Os Contos De Um Meio-sangue
1 Capítulo 1 - Tenho uma visita inesperada.
Notas iniciais
Não adianta prestar atenção numa aula de História no primeiro horário de uma Segunda Feira após um feriado prolongado, se você não for eu. Não, não gosto de aulas de história, mas a matéria me fascinava, Grécia Antiga. Estudar a mitologia da época era a coisa mais encantadora que já tinha aprendido na escola, além de como fazer pela primeira vez, uma cola bem sucedida numa prova de Geografia.
Sandra, minha professora de História, era baixinha e parruda, parecia um pequeno barril cansado de carregar coisas. Ela tinha um cabelo Chanel moreno com luzes leves. Era uma boa professora, exceto quando não estava gritando com você por soltar um palavrão.
- Na Grécia, o sistema político foi o primeiro a ter uma de-mo-cra-cia – Ela amava soletrar palavras enquanto as passava no quadro. Tirando o fato de cuspir muito, ela era uma ótima falante.
Quando terminou de explicar o quão inovador foi cada coisa que a Grécia fez, o alarme tocou. Ela abraçou todas as pilhas de livro que tinha deixado em sua mesa e saiu da sala igual um siri por conta do peso da carga. A turma saiu do silêncio sonolento e começou a conversar sobre as mil maravilhas que fora suas viagens e saídas no feriado. Eu tinha passado meu feriado numa cidadezinha confortável em Minas Gerais, mas não prestava atenção nos meus amigos já que eu estava terminando de copiar a escrita cuneiforme da professora.
Agora era aula de Matemática, até que eu me dava bem com ela, diferente de muitos amigos que voltavam a dormir já que não dava pra conversar. Nossa professora, Angélica, era também gordinha, “inha” pra não ofender, pois a coitada estava numa situação não muito boa... Porém não foi ela que entrou na sala, foi um homem de cabelo desgrenhado e grisalho com uma cara séria e expressões de quem comeu e não gostou. Era magro e alto e se vestia como um corvo. Carregava uma maleta preta e uma pilha de papéis.
Após depositar suas coisas na mesa, virou para nós e disse enquanto mirava o além:
- Angélica não pode vir hoje. Sou o substituto dela. Espero que saibam a matéria pois passarei revisão. – Sua voz não ajudava em nada o sono dos alunos. Ao contrário, parecia uma injeção de melatonina. – Esse exercício – Dizia enquanto entregava as folhas – É pra ser entregue hoje.
Houve alguns murmúrios, mas todos começaram a fazer, outros só ficavam olhando a folha e piscando pesadamente os olhos. Outros dormiam, literalmente. O professor me lançava alguns olhares, mas sempre desviava quando eu olhava de volta. Queria que minha amiga, Laura, estivesse aqui, o professor me lembrava o Raul Seixas.
Eram doze questões, eu estava na sétima quando o professor se levantou da cadeira e veio em minha direção. Eu olhei pra trás pra ver se ele olhava pra alguém que não fosse eu, mas era de mim que se tratava. Ele se apoiou nas costas da minha cadeira e na mesa como se fosse ler minha atividade mas então abaixou um pouco e disse no meu ouvido:
- É melhor que você tenha sorte. Filho de Deus.
Ele devia ser do tipo religioso, esses testemunhas de Jeová amam falar de Deus e tudo mais, porém estranhei com o “Tenha sorte”, acho que não ouvi direito e me fixei no exercício fingindo que ele me explicava a matéria, pois devia ser isso que ele devia estar fazendo... Após pensar alguns segundos, me virei pra ele, que continuava ali, esperando uma resposta.
- Hã?
- Você ouviu bem. – Ele continuava a olhar pro nada. – Você precisa ser sortudo.
- Não entendi... Tá falando do exercício... Ou o que?
- Continue seus exercícios – Me deu alguns tapinhas no ombro e se dirigiu a sua mesa.
A aula foi bem demorada, tal como todas as outras três após ela. Mas enfim, as aulas acabaram com a matéria de Ciência, citologia. A professora “Tati” era bem bonita e tinha os olhos e o sorriso grandes, exceto por sua voz estridente, era o protótipo da mulher perfeita. Quando o sinal tocou ela esperou todos começarem a se levantar e se sentou, e então me chamou.
- Ei, Pedro! Venha aqui. – Eu já tinha feito à mochila que estava leve, pois eu não usava muitos cadernos e me dirigi até ela.
- Sim?
- Senta aí – Ela deu uma pausa olhando para os alunos e abrindo um sorriso ou dando um tchauzinho retribuindo a despedida dos alunos que saíam. Quando a grande maioria saiu, ela se voltou pra mim – Então... Como você está?
- To bem sim, e você? – Dizia eu me acomodando na cadeira. Eu sempre fui um pouco informal com os professores.
- Estou bem – Prof. Tati não largava o sorriso do rosto – Bom – E entre uma pausa e outra os alunos saíam enquanto sobrávamos apenas nós na sala – Aconteceu algo com você nesses dias? – Não era comum que os professores se aproximassem de mim, mas não me importei e respondi.
- Não... Nada de mais...
- Então. – E se posicionou firme na cadeira fechando uma mão na outra, fiquei um pouco preocupado, pois ela parecia prestes a me dar um sermão – Quero que saiba que qualquer coisa, pode contar comigo, Ok?
- Ok... – Não entendi bem, mas então ela avisou com a cabeça que eu já estava liberado.
Ajeitei a mochila, me levantei da cadeira e caminhei para fora da sala e para a saída.
Ir pra casa da minha avó sempre foi confortante pra mim, não aparecia muita gente lá, mas eu me divertia. A casa dela tinha um cheiro de torta de frango que dava um leve prazer toda vez que você entrava nela. Eu ia pra lá toda Segunda, Quarta e Sexta, pois, após almoçar, ia para a aula de natação, um dos poucos exercícios que eu gostava. Meu déficit de atenção em nada ajudava quando eu ficava sem nada pra fazer, então, nos dias que eu não nadava, ficava jogando Guitar Hero III.
Fui ao quarto onde normalmente eu dormia, joguei minhas coisas na cama e, ao sentir o alívio do peso da mochila, reparei que ela estava mais pesada do que de costume, então abri para certificar-me que não havia roubado nada de ninguém. Sim, às vezes me dava algumas crises de cleptomania, mas após certo tempo com Sílvia, minha psicóloga de sotaque espanhol, me “adestrei” nesse sentido.
Quando abri minha mochila, me reparei com algo que não esperava. Havia um velho e grosso livro dentre os cadernos. Puxei-o então e o analisei. No título havia caracteres estranhos, mas eu consegui compreender, era estranho, pois nunca havia lido algo do tipo antes. E no título dizia algo como:
“O Portal e os Leões”
Achei o título convidativo, se você morasse há 500 anos, mas meu TDAH em nada ajudava quando se tem um livro estranho chamando para ser aberto, então, por curiosidade, o abri. Folheei as páginas a fim de alguma ilustração, não encontrei nenhuma, e quando tentei ler, não consegui. As letras embaralhadas não formavam sentido e quanto mais se tentava entender, mais complicado se tornava.
Minha avó estava no telefone, em seu quarto, conversando com seu psicanalista, um cara chamado Idário, ela falava alto o suficiente para que toda a casa pudesse ouvir e se distraía com a conversa que fluía.
Após alguns minutos tentando ler, me deitei na cama e comecei a pensar naquele professor estranho de matemática... O que ele quis dizer com sorte?
No ápice da minha reflexão, sobressaltei-me com um susto: houve um grande estampido e pela janela do meu quarto passou meu portão de ferro voando passando pela lateral da casa. Corri para a janela derrubando as coisas que me impediam de passar e vi a coisa mais estranha da minha vida invadindo minha casa: Uma mulher alta de seios expostos, pele clara e cabelos lisos morenos com a metade inferior de seu corpo com forma de cauda de cobra. Aparentemente achei que fosse algum tipo de brincadeira de algum canal televisivo, porém se tratava de uma criatura maligna real.
Voltei-me rapidamente para a porta e, atravessando a casa, fui ao encontro da minha avó e quando a encontrei ela estava ainda no telefone, porém agora não se tratava de algum psicanalista e sim da polícia. Ela me chamou com um aceno de sua mão e pediu para que eu me enfiasse embaixo da cama e quando parei para ouvir melhor, reparei-me que não se tratava de um policial e sim da minha professora de Ciências, Tati.
- Sim, sim, ele está aqui... Não, não sei se o cofre de bronze irá suportar muito tempo, venha pra cá, rápido! – Dizia ela.
Por qual motivo são de si, minha professora de ciências ia me salvar? Então ao momento em que ela desligou o telefone e começou a se abaixar do outro lado do cômodo atrás de algo embaixo da outra cama, eu disse:
- Vó! O que tá acontecendo? Por que você não liga pra polícia? Que bicho é esse? – Eu tentava assimilar as palavras, porém o pânico me atingia.
- Você precisa saber que... Algumas coisas, Pedro – Entre uma pausa e outra, ela puxava com força uma caixa de metal pesada – Não são bem da forma que você acha que é.
Seu tom leve e calmo fazia parecer que não havia caos algum sendo que, enquanto tentávamos conversar, pelo som, a criatura horrenda entrou pela casa passando por cima de tudo o que estivesse em sua frente e fazendo muito barulho.
- Ah! Claro – Eu tentava associar a visão da porta esperando um monstro passar por ali e o esforço da minha avó para poder tirar aquilo – Nada na minha vida é bem da forma que eu acho que é... Rápido! Larga isso e vem pra cá!
Porém ela não me ouvia, e então ao empurrar aquela caixa para fora da cama e trazê-la para mim, ela se escondeu no mesmo local onde tirou a caixa e fez sinal de silêncio. Tentei conter meu ofegar e esperei. Quando reparei, a criatura parara de fazer som e parecia vasculhar a casa cautelosamente para que, como se fosse num filme de terror, aparecesse da forma mais assustadora da minha frente.
Dito e feito. O monstro apareceu na minha frente com seu rosto assustador gritando estridentemente. Por impulso, puxei a caixa de metal e acertei o rosto dela com todas as minhas forças, com um berro ela recuou tonta e então eu escapei saindo de debaixo da cama e saí pela porta do cômodo procurando por qualquer coisa que eu pudesse atirar naquilo. Por sorte, ela não havia recuperado todos seus sentidos para que achasse minha avó que permanecia em silêncio embaixo da outra cama, então peguei todos os objetos da sala e lancei na cabeça daquela criatura e quando ela conseguiu entender o que estava acontecendo, começou a desviar-se dos objetos lançados e avançou. E mais uma vez, uma coisa estranha aconteceu, dessa vez, do assoalho do piso começou a nascerem visgos e cipós enrolando-se na cauda da criatura e desviando assim, sua atenção para as plantas que a prendia. Quando me virei para poder pegar mais alguma coisa e lançar, minha professora Tati estava lá. Posicionava-se estranhamente movendo seus braços e então entendi que ela fazia brotar aqueles cipós.
- Pedro! Seja rápido! Tome isso! – E pondo sua mão no bolso de sua calça, tirou uma caixa de óculos e mandou pra mim. – Abra isso.
Sem nem querer entender o que ela dizia e levando em conta tudo o que acontecia ali, não duvidei que aquilo fosse algum tipo de óculos mágico que soltasse algum raio laser, então, quando abri a caixinha, pude ver por décimos de segundos, um óculos que estava guardado ali se transformando num arco médio. Soltei um “Uou” e pisquei forte para ver que aquilo realmente acontecera. E quando fechei a caixinha ela se tornou uma aljava vermelha com flechas de metal.
Puxei desajeitadamente uma flecha, posicionei no arco e atirei contra a criatura, ela desviou e a flecha atingiu a janela causando um estampido e estraçalhando-se no chão. Novamente, com as mãos trêmulas, puxei uma flecha e atirei com vontade, desta vez acertando a criatura no queixo. Era de se esperar que ela tivesse um sério ferimento e começasse a agonizar no chão, porém ela se desintegrou em apenas pó.
Fiquei um pouco pasmado com os olhos arregalados e então me virei para minha professora que se apoiava em seus joelhos cansada e eu disse ofegando:
- O-que-foi-isso?
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