Estamos andando a mais de meia hora. Fui até lugares que nunca tinha ido, vi coisas que não sei nomear. Presenciei mais nessa meia hora do que em uma vida toda de anjo.
Não sei aonde estou indo, mas sinto que seguiria John até o inferno.
Ele esta me mostrando tudo. As cafeterias, os parques, as crianças rindo e andando de bicicletas pelas ruas. Aqui, não há ninguém doente, ninguém chorando, ninguém tremendo as pernas em uma sala de espera. As pessoas estão saudáveis e andam com leveza, com naturalidade, sem aquele peso nos ombros.
É tão diferente de tudo que já conheci.
Dentro daquele hospital, eu conheci a dor e sofrimento. Testemunhei muito mais lagrimas do que sorrisos. Aprendi a reconhecer o desespero nos olhos dos que esperam e a paz nos dos que se vão.
Para onde estamos indo? — Pergunto finalmente. John tem sido muito bom comigo, sem fazer mais perguntas, sem questionar-me quando derramei minha primeira lagrima salgada e senti seu gosto em minha língua. “Eu não sei” – Eu disse pra ele. “Eu não sei o que fiz”.
E não poderia ser tão verdade.
Não sei o que estou fazendo andando por essa terra como se meu coração batesse. Não sei o que estou fazendo nessas ruas, não sei como estou sentindo o que estou sentindo.
Não faço nem ideia de para onde estou indo.
Mas eu sei que gosto.

– Já estamos chegando? — Pergunto, porque não consigo mais me segurar. Há esse buraco negro que se alojou em minhas entranhas e que suga toda a minha calma. Nem me importo em perguntar o destino, porque se John não me contou até agora, deve ser um segredo.
– Estamos. Só mais um pouco.
Viramos uma rua. Passamos por carros buzinando alto, por pessoas gritando, por pessoas sorrindo e por pessoas cantando. Passamos pelas flores e arvores que quebram o concreto e contornamos as esquinas e as Starbucks e andamos pelas calçadas de tijolos pelo que parece ser uma eternidade e ao mesmo tempo não é tempo o suficiente.
Estamos em uma rua sem saída com pequenas casas com cores desbotadas com cercas brancas e com poucas árvores e algumas crianças quando John para subitamente.
– Chegamos – Ele diz, sorrindo, mas não sei para onde esta apontando.
Olho em volta e tudo o que acho são casas e mais casas de cores diferentes e estamos paradas de frente para um sobrado rosa claro com janelas grandes e cortinas fechadas e não sei o que estamos fazendo aqui.
– Aonde estamos?
A expressão de John murcha como uma flor.
– Você... Você não sabe?
– Eu deveria?
John solta um suspiro.
Longo demais.
– Eu pensei que você se lembraria – Ele diz, e aponta para a casa rosa mais uma vez. – Essa Mara, era a sua casa.

Há um beija flor preso em meu peito e ele quer sair. Bate as assas furiosamente, dando cambalhotas e piruetas no vazio de meu coração. Ele bata bate bate em um Tum Tum Tum acelerado.
– Eu morava... eu.. eu morava aqui¿ — Mal consigo formar uma frase. Minha boca esta seca. Meus pulmões não enchem. Estou completamente paralisada diante daquela oportunidade.
A oportunidade de ter morado ali um dia. De eu, Mara, ter realmente existido, ter sido real em alguma outra época, algum outro tempo, e ter vivido em uma casinha rosa idêntica a essa.
A oportunidade de ter um quarto ali dentro que costumava ser meu, com tons pasteis e brinquedos jogados e talvez algumas fotos penduradas na parede, sorrindo e abraçando meus pais.
A oportunidade de ter alguém ali dentro.
O mundo é feito de oportunidades. Até os anjos sabem disso.
Há alguém dando as cartas, jogando os dados, atirando dardos na parede. Há alguém ditando o que irá acontecer em seguida, escrevendo uma historia. Há alguém me colocando bem ali bem agora nesse exato momento em frente a uma casinha rosa enquanto a porta se abre.
E meu mundo para.
É uma figura de mulher vestindo um avental amarelo e pantufas, arrastando lixo para fora. Os cabelos são loiros com alguns fios grisalhos perdidos na raiz e estão presos para cima em um coque mal feito, a pele é branca como a luz da lua e seu corpo é tão magro e pequeno que parecem ossos de pássaro. Seus olhos azuis como gelo pousam em John parado em frente ao seu portão e ela estranha, franze o cenho enquanto seus lábios se abrem e ela solta o saco e pergunta
– Posso ajudar?
Meu corpo todo esta tremendo como as placas que mantem minhas pontas juntas estivessem provocando um terremoto.
– Com licença – Diz John de forma muito polida – Você é a Senhora Reichert?
A mulher o olha com mais atenção. Pensa na resposta por um momento que parece durar uma eternidade.
Ela não sabe
Ela não faz ideia
Há alguém jogando um dado bem agora, rolando meu destino em todas as suas faces.
Ela pode ter sido minha mãe um dia. Pode ter dado a luz a essa alma quebrada em um dia de primavera, há o que me parece ser milhares de anos atrás. Ela pode ter cantado para mim e contado histórias sentada no canto da minha cama para que eu pudesse dormir a noite.
Ela pode ter sido tudo. Ela pode ter sido o começo e o fim da minha história e nem mesmo sabe que segura todas aquelas possibilidades bem na ponta da língua.
– Não sou. – Diz, por fim, e uma parte de mim se quebra.
Ela entra depressa, deixa o saco ali mesmo, e bate a porta ao fechá-la.
Bate a porta na minha cara e tranca com chave todas aquelas oportunidades e possibilidades de algo que nunca viria a ser.
A frustração corre pelas minhas veias e deixa um gosto amargo em minha boca.
Quero gritar. Nunca quis gritar tanto em toda a minha vida.
– Mara? — Não sei se John esta me chamando porque há muitos sons em meu ouvido e meu mundo parece estar girando tudo de novo.
– Mara, eu sinto muito. Eu sinto muito mesm...
– Não sinta – Digo. Esse sentimento me faz querer pular de uma ponte. – Isso foi ideia minha. Nós nunca deveríamos ter vindo, de qualquer jeito.
Eu errei e estou pagando o preço.
John abre a boca pra falar algo, provavelmente concordar, mas então muda de ideia. Ele junta as mãos e bate palma algumas vezes.
– O que esta fazendo? Ela não é quem pensávamos que era.
– Eu não acredito nela.
John esta me deixado louca.
– Como é?
– Não acredito. Acho que ela estava mentindo.
– Por que?
– Não sei, Mara. Vou perguntar.
John chama até que a mulher ressurja pela porta, parecendo cansada demais para ficar zangada.
– Senhora Reichert
– Por favor, menino, vá embora. Eu não tenho tempo para isso, eu.. eu não sei mais nada sobre o meu marido nem sua firma e deixei de ser uma Reichert a muito tempo atrás. Se quer alguma informação receio que eu não possa te ajudar. Então saía do meu gramado ou eu vou ter que chamar a...
– Eu conheci sua filha.
Seu rosto fica mesclado em confusão e cansaço.
– Charlotte? Charlotte não mora mais nessa casa, se esta procurando por ela. Mas posso lhe dar o seu novo endereço.
– Não.. Não Charlotte, sua outra filha.
A mulher para novamente, sua expressão sendo congelada enquanto ela faz uma pausa para pensar no que deveria responder. Seus olhos adquirem um azul mais gelado e a ponta de seus dedos treme.
– Eu não tenho outra.
– Tem sim. Mara. Eu era um amigo de Mara.
Sra Reichert de repente fica sem ar e torce os lábios e não sabe mais o que dizer. Parece que suas palavras sumiram e as minhas também.
Por enquanto, só assisto. Por enquanto, o meu mundo esta tremendo e girando demais para que eu sequer pense. Sinto a terra dando voltas e piruetas e virando de cabeça para baixo até que a gravidade seja uma ideia ridícula porque eu estou flutuando e estou caindo para todos os lados e não entendo mais o que esta acontecendo comigo.
Não entendo o que esta acontecendo com esse mundo estranho e essa terra invertida e esse corpo que costumava ser tão celestial mas agora sua humanidade me deixa tonta.
Estou sem rumo, desamparada, pulando de pontes em direção a morte.
Quando percebo John já esta entrando e eu estou indo com ele e nem sei mais o que aconteceu. Acho que Sra. Reichert deve te-lo convidado. John olha para trás para ter certeza de que eu o estou seguindo e então, entra. E fecha a porta atrás dele.

A porta da frente da diretamente para uma pequena sala com as paredes cor salmão e há quadros de flores pendurados nas paredes. Uma lareira é o centro, e ao seu redor um sofá branco com almofadas coloridas, um tapete de la e uma estante tão cheia de livros que me admira o fato de ainda esta de pé. Tudo lá é impecavelmente arrumado, limpo e alinhado, como se aquela senhora morasse em uma casinha de boneca.
– Sente-se. – Diz ela, e eu me sento, mesmo sabendo que ela estava falando com John. – Posso lhe oferecer um chá? — John faz que sim com a cabeça, mas seus olhos estão fixos em mim.
Sra. Reichert desaparece.
Pergunto-me quanto tempo até eu começar a chama-la de mãe.
– Mara¿ — chama minha atenção de volta a este mundo, e eu encolho minhas asas ao redor do corpo. – Você esta bem?
Não sei o que responder.
Escolho mentir.
– Estou.
Não sei se ele acredita.
– Mara, você entendeu quem é esta, certo?
Engulo em seco. Não consigo encontrar as palavras dentro da minha garganta.
Pergunto-me se John pode ver meus cortes abertos. Se consegue ouvir o sangue pingando no chão de madeira. As lagrimas secas se agarrando a minha pele, os espinhos enrolados ao redor do meu corpo, e meu coração de vidro estilhaçado a sua frente.
– Ela é minha mãe.
De repente, sinto uma urgência de sair dali correndo. Correr em direção a rua, correr de volta para o Céu, correr em direção ao inferno. Correr para uma ponte e não parar quando não há nada sob meus pés.
Não sei se consigo aguentar este momento.
Estou experimentando sensações e sentimentos que não sei nomear e desejaria nunca te-los conhecido. Esse buraco negro em meu estomago suga a minha vontade a disposição e o beija flor dentro de meu peito esta me picando e esta querendo fugir pra fora e me rasgar. Minha cabeça é um fluxo constante de pensamentos colidindo e de carros me acertando e ainda estou tentando entender o que aquilo tudo significa.
Aquela mulher na cozinha, Sra Reichert. Eu a chamei de mãe em algum outro tempo do qual não consigo recordar. Meu quarto costumava ser em algum lugar desta casa e isso é a coisa mais difícil que já tive de aceitar.
Que eu costumava ser uma pessoa diferente, algo além de apenas um anjo mensageiro. Eu tinha um pai, uma mãe, uma irmã chamada Charlotte e eu deveria ter sido muito feliz por isso.
Mas por algum motivo, eu não fui.
Por algum motivo, eu não dei valor a tudo aquilo e me enfiei em um buraco de esquecimento tão grande que agora nem eu mesma consigo recordar-me.
Eu apaguei minha existência dessa Terra.
Mas aquela mulher, não.
Ela se lembra de mim o suficiente para deixar um completo estranho entrar dentro de sua casa só porque ele disse meu nome e disse que me conhecia.
De repente, o motivo de eu estar sentada ali se torna tão nítido e claro para mim que não sei como não tinha percebido antes.
– Pergunte a ela porque eu morri. – Falo, de repente, e John se assusta.
– O que¿
– Pergunte a ela porque eu pulei daquela ponte. Pergunte o que estava acontecendo comigo, pergunte se ela sabe dos meus motivos ou se lembra de como eu costumava ser.
– Mara, ela acabou de me deixar entrar. Não posso simplesmente ir perguntando uma coisa dessas, é um assunto delic...
– Espero que você goste de chá de morango. – Minha mãe Sra. Reichert volta com duas xícaras apoiadas em uma bandeja de prata e a coloca na borda do sofá.
– Faça isso John, faça isso por mim. Por favor, eu preciso saber.
Ele demora um pouco, mas concorda com a cabeça de modo discreto, já que não pode responder.
Ela não tem ideia de que eu estou ali, na sua sala, de novo.
– Então, sobre Mara...
É a mulher quem começa.
John da um gole em sua xícara. Demora um pouco demais. Deve estar pensando em um modo de começar.
– Ah sim. Eu e ela éramos grandes amigos quando ela era menor. Eu a conhecia muito bem.
John mente com tanta naturalidade que quase me assusta.
– Bem, pelo menos um de nos a conhecia.
– O que quer dizer com isso?
– Mara era uma garota muito doce quando menor, você deveria saber. Tão pequena e tão bonitinha, com aquele nariz pontudinho e sardas nas bochechas. Mas quando foi crescendo, eu não sei o que lhe aconteceu... Me desculpe. Você provavelmente não deve querer ouvir os resmungos de uma velha nostálgica.
– Na verdade, quero sim Sra... Como devo chamá-la?
– Lisa, por favor. E você é?
John olha de mim para ela, e no fim, escolhe dizer a verdade.
– Pode me chamar de John.
– John... Não me lembro de Mara ter mencionado seu nome, mas como disse, não conhecia muito bem minha filha. Mara era uma criança muito reservada, mas a adolescência foi ainda pior. Começou trancando a porta do quarto, saindo sem avisar e quando eu percebi, eles estavam tirando seu corpo do fundo do lago.
Minha mãe esta sentada naquele sofá falando sobre quem eu costumava ser.
Minha mãe não tem receio de falar sobre minha morte.
Nem John.
– Acha que ela se matou porque era rebelde?
Eles não deveriam, na verdade. Prefiro que falem. Prefiro que gritem aos ventos e escrevam nos livros sobre a pessoa que eu costumava ser para que eu possa ler e reler até que descubra tudo o que tem para ser descoberto.
Para que eu desenterre do tumulo aquela Mara que eu fui um dia e volte a me lembrar
dessa estranha pessoa
que um dia eu fui.
– Não, de jeito algum. Mas com certeza não demoraria muito para morrer do jeito que as coisas estavam indo... Ela bebia o tempo todo, fumava, quase não parava em casa. Vivia metendo-se em encrencas e sempre discutia comigo e com seu pai.
Flashbacks – provavelmente apenas minha imaginação furtiva – começam a aparecer em minha mente, de uma garota igual a eu discutindo com seus professores e largando a escola, brigando com os pais, saindo escondido e fumando cigarros em algum lugar da cidade.
– Você saberia dizer o por que desse comportamento?
Percebo nesse momento que nunca tinha visto John conversando de verdade com uma pessoa que não fosse eu. Lembro de te-lo visto gritando no refeitório e trocando umas poucas palavras com um senhor mas nada mais que isso.
Percebo que John é muito bom nisso, em dialogar. De algum jeito, minha mãe Lisa esta confortável o suficiente para falar da morte de sua filha. Esta confortável para se abrir, e John lhe da essa liberdade. Cada gesto – desde sua postura até a posição de suas mãos – é um incentivo a mais que grita por confiança.
Lisa suspira antes de falar, e eu fico ainda mais tonta, querendo ao mesmo tempo sair correndo e plantar meus pés no chão até que eles criem raízes e ficar ali para sempre, apenas descobrindo coisas sobre mim mesma que podem ou não serem verdades.
Mas não tenho tempo de questionar.
Absorvo tudo como uma esponja e noto que eu não fui uma boa pessoa. Eu bebia e eu fumava e eu não respeitava ninguém. Noto que mesmo eu sendo assim tão ruim, fui perdoada e confiada a um cargo no proprion Paraiso. Noto que mesmo tendo sido um demônio, mesmo sabendo de tudo isso, John continua ajudando-me de todos os modos que pode.
Isso tira meu ar. Sufoca-me até que eu me torne uma carcaça oca a vazia, pois não entendo.
Eu não mereço nada disso.
Não merecia essa mãe, nunca mereci ser um anjo, e mesmos e eu vivesse um milhão de vidas, eu não mereceria aquele garoto sentando no sofá, usando todo o seu tempo para tentar salvar um anjo de asas quebradas e coração partido.
John nunca deixa aquele hospital e quando eu lhe pedi, ele saiu sem olhar para trás.
Eu não o mereço. Nunca o mereci e nunca vou merecer.
Não consigo mais prestar atenção no que dizem porque aquele era o meu passado. E ele não me importa tanto agora quanto o meu futuro.
E o futuro de John.
E o futuro de John comigo.
Neste mundo, eu não existo. Meus ossos e coração não são como os dele. Respiro de modo diferente e penso de modo diferente porque eu sou diferente.
Eu não posso – ou pelo menos não podia até algumas horas atrás – tocar qualquer coisa que fosse. E ele continua a única pessoa que pode me ver.
Se ele continuar do meu lado, vai enlouquecer. Se continuar do meu lado, é possível que um dia eu desapareça porque não pertenço a esse mundo.
Não pertenço ao mundo dele.
John esta olhando para mim agora. Acho que ele percebe a minha hesitação porque para de fazer perguntas, e consequentemente, Lisa desiste de responde-las. Ela da um longo suspiro enquanto olha para o dorso da mão.
– Olhe, é muito doloroso, mesmo depois de tanto tempo, falar de minha filha. Eu sinto muito, mas não tenho todas as respostas. Se quiser saber de mais alguma coisa, procure por Charlotte. Mara falava muito com a irmã. Vou te dar o numero dela, mas preciso pedir para que você não volte aqui.
A dor. Eu estou sentindo-a, de verdade.
É como ser atingida por um carro, só que sem parar. De novo e de novo e de novo, nocauteada, arrebatada, atirada no meio da rua e deixada pra morrer. O vento, a adrenalina, o terror e a paz de estar morrendo uma duas milhares de vezes.
Não sei mais o que eu quero. Não quero resgatar meu passado e não quero viver no presente porque tudo esta destruído e quebrado ou vai acabar de algum jeito. Tudo o que eu já tive nessa vida foi fracasso em tentar ser anjo, pessoa, demônio e eu continuo fracassando conforme o tempo passa.
Estou fadada a isso.
Estou fadada porque não importa quantas vidas eu viva, eu só consigo ferrar as coisas a minha volta. Eu destruí a vida dessa mulher, Deus sabe quantas vidas eu destruí sendo demônio, mas não vou destruir a de John.
Tenho que tirá-lo daqui.
Não quero que ele se envolva ainda mais com a minha vida só porque eu lhe pedi. Ele não merece isso, ele não escolheu isso.
Essa não é a vida que ele deveria ter. Perseguindo números de telefone, batendo de porta em porta para resgatar um passado que nem lhe pertence.
Isso – toda essa confusão – é culpa minha.
– John, vamos embora.
Nós nunca deveríamos ter vindo.
Saio antes dele, correndo correndo como se mais carros estivessem prestes a me atingir. Corro como se corresse de uma ponte, sem hesitação, sem parar pra pensar nas consequências. Alguns segundos depois, John esta atrás de mim e eu finalmente paro.
Não porque quero, mas porque devo isso a ele.
Tenho que deixa-lo.
– Mara.
Ele me chama e eu nem consigo encara-lo. Estou tremendo de cima a baixo e eu percebo que deixa-lo é a coisa mais difícil que eu já tive que fazer.
Eu pequei, quebrei as regras, eu fingi e eu menti e eu entrei onde era probibido. Estou nessa Terra de alguma forma estando morta, eu estou interferindo e atrapalhando o caminho dos vivos e mesmo isso foi tão mais fácil.
Descobrir que eu fui viva foi mais fácil. Enfrentar meu passado foi mais fácil.
Mas isso – isso aqui, bem aqui, bem agora – É impossível.
É tão difícil que lagrimas começam a escorregar de meus olhos como chuva faria.
Há furações dentro do meu coração e há tempestades escorrendo das minhas veias e maremotos afundando barcos e esperanças dentro de mim.
Estou chorando e nunca tinha chorado antes. Não assim, não desse jeito.
Derramei uma lagrima no meio da rua por puro desespero mas isto aqui é algo que eu nunca tinha sentido antes.
É algo mais. Estou chorando de tristeza, de medo, estou chorando pela saudade e estou chorando por aqueles que estou deixando para trás.
Daqui, eu não tenho mais pra onde ir. Deixei tudo o que eu tinha por John e para descobrir o que eu fui e nada mais disso importa agora. Meu passado não importa. O que eu fui ou o que deixei de ser é tão insignificante comparado a este sentimento que me enterra e me mata e me destroça de dentro pra fora.
Me viro.
Os olhos de John são tão azuis e tão brilhantes quanto na primeira vez que os vi e são como faróis me guiando para direção certa. Sinto que o brilho de seus olhos poderiam parar o mundo de girar.
E irão um dia.
Ele me olha mais uma vez, tão cheio de ternura, tão cheio de um alivio desesperado por eu estar ali, por eu ter parado de correr, por estar ao meu lado e as suas esperanças e suas emoções por mim estão me enlouquecendo.
De repente, experimento um sentimento que nunca tinha provado antes.
É como se minhas pernas tivessem se esquecido de como se fica em pé, e meus pulmões abandonaram seu trabalho de respirar e eu estou sem fôlego, estou caindo e não me lembro de respirar.
John me faz sentir como se tivessem diversas borboletas batendo suas asas dentro do meu estomago, subindo pelas paredes de meu coração e pintando meu rosto de um vermelho forte.
Estou envergonhada.
Estou apaixonada.
Não consigo falar nada.Sou uma boneca muda, uma estatua de um anjo que não sabe fazer mais nada além de olhar o garoto a minha frente.
E desejar poder toca-lo.
Estendo a mão, mais uma vez com tanto desespero, com tanto desejo de toca-lo, só para encontrar o ar.
Nunca saberei a sensação de sua pele contra a minha.
Nunca conhecerei o calor dos seus braços.
Nunca saberei qual é o gosto de seus lábios.
– Mara. – Ele repete meu nome e meu coração esta dando pulos e eu não sei porque. – Por favor, por favor, pare de correr de mim.
Estendo minha mão em direção a ele, pedindo aos céus que me permitam apenas um toque, apenas dessa vez, e então pararei de desejar tantas coisas assim.
Eu sei que já pedi coisas demais.
Pedi para conhecer cada curva, cada textura, saborear cada pedaço do céu. Pedi para conhecer tudo o que há pra conhecer. Pedi para ouvir todos os sons já produzidos, cantar as canções mais lindas e soltar gritos de ódio e de prazer. Pedi e implorei saborear todas essas sensações novas e sentimentos, desde o incontrolável ódio até o mais desesperado amor.
Rezei tanto para ser infinita.
Mas abriria mão de tudo isso apenas por esse toque.
O rosto de John se encaixa na palma de minha mão e algo explode.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.