Os Contos de Sienna
1 Apenas mais uma garota.
Notas iniciais
"Só serei feliz quando descobrirmos uma cura para o câncer" (James Watson.)
Minha mãe teve essa "excelente" ideia de fazer uma apresentação. Qual a novidade? Eu estou envolvida.
Espero sem paciência na coxia. Minha mãe fala sem parar e gesticula com as mãos. Ela anda de um lado para o outro, como se nascesse para isso. Só quero que ela pare e me deixe entrar, falar, ir embora, e dormir.
Um bom tempo depois, estou sentada em um banco que pinica, e faço nós em meu lenço azul. Quando vejo que minha mãe está quase terminando o discurso, o coloco na cabeça. Raspei meus cabelos quando descobri que tinha câncer, aos meus 14 anos. Eu adorava meus cabelos. Eram cor de cobre. Lindos, sedosos, macios. Sinto saudades. Minha mãe me olha e me acorda do devaneio. Vou até o palco e pego seu microfone, como ensaiamos algumas semanas atrás. Ela sai do palco e me deixa sozinha, no tablado de madeira. A escuridão toma conta do lugar, exceto por uma luz. E essa luz aponta diretamente para... mim. Coloco o microfone no pedestal e percebo como estou relativamente calma. Respiro fundo e ajeito minha postura. Começo a falar. Sinto que não há mais ninguém no salão.
Sou Sienna. Provavelmente não me conhecem, sou a filha da mulher falante cujo vocês estavam rezando para que parasse de tagarelar. — As pessoas riem. Provavelmente não querem me conhecer. Provavelmente, vocês não sabem quem eu sou, o que faço, como faço, quando faço, com quem faço. Provavelmente vocês não querem saber. Mas não sabem o que fiz para chegar até aqui, sobreviver até aqui. E Vocês não sabem.-Olhei para o grande salão cheio de gente. Acabo dando uma risada irônica.- Ah, não sabem mesmo. Nem sequer sei se se importam. Devem estar sentados nessas cadeiras de plástico, nem um pouco confortáveis, querendo apenas ir para casa. Não posso nem julgar vocês. Também estou com sono. Mas não posso ir para casa. Não enquanto isso estiver acontecendo comigo. -Acabo rindo um pouco melancolicamente.- É tão estranho. Eu era normal. -Sinto minha voz falhar e acabo tonta, mas continuo.- Apenas mais uma garota. Mas agora, agora é diferente. E nem me importo. Eu, Sienna Cotton, uma garota normal. 15 anos, chata, fria, um pouco arrogante.-Dou um sorriso de canto- Leucêmica. — Falo a palavra tão normalmente e despreocupada que todos os murmurinhos do salão param. Todos os olhos se viram para mim. Todas as respirações são reduzidas e praticamente seguradas. Sinto que eles tem medo de mim. Engulo em seco e continuo.
— Basicamente, Leucemia é um câncer no sangue. Faz com que minhas células não se desenvolvam bem... Ou talvez elas nunca cheguem a ser criadas. Talvez umas comam as outras. Realmente não sei do que se trata, além de ser com sangue. -Eu sabia realmente do que se tratava.- Tenho mais coisa a fazer. -Eu fiquei pesquisando sobre leucemia por quatro noites seguidas.- Isso nem importa. — Importa sim, minha vida é resumida e limitada à isso. Vou contar um pouco mais a minha história.
Sempre quis ser cirurgiã. Medicina. Eu estudei para isso. Eu vivi para isso. É tão irônico. Eu tentaria salvar as pessoas. Algumas eu realmente salvaria. Outras, talvez não tivessem tanta sorte. Morreriam, quem sabe alguém de leucemia. Eu as veria indo embora, e nem me importaria muito. Mas agora, eu posso ser uma dessas pessoas. Agora eu me importo. Quando o doutor disse que eu era doente, primeiro quis dar um soco na cara dele. Depois eu quis rir. Depois eu quis chorar. Depois pensei no meu futuro. Eu iria perder tudo. Quando ele disse que eu estava me recuperando, a primeira coisa que eu quis fazer é rir. Depois, eu disse para mim mesma que iria crescer, virar uma cirurgiã, realizar meu único sonho, e ajudar pessoas guerreiras, como eu, a passar por tudo. Depois eu quis bater no doutor de novo, quando disse que não era para criar falsas esperanças.
Agora essa é a minha vida. Digamos que não tive sorte nesse quesito. Agora terei que seguir em frente, por mais que eu possa dormir e nunca mais acordar. Você vai seguir em frente comigo?
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