lá onde aqueles, como Leo, que já haviam saído do ônibus estavam.
O templo tinha uma grande escadaria central e dos níveis. Nas salas à esquerda, o pessoal estava reunido, descansando. Nas da direita, vi o cetro de Anúbis brilhando e dele saindo uma luz que atravessava o teto até se conectar com a redoma mágica que nos protegia. Foi também para esse cômodo do templo que nós fomos sem trocar uma palavra, e com Anúbis indo na frente.
Notei que as paredes da sala estavam repletas de imagens de Anúbis também, acho que foi justamente por isso que deitamos ali os mortos, na sala dedicada ao deus responsável por eles. Fomos reunindo os mortos ali, lentamente e em silêncio, antes que eu notasse, os vivos começaram a se reunir na entrada da sala, bem no limite da chuva. Os magos silenciosamente pareciam se despedir daqueles que partiam, enquanto Anúbis surgiu com uma tacinha com incenso em pó para cada corpo de sei lá onde. Ele acendeu o incenso para cada um e o cheiro doce e relaxante logo começou a encher o pequeno cômodo. Ao meu redor, os outros magos começaram a murmurar as mais diversas coisas nas mais diversas línguas, preces, mensagens, nomes… era uma cena triste de se ver. Ainda assim, Anúbis continuava trabalhando como se tivesse feito aquilo um milhão de vezes, e de fato tinha.
As palavras murmuradas continuaram tal como Anúbis arrumando aquele funeral improvisado. Em adição aos incensos, ele também começou a secar com um pano, provavelmente de linho, que ele mesmo conjurou, a água da chuva que havia molhado cada corpo pelo caminho. Depois disso, os corpos foram cobertos com um pano bem grande com apenas o rosto para fora. E então ele ficou no cantinho, deixando os magos, que com certeza conheciam os mortos, lidarem com o luto e chegarem perto dos corpos para se despedirem. Fazia tudo com a naturalidade de quem tinha a morte como trabalho a uns 5 mil anos.
Então minha cabeça ligou os pontos de um pequeno detalhe, e discretamente abri caminho para onde Anúbis estava. Sadie estava logo ao lado, então eu teria que ser discreto se quisesse cochichar sem ela ouvir.
— Você… — arrisquei um sussurro no bom e velho grego antigo depois de conferir que Will e Leo estavam bem longe, mas parei um pouco para olhar ao redor e ter certeza que ninguém entenderia nossa conversa.
— Eu… — respondeu Anúbis em grego antigo e em voz baixa também, me encarando com o canto do olho.
— Que foi? Sobre o que estão falando? — cochichou Sadie, mas a ignorei completamente.
— Você… provavelmente deve ter percebido… a Noor… e… — continuei, sem querer falar demais caso ele não tivesse percebido a morte que aconteceu ali. Não podia contar que os magos talvez não soubessem algum grego, mas todos pareciam focados no pequeno funeral.
— Estão falando da Noor? Eu ouvi o nome dela aí no meio. — respondeu Sadie.
— Você tem que aprender a ser mais discreto. — respondeu Anúbis, ainda em grego, também ignorando a curiosidade da namorada — Sim. Eu sei do bebê.
— Só queria pedir para que não conte para ninguém… Ela me pediu. — expliquei.
— Não precisava ter pedido. — respondeu ele, suspirando lentamente, aparentava mais cansado do que eu jamais havia o visto, mas também nunca tinha o visto mortal, então acho que a conta fecha — Eu sei que certas coisas não devem ser contadas por qualquer um.
— Vão mesmo me deixar excluída da conversa? — perguntou Sadie.
— Sim. Desculpe. — respondeu ele, segurando a mão dela com um sorriso fraco de quem pedia desculpas por algo fora do seu alcance.
— Sabe quem é o pai? — perguntei de novo em grego, deixando minha curiosidade escapar.
— De novo, certas coisas não devem ser contadas por qualquer um. — respondeu ele em grego.
— Ah… Você pelo visto não tá tão inútil assim agora que está mortal se sabe disso… — respondi, em inglês mesmo.
— Era parte do pedido. — respondeu ele.
— Como estão suas mãos? — perguntou Sadie.
— Mãos? — perguntei confuso.
— Fazer uma barreira desse tamanho, usando a energia divina pura da minha capela foi um pouco demais pra esse corpo mortal. — disse ele com um suspiro e erguendo as palmas das mãos, levemente vermelhas — Ela já curou o suficiente.
— Sério? O que foi isso? O cetro? — perguntei — Tome cuidado da próxima. Já estou com feridos demais.
Sem mais assunto e sem querer tirar o foco daquele momento solene, ficamos em silêncio novamente. Foi no meio desse nosso pequeno funeral que, no horizonte que ficava cada vez mais envolto pela noite, vimos o resto do pessoal se aproximando finalmente. Não havia como eles chegarem muito perto com barcos, mesmo considerando que o nível do Nilo deveria ter ficado mais alto com toda aquela chuva, mas era justamente por isso que havíamos deixado no barco a carruagem francesa que Will e os outros conseguiram em Paris. Também vi Ereshkigal se aproximando, voando, apressadamente carregando alguém nos braços. Mais um mago em estado crítico.
Nosso funeral improvisado então mudou, foi quase completamente interrompido e virou uma recepção ao resto do grupo. Estávamos sim felizes de ver as pessoas que nos importam, tal como Will e Nico se abraçando e trocando um beijo provava, ou Sadie abraçando Carter. Mas o foco principal foi na nova safra de feridos.
Quando a gente ia acomodando os feridos na nova enfermaria, agora no Templo de Hatshepsut, eu notei Noor se encolhendo na porta do ônibus. Amós correu até ela, e a abraçou em alívio de vê-la tão mais viva do que quando a tiramos do barco. Mas quando Noor puxou Amós pra dentro do ônibus vazio para conversarem, tive a certeza de que ele estava prestes a ouvir uma notícia ruim, e que eu tinha descoberto quem era o pai do bebê.
Como eles com certeza iriam precisar de um tempo e eu tinha agora mais feridos para tomar conta, ignorei o ônibus e segui indo, de ferido em ferido. Quando a situação se aquietou um pouco mais, felizmente sem nenhum morto a mais embora eu tenha ouvido falar de um mago que havia caído morto no Nilo, já estava noite.
Assim, cuidando dos feridos, comendo, descansando e conversando desanimadamente, as horas foram passando e as pessoas iam dormir. A noite anterior tinha sido muitíssimo mal dormida e tínhamos que ficar prontos pois não havia tempo à perder. Amanhã acabaríamos Luxor com tudo, indo em cada um dos cinco obeliscos espalhados pela cidade. Pelo menos a maioria estava no mesmo lugar, o Templo de Karnak.
E assim, quando faltava uma hora para o sol nascer, lá estávamos nós… prontos para ir para a cidade de Luxor de fato e deixar para trás aquela área cheia de ruínas e pequenas fazendas construídas na pouca margem de terra fértil. Eram cinco obeliscos em três lugares diferentes.
Perto da grande escadaria do templo, que já tinha a muito virado mais uma cachoeira, me reuní com o meu grupo que se preparava para partir. Eu, Festus, Leo, Calipso, Alex, Paulo, Will, Nico, Drew e Zia iríamos resolver os três obeliscos em Karnak. Era a nossa maior preocupação. Amós, Iara, André, Sam e Magnus iriam para o obelisco solitário no Museu de Luxor. Sadie, Carter, Ereshkigal, Bastet e Meg iriam para o Templo de Luxor onde havia também um único obelisco. Um grupo de magos também iria nos ajudar com o transporte nos barcos para cada uma das três paradas.
— Não me diga que você convenceu Ereshkigal à ir no meu grupo só porquê você vai ficar aqui cuidando do templo? — perguntou Sadie para Anúbis.
— Não vou dizer então. — respondeu ele.
— Ninazu vai ficar aqui no Templo de Hatshepsut também para ajudar caso algo aconteça. — respondeu Ereshkigal.
— Muitos feridos vão ficar por aqui. — respondeu Ninazu.
— Nenhuma novidade de Hades? — perguntou Will.
— Ele tinha dito que tentaria vir… — disse Nico incerto, olhando para Anúbis, que simplesmente deu de ombros.
— Lembrem-se… — disse Carter, talvez notando as olheiras profundas e completo desânimo em Amós — Tomem cuidado. O pessoal de Karnak está mais perto da nossa base improvisada, mas vocês também têm mais obeliscos para resolver. Tomem cuidado. Não resolvam as coisas com pressa. O templo de Hatshepsut tem uma visão boa da cidade de Luxor, Anúbis e Ninazu vão conseguir saber quantos obeliscos resolvemos quando a magia cortar o céus e, pela posição, quais obeliscos foram resolvido.
— Com exceção dos de Karnak, que ficam um muito perto do outro então não dá pra saber bem qual é qual. — completou Zia.
— Sim. Se eles acharem que está demorando muito para resolver, e por demorando muito eu quero dizer… — disse Carter deixando a frase no ar para Anúbis e Ninazu completarem a frase como um professor testando o conhecimento dos alunos.
— 9 horas da manhã ou caso os outros tenham resolvido à muito. — respondeu Ninazu.
— Isso. — confirmou Carter — Nessa situação vão mandar alguém para ajudar onde suspeitam que algo esteja errado. Só de preferência não o Anúbis porque a gente precisa dele aqui pra barreira durar melhor.
— Eu vou. Não se preocupe. — garantiu Ninazu.
— Alguns dos magos que ainda conseguem lutar vão ficar com vocês também. — lembrou Zia.
— Vamos. Não podemos demorar muito mais. — disse Sam.
Deixamos a proteção do Templo para trás e fomos em direção à chuva e à carruagem francesa. Minha carruagem ficaria para trás, para dar ao pessoal que ficaria no templo uma chance de fuga em caso necessitem. Nossos barcos deixamos escondidos e assim partimos para o Nilo de novo, em meio à escuridão.
A parada no Templo de Karnak foi a primeira. Assim, descemos eu, Festus, Leo, Calipso, Paulo, Alex, Will, Nico, Drew e Zia. Ninguém falou nada quando os pés tocaram o chão e meu coração parecia que estava na garganta. Descer do barco e ir em direção à Karnak foi fácil apesar da escuridão, afinal o templo sempre teve acesso pelo Nilo. Não era por isso que eu estava nervoso. O problema era entrar no templo e chegar até os três obeliscos, todos bem pra dentro do templo. E claro, obviamente, o templo absurdamente gigantesco. Mas era ainda pior, Karnak era o maior local religioso do mundo até hoje pelo o que Carter havia falado mais cedo. E pra piorar, era difícil entrar na surdina quando se tinha um dragão robô no grupo, mas a gente ia tentar ainda assim. Pra piorar triplamente, quando olhei pro céu sobre o templo, e notei os rabisu voando, prontos para trazer problemas pra gente de novo.
O templo de Karnak tinha um grande, imenso, absurdo de imenso (porque tudo que o Egito fazia era imenso) corredor que ia até sua parte mais profunda. Esse corredor era cercado dos mais variados tipos de construções e estátuas. Mas o começo dele era um grande muro milenar e absurdo de grande, que agora encaravámos, imóvel havia milhares de anos. Esse muro de vários e vários metros era cortado ao meio pelo corredor central gigante do templo. Iríamos dar a volta, pular o pequeno muro moderno, que impedia os turistas de entrar por onde não deviam e ficava logo ao lado do muro-gigante-tatatatatataravô. Assim evitaríamos o corredor central e chegaríamos até os obeliscos no fundo, porque o tempo foi cruel ainda assim, e muitos dos muros e paredes laterais já não existiam mais. Então dar a volta era totalmente possível. Sem falar que seria loucura entrar pelo portal principal como se a gente fosse convidados, pois, pra piorar quartamente, tinha também três blemmyae de guarda. Eu não estava com saudade deles.
— Já vi que isso não vai ser muito fácil. — sussurrou Calypso enquanto nos escondíamos atrás do muro moderno mais externo, enquanto estudávamos nosso caminho através das grades do mesmo muro onde nos escondemos — Não estava com saudade desses blemmyae…
— Eu to vendo direito ou eles… não tem cabeça? — perguntou Zia.
— É. — confirmei — A cara fica no torso. Eles são bem fortes, de força bruta mesmo, e resistentes à doença… e extremamente educados…
— Ainda tô tentando digerir o quanto absurdamente velha as coisas aqui são… — sussurrou Leo, falando tão baixo que mal dava para ouvir — Annabeth vai ficar louca quando chegar aqui.
— Com certeza. — respondeu Will — Pena que acho que só vamos encontrar com eles já no Cairo. Tem arquitetura legal lá?
— Tem as pirâmides… — respondeu Calipso — Ainda mais velhas que aqui. Mas ainda assim, Karnak é muito velho também. O Egito é muito velho.
— Eles ficavam chamando a gente de criança… — resmunguei, talvez com a voz um pouco demais perto da de uma criança mesmo.
— Tadinho… — respondeu Zia com um tanto de sarcasmo na voz, eu só revirei o olhar — Enfim, como vamos chegar naquele muro com o Festus sem eles perceberem?
— Amigão… voa para aquelas árvores ali e espera a gente por lá. Antes que o sol nasça. — sussurrou Leo apontando para a forma das árvores que começavam a ser vistas pelo sol começando a nascer — Elas parecem estar depois do muro. Toma cuidado e espera a gente lá. Vamos o mais rápido possível. E não voe muito baixo e nem muito alto.
Festus afirmou com a cabeça, e ficamos tensos vendo ele abrir as asas para levantar voo. O movimento pareceu enorme comparado ao silêncio que tínhamos que fazer. Me sentia vendo um avião inteiro preparando para decolar. Cada creck! do metal era um descompasso no nosso coração. As árvores sacudiram quando ele pousou, mas dos blemmyae, só ouvimos conversas irrelevantes.
Nós também tínhamos que aproveitar o resto da escuridão, então pulamos o primeiro muro, felizmente com uma parte até mais baixa que nós, e corremos na ponta dos pés para o segundo muro, cada passo calculado para não fazer eco. O segundo muro seria mais difícil, iríamos precisar escalá-lo, mas ele era irregular o suficiente para isso, desde que ninguém escorregasse. Mais à direita, o muro antigo se erguia tão alto quanto um prédio, zombando da irregularidade e pequinês do muro que iríamos escalar.
Os blemmyae seguiam conversando no portal de entrada, a voz tão perto que me dava uma agonia extrema e desespero de estar logo do outro lado do muro e fora do alcance da visão deles. A gente nem ousava abrir a boca. A brisa da noite dava a impressão de que qualquer sussurro seria um grito. Era só os blemmyae olharem pro lado, que eles nos veriam. Eu sentia o suor frio escorrer pelas costas, confirmando que deuses suam sim. A única coisa nos protegendo agora era a sombra do muro, e ela estava encolhendo.
Nico foi o primeiro a passar pelo muro, e então Zia, Will, Paulo, Calipso, eu. Quando o céu já estava laranja, só faltava Drew passar, foi aí que um tijolo sobre o qual ela se apoiava se soltou. Drew caiu. A altura não era um problema, foi uma queda baixa, o problema foi o barulho do tijolo caindo e se espatifando no chão e então dela mesma caindo, um som seco, impossível de ignorar.
— O que foi isso? — ouvi um dos blemmyae perguntar, a conversa cessando de imediato.
— Vem. Vem. Vem. — falei apressadamente em voz baixa de cima do muro enquanto o resto do pessoal me olhavam tensos do outro lado do muro.
Meu coração batia tão rápido quanto uma bateria de Carnaval no Rio de Janeiro (inclusive, recomendo) enquanto Drew voltava a subir, agora com um apoio a menos para os pés. Os blemmyae em questão de segundos iria olhar para o lado certo de onde vinha o barulho, então agarrei a mão de Drew e a puxei para cima do muro. Mas eu esqueci da física. Eu ia cada vez mais para trás ajudando ela apressadamente a subir, sentindo o equilíbrio escapar, até que chegou um ponto que eu e ela caímos para trás, juntos,com a certeza absoluta de que faríamos barulho demais e talvez até nos machucaríamos.
Num segundo eu via que íamos cair, no outro eu via Leo, Will e Paulo prontos para nos segurar, com os olhos arregalados e os músculos travados, e quando eu achei que ouviria o som da minha bunda caindo dolorosamente em cima dos três, ecoando pelo templo inteiro, uma música etérea explodiu por Karnak.
Não era bem uma música, mas também não dava pra falar que não era uma música. Parecia uma oração em árabe sendo ecoada aos céus, e impedindo completamente a gente de ouvir os blemmyae, ou o oposto.
Ainda assim, eu e Drew caímos dolorosamente em cima de Leo, Will e Paulo, que caíram ao chão também. A queda completamente abafada pela oração. Minha bunda doeu, mas sendo uma bunda devidamente divina, acho que posso dizer que a dos outros doeu mais.
— Ai! O que é esse som? — perguntou Drew, com cara de dor e massageando o cotovelo, agora ralado.
— Seja lá o que for, acabou de salvar nossa vida! — exclamou Alex.
— É o chamado para fazer a primeira reza do dia. — respondeu Zia, olhando para o céu, tensa, mas aliviada — Porquê o sol está nascendo.
— Eles não devem ter ouvido a gente então. — respondeu Will me empurrando de cima dele para o chão enquanto Drew se levantava e batia a areia da roupa — Eu nem consigo ouvir meus próprios pensamentos.
— Ele só dura no máximo 2 ou 3 minutos na maioria das vezes! — disse Zia — Vamos aproveitar pra chegar mais perto!
Sem tempo para as bundas se recuperarem da queda, seguimos em frente, andando o mais rápido que ousávamos em meio ao medo de dar de cada com um blemmyae aleatório. E o cara do alto falante vindo de sei lá onde continuava sua recitação. Pela cara, ironicamente, seríamos salvos por Allah.
Para ficar de cara nos primeiros obeliscos, só tínhamos que passar por um grande muro milenar que se estendia por vários metros à nossa direita, usando sua sombra como escudo, acompanhando as palavras ecoadas pelo alto falante e tomando cuidado com os segundos de silêncio entre uma frase e outra. Mas esse grande muro milenar tinha alguns portais de entrada para um grande salão em Karnak. E foi bem em uma dessas entradas, enquanto andávamos apressadamente se aproveitando das últimas sombras, que demos de cara com um blemmyae.
— Ei! — exclamou o blemmyae — Bom dia! Vocês não são bem vindos aqui.
— Você está com muito sono por causa do turno da noite! — exclamou Drew, que pensou rápido e rapidamente se colocou na frente de todo mundo — Vai achar uma pedra qualquer para dormir e perceber que a gente aqui foi só um sonho.
— Estou com muito sono por causa do turno da noite… — repetiu o blemmyae, a voz ficando mais lenta, olhando ao redor até ver o amontoado de pedras espalhados à nossa esquerda como uma reconstrução de ruínas em que haviam encontrado só 10% das pedras que compunham as paredes.
Ele então pegou a pedra de tamanho mais parecido com uma cama, se deitou e roncou. E nós, que não tínhamos tempo a perder, simplesmente checamos se não havia outro blemmyae saindo de surpresa pelo portal, com o coração ainda na garganta pela sorte que estávamos dando até então. E então continuamos apressadamente nosso caminho.
Repentinamente, o cara parou de cantar sua música-oração, o silêncio voltou pesado, então voltamos à ir mais devagar. Enquanto tinha quase certeza que o Egito inteiro ouvia meu coração batendo, dei uma última olhada para o blemmyae que dormia para certificar de que ele não seria um problema. Ele não se mexeu. Mas sinceramente, tenho lá minhas dúvidas se um a mais fazia diferença, pois quando o grande muro à nossa direita terminou, demos de cada com um outro corredor que se encontrava com o corredor central. E bem no centro dele, onde os dois corredores se encontravam, lá estava ele, o primeiro do obelisco. E mais à esquerda, atrás de um muro que estava mais destruído do que inteiro, estava o segundo o obelisco.
Os dois estavam muito perto um do outro. O suficiente para lidarmos com os dois ao mesmo tempo, se Calipso conseguisse se aventurar com sucesso pelas magias egípcias no lugar de Noor, que não pode vir com a gente tal como inicialmente planejado. Os problemas, primeiro era que era justamente logo em cima dos dois obeliscos que os rabisu estavam voando, e segundo ao redor dos dois obeliscos haviam 8 blemmyae.
— São oito… — sussurrou Leo.
— Com certeza deve ter mais blemmyae escondido julgando pelos os que vimos no caminho. — lembrou Calipso aos sussurros também.
— Não vai ser fácil. — eu disse, sentindo que um espirro poderia soar o alarme por todo o Templo de Karnak e seja lá o que mais estiver ali escondido.
— Ainda bem que viemos sabendo disso. — respondeu Nico.
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