Os Destinados - A Queda dos Anjos
2 I. Rideville
Notas iniciais
Nunca pensei que me tornaria refém da minha própria família. O som alto, as janelas de vidro vibrando, o calor humano exacerbado e o suor escorrendo do meu rosto; e eu não tinha como fugir. Festas de fim de ano eram tradição para a minha mãe, mas nada como o meu aniversário. É. Demorei um tempo para perceber que não havia como lutar essa batalha contra ela.
Minha família era bem do tipo não-comemoramos-4-de-julho. Com isso, quero dizer que não era uma típica família americana e que, obviamente, não se adaptava muito bem ao frenesi novaiorquino ou ao holiday californiano. E, bem, deve ter sido assim que viemos parar em Nebraska. Na verdade, somente eles.
Eu não era muito certa sobre minha origem. Ainda quando criança, meus pais me diziam que eu não era como as outras crianças; que não havia nascido em minha "casa", como os outros nasceram. É claro que com três anos eu não entendia o fato de ter sido adotada (não que muita coisa tenha mudado desde então). E não que, para mim, tivesse importância o fato de ter sido ou não adotada. Eu não me lembrava de uma vida antes de carregar o sobrenome dos meus pais, e se me perguntassem, também não gostaria de lembrar.
Apesar das tradições de festas de aniversário, do gosto inusitado para música, das férias que nunca passávamos a mais de duzentos quilômetros de onde morávamos, aquela era a minha família e eu gostava de acreditar que os amava tanto quanto amaria a minha família verdadeira.
Naquele dia em especial, sinceramente, eu não via motivos para comemorar. Era o meu décimo oitavo aniversário e eu ainda não havia sequer provado uma bebida alcoólica. Meus pais eram o exemplo perfeito da caretice. A decoração cor-de-rosa e dourada, os balões disformes, fotos minhas e da minha turma de graduandos espalhadas pelas paredes da casa; tudo bem. Pelo menos eu tinha à Sam.
Samantha Gallaway era a minha melhor amiga desde que éramos juniors; ela tinha acabado de se mudar para Nebraska e fiquei como sua mentora nas matérias de especificidade. Não que ela fosse a única. Sempre tive muita liberdade para interagir e criar amizades, mas Sam era quem me entendia e foi a ela que me prendi durante todo o ensino médio.
Parecia, entretanto, que não naquela noite. Não, eu não tinha à Sam, e como passava das duas da manhã a maioria dos meus amigos já havia ido para casa ou outra festa mais interessante. Procurei-a por todos os cantos da casa, mas não encontrei nem vestígios; minha mãe, já familiarizada com a presença de Samantha em todos esses anos, não demonstrou importância.
Não acredito que ela foi embora e não me disse nada!
Quase caí para trás — literalmente — quando senti um arranhão na panturrilha. Virei-me no mesmo instante, assustada; alívio. Era a minha gata ranzinza e preguiçosa, Hoodie. Peguei-a no colo, sentindo seu pelo macio e cheiroso.
— Parece que somos só nós, Hood. — murmurei para ela, afagando-a enquanto ouvia seu ronronar.
Subi as escadas tentando desviar de alguns pré-adolescentes que jogavam cartas ali, provavelmente filhos de amigos da minha família ou primos distantes. Não lhes dei mais atenção do que me deram, então corri até o meu quarto e praticamente me joguei nos pufes com Hoodie nos braços.
Não sei por quanto tempo fiquei ali deitada, acariciando Hoodie e ouvindo à reverberação do som que vinha lá de baixo — músicas country antigas, mas fui quase fisgada quando me vi entrando num cenário nem um pouco parecido com o meu quarto — e de repente eu deveria estar sonhando.
Eu não gostava do bairro em que morava. Rideville era um pequeno bairro na cidade de Lincoln, Nebraska. Eu havia nascido e crescido ali, e o conhecia como a palma da minha mão, literalmente. Rideville era o maior setor comercial de Lincoln, mas pequeno quanto à população. Era comum, portanto, que se tivesse que deslocar para outros bairros próximos para estudar e trabalhar, por exemplo.
Aquele lugar, no entanto, eu poderia garantir que nunca havia visto em toda a minha vida. Não em Rideville, não nos arredores, ou em qualquer outro que já tivesse visitado. Era uma cachoeira de água quase transparente — limpíssima, de um azul claro e lindo. Passei a mão naquela água que, ao que sentia, estava fria. Senti um calafrio percorrer a minha espinha quando, repentinamente, ouvi a voz de um homem atrás de mim; estremeci, virando-me para trás no mesmo instante.
— Quem é você? — quando me virei, no entanto, não vi ninguém.
Vi surgir do montante de árvores à minha frente a figura de um homem encapuzado, cuja feição eu não via; era alto, muito alto, e segurava em suas mãos um objeto brilhante, de cor verde esmeralda. Tentei me situar com tudo o que estava acontecendo, mas algo em meu subconsciente me dizia que eu não precisava me preocupar com aquilo; eu logo acordaria.
— Carrega a tua identidade; leva a chave para a tua humanidade. Hondor precisa de você.
Acordei com a voz embargada de Samantha berrando o meu nome; dei um pulo dos pufes, assustando a gata que também havia caído no sono. Sam parecia ter bebido mais que o normal, pois seus olhos estavam vermelhos e sua boca fedia a cerveja barata.
— Onde você estava? — falei, a voz sonolenta.
— Ah, cale a boca! É o seu aniversário e você está aqui em cima! — ela riu, puxando-me pelo braço.
Nós descemos as escadas correndo, ofegantes. Quase não consegui acompanhar o ritmo de Sam, mesmo que ela estivesse claramente bêbada; a maneira repentina como fui acordada certamente havia me deixado um tanto cambaleante, com a cabeça doendo e ainda desentendida do sonho que acabara de ter.
Não importava; era o meu aniversário e o último lugar que eu queria estar era ali. Era outono, e eu mal posso dizer o quanto adorava a estação. Aquele era o meu mês preferido do ano e me lembro que, quando descemos as escadas, a primeira coisa que me surpreendeu foi que eu ouvia um barulho de chuva que a priori, fez-me alegrar.
Mas quando olhei para fora, para o jardim, estava seco como antes; não estava chovendo.
A segunda coisa foi que, parado no portão da casa da minha vizinha de frente, a sra. Lucas, havia um homem encapuzado de rosto irreconhecível olhando para mim. Estremeci. Sua boca sibilava algo parecido com “você acredita em fadas”?
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