Os Desqualificados

41 Ainda Não é Para Mim


Graziele estava sentada com cara de taxo, aguardando em um laboratório forense, ligado ao sistema judiciário de Brasília. Sem grandes explicações, policiais levaram-na para lá, onde fizera um teste, em que coletaram um pouco de sua saliva. Nenhum dos agentes lhe informou o que estava acontecendo, dos mais tranquilos aos mais rígidos. Ela também já havia aprendido que não era bom contestar uma autoridade pública, ainda mais na sua posição de detenta.

Logo depois, a Barbosa voltou para sua cela, em silêncio, e ficou por mais uns dias lá, sem que ninguém lhe explicasse o motivo daquela movimentação ou, ao menos, uma previsão de quando sairia dali. Porém, antes que a antiga popstar não se aguentasse mais e fizesse um escândalo pelo fato de não aguentar mais aquele lugar tão indigno dela, apareceu uma advogada para lhe visita, uma que a cantora não conhecia. A profissional jurídica informou-lhe que fora contratada para ajudá-la com seu caso

—Finalmente meus tios queridos fizeram alguma coisa! — ela exclamou, dando um berro afetado.

—Lamento informar, mas não fui contactada por alguém da sua família...

— Aquele bando de imprestáveis! Eu fico aqui honrando o sobrenome deles pra quê?! — Graziele berrava, como se há um segundo atrás não estivesse ainda depositando toda sua esperança nos tios. A advogada arregalou os olhos e pigarreou.

— Ér, eu não estou aqui para isso... Me contrataram só para te tirar daqui. Sua fiança foi paga. Em breve o habeas corpus deve ser concedido, e você voltará a ser uma mulher livre.

Aquilo deixou Graziele calada. A profissional de Direito, que parecia ser bem breve, já ia se ajeitando, quando disse

— No mais, tem uma pessoa querendo conversar com você. Aguarde um pouco, vou falar com os agentes daqui e em breve a chamo.

Aí Graziele voltou a falar:

— Como assim?! O que está acontecendo?! Em que lugar do mundo tratam alguém que fez tanto por seus fãs desse jeito, sem explicar nada?!

Mas a outra já estava se retirando. Não disse mais nada, apenas bufou saindo. Mas em poucos minutos outra pessoa realmente entrou na sala para ver a cantora: Marizete.

***

Milena não raciocinava direito naquela noite. Sabe quando tem várias coisas acontecendo na nossa vida que no final do dia só vamos na direção de alguém que nos faz sentir segurança? Foi o que ela fez.

Depois de passar o dia entre trâmites e burocracias para ajudar sua maior rival, qualquer pessoa estaria bastante cansada física e psicologicamente. Mas se sentia bem.

Assim que reencontrou Marizete no lar para idosos, os médicos lhe explicaram que as probabilidades de estar delirando eram baixas devido a melhora do seu quadro, e a própria disse que sabia o que estava falando... então a vocalista acreditou com mais força do que antes. Havia algo nos olhos da velhinha, um brilho, que não estava lá há muito, que demostrava racionalidade.

A voz da DESQ não era uma pessoa que acreditava no impossível com facilidade. Mas nos últimos tempos, a vida tinha lhe provado que até os sonhos mais loucos podem ser possíveis, que o inesperado pode ser exatamente a realidade. Então, por que não? Claro que teria que aguardar os resultados do exame de DNA. Mas valia a pena conversar com a rival, se o destino das duas era ligado pela adorável Marizete.

A porta na qual tocara aquela noite foi aberta por um sonolento Patrick, com o cabelo um pouco solto, apenas algumas tranças de dreads do cabelo ainda no lugar, e uma camisa de botão um pouco aberta. Milena ainda não tinha lhe visto com o cabelo solto. Era bem bonito. Principalmente com aquela camisa aberta, em que percebia, além de alguns poucos pelos que vinham da altura do peito, que apesar de magro, Patrick tinha um corpo definido.

Sacudiu a cabeça ao reparar no que estava reparando. Então se deu conta.

"Por que raios eu vim para a casa do Patrick?"

Ele lhe encarava confuso por trás de seus olhos sonolentos como se fizesse a mesma pergunta.

— Ahn, posso entrar?

— Ah, claro...

Não podia deixar de encará-la com surpresa; porque sua visita era exatamente o que estava precisando naquela noite. Perguntou se ela queria água e biscoitos, e antes que Milena pudesse responder já estava na cozinha separando os mesmos. Ela olhou ao redor: seus móveis tinham melhorado bastante desde a época em que comia pipoca e sardinha vendo jogos do Vasco. Ela deu um sorriso lembrando-se de como as coisas eram quando se conheceram. Por incrível que pareça, estava grata por tudo que a banda conquistou, mas sentia um pouco de falta daquela época em que a vida deles, apesar de sempre envolta por muita labuta, era mais simples. Fazia tempo que não se falavam com calma, a sós. Talvez desde o beijo na espreguiçadeira?

— E então, o que faz aqui? — ele disse, educadamente lhe entregando os biscoitos e um copinho com água, enquanto dava um sorriso tímido.

— Eu não sei bem.. — ela admitiu, sem graça — levei a Marizete na prisão, conversei com médicos, advogados, trouxe ela de volta... o dia foi cheio... acho que eu só precisava de um lugar em que me sentisse confortável agora.

Ele arqueou uma sobrancelha, rindo.

— E a sua casa?

Milena fez um muxoxo.

— Tá me expulsando?

— Não, imagina, só brincando — ele falou rápido, se sentando ao seu lado — Também estava precisando te ver. — Então sorriu docemente olhando em seus olhos, para em seguida, encarar o vazio em sua frente com uma expressão meio perdida. — Meu pai... me mandou uma mensagem. Ele está de cama direto agora. Disse que vai tentar um tratamento no exterior, com o fim do dinheiro dele mas que talvez a gente não se veja mais, mesmo. Me pediu desculpas por tudo... eu — Nesse momento, lágrimas eram visíveis em seus olhos. — Desculpa, não sei o que dizer. Queria ter conseguido ajudar mais, queria ter...

Automaticamente Milena pousou a mão no ombro dele e falou docemente:

— Tenho certeza que você fez o que podia.

Ele lhe encarou um pouco confuso.

— Como pode ter tanta certeza?

— Porque é da sua natureza. Você é doce e sensível e se preocupa com as pessoas. Apesar da forma como ele te criou, você estava preocupado desde o início. Quem dera que a maioria das pessoas tivesse a mesma índole que você.

Patrick sorriu um pouco novamente.

— Quem dera que a maioria das pessoas fosse como você, Milena. Além de ajudar uma senhora que era uma desconhecida agora está ajudando a pessoa que mais te detestava no mundo. É admirável.

Milena se encolheu, apesar do elogio dele.

— Não vou mentir. Na verdade é desgastante. Burocrática e psicologicamente. Mas a Marizete foi quem mais ajudou a nós todos, por outro lado. Sem ela ter cedido suas músicas, a banda não teria começado.

Ele se recostou novamente no sofá olhando para a TV desligada em sua frente.

— Pois é. Doidera.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo. Só a companhia um do outro realmente lhes recarregava as energias. Milena comeu os biscoitos enquanto isso (eram de chocolate, por sinal). Até que depois de uns 15 minutos, mais ou menos, Patrick começou a se balançar, batendo a perna ansiosamente e fechando um pouco a expressão de novo.

— O que foi? — Milena perguntou calmamente. Ele olhou um pouco nervoso para ela, ponderando se valia a pena falar ou não. Por fim, mandou.

— Da última vez em que ficamos conversando sozinhos... bem... você sabe. — Milena corou, mas como ela não falou nada, ele continuou — Não falamos mais nada sobre isso depois, você ficou com o Ricardo...

Ao ouvir isso, ela se pronunciou:

— Eu não quis! Ele que me beijou...

Patrick lhe encarou se sentindo talvez pior do que se a morena tivesse confirmado que era isso que queria realmente. Pousou sua mão muito cuidadosamente na dela.

— Lamento por isso, então. O Ricardo... eu ainda não me conformo. Ele parecia um cara tão legal.

— Bem, por um lado, nosso colega foi o único sequestrado. Se ele já tinha algo de estranho por dentro, isso deve ter disparado algum gatilho da babaquice.

O dono da casa em que estavam não pôde deixar de rir de novo com esse comentário.

— Você tentou ser compreensiva chamando o cara de babaca?

Milena conseguiu gargalhar.

— Nem sempre eu consigo ser tão boazinha. Digo, ninguém merece ser sequestrado e poderia ter sido qualquer um de nós, mas... A Ana não merecia o que ele fez.

Patrick concordou, olhando para frente mais uma vez.

V Se você não queria, você também não merecia. E vocês duas sempre se deram tão bem... Mas sei que a amizade de vocês vai voltar ao normal bem rápido. Já está voltando. — o rapaz falou, confiante. Então ficou observando o olhar da bela moça que caiu tão agradecido nos seus. Desceu o olhar para os seus lábios. Não tinha dito, mas lembrava do beijo que deram todos os dias. O que não faria por sentir aquilo de novo... Espera! Podia fazer. Ali e agora. Tomou coragem e mesmo se tremendo um pouco, de leve, perguntou, simplesmente:

— A gente pode tentar de novo?

A cantora ficou um pouco surpresa pela pergunta repentina , mas sentiu algo dentro de si lhe preencher de alegria e expectativa.

— Você está falando do beijo?

— Sim.

— Sim.

No instante seguinte seus braços envolveram o corpo de Milena, dessa vez com mais urgência. No mesmo impulso, seus rostos se aproximaram, as respirações se roçaram, os olhares mergulharam um no outro, e estavam envoltos em um beijo intenso e profundo. Ambos sentiram falta da sensação, do que poderia ter virado um romance e fora interrompido.

O beijo durou uns bons outros 15 minutos, embora para eles tenha parecido curto demais. Se beijaram uma vez mais. E outra. E outra.

***

Em algum momento da madruga Milena acordou, se dando conta de que dormia no sofá, abraçada a Patrick. Foi pegar uma água mas enquanto ia, a imagem de seu colega de banda dormindo com um sorriso no rosto apesar de tudo, lhe deu uma vontade profunda de ela mesma arranjar um papel e uma caneta e começar a escrever. Em uma folha de rascunho que estava na mesa da TV, a moça começou a rascunhar:

Não é o que eu sonhei

Não é de onde eu vim

Ainda não é pelo que lutei

Você ainda não é pra mim

Sou só uma garota insegura aqui

Alguém que veio de longe seguir seu caminho

Uma pessoa que te viu por aqui sozinho

Não te conhecia mas quis seu carinho

Notei que me ama e eu te quero também

Mas ainda não é pra ser

Você ainda não é pra mim

Vou fingir que nada percebi

Que você não me afeta assim

Porque a vida tem muito ainda a seguir

Eu não posso parar como se fosse

O único amor que eu já senti

Porém eu já te desejo tanto...

Escrevia tudo que sentiu desde que se conheceram e nunca tinha dito. O quanto que gostou dele desde o início, mas precisava, primeiro, se estabilizar, e depois, tinha que agarrar a chance única de realizar seus sonhos. Foram vários desafios no caminho que puxaram a atenção e a energia dela para outras coisas, mas agora via com muita clareza, sempre gostou muito de Patrick, mais do que como amigo. Só não foi sua maior prioridade entre tantas que precisou ter.

Estava relendo o texto quando ele abriu um pouco dos olhos. Viu ela sentada, com papel e caneta na mão.

— Você está compondo?

Ela assentiu um pouco sem graça.

— Isso tem que virar uma música nossa — Patrick declarou com o sorriso mais carinhoso possível. Milena sorriu de volta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.