Os Contos De Greenfar

4 A história se repete


O Povo das Rochas era assim chamado por viver ao pé dos penhascos rochosos da costa oeste da Grande Ilha de Greenfar. A pequena aldeia de Fred era a mais ao Sul da região e por isso, além de levar seus mantimentos típicos para a troca com outras aldeias, também levavam notícias do interior da Grande Ilha , já que eram os primeiros a recebê-las.

Apesar da localização privilegiada, a vida era muito simples, assim como seus moradores, que viviam com o que o conseguiam com as outras aldeias e com o que a terra, o bosque e o rio oferecim. Ao andar por entre as casas, Luca ainda se lembrava das primeiras impressões que teve quando chegou, procurando um mercado, carros ou postes de luz e também do fascínio pela maneira diferente como tudo acontecia naquele lugar.

Não havia energia elétrica ou barulhos como buzinas e televisões mal sintonizadas. Os sons vinham da natureza, da água correndo, das folhas se movendo com o vento ou vasos de barro sendo colocados sobre mesas de madeira. As pessoas moviam objetos com pequenos gestos, faziam a colheita nascer em um tempo inacreditável e era possível curar ferimentos só com o toque. Essa última tarefa não era tão simples, por isso toda aldeia precisava ter um curandeiro, alguém com uma notável habilidade de mover a energia dos corpos. E por isso Luca estava vivo hoje, graças às habilidades de Ayla.

Não se sabe se foi pelo grande esforço que Ayla fez para o salvar ou pela passagem para Greenfar, mas pouco tempo depois que chegou a aldeia Luca começou a perceber a energia de forma diferente. Era como se tudo em seu entorno o tocasse, mesmo que estivesse distante. Ayla logo percebeu e começou a ensiná-lo a ter controle dessa sensação e também a mover a energia. Sua percepção energética aumentou muito ao longo dos anos ele já conseguia sentir a energia de animais que estivessem além da entrada do bosque — , mas mover a energia mesmo que de uma flor a outra ainda parecia quase impossível. Sempre que Luca pensava em desistir Ayla dizia: Você acha que é com nossa magia que fazemos as flores crescerem? É quando acreditamos que se torna possível. Ela sabia o que dizia.

Enquanto caminhavam em direção a casa da curandeira, Fred e Luca foram interrompidos bruscamente por pequenas mãozinhas que puxaram suas roupas gritando com euforia:

– Fledi!! Luca! Venham ver minha dança para a festa das estações? Venham, venham!!

A garotinha não parou de falar enquanto os puxava para dentro da casa, até que os dois pararam na soleira da porta e Fred disse olhando para o interior:

– Podemos entrar e ver o show dessa pequenina?

A mesa estava pronta para a refeição da manhã, enquanto a família dos Trinid se preparava para sentar. O pai, Oli Trinid, se levantou rapidamente e se dirigiu a Fred com certa cerimônia:

– Fred! Perdoe nossa pequena Alis, espero que elas não os tenha importunado. Nem percebi quando saiu...

– Sim, Oli tem razão, Fred! disse sua esposa enquanto virava-se para a pequena Alis com o intuito de repreendê-la da travessura, mas antes que pudesse dar uma bronca, Fred disse gentilmente para todos sem deixar de dar uma piscadela para a garotinha:

– Não foi incômodo, eu e Luca estamos ansiosos por ver a dança de Alis.

A menina então correu para sentá-los na mesa, enquanto suas irmãs chegavam e cumprimentavam com muito respeito Fred e com jovialidade Luca, com exceção de Sarah, a irmã mais velha, que ficou bastante desconcertada ao se deparar com o jovem na mesa de refeição naquela hora e mal conseguiu cumprimentá-lo.

– A refeição está pronta. Fred e Luca, fiquem a vontade para comer conosco disse muito gentilmente Tela Trinid, a mãe das 4 meninas que já se serviam na farta mesa. Luca gostava da presença de Tela, seu jeito o lembrava de sua mãe.

Após a apresentação de Alis, que foi muito aplaudida por todos, Fred pediu licença para que ele e Luca se retirassem. Havia um assunto para ser tratado com Ayla e por mais que Fred quisesse adiar, ele sabia que não seria possível. Se despediram de todos em meio aos gritinhos histéricos de agradecimento de Alis. Após cruzarem a porta, Oli os seguiu e perguntou:

– Luca, a ida nas aldeias de cima será hoje, você vem conosco?

– Claro, contem comigo!

Luca não sabia como seria a conversa com Ayla, mas não queria dar explicações de possíveis porquês o levariam a não ir com os homens nas trocas entre aldeias. E continuaram em direção a casa florida.

Ao chegarem nos degraus da casa a porta se abriu e uma senhora surgiu. Apesar de ter quase a mesma idade de Fred, Ayla possuia um olhos azuis muito juvenis e uma maneira muito menos cerimoniosa. Tipicamente, os curandeiros eram pessoas muito sábias, serenas e pacientes. Para Ayla se aplicava somente a parte da sabedoria. Ela poderia ser mais agitada que uma criança e esse era um dos motivos pelos quais a conversa com ela era preocupante, ainda mais sobre um tema tão delicado.

– Sinto uma energia tensa vinda dos dois, então me contem logo o que está acontecendo. e foi para pegar chá para os três sem que ninguém solicitasse. Fred e Luca se entreolharam questionando-se quem deveria iniciar a conversa. Os dois conselheiros se conheciam desde a infância e apesar de ficarem muitos anos sem se ver após Fred sair da aldeia ainda mantinham a intimidade de velhos amigos. Talvez por conhecer bem o jeito explosivo de Ayla, Fred tenha iniciado o assunto:

– Ayla...é chegada novamente a Era de Terra Acima. Luca quer tentar abrir uma passagem para o mundo lógico.

Como era esperado, após 2 segundos de profundo silêncio, Ayla se manifestou um tanto quanto exaltada:

– Qual dos dois perdeu o juízo? Me digam agora, assim já sei por qual começo a explicar pela milésima vez o quanto isso é arriscado!

Luca esboçou uma resposta, mas Fred bateu em seu ombro como sinal para que ele nem tentasse. Ele sabia que qualquer argumentação só teria efeito depois que Ayla pudesse canalizar toda sua energia para fora. E ela continuou:

– Vocês sabem ou pelo menos conseguem imaginar os riscos que isso pode trazer para a aldeia e para toda Greenfar? Ainda mais sendo realizada por alguém com tão pouca experiência em magia como você, Luca! Esperem! Vocês não estão pensando em usar o maldito livreto, não é? Porque já seria loucura demais tentar fazer isso, ainda mais usando as instruções daquele lunático!

Ayla andava de um lado para o outro na sala completamente inconformada. Oscilando entre sussuros e rompantes de exclamações para os dois. Quando viu uma oportunidade para falar, Luca disse:

– Ayla, eu só tenho essa chance para tentar, é importante.

A senhora parou de frente para os dois e colocou as mão sobre o rosto. Seu tom agora era de desabafo.

– Fred, diga para ele, não acredito que você esteja sendo conivente com isso. Luca...Fred...vocês não fazem ideia do que eu tive que fazer para salvá-lo. Eu não sei se consigo fazer de novo, vocês entendem? Luca, você vai colocar sua vida em risco!

– Ayla, eu não consigo te dizer o quanto sou grato por tudo que você já fez por mim, e o Fred também, é claro, mas eu prefiro arriscar a minha vida nisso do que viver uma vida pela metade.

Ao ouvir essa frase o semblante de Ayla mudou e toda a agitação foi embora subitamente. Ela se lembrava claramente do dia em que ouvira essa frase pela primeira vez. O unico dia em que não conseguiu convencer alguém a seguir seus conselhos.

– Luca, por favor, saia. Preciso conversar com Fred em particular.

Luca saiu da casa confuso. Nunca havia visto Ayla tão abalada.