Os Contos De Um Meio-sangue

2 Capítulo 2 - Respostas de uma Dríade feat. Avó.


Tati se sentou na cadeira da sala e limpou o suor do rosto. Minha avó saiu de debaixo da cama e se levantou limpando suas vestes. Eu ainda segurava o arco e a aljava com flechas com os olhos arregalados esperando uma resposta da professora.

– Eu perguntei. O que foi isso!?

– Pedro... – Ela parecia estar se recompondo, mas minha paciência não estava no seu melhor dia após aquilo – Isso que você viu é uma Lâmia. São monstros bem... Problemáticos.

– Monstro? Como assim? Claro, super normal, uma medusa sem cobra na cabeça aparece destruindo minha casa, minha vó quase morre e você faz plantas crescerem do chão da minha casa, bah, acontece todo dia! – Ironizei. Eu estava consideravelmente confuso.

– Pedro... Calma. Primeiro. Aquilo era uma Lâmia. Segundo... Você não é bem o que pensa ser...

– Vai dizer que o que? Sou um super-herói agora?... Meu Deus... O que foi isso...

– Pedro... Você é um semideus.

Em silêncio, me virei pra ela e após uma pausa, comecei a rir.

– Primeiro, isso acontece, agora sou filho de um Deus mitológico. Era o que faltava na minha vida... – Disse eu – Vocês devem estar... Tramando algo. É uma pegadinha é?

– Não. Não é uma pegadinha – Minha avó interviu. – Se acalme. Tem muito que ser explicado. Sente-se.

Sem palavras, obedeci o que ela pediu e tentei me acalmar, porém tudo aquilo voltava à minha cabeça me deixando cada vez mais estranhado. O que aquilo queria dizer? Nada fazia sentido. Minha mente estava uma bagunça.

– Veja... Quero que saiba que... Tudo aquilo que você leu sobre Deuses gregos e tudo mais... É verdade. – Disse Tati.

Fiquei sem dizer nada, tentando associar o que aconteceu com a última fala que eu esperava sair da boca da minha professora. Respirei fundo e tentei fazer minha mente acreditar em tudo aquilo.

– Então... Você disse que eu sou um semideus... Sou filho de um Deus com um humano então? – Disse eu.

– Sim...

– E filho de quem que eu sou?

– Ainda não sabemos... Os Deuses reclamam seus filhos... Ou seja, avisam que tal pessoa realmente é filha dele. Isso ocorre a partir de uma imagem holográfica que se forma acima de sua cabeça com o símbolo de seu pai.

– E quando isso acontece?

– Após um acordo feito no Olimpo, os Deuses são obrigados a reclamar seus filhos aos 12 anos... Seu aniversário está próximo.

– Mas eu vou completar 14 anos.

– Sim, eu sei... Eles devem ter se esquecido, está sendo bem comum aqui no Brasil...

– Aqui, no Brasil? Tem outros semideuses fora daqui?

– Sim... Principalmente nos E.U.A., mas eu te explicarei tudo quando chegarmos no Acampamento...

– Acampamento? Você vai me levar pra algum tipo de... Exército ou sei lá o que?

– O Acampamento é onde os semideuses se reúnem para não terem que enfrentarem monstros mundo a fora sozinhos... Lá tem uma série de proteções mágicas protegendo quem entra lá...

Fiquei um pouco em silêncio tentando imaginar tudo o que ela dissera. Era um pouco confuso pra mim mas não havia nada a fazer a não ser acreditar.

– Mas e minha avó? – Eu disse, reparei que ela estava bem silenciosa arrumando a bagunça feita pela Lâmia.

– Ela vai te esperar aqui, você irá para o Acampamento comigo e...

– Como assim? Vou deixar minha vó aqui e vou com você para um lugar que eu nem conheço? E quanto tempo eu vou ficar lá?

– Pedro... Eu sei que é difícil, mas sim, você tem que ir... Você ficará lá até o fim de Julho – Disse Tati.

Era início de Maio, então talvez não demorasse tanto. Virei-me para minha avó esperando alguma resposta, mas ela continuava cabisbaixa.

– Mas e se algum monstro ou...

– ... Criatura tentar pegá-la? – Completou Tati – Não vão fazer isso. Pois o que atrai monstros é o odor do semideus.

Assenti um pouco e, procurando sanidade, perguntei:

– Quer que... Eu faça minhas malas? O que irei precisar?

– Sim quero. Apenas roupas. Não precisa levar alimentos ou barracas. E... Passaremos na casa de uma amiga sua hoje também...

Tentei não fazer mais perguntas e me dirigi ao meu quarto e comecei a pensar em tudo o que acontecera. Monstros... Deuses... Aquilo era algum tipo de sonho ou pesadelo? Ela disse que meu cheiro chamava monstros... Se eu ficasse ali, minha avó estaria em perigo... Era melhor eu não relutar.

Terminei a mala. Pus várias mudas de roupas e alguns objetos que eu dava valor, como meu colar das Relíquias da Morte, e outros pequenos objetos. E o livro. Não sabia por que eu estava levando aquilo, mas depois disso tudo, acredito que o livro fosse algo importante.

Fui para a sala onde as duas conversavam. Minha avó parecia já preparada para que acontecesse isso, pois estava calma e concordava com muitas coisas que Tati falava.

– Está pronto? – Disse Tati.

– Estou, mas... Diga-me... Você é uma semideusa?

– Sou uma Dríade, uma Ninfa dos Bosques... Mas é melhor que eu te explique tudo no Acampamento...



Saindo da casa da minha avó, abracei-a e tentei dizer algo pra avisar que eu não estava entendo aquilo, mas que se ela achasse melhor, eu faria qualquer coisa. Porém ela apenas fechou os olhos em assentimento como se já soubesse o que eu iria dizer.



Tati esperava por mim em seu Palio Weekend verde deixando o porta-malas aberto para que eu pusesse minhas coisas e entrasse no carro. Ao colocar a mala nele, vi que a mala de bronze estava lá também. Imaginei o que podia ter nela, mas então, desviei meus pensamentos, fechei o porta-malas e entrei no carro tentando acreditar em tudo o que eu tinha visto.

– Eu sei que é difícil no início, Pedro... Mas não se preocupe você vai compreender tudo...

– Valeu...

Passamos por algumas esquinas e então reparei que aquele local me era familiar... Será possível que... Não, ela não devia ser uma semideusa. Mas por precaução perguntei:

– Me diga... Que amiga minha você disse que iria buscar?

–Achei que você já tivesse descoberto... Você a conhece há quanto tempo... 14 anos?

– Espera... Você tá dizendo que... A Laura é uma semideusa?

– Sim... Acho que é assim que ela se chama... Laura Carvalho... É isso mesmo?

Fiquei um pouco perplexo. A Laura era uma semideusa? Ri um pouco. Fiquei desacreditado, mas então reparei que não podia duvidar de nada naquela situação.

– Isso, isso mesmo. Carvalho.


Demorou um pouco, mas finalmente chegamos à casa da Laura. Os muros vermelhos com portões gradeados chamavam a atenção pela beleza. A casa era amarela e tinha dois andares, no segundo andar, na janela à esquerda, podia-se ver o quarto dela. Havia um pequeno jardim entre a porta frontal e o portão que abrigava algumas plantas e alguns anões de jardim e abria um caminho para a entrada.


Tati desceu do carro e pediu para que eu esperasse.

– Eu sei que está cansado e talvez isso demore, então... Pode dormir um pouco, se quiser. Só não mexa em nada...

– Ok.

Realmente eu estava cansado, então me recostei no banco e dormi.


Quando me deparei, estava num sonho. Havia nele uma grande estrutura grega que lembrava os templos construídos na época, os grandes pilares brancos sustentavam toda uma arte arquitetônica que parecia ser feita aos mínimos detalhes. Minha casa não daria nem um oitavo daquele lugar. As grandes portas com mármore se abriram e de lá saíram duas pessoas, uma mulher com feições faciais finas usando uma túnica branca e um louro no cabelo trançado e um homem forte e alto com uma barba branca e os olhos azuis, usava também uma túnica branca. Com pressa, a mulher fechou a porta, se virou para o homem e disse:


– Você sabe muito bem que não vou ficar aqui se... Aquilo estiver aqui também – Ela tentava falar baixo, mas expressava sua irritação e quando se referiu a “Aquilo” usou um tom de nojo, como se não quisesse falar o nome real que “aquilo” tinha. – Ele não irá nos trazer nada de bom, amor! Veja como são os outros... Ele é tão... Diferente e nojento... Nós precisamos nos livrar dele!

– Veja... Eu não acho necessário isso, ele só é diferente dos outros, mas seu caráter...

– Você irá me contradizer? Contradizer a sua própria mulher? Tem certeza disso?

O homem pareceu bem sem graça então assentiu como se nada pudesse fazer.

– E o que você fará com ele? – Disse o homem.

A mulher abriu um sorriso um tanto sádico, pensou um pouco olhando o nada e disse:

– Vou jogá-lo... Jogá-lo fora... O Olimpo não será a casa dele.

Então acordei.


O sol havia mudado de posição de forma que se podia reparar que já estava tarde. Ouvi um som de batidas de portões e me virei para a casa da minha amiga. Tati e Laura saíam pelo portão carregando as malas enquanto os pais de Laura se despediam juntos acenando para ela. Após por tudo no porta-malas, Tati abriu uma porta de trás e Laura entrou.


Ela usava uma camisa preta estampada com o símbolo dos Beatles e um short jeans. Laura era mais alta que eu e usava aparelhos nos dentes, seu cabelo moreno e liso quase alcançava a cintura e seus olhos negros miravam a janela.

Estranhei por ela não ter me cumprimentado e então reparei em sua expressão irritada. Eu disse um oi, mas ela me ignorou, então achei melhor ficar na minha.

– Ela está bem? – Sussurrei para Tati.

– Ela só não aceitou muito bem ainda... – Respondeu ela baixo.


A viagem foi silenciosa. Laura continuava sem falar nada. Eu a conhecia desde que nasci e sabia que se ela não queria conversar, era melhor não tentar nenhuma conversa. Ao que parecia, ela havia chorado um pouco, mas não ouvi graças o som do Skank no rádio.


Haviam se passado cerca de quatro horas e em algumas vezes, paramos para poder comer algo e voltar ao percurso. Após entrar numa trilha de terra vermelha no meio de uma selva, Tati parou próximo a uma clareira onde abriu a porta e pediu para que descêssemos. Assim que abri a porta, vi um grande portão grego de mármore escuro que erguiam archotes onde dançavam um fogo vivo mesmo sendo de dia e havia escrito na mesma língua da capa do livro:

“Acampamento Semideus Brasil”

Após pegar sua mochila no porta-malas, Laura abriu o olhar, impressionada com a cena.

– Onde que estamos? – Disse ela. Sua voz estava rouca e parecia cansada de falar alto.

– O Acampamento fica próximo ao Rio de Janeiro – Tati abria um sorriso enquanto falava – Vamos, vocês vão gostar.