– Não! Volte aqui! — Amy gritava, correndo atrás de Rodrigo, no qual o mesmo carregava consigo seu cajado.

– Venha buscar, marrenta!

– Ah! Que saco! — Se largando no chão, Amy desistia de correr, sabendo que não tinha chances contra o amigo.

– Vamos lá.. Você não correu tanto assim. Ainda que peguei leve com você.

– Cala a boca — Dizia, sentando-se encima de um muro onde a vista verde e clara conquistava os olhares da garota.

Já era noite, o parque já estava vazio e fechado, mas os dois gostavam de caminhar pela vasta grama cortada. Rodrigo se aproximava aos poucos, parando abaixo de suas pernas, a olhando um tanto curioso.

Em busca de algo, Amy rodava os olhos por todos os lados possíveis, captando o que procurava.

–O que está procurando? — Questionou o moreno.

– Aquilo. — Dizia, saindo de cima do muro e caminhando até uma árvore.

Rodrigo suspirava, ultrapassando o concreto sem problemas, obrigado a ir de encontro com aquele tronco se quisesse saber o significado. Parando ao seu lado, os dois olhavam os galhos secos e torcidos pelo tempo.

– Eu brincava aqui quando vivia no mundo dos humanos. — Sua voz era fraca e seu olhar era calmo, distraído — Mas...

– Mas... O que? — O anjo se questionava, encarando sua face.

– Foi aqui onde parti desse mundo. — Ela o olhou. Sem sentimentos, suas mãos tocavam o tronco como se quisesse relembrar os velhos tempos vividos por ela.

– E como foi...?

– Estávamos brincando, eu e minha irmã, quando algo ocorreu. Aqui era uma praça calma, onde velhos e crianças se divertiam com parquinhos e jogos. Mas.. Um dia, lembro que meu pai amarrou uma pequena corda para que brincássemos. Minha irmã, Luize, me enrolou em um pedaço da corda e me puxou. Perdi o equilíbrio e me enforquei. No desespero, ela puxava a corda, onde meu pescoço foi estrangulado em menos de minutos.

Após alguns minutos, Rodrigo sorria.

– Puxa, em vez de ajudar, sua irmã só piorou.

– Olha como fala. Éramos crianças, ela não entendia e... Muito menos eu.

A conversa entre os dois estava entrando em climas complicados e assuntos indesejados quando o bolso de Amy apitou. Uma nova vitima era escolhida e próxima dali. "Roubando" o próprio cajado que ainda estava na mão do amigo, corria contra o vento, parando apenas ao atravessar uma larga avenida onde seu alvo era localizado.

Ao lado de um posto fechado, Amy se entusiasmou com o local, pois a bomba de combustível estava furada e vazando. Um ótimo jeito de criar problemas. Ao saber do que aconteceria, Rodrigo se afastou o bastante para não atrapalhar o caso. E, perto deles, havia um rapaz moreno, alto e de olhos negros. Patrick, como era chamado, estava estacionado ali em frente, como se estivesse na espera de alguém Ao longo da avenida, um grupo de jovens dentro de um segundo veiculo parou ao lado do rapaz solitário.

– Patrick! Vamos, cara. Estamos atrasados!

– Relaxem. Podem ir que logo estarei atrás. — Disse numa entonação casual e calma.

– Ok, iremos até a Irene e de lá vamos pra festa. Encontraremos-te por lá.

– Já estarei lá.

O carro pegou partida e desapareceu na pequena nevoa sudeste do bairro. Sorrateiramente, Amy parava atrás de Patrick e sussurrava pequenas palavras de incentivo, e se afastou.

Com calma, Patrick caminhou novamente para dentro do carro, sentando-se na cadeira do motorista e sacou de seu bolso, seu maço de cigarros caro. Colocando um dos cigarros na boca, Patrick tentava acende-lo com o isqueiro, mas o mesmo teimava em pegar. Amy já estava frustrada mas se afastou, para que visse a cena do melhor angulo possível Não demorou muito para que as faíscas do isqueiro provocasse uma explosão tremendamente brutal, espalhando concreto e peças de carro para todos os lados. Não demorou muito para que a fumaça abaixasse e o corpo carbonizado de Patrick aparecesse entre as chamas sem que parecesse agoniado ou desesperado. Se esquecendo de sua tarefa, Amy se desesperou antes que perdesse o mais valioso material: a alma do garoto; invocando as pressas seu manto negro e sua foice, a morte voou contra as chamas e segurava com força aquele pedaço de luz que tentava escapar do local. Em um movimento preciso e rápido, cortou o cordão e saiu do meio da fumaça e foi de encontro a Rodrigo, o entregando seu premio.

– Agora podemos ir! — Disse Rodrigo, sorrindo para o mais novo membro do Inferno.

– Vocês demoraram. Eu não queria ir à festa.

–

Depois de longas conversas entre os três, os portões finais eram avistados. Como um vilarejo, Haverhood era conhecida como a cidade mais rigorosa, onde o perdão não fazia parte do vocabulário daquele povo. Uma madeira escura e talhada com caveiras e sangue, os portões finais eram protegidos por Dois dragões talhados, monstros que conquistaram aquelas terras antes que a própria morte os mostrasse o caminho do tormento. Ao entrar no vilarejo, pequenas casas eram avistadas, mas basicamente abandonadas, pois o principal show acontecia na ultima casa do beco norte. Em pequenos e grandes passos, Amy e os garotos desviavam de chamas e corpos mortos, agonia e desespero. Entrando no Beco, podia sentir as vibrações negativas das paredes. Os gritos mortais eram ouvidos do lado de fora e o medo de Patrick era a principal isca para os demônios. Ao adentrar na aparentemente cabana pequena, um sorriso cheio de desejos mortais aparecia na face da morte. Ao desviar de mais um corpo agonizado pelo medo, Rodrigo empurrava Patrick para uma primeira porta.

– Chegamos a sua nova casa, amigo. Divirta-se! — Em segundos, empurrava o garoto para dentro das chamas por onde foi morto. Seu apodrecimento aconteceria naquela sala quente como um forno, fria como o inverno e assustadora como a morte.

– Mas... Está muito quente lá dentro! Não quero entrar! — Gritava o garoto, tentando não adentrar no local iluminado pelo fogo.

– Jura?! Eu não sabia! — Com o sarcasmo direto, o anjo ria alto com o desespero dele, o chutando contra as chamas e fechava a porta em seguida.

Amy se divertia com a personalidade de seu ajudante. O mesmo possuía uma personalidade estranha, onde a ironia e o sarcasmo andavam juntos.

– Por que todos que chegam têm medo de entrar? — Perguntava a garota, cruzando os braços enquanto pensava.

– Não sei. Você também tinha medo quando chegou aqui.

Em instantes, a morte se invocava com o que ouvia, estendendo uma mão contra o pescoço do anjo e o estrangulava sem dó. Podia se ouvir pequenos ossos estalarem dentro de seu pescoço.

– Não fale mais sobre isso, entendeu? Ou você vai possuir um arrependimento.

Tentando se soltar, Rodrigo a encarava completamente irritado, apertando seu braço.

– Qual é, Amy. Você nunca gosta de conversar sobre esse assunto! Qual é o problema de lembrar quando se era uma alma?

Perdendo o controle sobre a situação, Amy contorcia a própria cabeça, invocando sua manta negra enquanto as mãos se transformavam em puro osso. Rodrigo se sentiu arrependido pelo que tinha dito mas já era tarde. Amy não estava mais ao controle, se perdendo em sua mente, e quem ganhava espaço era a Morte. Com seus olhos avermelhados e sua boca negra, o anjo que caiu do céu não era o mais belo, mas sim o mais temido por todos os mortais e imortais daquela casa.

O pescoço do anjo moreno era estalado varias vezes antes que aquele corpo era jogado contra uma parede de madeira. Em segundos, metade da parede era arrancada com o impacto, deixando passar aquele corpo leve e sangrando.

Com medo que ela se descontrolasse mais, Rodrigo sussurrava algumas palavras em latim e voou contra o corpo dominado, rolando encima de brasas acesas enquanto tentava controla-la. Se debatendo, a Morte começava a corroer pedaços de suas pernas, querendo feri-lo de qualquer maneira para se soltar. Em meio aos gritos, Rodrigo penetrava a mão dentro da cabeça da morte, pronunciando palavras em uma linguagem modificada. Com o tempo, a pele esquelética ganhava pele; seus olhos avermelhados eram conquistados pela cor caramelada; suas roupas perdiam volume e seu cajado, largado no chão, retornada a ser um pequeno pedaço de madeira morta.

Confusa, Amy retornava a memória e encarava os lados, sendo dominada por uma forte dor de cabeça enquanto Rodrigo capotava ao seu lado, queimado e estrangulado por ela. Mesmo sendo um anjo, as dores eram grandes mas suportáveis, o permitindo permanecer consciente mesmo com o pescoço quebrado e sangrando.

– Acordou?

– Sim... Desculpe-me...

– Tudo bem... Foi culpa minha.

–

Já mais a noite, ainda em Haverhood, um grupo de soldados arcanjos eram reunidos em um campo de concentrações mais aos cantos do vilarejo. Um uma reunião com o esquadrão de guerreiros, Detratus, o chefe-líder dos arcanjos e guarda principal dos portões, se responsabilizava pelos acontecimentos no mundo dos mortais e pelos mortais já dentro dos porões.

– Lions, como está o relatório do ultimo treinamento?

Correndo como um desequilibrado, o anjo atrapalhado entregava a prancheta rabiscada para Detratus enquanto tentava reconquistar o folego.

– Aqui, senhor. Como havia pedido mais cedo.

– Tenho uma missão a você, Lions.

– Diga meu senhor.

Em um olhar direto e demoníaco Detratus quebrava a prancheta em alguns grandes pedaços e apontava para um de seus maiores guerreiros. Callum, louro dos olhos verdes, dava um passo para frente, trajado com um conjunto bem feito de armadura e suas asas fechadas contra o aço puro. Empunhando uma espada e um escudo, os olhos do arcanjo encontravam-se colados contra os olhos de seu líder pronto para ouvir o que ele tinha a dizer.

– Prepare-o para a guerra.

– Mas.. Que guerra, senhor. Os céus estão querendo Haverhood outra vez? — Perguntava Lions, tremendo dos pés a cabeça.

– Melhor... Uma guerra contra o trono principal. Para ver quem conquista o manto negro. Uma guerra contra ela.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.