Notas iniciais
bem vindos a mais um cap, espero q gostem. :) no momento, estão nas AMÉRICAS os grupinhos: — Nova Roma: Frank, Lavínia, Hazel, Annabeth, Kayla, Grover, Percy, Piper, — NY: Cléo, Austin e, Rachel — Indo pra Nigéria: Carter, Zia, Paulo, Drew — Indo para a Nigéria: Leo, Calipso,Magnus, Jacques, Alex, Festus, André (Brasileiro que tava na Nigéria e não sabe jogar futebol), Meg e Apolo no momento, estão na AFRICA, os grupinhos: — Nigéria : Olujime no momento, os grupos que estão na EUROPA são: — Indo para a Itália: Caçadoras de Ártemis (Thalia, Ártemis, etc), Clarisse, Reyna, Ciara — Indo para Inglaterra: Blitzen, Hearthstone, Mestiço, Mallory — Turquia: Sam, Anúbis, Sadie, Will, Nico — Alemanha: Maias-Astecas: Victoria, Micaela (a menina q parece Annabeth) e Eduardo (guri chato que o Mestiço deve estar querendo esganar)

ANUBIS

No beco onde aquele café do gênio Kudret se escondia, aparentemente havia algo que poderia ser chamado de garagem, mas que provavelmente um dia foi um estábulo. Antes de começarmos nossa longa história, lembramos que talvez não seria uma boa deixar a carruagem de Ankou assim, largada do lado de fora para dedurar onde estávamos. Então Kudret, Sadie e eu fomos para o lado de fora para instruir o cocheiro a estacionar a carruagem no “estacionamento-ex-estábulo” de Kudret enquanto o resto do pessoal ficava no café.

Na parte final do beco, Kudret abriu um portão de ferro com vários detalhes de aparência cara mas com placas de ferro não muito elegantes logo atrás para esconder o que havia do lado de dentro. Dentro, havia um estábulo medieval pequeno e coberto. Havia espaço suficiente para a carruagem, então deixamos ela lá e voltamos para o café.

Nos sentamos com os demais nos sofás vermelhos do café e Kudret acendeu a pequena fogueira que havia logo abaixo do balcão dele e o fogo aqueceu a areia logo em cima. Com o calor da areia, ele começou a preparar o tradicional café turco enquanto gastávamos vários minutos contando tudo o que havia acontecido e nos apresentando apropriadamente, como ele tinha pedido. Foi uma longa história, e ele era um bom ouvinte. Praticamente nem interrompia, só servia mais café e docinhos e petiscos turcos variados.

— Então… — disse Sam, que fez boa parte da explicação — Por isso que estamos aqui… Aparentemente temos que pedir para um gênio a chave do feitiço, o deus ajudar e onde está aquele que com salmão o dedo queimou.

— A melhor conclusão que chegamos é que o cara que queimou o dedo com salmão é um tal de Finn MacCool. E que o deus pra ajudar é… — disse Sadie olhando para mim.

— Você? — perguntou Kudret — O que está precisando de ajuda?

— Alguém ou algo para me transformar em mortal. — respondi e Kudret me olhou como se estivesse louco.

— Virar mortal? Tem certeza? — perguntou ele, claramente incrédulo — Geralmente as pessoas vêm até aqui pedindo literalmente o oposto disso.

— Tenho certeza. — disse, com um nó apertado no meu peito… certeza não queria dizer falta de aflição — 5123 anos é tempo demais.

— Com certeza é bastante tempo, mas… tem certeza? — perguntou Kudret, ainda descrente e eu senti a mão de Sadie discretamente sendo pousada na minha coxa como se quisesse também perguntar se eu tinha certeza.

— Tenho. — respondi de novo.

— Então tá… — disse Kudret, dando de ombros — Tornar você mortal, onde está Finn MacCool e chave de que?

— Chave do feitiço. — disse Will.

— Deve ser o que desfaz as magias das pirâmides né? — perguntou Nico — Afinal já resolvemos o dos obeliscos.

— Três pedidos… — disse Sadie — São três como nos filmes né?

— Sim. — respondeu Kudret.

— Mas tem um detalhe… — falei — Vamos ter que explicar direitinho o que queremos para você não sair arrumando outras interpretações para evitar fazer o que pedimos?

— Sei que gênios têm fama de traiçoeiros… — disse Kudret, colocando a mão sobre o peito — Mas não faria isso. Como vou conseguir novos clientes se não entregar um serviço de qualidade?

— Uhum.. — resmunguei, não acreditando na palavra dele.

— Mas obviamente não faço os pedidos de graça… — falou Kudret.

— Tinha que ter algo… — resmungou Nico soltando um suspiro pesado.

— Qual seu preço? — perguntou Sam e Kudret começou a abrir um sorrisinho nada animador.

— A Pena da Verdade. — disse ele com uma expressão irritante no rosto com aquele sorriso idiota.

— COMO É? — exclamei.

— Está com ela aí né? — perguntou ele — Ao menos foi o que ouvi falar… que ela fica com você.

— O que faz você achar que ela é sequer um preço que você pode pedir? — perguntou Sadie, claramente não gostando da ideia também.

— Eu peço o que eu quiser, tal como vocês pedem o que quiserem. — disse Kudret, dando de ombros.

— Peça outra coisa. — respondi.

— Não. — falou ele.

— Temos uma maça faltante… o sharur… — tentou Sam.

— Interessante mas… — disse Kudret lentamente — Não é A Pena da Verdade.

— O que você quer com ela? — questionei, nem um pouco calmo — Ela não é um brinquedo nem um item de troca!

Eu e Kudret nos encaramos por alguns segundos, o sorriso irritante dele não saía da cara dele. No final das contas, ele acabou por simplesmente dar de ombros antes de dar um pequeno gole a mais no café dele.

— Vocês que estão querendo salvar o mundo… — disse Kudret — e seja lá porque precisa ser mortal…

— Se não conseguirmos salvar o mundo, não tem garantia que você sairá vivo dessa confusão toda. — falou Nico.

— Perrengues da vida… — respondeu Kudret, dando de ombros casualmente.

Uma coisa era tentar usar os meus poucos contatos para arrumar alguma ajuda, como foi com Ankou e com Hades, mas entregar assim a Pena da Verdade, era outra coisa. Sam e Will ficaram tentando convencer Kudret a aceitar outra coisa, muito embora eles provavelmente nem soubessem o poder que a Pena da Verdade tinha. Sadie, que já conhecia a Pena muito bem, olhou para mim com olhos preocupados.

Como o lugar no café onde estávamos sentando era um sofá em C com uma mesa no meio e eu estava em uma ponta do sofá com Sadie logo ao lado, ela não conseguia sair dali sem eu sair primeiro. Ela me cutucou e indicou silenciosamente para que eu saísse, e o fiz.

— Já voltamos… — disse ela enquanto eu saía do caminho para que ela pudesse sair.

Ela agarrou minha mão e me puxou para o mais longe que dava sem sair do café e sem abrir nenhuma porta que Kudret possa não gostar. O que não era tão difícil pois uma área mais ao fundo do café era bem escondida, depois de virar a direita depois do balcão central onde a areia quente estava.

Ali havia várias lâmpadas circulares penduradas no teto deixando o café bem charmoso. Para um café só de aparências, ali era sem dúvida bem organizado e decorado. Ela então se sentou numa mesa de madeira embaixo de meia dúzia de lâmpadas coloridas, e suspirou antes de falar.

— Ignorando a parte de salvar o mundo… — disse ela — Tem certeza disso? Virar mortal e tudo mais… Pela cara é a última chance de trocar de ideia.

— 5 mil anos é de fato muito tempo, como já disse. — respondi, suspirando também — e não quero te fazer passar pela terrível alternativa de sugerir que você se torne imortal. Seria cruel demais, apesar de geralmente os mortais não notarem como a imortalidade pode ser uma maldição…

— Ver todos ao redor morrer certamente parece uma merda. — disse ela — Mas sua família é imortal…

— Eu sei… — respondi — Mas você não… Carter também não. Ou Nico, Will, Sam… Pode soar idiota e grudento, mas uma coisa boa dessa confusão toda é que acho que estou fazendo amigos.

— Own… é fofo… — respondeu ela apertando brevemente minha bochecha, mas logo soltou uma pequena risada — Zia não tá na lista? Um dia vocês dois vão se entender?

— Talvez. — falei, dando de ombros — Mas o fato é, você não é imortal. 5 mil anos é muito tempo. Julguei centenas de milhares de almas, e consequentemente vi centenas de milhares de pessoas morrer das mais diversas formas, vi o Egito ser conquistado por outros povos várias vezes e então cair… e virar um Egito que mal reconheço… vi deuses sumirem e até…

Minha voz travou, minha garganta ficou seca, não poderia, não conseguiria dizer aqueles nomes na minha cabeça nesse contexto. Ainda bem que Sadie entendeu, me poupando do esforço. Ela segurou na minha mão forte enquanto eu encarava o tampo decorado da mesa. Só tive consciência que minha visão estava embaçada por lágrimas quando, com a mão livre, ela gentilmente tocou meu queixo e virou meu rosto na direção dela.

— Desculpa… — resmunguei.

— Desculpa pelo o quê? Não tem coisa alguma para se desculpar!. — respondeu ela limpando as malditas lágrimas que deram uma escapada e eu logo controlei para não virem outras para deixar ela ainda mais preocupada.

Ela abaixou as mãos e entrelaçou uma das mãos dela na minha enquanto eu tirava alguns segundos para respirar. Desviei o olhar um pouco, sentindo a pressão da preocupação no olhar dela. Suspirei audivelmente depois de uns segundos e então olhei para ela novamente.

— Não estava com a intenção de deixar o clima pesado assim do nada. — falei.

— Acontece. — respondeu ela — Não faz bem deixar seus sentimentos assim, trancafiados pra não ter que lidar.

— Já tive bastante tempo para lidar com eles. — respondi — Acredite quando digo que não está tão ruim quanto uma vez esteve.

— Nisso eu acredito sim. — falou ela — Mas se quiser pensar em outra coisa por enquanto… antes de lidar com essa troca que ele está pedindo. Sei lá… desviar o assunto um pouco pra… Pra… o café.

— O café? — perguntei, sem entender.

— É… o que raios era aquilo? — perguntou ela — Café esquentado na areia?

— Café turco é assim. — expliquei, dando de ombros, gostando um pouco da troca de assunto, mas não querendo aceitá-la — Não precisa trocar de assunto por mim. É importante o que temos que falar apesar de tudo.

— Eu sei. — respondeu ela — Mas também é grande e delicado. Não é todo dia que se vira mortal.

— Mas o fato é… eu estou cansado, mais importante, eu quero ficar com você, mesmo que signifique morrer no final. — falei e ela corou levemente.

O rubor no rosto dela fez eu acabar por corar também um pouco. Ou talvez mais que um pouco. Ela sorriu um pouco mais e ficamos presos um segundo no olhar do outro. Os olhos dela pareciam brilhar como estrelas, e estava claramente feliz.

Nós dois pensamos na mesma coisa ao mesmo tempo. Um segundo estávamos nos olhando, no outro nos beijando. Não podia negar que estava com medo do que “virar mortal” podia prometer no futuro. Não sou idiota de achar que mortais tem vidas fáceis… vi muitos morrerem de fome, doenças e motivos bestas, ou lutarem para evitar essas coisas e demais problemas. Mas, naquele momento, parecia que tudo ia dar certo.

O beijo era doce, como sempre eram, mas parecia mais do que o normal. Parei por uns segundos, ou até menos que isso, para olhar naqueles olhos azuis como o céu que ela tinha, e vi um brilho novo ali. Como se por trás daquele olhar existisse uma promessa silenciosa. Me pergunto se nos meus olhos havia a mesma diferença. Parecia que foi ali, sem qualquer palavra dita, que ambos entenderam que eu iria sim ir até o fim nesse plano maluco de virar mortal.

Voltamos a nos beijar sem pensar muito nos problemas. Talvez já pensando no que viria no futuro, ou por simples e mera carência, minhas mãos se moveram instintivamente, uma encontrando sua cintura, puxando-a delicadamente para mais perto, mas as dela não ficaram para trás, logo uma das mãos dela se aninhava em meus cabelos.

Não sei quem deixou o beijo mais sedento primeiro… talvez tenha sido eu… Foram séculos demais sem algo a mais pra de repente ter… era difícil controlar. Mas com algum esforço me afastei delicadamente, antes que tivéssemos que encontrar um lugar ainda mais privado.

— Lembra que temos um acordo com essa parte… — resmunguei.

— Eu sei… — resmungou ela, parecendo segurar a risada — E você lembra? Parece que a amnésia tá mais do seu lado.

— Claro que lembro. — respondi.

— Uhum… — falou ela duvidando de minha palavra — De toda forma, antes você falou como um velho pronto para se aposentar.

Ela abriu um sorriso e segurou uma risada, e eu não pude evitar que um sorriso escapasse também.

— Sabia que não ia deixar de aproveitar a oportunidade de comentar isso. — falei.

— Certeza então que quer se aposentar vivendo como humano… — disse ela, notei que não era uma pergunta — Jeito estranho de querer se aposentar. É meio merda a vida como humano.

— Vai ser divertido. — falei.

— Se você diz… — falou ela — Você já pegou um pedaço do preview.

— Claramente meio caótico. — respondi — Mas, de toda forma, não vou trocar de ideia. Apesar do preço da Pena da Verdade não me agradar muito, vale a pena. Mas me preocupa o que ele quer fazer com a pena.

— Podemos tentar que algum deus ou sei lá fique de olho nele? — perguntou ela.

— Talvez… As chances são baixas, ainda mais se eu virar mortal. — expliquei.

— Não temos muitas escolhas… e ainda temos que salvar o mundo. — lembrou Sadie — Ainda não sabemos como desfazer as magias nas pirâmides, falhamos miseravelmente em impedir que eles façam as magias para começo de conversa. Se temos que perguntar sobre esse Finn McCool, e pelo o que diz as lendas, ele sabe de tudo se chupar o dedo, não conseguimos pegar mais informações com ele?

— Ainda teríamos que descobrir onde ele está. — respondi — Mas isso me faz pensar, o que precisamos perguntar pra ele então? Tenho alguns chutes mas… quais vão ser as pirâmides? Quando vão atacar cada uma delas? O que precisamos fazer e quanto tempo temos para fazer o que precisamos?

— Realmente tem muitas perguntas. — falou Sadie.

— E temos que ser específicos quando pedir as coisas para Kudret. — lembrei — Nem todos os gênios são traiçoeiros, de fato, mas a fama existe por motivo. E também, muitos eram adorados como deuses pelos árabes e agora não são mais, então pode existir um certo rancor no meio ainda.

— Isso então, no final das contas, é uma decisão de entregar de fato a Pena da Verdade? — perguntou ela.

— Infelizmente não vejo outra opção sem partir para coisas questionáveis e problemáticas… — admiti — Mas podemos tentar perguntar mais sobre o que ele quer com a pena.

— Então vamos lá. — disse ela, se levantando — Vou tentar arrancar dele.

Não duvidei nem por um momento que ela iria conseguir extrair de um ser de pelo menos 100x a idade dela a informação que ele não queria dar. Assim, curioso pelo show que viria em seguida, fui atrás dela de volta para onde Kudret e os demais estavam. Assim que entramos na vista deles, Sam, Will e Nico nos olharam com um misto de curiosidade e preocupação enquanto Kudret era pura curiosidade e ansiedade pela resposta.

— Então.. o que decidiram? — perguntou Kudret.

— Antes… eu queria entender uma coisa… — disse Sadie, encostando casualmente em uma das mesas livres ao invés de ir sentar de novo com o resto do pessoal, fiquei ao lado dela observando — Parte do que a gente quer pedir é bem complicado… uma chave ou sei lá de um feitiço aparentemente muito difícil de achar e mais antigo que você e fazer um deus igualmente mais antigo que você… sem falar de mais famoso…. virar mortal.

— Está me subestimando. E eu sou sim famoso… — respondeu Kudret.

— O gênio do Aladdin é famoso. — respondeu Sadie, dando de ombros — Nunca ouvi falar de um “Kudret”. Mas voltemos aos questionamentos anteriores… você realmente consegue isso?

— Já disse que está me subestimando. — respondeu Kudret, cruzando os braços e começando a ficar menos simpático — É claro que eu consigo.

— Sadie… — disse Will delicadamente, provavelmente com medo de deixar Kudret irritado demais e perdemos nossa chance.

— E temos que confiar em sua palavra assim… — continuou Sadie, ignorando Will — Se tem um poder de fazer algo tão grande e dramático assim, porque não faz muito mais magias? Em vez de trabalhar assim… num café… se usasse os poderes que diz que tem a torto e a direita, com certeza deveria ter uma fama melhor.

— Onde quer chegar com tudo isso? — perguntou Kudret.

— Não… quero te entender melhor… — justificou Sadie, atuando, percebi — Estou tentando entender tudo porque, o que pedimos não parece muito fácil… pelo o que entendi os gênios tem uma certa fama de traiçoeiros, que você diz não ser pois dificultaria juntar clientela… ainda assim temos que confiar na sua palavra e não temos nada além dela. Não tem nem ao menos umas avaliações no Google?

— Prezo muito pela minha imagem! — respondeu Kudret, aparentando ter perdido a paciência mas não chegando a gritar. Parecia um tópico sensível para ele — Meus clientes, tal como vocês, costumam gostar de discrição e por isso não tenho algo tão ridículo e exposto como “avaliações no Google”. Marketing boca a boca tem grande potencial hoje em dia tal como tem a centenas de anos, ainda mais no tão limitado meio daqueles que lidam com magia.

— Preza pela sua imagem mas com tanto poderes assim fica pedindo algo tão único quando a Pena da Verdade! — disse Sadie, gesticulando com as mãos mostrando o absurdo daquilo — Sei lá o que pode fazer com esses poderes, que nem conseguiu explicar direito, com algo tão único e poderoso quanto a Pena da Verdade. Vou dar uma avaliação negativa no Google Mágico. Pode anotar aí Anúbis, espalha pros outros deuses egípcios e pros seus contatos góticos lá… “falta transparência, parece golpe. ”. Pode passar pro Hades, Ankou… aquele cara celta lá…

— Arawn. — falei, ajudando ela no teatrinho dela — Posso passar também para Ereshkigal…

— Ereshkigal!? — gaguejou Kudret, falando até de forma mais aguda, como eu torci para que acontecesse como consequência do nome de Ereshkigal.

— Fique à vontade para querer arriscar esse tipo de repercussão negativa. — disse Sadie dando de ombros.

— Tá. Tá. Se precisa mesmo saber… — disse Kudret, suspirando pesadamente — Venham comigo.

Os demais se entreolharam, se erguendo do banco, enquanto Kudret ia até a porta da qual ele havia saído vários minutos antes quando entramos primeiramente no café. Sadie então olhou para mim com um sorriso de vitória no rosto, que eu não pude deixar de corresponder.

Nós seguimos Kudret para o que parecia ser a casa dele, que funcionava como extensão do café. Incrivelmente, não havia nada demais. Parecia uma casa como outra qualquer com detalhes da cultura turca. Isso é, até ele destrancar uma porta cheia de cadeados e começar descer por uma escada escura para o subsolo. Nos entreolhamos e nos preparamos para qualquer armadilha que pudesse vir, mas, quando ele chegou no sótão para o qual nos levava e acendeu a luz, nos vimos dentre vários armários com portas de vidro com os mais diversos itens mágicos exibidos como num museu particular.

Reconheci alguns objetos que vi, talvez uma vez ou duas, como o arco de Ninurta, a Lâmina de Illuyanka, que não parecia estar tão bem como no passado, e os pedaços quebrados do orbe de Kandake. Outros tantos mal conseguia julgar de quais povos pertenciam em meio a tantos padrões de enfeites tão característicos de seus povos. No mais, era uma incrível coleção de quase uma dúzia de objetos mágicos mesmo que a maioria estivesse claramente quebrada ou amaldiçoada.

No centro da sala, havia também uma longa mesa de madeira de aparência antiga e no centro dela, uma lâmpada antiga, feita de cobre e com vários detalhes adornados em sua superfície. Não era um conceito moderno de “lâmpada”, era uma antiga lâmpada de óleo que era provavelmente de Kudret.

— As vezes peço dinheiro em troca de meus serviços, afinal gosto de viver bem e manter meu café funcionando para meu círculo de amigos… — admitiu Kudret — Mas meu tipo de pedido favorito é por artefatos mágicos. Gosto de colecioná-los.

— Não poderia só ter um álbum de figurinhas ou colecionar cartas? — questionou Nico — Tão menos problemático.

— Tá parecendo o O Colecionador.. — disse Will — Da Marvel.

— Qual a graça de colecionar algo tão mundano quanto cartas ou figurinhas? — questionou Kudret — Mas artefatos mágicos históricos… isso sim é imponente. Mas admito que é perigoso. Exatamente por isso que não posso sair contando para o que é que peço as coisas. Peço que não contem também… Pelo o que contaram, acho que também não gostariam que essas coisas caiam em mãos erradas. Mas, por favor, não falem mal de mim para os outros deuses. E, respondendo à outra acusação, eu não posso fazer magias ao meu bel prazer… Não viu Aladdin?

— Ele é verídico então? — perguntou Will.

— Não…. — respondeu Kudret — Mas essa parte até que é, até certo ponto e de certa forma.

— Você não tem nada para proteger tanta coisa perigosa? — perguntou Sam — Só uma porta com cadeado?

— Ah, tenho mais coisa sim. Parte inclusive das medidas que protegem que vocês sejam seguidos pelos interessados em não deixarem vocês chegarem em Istambul. — explicou Kudret — Mas aí já está querendo demais de mim. Não vou revelar meus métodos de segurança.

— Não pode ainda assim reconsiderar e pedir outra coisa no lugar da Pena da Verdade? — perguntei, só para ter certeza.

— A não ser que vocês tenham algo mágico mais único, antigo e poderoso que a Pena ou qualquer vontade de desbravar o mundo atrás de algo assim, não. — respondeu ele.

— Não temos tempo para algo assim… e nem saberia onde arrumar outra coisa… — disse Sam em voz baixa, como se tivesse medo de deixar mais óbvio que não tínhamos outra escolha a não ser sacrificar a Pena.

Eu abri a minha mão com a palma voltada para o teto e imediatamente a Pena da Verdade apareceu flutuando ali, brilhando e iluminando a sala mais do que as luzes fajutas que haviam sido instaladas ali. Kudret estendeu a mão na direção da Pena, e eu imediatamente a afastei dele.

— Só se você fizer exatamente como a gente quer. — falei, andando para o extremo oposto da mesa e colocando a pena ali, diante de mim e bem longe de Kudret.

— Pois bem. — respondeu ele, suspirando pesadamente e pegando a lâmpada sobre a mesa.

Com a lâmpada na mão, ele olhou para nós e, como Sam estava mais perto, ele estendeu a lâmpada para ela. Contudo, ele nem por um instante soltou a lâmpada, claramente temeroso.

— Esfregue. — explicou Kudret.

Sam pegou a lâmpada e esfregou, tal como ele tinha instruído. Uma pequena fumaça começou a sair da lâmpada e ela começou a girar ao redor de Kudret como um pequeno filete.

— Você tem três pedidos. — disse ele — Seja bem específica ao pedir os pedidos.

— Se cada um de nós esfregar, vamos ganhar mais 3 pedidos ainda pelo preço de só a pena? — perguntou Will.

— Não. — respondeu Kudret — Só farei três pelo preço da pena. Se quiserem mais, arrumem outra coisa interessante.

— Vamos começar pelo mais fácil… onde está Finn McCool. — sugeriu Sadie.

— Seja bem específica. Peça o endereço exato. — lembrou Nico.

— Eu desejo saber a localização atual exata, país, cidade, endereço, cep, telefone de Finn McCool, o lendário heroi irlandês. Tudo registrado numa folha de papel, em inglês. — pediu Sam, claramente tentando ser o mais específica possível e evitar quaisquer mal entendidos

Kudret estalou os dedos e algo invisível pareceu se expandir na sala rapidamente, como se mudasse a pressão do ar por um mero segundo. No instante seguinte, um pedaço de papel apareceu na frente do rosto de Sam e começou a cair lentamente. Ela esticou a mão para o pegar e os demais se aglomeraram ao redor dela para ler o conteúdo enquanto eu fiquei de segurança constante da Pena da Verdade.

— De fato parece um endereço completo. — disse Will.

— Indonésia… — resmungou Nico — Isso é longe…

— O que ele está fazendo na Indonésia? — questionou Sadie.

— Espero que não esteja mentindo para nós. — disse Sam.

— Não estou. Faço exatamente como mandaram. — explicou Kudret — O que pode acontecer é ele sair do lugar no tempo que vocês podem demorar pra chegar lá, mas garanto que nesse exato segundo, é onde ele está.

— Deve estar de férias para estar num hotel no meio de Bali! — exclamou Sadie — Inveja.

Para o próximo pedido, o da tal chave do feitiço, gastamos primeiro alguns minutos planejando exatamente o que falar, então coube a Sam novamente a responsabilidade.

— Eu desejo, registrada em papel e acompanhada de instruções de uso, em inglês, detalhadas e claras, a chave do feitiço que precisaremos saber para resolver o problema que nos encontramos com Naunet, seus lacaios e as pirâmides atacadas. — disse Sam.

Tal como anteriormente, Kudret estalou os dedos, o ar mudou por um segundo, e uma folha de papel surgiu na frente de Sam. Ela pegou a folha, os outros se aproximaram querendo ler e olharam para mim. Sadie então pegou o papel e virou pra mim e vi que no topo dele havia uma palavra escrita em egípcio antigo e logo embaixo um pequeno texto em inglês, provavelmente as instruções.

— Essa palavra… — disse Sadie — Se lê “hern’her” né? Pânico.

— Isso. — confirmei.

— As instruções parecem ser suficientes e parecem ser para usar com o livro de Thoth. — disse Sadie, voltando a olhar para o papel — Ou ao menos parecem fazer sentido. Provavelmente só temos que achar onde o feitiço que queremos está no Livro e falar pro Livro.

— Se quiserem pedir algo mais, eu aceito o Livro de Thoth como pagamento também, caso o tenham. — ofereceu Kudret.

— Nem pense nisso. — respondeu Sam.

— Outra coisa que não poderemos realmente confirmar que está certo… — resmungou Will, falando exatamente o que eu estava pensando.

— Só falta então… — disse Will, meio inseguro, olhando para Sadie, que olhou pra mim — O último.

Eu suspirei. Se eu dissesse que estava calmo, estaria mentindo.

— Última chance de mudar de ideia. — lembrou Kudret.

— Vamos arrumar certinho o que pedir. — disse Sadie, indo para o meu lado e pegando o celular para aparentemente usar um bloco de notas — Tem que ser bem específico para evitar problemas, né?

Eu e Sadie ficamos quase uma hora discutindo cada cenário, cada opção, cada possibilidade de como eu queria ser mortal e o que poderia dar errado se não especificarmos e Kudret resolvesse fazer algo usando as entrelinhas. Ela foi anotando tudo no bloco de notas do celular dela, e eu sentia minha boca ficando seca de ansiedade e receio. Várias vezes achei que tínhamos terminado e fiquei olhando para aquela lista tentando pensar em algo mais que pudesse ter esquecido, qualquer detalhe que fosse, e sempre me lembrava de um.

Não era exatamente fácil. Mesmo que eu lembrasse de algumas coisas para pedir para que Kudret não se aproveitasse de mim, eu também tinha que lembrar que algumas coisas o corpo de um mortal não aguentaria, então tinha que achar uma solução justa que não saísse perdendo ao invés de deixar Kudret resolver do jeito dele. Eventualmente, a lista virou todo um texto completo do pedido, o qual também fiquei olhando várias vezes até ter certeza de que estava pronto. Depois de repetir aquele ciclo várias vezes, de fato parecia que não havia mais nada a se acrescentar ali. Assim, eu acenei com a cabeça e Sadie segurou minha mão.

— Não esqueçam que é Samirah que tem que fazer o pedido. — disse Kudret, apontando para Sam — Ela esfregou a lâmpada.

— Sem pressão… — resmungou Sam ao pegar o celular da mão de Sadie.

— Você consegue. — disse Will enquanto eu e Sadie passávamos uma rápida explicação para Sam de certas partes do texto — Leia com calma.

— Eu desejo… — começou Sam após respirar profundamente e logo lendo o texto lentamente tendo certeza de cada palavra lida — que torne o deus egípcio, Anúbis, mortal segundo as condições a seguir: Ele tem que virar um mortal saudável de 17 anos com a mesma aparência atual. Terá expectativa de vida tal como esperado para um jovem saudável de 17 anos que levou uma vida igualmente saudável nos tempos atuais. Manterá o máximo de poderes atuais que um corpo mortal consegue suportar. Manterá também o máximo de memórias possível de forma saudável, principalmente as recentes, e de momentos importantes, que envolvam as pessoas aqui nessa sala e seus familiares, em especial Sadie, e também que envolvam outros que Anúbis consegue chamar de amigos e família, em especial Anput e Kebechet. Mesmo que toda a quantidade de memórias possa ultrapassar o tanto que um humano consegue se lembrar, faça com que ainda sejam lembradas sem problemas de saúde ou quaisquer outros tipos, deixando para o normal esquecimento mortal as trivialidades irrelevantes desses mais de 5 mil anos de memórias guardadas com perfeição.

Sam parou, visivelmente tensa, ela olhou para mim e pra Sadie, que também estávamos tensos. Tudo havia sido dito tal como escrevemos. Nós olhamos então para Kudret e ele estalou seus dedos mais uma vez. Aquela troca de pressão do ar passou mais uma vez, mas continuou lá e dessa vez foi acompanhada de algo diferente. Me senti todo arrepiado, com o corpo pesado e formigando. Minha cabeça latejou e repentinamente uma fita dourada brilhante aparentemente feita de luz saiu do meu peito e começou a rodar pela sala sem parar, aumentando de tamano infinitamente até nos envolver como num casulo e continuar crescendo fora do nosso campo de visão.

Uma parte dessa faixa toda flutuou na minha frente, parecendo estar num ponto da faixa mais perto de mim do que da ponta misteriosa que tinha se metido sabe-se lá onde, provavelmente ainda crescendo. Então, essa parte que flutuava na minha frente se partiu como se cortada por uma tesoura mágica.

Da parte cortada até meu peito, por um segundo nada aconteceu, mas a metade que havia sido desconectada de mim virou pó. Fiquei lá com a minha metade de fita mágica, que já havia entendido muito bem como sendo minha expectativa de vida. A pressão do ar lentamente voltou ao normal, e a fita lentamente sumiu junto, fazendo a sala voltar totalmente ao normal.

— Pronto. — disse Kudret, estendendo a mão para a pena.

— Não é assim. Temos que testar. — disse Sam — Esse dá pra testar.

— Você se sente diferente? — perguntou Sadie.

— Sim… — respondi — Mas não me peça pra descrever, pois não sei se eu consigo.

Então, dedurando o que era o sentimento estranho que eu estava sentindo, minha barriga roncou. Sadie segurou uma pequena risada antes de falar:

— Acho que deu certo então. Já está até com fome.

— Meu pagamento então, por favor. — disse Kudret, mexendo os dedos, ansioso, com a palma estendida.

Eu que não estava nem um pouco afim de ousar os poderes da Pena da Verdade naquele estado cheio de confusão e novidades em que estava, só fiz indicar a Pena com uma dor no coração de deixar ela assim para trás.

— Podemos alimentar a nova barriga faminta com os docinhos de antes? — perguntou Sadie prontamente.

— Claro. — respondeu Kudret, com extremo cuidado, colocando a Pena da Verdade dentro de sua nova casa, num dos armários com porta de vidro — Se quiserem dormir aqui também, já deve ter escurecido.

— Acho que vamos aceitar. — disse Sam — Ainda temos que lidar com um obelisco por aqui e atualizar o resto do pessoal das coisas.

— Vem. — disse Sadie gentilmente pegando a minha mão e me puxando levemente para fora da sala enquanto olhava para a Pena da Verdade uma última vez.

Voltamos para o café, Kudret nos alcançou no meio do caminho. Nos sentamos no mesmo lugar que estávamos antes, os lanchinhos que estavam comendo antes ainda estavam ali. Sadie puxou os pratos para mais perto de mim e me olhou com aqueles olhos num misto de preocupação e culpa.

— Eu to bem… — falei, ao imaginar o que passava pela cabeça dela — É só… diferente…

De fato diferente, sentia que ainda não tinha processado que algo havia mudado. Mas certamente me sentia diferente. Curioso e com tantas perguntas na minha cabeça, pensando em coisas demais pra pensar em saciar a minha recém descoberta fome, olhei para Kudret, que voltava ao balcão do café.

— Tem alguma carne crua? — perguntei, me levantando do banco e indo até ele.

— Tem… pra quê? — perguntou ele, confuso.

— Só me dê. — respondi — Quero checar uma coisa.

Ele deu de ombros e foi para uma parte mais discreta de seu balcão, onde abriu um freezer e tirou de lá uma bandeja de carne congelada que havia sido usada já metade. Eu peguei a carne, e tirei o plástico que a protegia, pronto para testar o que queria. Me concentrei como sempre e, tal como torcia que acontecesse, a carne começou a ficar podre. Era um teste besta, mas era o melhor que dava para fazer no momento para testar se meus poderes continuavam ali.

— Eca… — resmungou Kudret enquanto estendia a carne de volta para ele — O que quer que eu faça com isso?

— Pode jogar no lixo. — falei.

— Eu que não vou tocar nisso. — disse ele abrindo espaço para eu entrar atrás do balcão também — O lixo é ali e a torneira é ali.

Joguei a carne podre no lixo, lavei a mão e voltei para a mesa com os demais, pronto para minha aula de como realmente comer.

— Foi mal… — falei para Sadie — Ainda estou tentando me situar e confirmar que tudo está aqui. Não sei bem também como me sentir no momento.

— Tudo bem. — falou ela enquanto ouvia Kudret ligando o fogo, provavelmente pronto para trazer mais comida para nós já que ali estavam só os restos — Só não vá ficar assim eternamente com fome. Sabe-se lá desde quando sua nova barriga tá aí esperando comida… e água também provavelmente.

Notava que ela e os demais não sabiam se podiam perguntar muito ou sequer tocar no assunto. Eu não sabia também. Pareceu tão fácil e ao mesmo tempo tão difícil. Ainda estava processando tudo e tentando entender como me sentir. Talvez estava consequentemente meio distraído de o que acontecia ao meu redor, com os demais conversando sobre a comida.

Uma boa parte de mim estava feliz de aquela ideia maluca ter dado certo (ao menos até agora) mas uma parte ainda maior de mim ainda estava com medo. Sem mais infinito e a incerteza do fim pela frente, só talvez uns 70 ou 80 anos… se desse sorte. Um pouco mais se desse mais sorte ainda. Por mais que ter Sadie ali explicando os prós e contras de comida apimentada fosse realmente um alento, ainda sentia um certo medo. Tentei me agarrar então nesse alento, e talvez um sorriso tenha escapulido no meu rosto, pois ela logo abriu um sorriso radiante e leve.

É… talvez fosse dar tudo certo mesmo.

Notas finais
até a proxima!