Eu paro de gritar quando ouço a voz dele.

De John.

Derek ainda me tem presa ao chão. Ele não hesita.

– Aé? — O demônio sorri. Um sorriso cínico e pecaminoso. – Vou te provar o contrário.

Suas mãos se me soltam por um segundo e descem para meu vestido branco de anjo. A única veste que eu tenho.

E com um só movimento, a rasga.

– Solte-a! – John grita. Posso sentir sua voz mais perto, mas do chão não consigo ve-lo. Estou muito concentrada na minha pele exposta. Quero morrer.

– Ou o que? — Derek zomba.

John responde com palavras que eu não sei o que são.

Elas são em outra língua. Uma língua que eu nunca ouvi antes. É enrolado e eu não faço ideia do que ele esta dizendo.

Mas Derek faz. Ele se afasta de mim tão rápido que eu mal percebo que estou livre. Eu nem levanto do chão. Me sinto tão derrotada e humilhada que eu me encolho ali mesmo, no chão frio. E começo a chorar.

Derek recua.

– Pare. – Ele ruge. Mas John continua até que ele tenha corrido para longe. Até que ele faça um buraco no chão e

desapareça.

Quando o canto do garoto dos olhos azuis finalmente cessa, ele vem até mim.

Percebe meu estado de choque. E me abraça.

Não consigo senti-lo, não de verdade. Mas posso imaginar.

Posso imaginar como é um abraço, apesar de nunca ter recebido um.

– Esta tudo bem agora. – Ele sussurra. Tento muito acreditar nele.

– Você me salvou. – Gaguejo entre soluços. – Você me salvou. De novo.

– Eu tenho que te salvar o tempo todo, não é mesmo?

Ele ri. Eu quero rir, mas sai como alguns ruídos nervosos. Ainda estou em choque. Nunca cheguei tão perto assim de ser levada. Nunca cheguei tão perto assim de um demônio.

Acho que vou vomitar.

John me estende sua mão para me ajudar a levantar, mas não posso toca-lo, então acabo levantando sozinha.

– Obrigada. – Minha voz sai rouca, como um sussurro. Sinto que estou tentando engolir algodão.

– Não precisa agradecer princesa.

– Não sou uma princesa – Digo – Sou um anjo.

– Não, você é uma princesa em perigo e eu como um bravo príncipe – Ele faz uma pose heroica – Tenho de vir resgata-la.

Meu riso finalmente sai. Ele espanta a dor.

Eu sei o que John esta fazendo. Ele esta tentando me ajudar. Aliviar a situação.

– Você não vai parar de me salvar, não é?

– Não. Não enquanto você estiver em perigo. Agora venha brava dama, vamos tomar um milkshake. – E ele sai cavalgando em um cavalo imaginário.

Eu irrompo em gargalhadas. Sei que ele só estava brincando com esse negocio de “me salvar sempre”, mas por algum motivo, eu me sinto mais segura.

Como se houvesse alguém lá por mim.

Eu o sigo para fora.

Não posso tomar milkshake. – Anuncio enquanto John mexe na maquina da cafeteria pegando um que vem em um pote de plástico com cobertura de chocolate – Eu não estou exatamente viva. – Sinto que tenho que lembra-lo constantemente disso. – Eu nem mesmo me lembro do gosto.

John para o que esta fazendo.

– Espera, você não lembra do gosto de nenhuma comida? Nenhuma mesmo?

Eu nego com a cabeça.

– Isso é muito, MUITO triste, Mara.

E apesar do que ele diz, eu consigo sorrir.

– É só comida, não é¿ Não deve ser tão boa assim....

– Enganada! Pode sim. Entenda Mara, que comida é simplesmente... é muito.... Pizza é muito.... milkshake e doritos e coca cola e bolo de chocolate.... É muito...

– Você esta me matando agora. – Falo rindo.

– Eu não entendo como um anjo não pode provar coisas assim tão deliciosas!

Eu dou de ombros.

– Bem, não acredito em você. Acho que comida é tipo, normal.

John para por um segundo. Ele da uma colherada de seu milkshake.

– Um dia Mara, eu vou conseguir fazer você provar alguma coisa.

Eu fico quieta. Não digo a ele que isso é impossível. Não o lembro de que somos de mundos completamente diferentes. O deixo ter um pouco de esperança.

Prefiro que ele fale de comida do que do jeito que eu estou indecentemente vestida. Consegui amarrar a parte aberta, então cobre-me em todas as áreas que deveria cobrir, mas mesmo assim, eu me sinto muito exposta.

John me ve olhando. É como se lesse meus pensamentos.

– Sinto muito por seu vestido. – Ele diz. – Ele é bonito.

– É? — Pergunto um pouco rápido demais. – Eu nunca notei isso. Estive com ele desde que consigo me lembrar.

– Então você tipo, não toma banho?

Eu hesito.

– Bem... Não exatamente... Anjos não precisam....

– Mara você não toma banho! Como é que você continua cheirando como malditas rosas?

– Eu cheiro como rosas, é?

– Pra cacete. É tipo, a melhor coisa que já senti. É melhor do que todos os perfumes.

Eu coro muito rápido e não sei dizer o porque.

John me acha cheirosa. Eu quase derreto com o pensamento.

De repende algo aparece em minha mente.

– John, você já conheceu algum outro anjo?

Ele assente com a cabeça.

– Sim, algumas vezes. Mas nenhum como você.

Sinto meu rosto queimando. Tento desesperadamente mudar de assunto.

– Por que você esta sempre aqui? Quer dizer, no hospital? E onde estava antes? Eu te procurei por toda a parte.

– Eu tenho um parente internado aqui. Eu não gosto... não gosto de falar sobre isso. E antes, quer dizer, antes de eu te ouvir gritando na ala infantil? Eu estava lá fora Mara. Eu te ouvi lá de fora.

– Eu gritei tão alto assim?

– Pra cacete. Eu vim o mais rápido que eu pude.

Eu suspiro.

– Parece que eu nunca vou sair de divida com você.

John da mais uma colherada em seu milkshake.

– Não pense desse jeito. Pense que você me deve sua alma e vai ter que ser minha escrava pelo resto da vida.

Eu avanço para lhe dar um soco, mas então lembro que ele não pode me sentir.

– Calma ai tigresa. Eu tava só brincando.

John ri. Eu rio.

– O que eram aquelas palavras que afastaram Derek, afinal?

– Derek?

– O demônio.

– Ah, eram latim. – Ele continua comendo seu milkshake, como se não precisasse explicar mais nada.

Mas eu não estou satisfeita. Na verdade, estou super curiosa pra saber.

– E onde aprendeu latim? E porque afastou o demônio?

– Mara, quando você pode ver anjos e demônios, você meio que tem que ficar preparado. Eu fiz minha pesquisa, ok? Simples assim. Latim é uma língua antiga, a língua que seu Deus falava, então naturalmente, é uma língua poderosa. Eu estava rezando para afastar o demônio. Só isso. Agora pare de fazer perguntas me sirva, escrava.

Quero ficar com raiva dele, mas sei que ele só esta brincando.

“Só isso”.

– Um dia você vai me contar a história toda.

John me olha com seus grandes olhos azuis com cílios injustamente longos.

– Um dia Mara. Um dia.