Os Desafios da Distância
9 Julgamento
Notas iniciais
O dia já estava praticamente amanhecendo e Santana mal havia pregado os olhos. Passou a noite inteira chorando baixinho, sofrendo pelo término do namoro com Brittany. Seus olhos estavam pesados, seu coração doía, ela apenas tinha conseguido tirar um pequeno cochilo há duas horas, mas foi interrompida quando sonhou com a ex-namorada. Suas vidas estavam ligadas, mesmo sabendo que os laços que as envolviam eram fortes, tudo foi quase sempre muito complicado nesse relacionamento, aliás, sempre.
No primeiro ano elas costumavam apenas dar uns amassos, tudo muito sem compromisso, às vezes as coisas esquentavam e recoavam um pouco. Mas, nem sempre foi assim. Já quase na metade do ano decidiram se entregar àquilo que estava óbvio, precisavam de um maior contato, e assim foi feito. Até então esse tipo de “contato” só acontecia quando alguma delas estava sem namorar ou pegar alguém, Brittany sempre dizia que jamais iria ser traidora. Já no segundo ano as coisas mudaram um pouco, à medida que Santana amadurecia começou a perceber que amava Brittany, admitir para si mesma já foi um sacrifício, mas o tinha feito. Logo não demoraram em assumir o relacionamento em público e viver os dias mais intensos de suas vidas.
Assim como o famigerado ditado “tudo que é bom um dia acaba”, o namoro de Brittany e Santana chegou ao fim. Talvez não a um final definitivo, mas as coisas precisavam ser acertadas, muitas questões estavam e jogo e aquela decisão racional de Santana foi a melhor opção, ao menos por ora. Sem dúvida ela iria voltar para Lousville com a sensação de missão cumprida, poderia acalmar seu coração, ou pelo menos tentar.
Já estava próximo das 8 a.m. quando a mãe de Santana passou no quarto da filha para entregar as últimas roupas recém lavadas. A latina iria pegar o trem das 10h para voltar a Lousville. Já no horário previsto ela se despediu dos pais com um abraço forte e embarcou no trem. A viagem era de certa forma um pouco longa e entediante, dessa forma pegou seu celular e começou a mexer em algumas funções aleatórias, chegou ao álbum de fotos e viu uma que lhe chamou a atenção, ela estava com Brittany de uniforme das Cheerios segurando um unicórnio de pelúcia, imediatamente Santana começou a lembrar daquele dia. Não era seu aniversário, nem dia dos namorados, nem qualquer outra data especial, mas Brittany havia a presenteado com aquele bichinho dizendo que a morena era um lindo unicórnio. Santana estava radiante naquele dia, se sentia amada, simplesmente adorava esses gestos inesperados da sua namorada. Naquele dia as duas passaram a tarde inteira juntas, assistiram alguns filmes abraçadas no sofá e a noite foram jantar no Breadstix. O jantar havia sido perfeito! Santana levou uma rosa vermelha para Brittany, tentando retribuir o presente que recebeu mais cedo. Durante o jantar as duas fitavam-se toda hora, de mãos dadas, eram cúmplices daquele amor. Aquela era uma lembrança que Santana iria guardar para o resto da vida.
Tão rápido quanto aquela lembrança que passou na cabeça de Santana havia sido a viagem. Ela chegou a Lousville no começo da tarde, pegou um táxi local e partiu para os alojamentos da faculdade, ela estava de volta à realidade. No caminho até o campus mandou um sms para Samara avisando que estava chegando, não que ela quisesse ver a amiga hoje, mas sabia que de alguma forma tinha que avisá-la por consideração.
Santana chegou ao seu dormitório já jogando suas duas malas pretas do lado da sua cama, lembrou que Katherine não estava lá, pois também foi para sua cidade natal, isso era um alívio. A morena tirou seus sapatos, foi até ao banheiro para lavar o rosto e depois deitou na cama, estava exausta. Apesar do cansaço, ela não conseguia dormir, sua mente ainda estava pesada. De repente, alguém estava batendo na porta do quarto. Santana se levantou para abrir a porta e foi surpreendida por Samara.
- “Oiii amiga! Como você esta? Senti sua falta esses dias!” – Samara disse com um sorriso cativante em seu rosto.
- “Oii Samara. Bom, eu acho que vou ficar legal, sei lá” – Santana respondeu um pouco triste, fazendo um gesto para Samara entrar no dormitório.
Rapidamente a loira mudou sua expressão alegre para preocupada, arqueava as sobrancelhas estranhando um pouco aquela situação, pois Santana havia passado um final de semana maravilhoso na sua cidade, pelo menos teoricamente. Sentou-se na cama e chamou a latina para sentar ao seu lado.
- “Calma, o que aconteceu?” – Samara olhava para a morena de forma confiante.
- “Ahh sei lá, sabe? Houve uns probleminhas lá em Lima, algumas coisas bobas que depois eu posso resolver” – Santana dizia tentando escapar dos olhares de Samara. Ela sempre foi muito durona, seu ego sempre falava mais alto, não gostava de demonstrar fraqueza às pessoas.
- “Hmm sei. E esses problemas foram com a Brittany?” – Samara perguntou sabendo que não tinham acontecido coisas bobas, Santana estava escondendo alguma coisa.
Quando a latina ouviu aquela pergunta seu coração palpitou, lhe veio rapidamente a cabeça todo aquele momento na sala do coral, e inevitavelmente o resultado foi chorar. Santana soluçava, colocou suas mãos no rosto para esconder e tentar abafar um pouco, tudo aquilo doía demais.
De forma inesperada Samara a abraçou, passava a mão na cabeça da morena e dizia que tudo iria ficar bem no final, ela não precisava se desesperar. Um pouco mais calma, mas ainda chorando, Santana resolveu se abrir para amiga, precisava contar para alguém, desabafar tudo aquilo que estava sentindo.
- “Samara... olha, eu não fui completamente honesta com você. Não que eu quisesse te enganar, esconder quem eu sou de você ou por vergonha, mas eu não sabia e nem sei como você vai reagir a isso” – Santana dizia com uma expressão séria no rosto, estava nervosa, porém não demonstrava, e continuou – “mas eu vou dizer de uma vez, porque eu confio em você e espero que não se afaste de mim por isso: eu sou lésbica. A Brittany é minha namorada há algum tempo, bom era né” – Santana enxugou uma lágrima que correu em seu rosto, aguardava alguma reação de Samara, que até agora apenas havia escutado com atenção.
- “Santana, eu jamais iria julgar você pela sua opção sexual e fico feliz que se deu a oportunidade de confiar para me contar. Eu sei que essas coisas são difíceis, a gente se sente muito insegura, às vezes um lixo. Todas as coisas que acontecem na nossa vida são por um motivo, se você descobriu que o que te faz feliz é gostar de garotas, que seja! A vida é tão curta, o que vale mesmo é a gente correr atrás dos nossos sonhos, buscar nossa felicidade sem se importar com o que os outros vão dizer. Mais uma vez, eu agradeço pela confiança e mais uma vez digo que não posso julgar, afinal de contas eu também sou gay” – Samara falava olhando nos olhos da latina.
- “Espera aí, como assim? Você também é?” – Santana falava incrédula naquela revelação que a amiga acabara de fazer.
- “Sim, eu também sou lésbica. Para você ver como as coisas são, se a mulher andar por aí toda largada já é taxada de homossexual, mas eu como nunca fui assim, as pessoas custam a acreditar, principalmente porque antes eu me relacionava com homens. Mas não que você seja taxativa, longe disso! Eu apenas sou discreta, não gosto de estar estampando em mil lugares que sou gay, não há necessidade. Minha família e todos os meus amigos próximos sabem, algumas pessoas aqui da faculdade também.” – Samara dizia aquilo tudo para Santana como se quisesse confortá-la, que ali ela poderia sentir um porto seguro, e principalmente que não deveria ter medo de assumir quem realmente era.
- “Poxa, realmente você é muito discreta! Jamais passou pela minha cabeça que você pudesse ser gay. Fico feliz por você ser tão bem resolvida e não ter medo das pessoas. Eu passei por muita coisa, sabe? Muita coisa mesmo! Acho que até criei um certo escudo, me protegendo dos olhares da sociedade. Naquele dia que nos conhecemos eu tive vontade de te falar, mas confesso que tive medo da sua reação, mas agora fico feliz por saber que contei tudo e você também” – Santana sorriu modestamente, ela parecia ter tirado uma tonelada das costas.
- “Mas vem cá, como você sabia que eu estava triste por conta da Britt?” – Santana arqueou as sobrancelhas sem entender.
- “Ahh San, eu meio que tenho um ‘desconfiômetro’, sabe? Naquele dia que nos conhecemos, quando te perguntei sobre a Brittany você ficou nervosa, mas ao mesmo tempo tinha um brilho especial no olhar quando falava sobre ela. E naquele dia da festa eu tive a certeza que vocês duas tinham algo bem mais do que só amizade!” – Samara respondeu dando um pequeno sorriso.
Santana estava realmente impressionada o quanto a amiga havia sido observadora, por outro lado ela nem sequer reparou que Samara nunca falou sobre namorados ou rapazes, foi realmente muita falta de atenção. As duas estavam dispostas a recuperar o tempo perdido enquanto omitiam o que realmente eram, conversaram um pouco sobre como tinha sido assumir para suas famílias e amigos. As circunstâncias e os personagens eram completamente diferentes, mas sempre convergiam a uma mesma história: a luta contra o preconceito.
Santana já estava mais a vontade e seus olhos não debulhavam mais em lágrimas, foi quando Samara percebeu que seria o momento adequado para elas conversarem sobre o que aconteceu em Lima. Santana explicou tudo detalhadamente, explicou seu ponto de vista, os motivos pelos quais decidiu tomar essa decisão tão difícil que era terminar seu namoro com Brittany. Samara apenas escutava atenta, percebia o quanto aquela morena amava a Brittany, era um amor incomum, mágico e sem fronteiras.
Já era quase noite quando a conversa das duas garotas fora interrompida pela porta que se abria, era Katherine. Ela tinha um ar superior, praticamente flutuava quando andava, a garota era uma vadia prepotente.
- “O que vocês estão olhando? Perderam alguma coisa aqui ou só estão admiradas com minha beleza?” – Katherine dizia com um sorriso esnobe. – “Ah já sei, as duas estão chorando porque os ridículos dos seus namorados deram um pé na bunda né? Mas também, qual homem iria querer vocês magrelas, que os cabelos tem mais pontas duplas que os chifres que vocês tem na cabeça? Hellooo honey, vocês não são tão fabulosas quanto eu” – Katherine saiu dando de ombros para entrar no banheiro, desfilando se achando a última bolacha do pacote.
Santana olhava para Samara pasma, ficava boquiaberta o quanto aquela garota era ridícula e sem noção. Por muito tempo ela enfrentou esse tipo de ‘batalha’ com Quinn Fabray, mas no fim das contas as duas eram amigas. Mas, com aquela Katherine era simplesmente impossível qualquer tipo de contato.
Como já era tarde, Samara se despediu da amiga marcando para almoçarem juntas no outro dia, precisavam conversar mais sobre o que aconteceu em Lima. Santana ainda parecia muito fragilizada, iria precisar de um ombro amigo.
Notas finais
Mas é isso, até o próximo capítulo e aguardo as reviews de vocês! Beijo x)
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