Notas iniciais
Alguns nomes podem ser conhecidos de livros( como Nárnia) e histórias em geral que vocês, leitores, já leram. Mas, bem, a história é minha e o significado destes nomes é totalmente diferente, então, por favor, não me acusem de plágio :v

O barco balançava num movimento rítmico há dias.

Tínhamos velas, mas nem o vento nem a correnteza ajudavam, e haviam apenas dois remos disponíveis para uma embarcação com 6 pessoas, além de quilos de mantimentos e armas.

Já haviam se passado três dias desde que o grupo fugira do caótico porto de Elnet, deixando para trás outros passageiros do agora destruído Princesa de Telmar, e... bem, eu estava entre essas pessoas e não me arrependia disso. Afinal, ainda fiz o favor de pedir para Essen, o estranho porém poderoso mágico, os auxiliar em fuga.

– Como nos viu fugindo? — Perguntei a Lonpak, estranhando o fato dele só ter nos notado no último segundo antes de zarparmos do cais.

– Os piratas me encurralaram, e quando notei já estava praticamente na borda do cais. Quando a serpente gigante os atacou, achei que a sorte havia mudado de lado, mas a criatura não parecia distinguir aliados ou inimigos. Aproveitei a confusão e corri para o primeiro barco que vi, longe da confusão. Coincidentemente, vocês estavam lá.

Kalysa, a jovem concubina( ou, caso prefira linguagem direta, meretriz) arkhen, fez a pergunta que ninguém havia tido coragem de fazer até então.

–Mais importante. Como você virou um urso-rena, ou sabe-se lá o quê era aquilo?

O elfo-dos-campos assentiu.

–Alguns da minha raça possuem oculto um poder... eu diria que perigoso. Não é como a licantropia, como alguns dizem, mas eu não culpo quem o faz. Quando você está sendo atacado por uma besta peluda que momentos antes era uma pessoa, é realmente complicado e desimportante especificar qual é o nome da besta. — Olhou para todos, esperando algum tipo de reação, o que não aconteceu — Estamos fadados a viver sob essa maldição. Nos foi imposta ainda nos Dias Primordiais, quando os dragões ainda eram vistos na proporção de pássaros, e quando os Filhos dos Deuses reinavam na Terra Lendária. Éramos elfos comuns, mas víviamos como escravos dos puro-sangue, pois séculos antes nos unimos com druidas da floresta densa, o que nos tornou "inferiores" aos outros elfos de linhagem incorruptível. Até que um de nós se rebelou, utilizando magia das almas, e assim invocou o espírito do urso e do alce, habilidade que havia aprendido com seus avôs druidas sem permissão. Com isso, conseguiu se transformar numa besta voraz que estraçalhava os nobres e abria suas entranhas com uma única patada, mas também por esse mesmo motivo os dois espíritos ficaram presos nele, e poderiam sair a qualquer momento. Sem saberem do preço, os outros escravos fizeram o mesmo, e embora tenham derrotado os puro-sangue, foram forçados pelos Filhos dos Deuses a migrarem até Gargos, se estabelecendo na terra de Ningoroud. Essa é toda a história. — Mesmo com aquilo dito, algo no olhar dele me dizia que ainda havia algo faltando, que tornava a lenda incompleta. Mas permaneci calado.

Havia algo ali, naqueles cinco com quem eu partilhava espaço na pequena embarcação, que parecia unir e ao mesmo tempo separar a todos. Talvez fosse o passado misterioso. O que eu sabia sobre Mljet? Apenas que estava a serviço de Westka, era inteligente e ótimo em duelos, mais nada. Hvar fazia parte do meu passado, foi o braço direito do meu pai, e ainda assim nada sei sobre o velho. Conheci Lonpak menos de um mês antes, numa feira livre em Maali, e só então fui saber algo sobre quem ele era realmente. Nem falarei de Kalysa.

E havia Gustaf. O Terror da Tempestade era um caso especial.

–O que há que eu possa comer aí? — Me questionou o rusko, pois eu era o mais próximo ao saco de mantimentos.

–Hã...vejamos...pão, pão e... mais pão. — Notei algo diferente de pão no fundo do saco — Tem também um cantil de água e um pedaço de queijo.

–Só pão serve.

Como pedido, o entreguei o alimento.

Enquanto ele comia, Hvar dormia profundamente, roncando alto. Lonpak apenas olhava fixamente para o oceano. Mljet estava em pé na proa, observando o horizonte à procura de terra firme ou mau tempo. A moça arkhen estava sentada, aparentemente desconfortável, rodeada por homens.

O tempo passou de forma monótona, e a noite chegou.

Todos dormiam, à exceção do rapaz de Westka, que dissera-me ter problemas com insônia longe de casa.

–Você pode ir dormir, se quiser. Duvido que eu consiga fechar os olhos com a este mal-estar.

Não discuti.

–Se você garante... me acorde a qualquer sinal de perigo, alguma ilha ou coisa do gênero.

Eu não notara, mas estava muito cansado. Nas duas noites anteriores, não havia dormido. Pelas contas, apenas duas idas ao mundo dos sonhos nos últimos cinco dias. Tanta coisa havia acontecido nesse curto período de tempo que eu não consegui arranjar tempo para ter sono... e agora parecia que o deus Desperto estava liberando em mim tudo que acumulara antes.

Não consegui pensar muito. Caí no sono rapidamente.

E tive o sonho.

Eu estava no mesmo barco, porém sozinho.

–Lonpak? Mljet? — Entrei em desespero — Onde estão todos?

A Lua figurava imponente como a rainha celeste durante a noite, e uma sombra apareceu atrás de mim. Pude sentir que sua presença real não era dali. Ela estava se projetando de outro lugar.

–Olá, herói.

–Essen?

O mágico finalmente estava vestido de outra maneira, sem a barba que tinha antes, sem os espessos pêlos negros e loiros que cobriam sua cabeça, e agora usava um colete em vez de sobretudo.

Os brincos extravagantes ainda estavam na sua orelha, porém um não estava ali anteriormente: um pêndulo de jade que se projetava da sua orelha esquerda, com coroa circular de ouro. O mineral liberava uma estranha e hipnotizante luz verde, mas o transe foi quebrado quando ele falou.

–Sabe que está sonhando, não é?

O comentário me atingiu e fez a ficha cair. Era a única explicação plausível para o sumiço dos outros e o aparecimento de Essen.

–Claro que sei — afirmei como se tivesse certeza disto desde o início do sonho — Mas o que está fazendo aqui? Você não me parece algo muito... sonhável. Quero dizer, isto está real demais para que seja simplesmente um sonho.

Ele deu de ombros.

–Atualmente estou em outro lugar. Aqueles piratas não foram tão fáceis de parar quanto eu imaginava. E, claro, tenho alguns truques relacionados aos sonhos. Vim lhe passar uma mensagem, e não tenho muito tempo para isso. — Sentou-se na ponta do bote — Então, ouça bem.

Que tipo de mensagem estaria o ilusionista querendo passar? E por que seria tão importante ao ponto dele vir ao meu encontro no mundo dos sonhos?

Eu estava com muitas coisas passando na minha cabeça.

–Na verdade, duas mensagens. — Fez uma pausa — Primeiramente, saiba que eu e você nunca mais nos veremos no mundo desperto. — Não fazia ideia de qual seria a importância dessa informação — E... você chegará ao seu destino, se contar com uma ajuda de um amigo meu.

–Do que está falando? Já estamos a caminho da Oito Terras. A única ajuda de que precisamos para chegar até lá é a da correnteza.

–Não falo desse destino. Quero dizer, seu objetivo maior. A-t-t-e-r-a-x — Pronunciou a palavra lentamente, como se gostasse da maneira como ela soava — Como eu ia dizendo, para chegar até tal coisa, ou pessoa, precisará falar com um conhecido meu.

Assenti. Não havia mais motivo para tentar fingir que não sabia do que ele falava. O mágico tinha habilidades sinistras.

–E quem seria este?

–Fico feliz que tenha perguntado. Seu nome é Logos Drovar. Mas antes, saiba que ele não é muito comunicável se você não falar da maneira certa com ele.

–Que tipo de maneira certa?

–Você descobrirá.

Antes dele ir, indaguei:

–Por que está fazendo isso? Digo, nos ajudando? Você disse que não interferiria mais na trama, nem ajudaria os personagens!

Essen agora parecia sombrio.

–Quando vocês se foram no bote, eu percebi algo. — Ficou novamente de pé, e fitou a Lua que se erguia no céu, agora com algumas nuvens em sua volta. — Não sou mais do que um personagem neste enredo, e o autor está me usando para ajudá-los. Não tenho motivos para não o fazê-lo. De alguma maneira, eu gostei da sua maneira de agir. E você tem um passado interessante. Se eu não fosse parte desta história também, você ainda seria meu personagem preferido.

Fiquei mudo.

A noite ficou mais sombria, e quando olhei para a Lua, mais nuvens haviam se acumulado no céu.

–Hã, tenho que ir. — Subiu na borda da embarcação,de costas para o oceano.Seu brinco não estava mais lá, por algum motivo — E se eu fosse você, faria o mesmo. Tem uma tempestade chegando aí. Entre outras coisas.

Antes que eu pudesse pedir explicações, o que aparentemente fora minha única utilidade durante o meu sonho, ele se jogou no mar, e quando fui olhar, havia apenas a mesma água salgada de sempre, sem nenhum homem excêntrico afundando.

Pensei no que ele estava falando.

Tempestade?

A resposta me veio rapidamente, de uma maneira bem clara. De repente tudo ficou turvo, como se eu estivesse dentro d'água. Ou melhor, debaixo d'água.

O sonho se desfez, e acordei num clarão, por mais escura que estivesse a noite.

– Como eles chegaram até nós?! – Tive que gritar para que pudessem me ouvir na forte chuva que caía sobre nós. E sobre eles.

Os piratas estavam a mais de 100 metros do bote, mas nem isto nem a chuva eram empecilhos para as balas de canhão que eram lançadas na nossa direção. Felizmente, e provavelmente pelo fato da embarcação ser pequena, eles estavam errando por muito, mas o impacto dos projéteis ainda produzia ondas que balançavam o barco freneticamente.

Maldita pólvora, pensei. Afinal, ela ainda não era útil para muitas coisas além disso na época.

– Os piratas não vivem no mar, o mar que corre nas veias deles. Conhecem o Mar de Sangue como a palma da mão, e presumindo que eles sabiam que seguíamos para as Oito Terras, não deve ter sido difícil criar uma rota para nos encontrar. – Mljet, o mais próximo a mim, falava calmamente, como se não notasse que, novamente, estávamos correndo risco de vida.

Mais uma bala de canhão, desta vez a poucos metros de nós. Eles estavam melhorando cada vez mais a mira. Mais algumas tentativas e seriam certeiros.

– O que podemos fazer? – Perguntou Kalysa.

A resposta era óbvia, e veio de Gustaf.

– Esperar que esta tempestade derrube eles antes de nós. – As únicas armas que poderiam, talvez, servir de alguma maneira naquela situação, eram flechas( não possuíamos armas de fogo, e não creio que elas pudessem percorrer tal distância), mas a pancada d’água e os ventos fortes não colaboravam conosco.

Como que em resposta ao que o Daggar Branco dissera, uma enormíssima onda se projetou por detrás da embarcação onde estavam os piratas, que pude reconhecer como sendo os homens dos Espadas Vermelhas(muito por causa do desenho na vela inutilmente estendida).

O barco virou, em meio aos gritos de socorro dos corsários e marujos, ignorados pelos deuses do mar.

– É isso? Estamos salvos? – Lonpak, assim como todos, parecia surpreso com nossa sorte – Foi mais fácil do que imaginei.

A chuva não dava trégua. Mas eu não fazia questão que ela parasse. Já havia tido sorte o suficiente por uma noite.

Agora, o próximo passo. Tentar velejar com o bote no meio de ondas gigantes e ventos fortes como eu não sentia há anos.

– Sem comemorar. – Hvar disse –Agora temos que controlar bem o movimento disto aqui ou acabaremos que nem eles. – Seguiu até o remo, pegou-o e me deu. – Tome, sua vez de remar. – Ele tinha razão. Eu era o único que ainda não havia remado(além da garota de Arkhang).

– Perdemos a comida? Espero que não. Não poderia aguentar nem três horas sem comida, imagine então esta viagem inteira. – Gustaf parecia realmente preocupado com a possibilidade de termos perdido mantimentos.

Mas, felizmente, os sacos de pão, queijo e água, embora um pouco úmidos, ainda estavam conosco.

–Segurem-se! – Exclamaram subitamente Mljet e Lonpak, de forma simultânea. Tomamos um susto, mas obedecemos.

O porquê dos gritos dos dois veio logo depois. Uma onda com cerca de 15 metros nos cercou por cima, e de repente não vi nem senti nada além de água salgada. E gelada, muito gelada.

Se a embarcação pirata, com três vezes o nosso tamanho, havia sido facilmente virada, imagine então um pequeno bote para sete pessoas?

Afundamos na escuridão profunda e gelada do oceano, e não ouvi nada que não fosse a queda dos outros na água. Meus pulmões pareciam prestes a explodir. Eu começava a ficar sem ar.

Como nas tantas vezes anteriores, apaguei. Não foi como se dormisse, pois não sonhei. Era simplesmente como se minha consciência tivesse resolvido ir para um outro lugar qualquer. Mas lembro-me bem de uma imagem antes de ficar inconsciente.

Uma bolha brilhante enorme, no fundo, presa à areia. Ela se movia até a área abaixo de nós.

...

–Zulûk alziter pareeni? — Exclamou um guarda. Junto a ele, outros seis, ou mais. Este especificamente tinha um rosto quadrado e pálido, com orelhas de formato estranho e azuladas(semelhante a barbatanas). Seus longos cabelos também azulados eram cortados rentes, e esse único padrão parecia se repetir em todos os outros.

Ah, sim. Havia um pequeno detalhe.

Eles estavam montados em cavalos marinhos com o tamanho de cavalos terrestres. Ou maiores que isso.

–Zulûk!? Hatefai! — À época, eu não entendi absolutamente nada do que ele falava, mas com o passar dos anos aprendi a transcrever os caracteres em nosso Idioma Comum. Todos eles tinham um longo tridente dourado nas mãos, e vestiam armaduras que não eram feitas de metal, e sim de pedra com coral.

–Desculpe, não conseguimos entender vocês... — Lonpak estendeu as mãos para cima, em sinal de rendição. Fiz o mesmo, esperando que os soldados compreendessem.

Embora eu não tivesse dado atenção a isso, todos que afundaram no bote pareciam estar no local.

A propósito, que lugar é esse?

Os guardas começaram a discutir entre si no estranho idioma, talvez pensando no que fazer com o grupo de forasteiros que simplesmente caiu ali de repente, e não conseguia compreendê-los tanto quanto eles não os compreendiam.

Ficaram nisto até que ouvimos uma voz de autoridade, dessa vez falando algo que pudéssemos entender.

– Alto! — Em seguida, no mesmo tom de voz, mudou de língua — Tei'har!

Todos os soldados se curvaram imediatamente, abrindo passagem para um sujeito alto, de cabelos brancos que iam até o pescoço, e também vestido com a armadura de coral, porém com detalhes dourados. Não carregava um tridente, e sim um arpão prateado com caracteres desconhecidos entalhados no comprido cabo, maior que o próprio homem que o usava.

– Vejo que não conhecem a nossa língua. Afinal, não são daqui, presumo. — O sujeito desceu os degraus de pedra do salão vazio onde estávamos. As paredes eram transparentes, nos possibilitando ver o mar em toda sua imponência, mas por algum motivo os peixes e outros seres marinhos que passavam simplesmente ignoravam a bolha onde estávamos. A claridade no topo do oceano indicava que já amanhecera.

– Devo admitir que não. — Confessei — Mas, em todos os meus trinta e dois anos humanos, nunca havia ouvido tal idioma ou visitado tal lugar, com esta esplêndida beleza rústica. — Disse tudo que pensava naquele momento. O local era realmente belo — Que lugar é este, e quem é v...

– Acredito que quem faça as perguntas aqui seja eu, mas responderei as suas dúvida. Primeiro, meu nome é Pterois. Pterois Splent. Meus soldados estão prontos para lhes levarem a um lugar onde vocês possam saber mais, mas só sabem falar sua língua materna, o que é um problema quando encontramos estrangeiros.Embora isso seja raro. De qualquer forma, vocês estão em Telmar, berço dos tritões. Agora quem faz as perguntas sou eu.

Seguimos, escoltados pelos soldados e com Pterois guiando-nos na frente, até um palácio inacreditavelmente belo. Era feito de ouro, ouro e mais ouro. Além de esmeralda e rubi. Muitos rubis.

Não possuía torres, como a maioria dos palácios, muito em conta pelo fato da bolha( ou melhor dizendo, cúpula, como nos ensinara Splent) não ser alta o suficiente para suportar construções do tipo.

Mas ainda era extremamente belo, e extravagante. O arco na frente dos seus jardins de corais e algas indicava que o rei daquele local(ironicamente, o local que deu nome à nossa já esquecida e destruída galé) era um homem, quero dizer, tritão, que gostava de esbanjar riqueza.

Eu não fazia ideia de como se podia respirar ali, ainda mais quando haviam milhares de pessoas respirando apenas na entrada do palácio, inalando ar puro e expirando gases nocivos, todas provavelmente servas. Mas diferentemente da maioria dos servos de uma família real, aqueles não pareciam tristes, e sim motivados. Todos cantavam no idioma telmarino em conjunto, como se vivessem a mais alegre da primavera entre todas as Eras. Não que a primavera fizesse efeito debaixo d'água.

Quando chegamos no saguão principal do castelo submarino, um homem com uma grande barba e corpo grande até para um ciclope estava esperando, sentado no trono. Ornava o que devia ser uma coroa de ouro(para variar) e jade, com pequenos diamantes incrustados. Apesar do porte físico, não tinha armas à vista nem usava a típica armadura de pedra e coral, e sim uma simples cota com uma textura de escamas. Também notei que não usava botas, então foi possível ver que seus pés possuíam escamas semelhantes às da roupa, com apenas quatro dedos azulados, como um cadáver que passou dias na água.O que provavelmente havia acontecido, em proporções ainda maiores.

Parecia triste, o tritão. E pensativo, com certeza.

–Zahre, Atvar! Pareeni sobos trav zuluk... — Disse Pterois, agora com um tom respeitoso, dirigindo-se ao rei.

–Caf vahresi pareeni? Sho vesnar Atvar! — Gritou o rei.

–Taelmare sobos daslak, Atvar. Trav kabesh, if taelmare.

O grandalhão de cota escamosa olhou para nós com desconfiança.

–Estrangeiros?

–S-sim, rei.- Mljet finalmente deu sinal de que prestava atenção à discussão, pois assim como eu, estava estupefato com a beleza do palácio — Não queremos problemas, queremos apenas chegar até as Oito Terras.

O rei levou a mão ao queixo, ou o que podia ser o queixo no meio daqueles pêlos da sua longa barba.

– As Oito Terras? — Em seguida, sussurrou algo no ouvido do servo à sua direita, que respondeu com algo que parecia ser "aesteci"(entenda como "leste"). — Como nos encontraram, e o que pretendem fazer nas Oito Terras? Estamos nos direcionando ao Mar Híbrido.

Era esta a lenda.

Telmar era uma enorme cidade submarina que se movia livremente de maneira mágica, o que explicava os diversos forasteiros anônimos e heroicos que passavam por lá com o passar das Eras. Demos a "sorte" de afundar quando eles estavam passando na direção contrária à nossa.

Mas se eles rumavam ao Mar Híbrido, então seguiam para o norte, e nosso plano envolvia o sudeste.

Mais uma má notícia.

–Fomos atacados por piratas na tempestade que passou há pouco pelo Mar de Sangue, e afundamos com uma onda gigante. Presumo que estivessem passando debaixo de nós no exato momento em que naufragamos.

Hvar, Kalysa, Lonpak e Gustaf pareciam ansiosos, com medo de que falássemos algo ofensivo aos ouvidos de qualquer um ali. Mas tomamos bem as rédeas.

–Isso realmente faz sentido. Peixes do topo do oceano me contaram sobre duas embarcações antes de passarmos naquele trecho, e sobre uma tempestade se aproximando, Atvar. — Pterois Splent parecia disposto a nos ajudar. Ou talvez só quisesse se livrar rapidamente de problemas como nós.

–E você não me contou?

O sujeito de cabelos alvos ficou sem palavras frente ao questionamento do monarca.

–Não, Atvar Auratus. Não pensei que fosse necessário, afinal passamos por esse tipo de obstáculo em todos os percursos...

–Não importa, Splent! Você, como capitão das minhas tropas, deveria saber muito bem o perigo que passamos sempre que vemos mais de um ser da superfície acima de nós. As nereyd andam frágeis como nunca, e qualquer invasor poderia tomar facilmente os teso... — Parou quando percebeu que estava falando demais frente a nós — Simplesmente mandem-nos para o cárcere, por enquanto. Não tenho tempo para lidar com estrangeiros agora, então vocês os interroguem para saberem se são confiáveis. — Fez um gesto para irmos.

–Zahre, Atvar! — Disseram todos os soldados em uníssono e com grande vibração, à exceção de Pterois, que, claro, era o único que tinha entendido alguma palavra dita pelo rei Auratus sobre nós.

Nos prenderam numa cela razoavelmente grande.

Todos foram embora, menos o capitão dos soldados, que, do lado de fora da cela, sentou-se para nos fazer perguntas. Não reagimos, mas antes que ele falasse, Gustaf fez uma mesura e levantou-se, agarrando-se nas barras da grade.

–O que o seu rei falou sobre as nereyds?

Pterois se assustou.

–Afaste-se, por favor. E não tenho motivos para falar sobre isso. Lembrem-se, quem faz as perguntas sou eu.

–Olhe para nós. Acha mesmo que ofereceremos algum perigo se nos contar isso?

–Qualquer um oferece perigo quando a conversa é referente a isso. Me dêem um único motivo convincente para confiar em vocês, e direi.

O argumento fazia sentido. Eu não saio contando meus segredos por aí a qualquer um que aparece.

Me levantei, não faço ideia do porquê. Eu nem pretendia falar nada.

Mas quando me levantei rapidamente, algo caiu por detrás da minha orelha, algo que não estava ali antes.

O capitão telmarino ficou de queixo caído e olhos arregalados com o pequeno objeto de brilho esverdeado.

–Isto é... o Pêndulo de Jadir!

Eu também não poderia ficar mais surpreso. O que caíra tinha sido o brinco de Essen.

Notas finais
No capítulo 9, explicações sobre as Nereyds, e... é, não posso dar mais mini-spoilers, né, senão perde a graça XD Mas espero que estejam curtindo(críticas, elogios ou qualquer coisa do gênero, comentem(sério, não importa a opinião de vocês, comentem!Isso ajuda muito na motivação de um escritor para produzir mais :D))