Os Condenados
5 Eu, você, e tudo o que eu quero
Notas iniciais
10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0...
Acho que deve ser a trigésima vez que eu fazia essa contagem, antes ela costumava me acalmar, hoje nem tanto.
Nunca pensei que teria um momento como esse, onde não conseguisse enxergar uma saída para algum problema que eu tivesse.
Se bem que eu nunca tive esse tipo de problema.
Adoraria estra em negação agora, acreditando piamente que tudo havia sido um sonho doido, e que amanhã eu acordaria para mais um dia normal na escola, onde o mundo me ignorava como devia ser, e nada estava fora do seu devido lugar.
Mas aqui, deitada na minha cama, depois de horas naquela mansão velha, que um dia eu considerara meu local seguro, ouvindo como estava destinada a um tipo de amor que só os livros de contos de fadas relataram até hoje, eu sabia que amanhã seria tudo, menos um dia normal na escola.
“ eu senti sua falta, amor”
Dickerson olhou no fundo dos meus olhos e me chamou de amor de sua vida. (Ou o que quer que ele chame seus mais de sete séculos na Terra)
E eu acreditava nele.
Por tudo que é mais sagrado no mundo, por tudo em que eu creio, não importava o quão louca essa história sobre bruxas e um casal maldito parecesse, eu acreditava nele, do fundo do meu coração.
Porque eu queria isso.
Acreditar nele era como poder me sentir especial, como ter algo que ninguém mais tinha, algo para que o mundo invejasse, afinal, quem não quer ser o amor destinado de um cara gato?
Mesmo o meu ceticismo e o meu sendo de superioridade, que me mantiveram na linha por toda a minha vida não eram capazes de parar a fascinação que eu sentia agora.
E nesse momento eu rezei.
Rezei para que tudo fosse real, que houvesse realmente alguém lá fora, que esperou e procurou por mim, que me queria mais que tudo, que fosse a minha chance de ter um dos contos de fadas que eu nunca acreditei serem reais, que segundo a minha grande sabedoria infantil, só serviam para iludir pobres meninas, que passariam a sonhar com seus príncipes encantados vindo em cavalos brancos para leva-las para seus castelos, onde viveriam felizes para sempre, para que eu pudesse ter um para mim.
Um só para mim.
Meu próprio príncipe, meu próprio castelo.
No fim eu era só mais uma garota.
Tic tac, tic tac, tic tac...
Eu sabia que já era tarde, depois das duas da manhã, mas estava acordada demais para sequer pensar em dormir.
Então eu me senti mal por ter ignorado Dick todo o caminho até a minha casa está tarde, depois que ele pacientemente aguardado que meu surto perante suas revelações passasse.
Veja bem, algumas coisas horríveis foram ditas por mim hoje.
Algumas eu não tenho certeza de como aprendi ou mesmo como tive coragem de pronunciar.
Mesmo assim ele apenas ficou lá e me escutou, como se nada pudesse o atingir, como se não houvesse nada que eu pudesse dizer que o afetasse, como se nenhum dos meu gritos e xingamentos fosse ruins o suficiente.
Na hora tudo que isso fez comigo foi me fazer ferver de fúria, achando que ele acreditava ser melhor que eu, e que alguém do meu nível não pudesse ter tanta importância ponto de ofende-lo.
Mas agora eu percebo que ele apenas não queria que aquilo continuasse, então me deixou descarregar a minha raiva no lugar de revidar.
Eu deveria ficar grata por isso, e me desculpar.
Mesmo que o universo me odiasse e nada disso passasse de uma piada de mau gosto, eu aprendi que devemos nos desculpar pelas coisas que dizemos e fazemos de errado.
E eu faria isso.
O barulho do despertador me acordou as 5:50 AM. da manhã pontualmente, mesmo que eu mal pudesse distinguir um palmo na frente do meu nariz, devido a escuridão total em que o meu quarto se encontrava.
Me arrastando para fora da cama, eu entrei no banheiro.
As luzes muito brancas me cegaram momentaneamente, e eu me encolhi, tapando meus olhos com o braço.
Eu segui minha rotina diária como se nada estivesse diferente, e aparentemente nada estava, mas eu sabia que tudo tinha mudado.
Ontem aparentemente o meu destino tinha sido revelado para mim pelo cara que cobiçara o ano todo em segredo, mas no momento em que ele me disse que eu era sua amada perdida e destinada, tudo que eu pude fazer foi gritar por mais tempo de que se podia considerar normal.
Depois de me trocar, pegar a minha mochila, e passar pelos meus pais sem me sentar para tomar café, como em todas as outras manhãs, eu segui o meu caminho para os meus últimos dias como uma estudante colegial.
No mês que se passou, tudo em que eu podia pensar era em como finalmente o martírio chamado Ensino médio estava chegando ao fim, e enquanto o resto das meninas da escola pensavam no tão prestigioso Baile de Formatura, eu pensava em como me mandar de casa.
Não me levem a mal, amo os meus pais e tudo o que fizeram por mim durante toda a minha vida, mas acho que agora está na hora de viver a minhas próprias aventuras, bater as asas e sair do ninho, essas coisas.
Eu só não pensei que o meu tão sonhado primeiro voo solo seria interrompido pelo furacão destino.
Mas OK, sempre há um lado positivo, eu só preciso encontra-lo na minha atual situação.
Os grandes portões de ferro que eram a única saída dos muros prisionais da minha amada escola se erguiam na minha frente depois de apenas dez minutos de caminhada. (Meus pais caíram na conversa de posição privilegiada com proximidade de tudo no momento de se fixarem por aqui).
Apesar da frente fria que estava por toda a região nos últimos dias, hoje havia um mormaço no clima, esquentando como um forno, mesmo com a camada grossa de nuvens que forrava o céu nesta manhã.
O estacionamento estava apinhado de gente como sempre, pessoas que param para conversar e mesmo estando a literalmente 10 metros do prédio da escola, conseguem se atrasar para as aulas.
Façanha incrível, admito.
Mas hoje eu não poderia só passar reto por todos os rostos familiares, porém estranhos, dos meus colegas, e sim procurar no meio deles por Dickerson.
Nunca pensei que seria um desafio achar alguém no meio de um punhado de estudantes, principalmente alguém que se destacava como Dick fazia, mas aqui estava eu, rodando como um rato cego a procura de queijo.
Então eu vi algo que me mostrou a direção certa.
Uma roda de cheerleaders que mais pareciam lobos famintos prontos para o ataque contra uma pobre gazela inocente.
Eu sabia bem o que isso queria dizer. Um cara gostoso.
E quem era o gostosão do pedaço?
DIN DIN DIN DIN.
Ali estava o sinal que eu precisava.
Letreiros de neon são tão superestimados, quem precisa deles quando se tem um bando de garotas doidas por sexo que são melhores do que cães farejadores?
Eu marchei em direção a concentração de predadoras sexuais, sentindo como se estivesse indo direto para um bando de harpias raivosas, que poderiam comer o meu fígado se quisessem.
Dito e feito.
Lá estava ele, bem no meio da concentração, cercado por todo os lados enquanto ria e sorria como se não houvesse amanhã para o seu bando de admiradoras.
Eu parei mais de um metro longe do grupo, distância que eu considerava minimamente segura para a minha integridade física.
— Ah, com licença, mas preciso dar uma palavrinha com você, Dick. Se não estiver ocupado, obviamente.
Sabe aqueles momentos nos filmes, em que o herói olha para a mocinha, e toda a cena fica em câmera lenta?
Pois é, não aconteceu comigo.
Ele apenas me ignorou e continuou flertando.
O FILHO DA PUTA NEM OLHOU NA MINHA CARA!
Mas sua legião de fãs com certeza me ouviu.
— Dick? Você por acaso, não tem noção de ridículo?
WOW.
Eu não sou uma pessoa violenta, não mesmo, de maneira nenhuma.
Então o motivo de porque eu quis enfiar a cara da piranha de rabo de cavalo no para-brisa do carro mais próximo é desconhecido.
— Escuta aqui, só porque você e seu séquito de vadias uniformizadas acham que são superiores aos outros estudantes, não quer dizer que realmente seja assim beleza?
O silêncio sepulcral que se espalhou ao meu redor me fez perceber que eu tinha dito isso um pouco alto demais.
O vermelho que eu via alguns segundos atrás desapareceu instantaneamente, e eu senti meus dedos amortecerem na alça da mochila, quando os sussurros começaram a minha volta.
— Acho que você não tem é noção de perigo, isso sim! Quem você pensa que é sua vaca?!
É isso ai Keyce, começou, agora termina!
— Keyce, nenhum prazer em conhecer você.
Eu assisti congelada no lugar enquanto ela avançava na minha direção, as garras afiadas e cor de rosa apontadas diretamente para o meu rosto... até que ela parou.
Na verdade, foi parada.
Dickerson estava parado atrás dela, um braço ancorado firmemente na sua cintura, enquanto a suspendia vários centímetros do chão e a virava para o outro lado, longe de mim.
Mas o olhar dele não saiu de cima de mim em nenhum momento enquanto ele afastava a criatura horrendamente vestida de azul e amarelo que se debatia em seus braços.
E eu apenas fiquei ali, parada, amortecida no lugar.
Merda! Eu nunca tinha puxado briga em toda a minha vida! Merda, merda!
Então de repente eu estava sendo puxada pelo estacionamento por uma mão firme bem acima do meu cotovelo, enquanto a multidão que assistia se afastava como uma onda, deixando um raio de exclusão de 2 metros de distância.
Como se eu tivesse uma doença extremamente contagiosa.
Afff.
Depois de ser praticamente arrastada de um extremo ao outro do pátio, finalmente olhei para a pessoa que me puxava, me deparando com o perfil de mármore daquele que eu antes buscava com afinco.
— Não achei que você fosse uma encrenqueira.
A voz dele era fria e afiada como aço, mas me deixou estranhamente quente.
— E eu não achei que você arrastasse as pessoas contra a vontade delas! Me solta!
Plantei firmemente meus pés no chão, freando nós dois ao mesmo tempo, com um tranco.
Ele se virou para mim, me encarando, parecendo esperar alguma coisa.
Eu o encarei de volta.
Ele falou primeiro.
— Então?
— Que é?
— Você não queria falar comigo?
Então me lembrei do motivo inicial do porque toda aquela confusão tinha começado.
— Eu queria pedir desculpas, sabe, por ontem. Eu não deveria ter gritado e dito aquelas coisas para você. Nem ter saído daquela forma. Sinto muito, mesmo.
Confesso que me senti um pouco ofendida com a expressão de surpresa que ele fez para o meu pedido de desculpas, mas em seguida, sua expressão derreteu, e se tornou calam e tranquila, até mesmo... amável.
— Está tudo bem Keyce, você até que não reagiu tão mal dessa vez. Não se preocupe com coisas bobas como pedir desculpas.
Dessa vez?
— Perdão, você acabou de dizer dessa vez?
Então ele riu, um sorriso de parar o coração.
— Teve uma vez, na sua última reencarnação, que quando eu contei essa mesma história para você, você atirou em mim com uma espingarda.
— Eu atirei em você? Eu? Com uma espingarda?
— Sim, e doeu à beça, mas você cuidou de mim depois, quando se arrependeu, como sempre faz depois de reagir mal, você se desculpa, mesmo que tenha motivos para surtar.
— É, com certeza essa sou eu, a boba de coração mole.
Ele se aproximou de mim, passos vagarosos, até que não houvesse nada mais do que alguns centímetros nos separando, e então, segurou meu rosto com ambas as mãos.
Quente.
— Um coração lindo, isso sim.
Quente. Tão quente.
Olhando em seus olhos agora, eu acho que poderia nunca mais me mover, ficar assim para sempre.
— Você está toda vermelha Keyce, por acaso tá passando mal?
Quente! Quente! Quente!
— Eu não sei, tá muito quente aqui, acho que estou com Hipertermia.
— Eu não sei, você parece meio desnorteada.
Então ele terminou de fechar a distância entra nós, selando seus lábios na minha testa, e os mantendo lá pelo que me pareceu uma vida toda.
Uma vida incrível.
— Você está fervendo.
— Eu me sinto assim.
Mais ainda, como se pudesse queimar viva.
— Já estava assim antes?
— Não, fiquei assim depois que...
Algo no meu rosto deve tê-lo assustado, pois quando me olhou, sua expressão calma se esvaiu, e um semblante fechado tomou o seu lugar.
— Depois de que?
— É você!
— Eu?
— Você! Você me deixou quente!
Em minha defesa, só percebi o quão constrangedor isso soava depois que as palavras pularam para fora da minha boca, mas juro que a gargalhada que ele soltou valeu todo o meu constrangimento, talvez valesse até mais.
— Eu acho que entendo. É o seu corpo reagindo à mim. Ei ei, espera, estou vendo sua cara, e eu não quis dizer o que você acha que eu disse, mas não faz diferença. Não quero ser chamado de maluco novamente.
— Me diga, eu quero saber.
— Você disse menos de 24h atrás que não acreditava em nem uma palavra que saia da minha boca imunda, ou que vinha da minha mente perturbada.
— Eu mudei de ideia. Por favor, me diga.
— Até ontem você achava que eu estava tentando te enganar e tirar sarro de você. O que mudou?
— Eu tive tempo pra pensar, botar as ideias em ordem, e acho que... acredito em você, bom, pelo menos um pouco.
Eu sento sangue correr enlouquecido para as minhas bochechas, passando pelo meu pescoço, esquentando ainda mais o meu corpo, enquanto eu corava.
E ali estava ele outra vez, o sorriso que faria o sol sentir vergonha de si mesmo de tão brilhante que era.
— Acredita em mim?
— Acredito.
Quero acreditar, quero ser especial.
E foi ai, neste momento, que eu soube que tudo o que ele me disse era verdade. Como eu sei disso?
Fácil, ele me beijou.
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