Os Cinco Filhos da Aflição : Nerlinir nas 8 Terras
11 Capítulo 11
Notas iniciais
O cheiro de morte era nauseante.
O Kraken negro derrubara os três tronos de onde havia se erguido momentos antes, o que aparentemente enfraqueceu um pouco as três rainhas das nereyds.
Não era possível compreender. Se o Pêndulo de Jadir possuía um poder benigno, sagrado, em si, por que teria acordado uma colossal besta marinha?
Pelo jeito não havia muito tempo para pensar.
Um gigantesco tentáculo negro atingiu-me em cheio, me lançando, pelo que contei, cerca de 12 metros. Me choquei com uma nereyd transeunte(que assim como todas as outras, pretendia me atacar), e a dor do impacto foi amortecida muito provavelmente pela aura da fada.
Pelo que sentia, havia fraturado uma costela e agora praticamente mancava. Senti uma dor lancinante no tornozelo.
Gustaf e Mljet lutavam quase que lado a lado, golpeando qualquer um que se aproximasse. Embora estivessem na vantagem, muito em breve estariam cercados, pois as nereyds continuavam a vir de todas as direções. Estávamos no território delas, afinal.
Dyseus e Splent(que havia conseguido se livrar dos tentáculos, embora parecesse ferido) corriam até Lonpak, que investia sozinho contra o Kraken.
Não vi Pseph em lugar nenhum.
Anfitrite, embora mais poderosa do que nunca, pelo que presumi, parecia também temer a presença da horrenda criatura, que havia fugido do seu controle. Mas seus olhos estavam negros como eu nunca havia visto, nem mesmo quando presenciei um ritual de necromancia(o que é uma longa história).
Corri até o Kraken, pois era o que me restava a fazer.
A besta vociferou horrivelmente, de uma maneira que fez meus tímpanos tremerem, por mais que eu não estivesse realmente ouvindo os sons debaixo d'água.
Antes que eu pudesse fazer algo, a criatura liberou uma substância tão escura e assombrosa quanto uma noite sem estrelas, num raio de 30 metros. Para evitar que me cegasse ou asfixiasse, repus temporariamente a máscara de algas, ainda disparando em direção à lula-gigante(embora eu a chame desta maneira,a criatura não era exatamente uma lula, pois possuía ossos em algumas áreas do corpo e cerca de 20 tentáculos). Não havia muito que eu pudesse fazer. Um golpe de adaga não faria muita diferença naquela batalha, que já não era contra as nereyds, e sim contra o monstro marinho.
Embora com dificuldade, peguei o Machado do Amanhecer, e saí loucamente cortando os tentáculos que apareciam à minha frente.
Infelizmente, apenas à minha frente.
Algo me puxou por trás, pelo tornozelo(agora ainda mais dolorido). Não pensei muito e cortei o tentáculo, porém estava a vários metros do chão, e agora caía em direção à cabeça(?) do Kraken.
Durante a queda, notei que Anfitrite se aproximava rapidamente do monstro com uma gigantesca lança em mãos.
Caí dando um salto mortal e rolando para não sofrer mais fraturas, porém no exato momento em que toquei o chão, ou melhor, a cabeça do Kraken, fui empurrado para trás com o movimento de esquiva da criatura contra a lança da fada.
Acabei caindo, embora não de uma grande altura, apoiando-me no tornozelo bom(ou quase isso). Uma tensa batalha entre Anfitrite e o Kraken estava prestes a começar.
Mljet correu até mim.
–Más notícias! — gritou.
–O que houve? — perguntei, enquanto corria para longe das duas criaturas gigantes a poucos metros de distância.
–Piratas. Não são muitos, mas acharam algo que pode nos trazer problemas. Além, é claro, das nereyds insanas.
–E o que eles poderiam ter achado que possa piorar a nossa já miserável situação?
Mljet não precisou responder.
Os piratas, seis ao todo, atacavam as nereyds(um tentava tomá-las à força, mas logo foi repreendido pelo líder) e simultaneamente a nós. Na verdade, tive quase certeza de que eles atacavam sem distinção de alvos: queriam apenas pilhar.
Mal sabiam no que haviam se metido.
Calipso e Erato seguiram em direção ao Kraken, provavelmente para ajudar a irmã mais velha Anfitrite. Embora eu não tivesse percebido antes, agora as três estavam com armaduras de batalha, além de terem lanças decamétricas à mão.
Um dos piratas, provavelmente o líder, manuseava a espada mais belamente assustadora que eu já vira(sim, até mais que a espada de Gustaf). A lâmina possuía um brilho arroxeado, então era provavelmente feita de alguma espécie de liga de pérola. O cabo, embora empunhado pelo pirata, era visivelmente cheio de detalhes. Mesmo à distância, pude perceber que era formada por corais que envolviam a parte central, feita de um material que não consegui reconhecer. As guarda-mãos eram conchas brancas que naquela posição se assemelhavam a asas, e o pomo era uma pérola incrustada nos corais.
O chão tremia com a lua que se desenrolava entre as três rainhas e a criatura monstruosa.
Lonpak, Dyseus, Splent e Gustaf lutavam de maneira simultânea contra as nereyds e os piratas, o que era uma tarefa complicada.
Corri até eles, golpeando um bandido por trás. Um deles me xingou tanto que as maldições no meu nome por um momento devem ter perdido o poder.
Descendo a pequena elevação de areia que se formava naquela zona do Bosque dos Corais, andamos todos no mesmo sentido, mantendo a formação de círculo que eu e o westesi tentávamos quebrar.
A espada de pérola se mostrou bem afiada. O líder dos criminosos parava às vezes, exclamando ordens, e então voltava a golpear as nereyds. Felizmente, estava suficientemente distante do meu grupo, mas seus subordinados eram próximos o bastante para oferecer perigo.
O que fazer?Ali, podíamos respirar, então a tática da bolsa de ar não funcionaria daquela vez.
Dois deles avançaram em minha direção. Para minha sorte, utilizavam rapiers simples e que há muito estavam danificadas(metal sob as águas marítimas e sem a substância protetora dos telmarinos...), mas eu não podia subestimá-los, como me prometera anteriormente. A qualquer momento eles podiam provar que sempre possuem um jeito de conseguir sobreviver.
Os movimentos deles se assemelhavam a uma exótica dança, porém empunhando espadas e prontos para nos perfurar a qualquer brecha na minha defesa. Junto a mim ainda estava Mljet, além de Lonpak, que se movera instintivamente em direção a nós quando sofreu com investidas de um bandido na posição oposta.
Investiram contra nós, mas rapidamente conseguimos nos livrarmos deles. Não pareciam terem sido treinados para esse tipo de situação, então foi mais fácil do que se imaginava derrotá-los. O único que deveria saber lutar de verdade era o dono da espada.
O solo submarino voltou a tremer.
Anfitrite, Calipso e Erato nada conseguiam fazer contra o poderoso Kraken. Acertaram vários golpes, mas por algum motivo não conseguiam destruir a besta de jeito nenhum.
Elas estavam perdendo.
Mas não podia perder muito tempo prestando atenção na desgraça alheia, pois eu tinha muito com o que me preocupar. As nereyds, por algum motivo, pareciam seguir a aura da estranha espada do homem que pude reconhecer como sendo ninguém mais, ninguém menos que Gateston, o Covarde.
Se éramos sete vezes mais, agora a vantagem mudara de lado: proporção de centenas de fadas contra sete guerreiros. No território das fadas.
A única opção se quiséssemos sobreviver era derrotar o próprio Gateston.
–Não será tão difícil. — disse Gustaf quando eu comentei sobre o que pensava — Quase matei esse desgraçado no porto de Elnet. E dessa vez não vou dar uma segunda chance.
–Tome cuidado. — Era uma ordem meio que inútil para se dar ao Daggar Branco, mas não podíamos perder ninguém naquela sitação. De um lado, fadas e mais fadas inexplicavelmente furiosas; do outro, três fadas rainhas e um monstro abissal das trevas.
Enquanto corria e defendia Gustaf, agora nossa principal aposta, das investidas das nereyds menores, pude ver a concentração que ele tinha enquanto lutava. Ou melhor, a falta dela.
Deuses, o homem parecia estar se divertindo como uma criança brinca com a outra com uma espada sem gume. Não vacilava em nenhum momento, mesmo com as provocações estúpidas dO Covarde.
–Ora, ora, quem encontro por aqui. Estávamos procurando por vocês — Gateston fez uma pausa, enquanto duelava com Gustaf, no centro do círculo. O maldito ainda tinha aquela odiável voz estridente e rouca — Tudo bem, era nosso objetivo achá-los de alguma maneira, mas eu meio que me desesperei quando afundamos, sabe? — Riu de tal maneira que até um cavalo riria mais humanamente — Graças ao capitão Arstan nós temos itens de segurança nessas ocasiões. Chegamos aqui, e o que eu encontro? Uma maldita espada tão atraente e eficiente como nunca vi igual. Não é todo dia que se dá essa sorte, sabe? — Gateston pareceu ofendido quando Gustaf não deu resposta, mais ocupado em matá-lo — Você devia ser um pouco mais educado. Estamos tentando matar um ao outro? Sim, claro, mas, por Ckao'ner ou qualquer outro deus estranho por aí, ainda somos cavalheiros, certo?
–Não costumo me comparar a piratas. Não possuo uma autoestima tão baixa.
Não pude ouvir o resto da discussão, pois o volume de nereyds que avançavam em nós, com suas magias de luz aparentemente inúteis contra nós, aumentou de repente.
Pseph apareceu de repente, com um dos braços empapado de um sangue alaranjado.
–Eu tentei pará-las. Mas são muitas. — falou em baixo tom, respirando ofegantemente. — O único jeito de acabar com isso é destruindo o Kraken.
–Mas como? — afastei mais uma fada. Por mais que estivessem contra nós, não ousei machucá-las, então apenas as golpeava com o lado sem fio da espada — Mesmo as Senhoras das nereyds não conseguem parar o Kraken. Como faríamos isso?
A situação se tornou um pouco mais desesperadora quando percebi que a criatura horrenda agora vinha lentamente em nossa direção. Anfitrite e suas irmãs estavam caídas, desacordadas e com uma aura cada vez mais sombria.
Notei de onde viera a sensação ruim de antes. O cheiro de morte, a presença das trevas, tudo vinha daquele monstro gigante. Mas não dele como um todo.
De um lugar mais específico.
O olho.
Aquele olho era bastante semelhante com a Pérola Negra, embora fosse menor que a versão original. Era a única parte do corpo do Kraken que não tinha ferimento algum, e talvez fosse exatamente por isso que havíamos pensado que ele era invulnerável.
Calipso, Erato e Anfitrite provavelmente estavam tentando acertar o globo ocular da criatura, mas por alguma razão desconhecida ela sempre conseguia desviar, e por isso tinha vantagem na situação. Talvez pelo fato das lanças das nereyds serem exageradamente grandes, fosse fácil prever seus movimentos.
Precisávamos de algo pequeno para atacar. Algo eficiente.
Como a espada de Gateston.
–O que está fazendo!? — Dyseus perguntou, empurrando-me e impedindo que eu fosse golpeado pelas costas com um raio de luz. Enquanto raciocinava, ignorei tudo que estava ao meu redor, abrindo minha guarda.
–Acho que...acho que encontrei uma solução.
O Kraken estava cada vez mais próximo.
Rapidamente expliquei o plano para o príncipe telmarino, além de Splent e Lonpak, que correram até Pseph e Mljet para falar o que planejávamos. Os dois assentiram com a cabeça, concordando com a minha ideia.
Mljet era o que se encontrava mais próximo do monstro abissal, e se esforçou para não ser pego pelos tentáculos quando o Kraken chegou a apenas duas dezenas de metros de nós.
A primeira parte do plano: derrotar Gateston. Infelizmente, estávamos cercados pelas nereyds, e o único que poderia cumprir esse passo era Gustaf. Felizmente, não era tarefa difícil para ele. O único problema em derrotar O Covarde era a horda de fadas que também avançava contra Gustaf, sob controle do pirata.
Esperamos pacientemente a queda de Gateston, enquanto defendíamos o círculo formado para isolar Gustaf em seu duelo contra o pirata.
O espadachim rusko girou o corpo de maneira que agora quem estava de costas para o Kraken era o próprio Gateston, assim como eu fizera com o pirata no meio do Bosque dos Corais. Esperto da parte dele.
Apesar da nossa momentânea vantagem, a sorte mudou novamente de lado quando um longo tentáculo negro puxou mais uma vez Pterois para o alto, ignorando os inúteis ataques de Pseph, que acabou sendo puxado também, mas pelas centenas de fadas, que a cada segundo estavam mais sombrias e cadavéricas.
–Droga! Temos que conseguir aquela espada rápido! — gritou Mljet, mas uma barreira de nereyds dividiu o espaço entre ele e o resto do grupo. Dessa maneira ele ficou frente a frente com a besta marinha.
–Gustaf! Acelere! — O Terror olhou para mim com desdém, como que dizendo "venha lutar no meu lugar então". Percebi que ele tinha um novo corte relativamente profundo, dessa vez na coxa. Algumas placas da sua armadura estavam rachada ou simplesmente haviam se desprendido, deixando-o bastante vulnerável em relação a Gateston.
Como no começo da missão, eu, Lonpak e Dyseus lutávamos de maneira incansável enquanto Gustaf atacava o inimigo mais forte.
Aquilo durou alguns looongos minutos, até que...
–Se era isso o que queria, tome essa merda de espada, Nerlinir! — eu não conseguira ver como Gustaf derrubara Gateston, mas agora o pirata estava uma cabeça mais baixo. Seu crânio rolou pelo chão até meus pés, e instintivamente o chutei em uma nereyd que se aproximava pelos flancos.
Gustaf me jogou a espada, manchada de sangues laranja e vermelho. Eu não precisei deduzir de quem era cada sangue.
Agora eu tinha a posse da espada, e com ela facilmente abri caminho através das fadas, que agora pareciam nos seguir.
– O que há com essa arma? — perguntei a Dyseus, que corria ao meu lado até o Kraken, focando em salvar Splent e Nept.
– Não tenho certeza, mas até onde me lembro entre as lendas de Telmar, existe uma espada protegida por uma fada especial no centro do Bosque dos Corais. Uma espada que foi forjada pelo próprio deus do mar, antes mesmo de Faalel ou qualquer rei conhecido por nós. A espada concede poderes quase que divinos — desviamos de um golpe dos tentáculos do Kraken — e por esse motivo muitas cópias dela foram criadas ao longo da Eras, mas nenhuma sequer chegou perto de se igualar ao poder da original. Mesmo assim, tais cópias são extremamente poderosas — estava, assim como eu, ofegante por falar enquanto corria — e também raras. É quase impossível encontrá-las, mas ao que parece, esse pirata achou uma delas.
Não respondi, pois assim que ele acabou de falar, tivemos que nos dividir para esquivar de um golpe e disparar até o Kraken.
Olhei para trás.
Embora eu tivesse a maioria das nereyds sob controle, algumas maiores ignoravam minhas ordens e atacavam Gustaf e Lonpak, que rapidamente foram cercados e engolidos por um mar de fadas.
–Rápido, destruam-no! — foi a última coisa que ouvi dos dois antes de sumirem em meio aos seres mágicos insanos.
Pterois lutava inutilmente contra o tentáculo que o agarrava, que parecia apertá-lo com cada vez mais força. Novamente, não vi Pseph em lugar nenhum, mas tinha certeza que ele também estava em maus bocados.
Subitamente, um vulto semelhante a um chicote negro passou por mim e se enrolou no meu torso, puxando-me para cima. A criatura me capturara. Olhei para o lado, e com Dyseus o mesmo acontecera.
O único que restara era Mljet, que continuava incessantemente desviando do Kraken, e embora soubesse que não surtiria efeito nenhum, golpeava os tentáculos com a rapier, única arma que tinha disponível.
Tentei pedir ajuda às nereyds, mas elas foram simplesmente esmagadas quanto tentaram fazer algo contra o monstro, que continuava a lentamente se mover em direção ao lado externo do Bosque.
–Mljet! — gritei como se não houvesse amanhã, o que era bem provável naquela situação. — Pegue a espada e perfure o olho do Kraken!
Ele me olhou com estranheza a princípio, mas então assentiu. Esperei o Kraken me levar um pouco mais para baixo, e quando vi Mljet preparado, joguei a espada, torcendo para que tudo desse certo. Dyseus observava tudo apreensivo.
Mljet correu na direção do monstro, tentando achar algum jeito de 'escalá-lo', mas não precisou fazer isso. Sendo o único inimigo restante, o westesi foi alvo de quase todos os tentáculos do Kraken de forma simultânea. Impossível esquivar dessa vez.
Sem fazer nenhum barulho, ele conseguiu se livrar dos membros da criatura cortando-os com a espada, isso quando já estava numa altura suficiente para pular na cabeça do monstro. Mljet de repente parecia já ter lutado centenas de vezes com inimigos daquele porte, mesmo com sua tenra idade. O jovem era muito astuto.
Enquanto eu estava na expectativa, Pseph apareceu desacordado e enroscado num dos muitos tentáculos. Dyseus também desmaiara. Os outros haviam sumido em meio às fadas, e pude perceber que o tentáculo fazia cada vez mais força contra meu corpo, apertando mais e mais. Era preciso ir mais rápido, mas não pude gritar; o tentáculo começava a me sufocar.
Era difícil permanecer acordado, mas tive que lutar para não desmaiar.
A partir dali, felizmente, tudo foi bastante rápido. Ou pelo menos assim pareceu.
Mljet, que estava na cabeça do Kraken(ponto cego da criatura), correu descendo até o olho do monstro, e antes de ser segurado, fez a última coisa que eu vi antes de cair desacordado: enfiou a lâmina de pérola no centro do enorme olho da criatura, que rapidamente surtiu o mesmo efeito da Pérola Negra, rachando-se e implodindo com um clarão branco. Mljet foi projetado para trás e pareceu voar durante alguns segundos, mas lembrei que estávamos na água.
...
O palácio estava em festa.
Servos andavam para todos os lados, oferecendo os mais exóticos petiscos que eu já havia visto em bandejas de bronze polido. Estávamos assentados ao redor de uma mesa de pedra disposta com pratos tão incomuns quanto os nas bandejas.
Era uma cerimônia para poucas pessoas, talvez para não causar estardalhaço entre os plebeus sobre uma possível revolta das fadas, mas os mais importantes estavam ali. Guardas vigiavam os agora fechados portões do palácio.
–Pode ficar com a espada. — falou o rei a Mljet, que havia questionado sobre a possessão da espada. — Temos várias iguais a essa protegidas pelas nereyds.
Ah, as nereyds.
Após a implosão do olho do Kraken, e consecutivamente da criatura por inteiro(o que deixou um resultado não muito bonito nos jardins do Bosque), Anfitrite, suas irmãs e as outras fadas pareceram voltar a si. Inicialmente ficaram aterrorizadas com o que quase haviam feito a nós, principalmente a Pterois e Pseph, que deveriam ser seus protegidos. Pediram tantas desculpas que em certo ponto passei a ignorar os "mil perdões", vindos de principalmente de Erato.
Anfitrite e Calipso concordaram em nos guiar de volta até Telmar, com as boas notícias. Erato, para variar, pediu desculpas e afirmou que não conseguiria olhar para o rei Auratus depois do que fizera. Despediu-se de nós no arco de entrada do Bosque dos Corais.
O Pêndulo estava novamente nas mãos do rei, que agora o colocara de volta na estátua(que com o passar das eras se tornou um busto) de Jadir.
–Telmar é muito grata a todos vocês pelo que fizeram. Esta história, por mais que tenha sido curta, será contada e recontada durante gerações entre nós. Podem ter certeza. — me surpreendi. Era relativamente incomum saber de uma história envolvendo meu nome que terminasse com um final feliz. — Vocês poderão ir assim que terminarmos de acertar os detalhes finais. — Hoal Auratus(finalmente descobrimos o nome dele, contado a nós por Pterois) havia mudado seu semblante. Agora sorria amistosamente para nós. E fazia no máximo seis horas que o havíamos conhecido.
De fato, os tritões, por mais fechados que possam parecer ser, são um povo bastante receptivo dependendo do que você representa para eles. Acredito que a minha figura representava para o Atvar e seus subordinados uma única palavra: salvação.
O banquete continuou por cerca de meia hora. Tínhamos que partir; seria suspeito para o povo o rei repentinamente fechar as portas. Porém um de nós não pareceu muito feliz em partir.
–Acho que permanecerei aqui. O rei me permitiu — disse Kalysa — desde que eu arranje alguma ocupação. Não deve ser difícil, a cidade é um pouco escassa de trabalhadores. — o jeito com que ela falou trabalhadores me pareceu um eufemismo.
–Tem certeza? Não a obrigaremos a ir, mas por que quer ficar?
Kalysa nos fitou, abriu os braços e olhou ao redor, deslumbrada.
–Esse lugar...existe algo que me atrai nele. Conversei com a princesa Elyce, e tenho bastante em comum com ela. Apesar, é claro, de ser mais velha. Ela me falou sobre as belezas de Telmar. Sobre a receptividade do povo. Cansei de ser governada pelos homens cruéis da superfície. Preciso ficar em lugar pacífico. E Telmar parece ser a escolha certa. — ela não estava brincando. Nos olhava de maneira séria, e suas palavras eram firmes.
Não discordávamos. Telmar possuía algo de especial, algo realmente atraente. Algo quase tão hipnotizante quanto o brilho do Pêndulo de Jadir. Mas era nosso dever a cumprir; devíamos partir.
Iríamos sair pelos fundos do palácio real, nos limites da cúpula. Consequentemente, nenhum plebeu estaria ali para nos ver, além dos alegres servos do rei. Uma serpente-marinha de médio porte e escamas esverdeadas nos aguardava do lado de fora. Nos fora dito que ela possuía um encanto para nos transportar cinco vezes mais rápido que qualquer outro veículo submarino(coisas que até hoje são raras). Era um pouco difícil acreditar, pois o animal era completamente desajeitado e quase derrubou nossos mantimentos e armas quando os pusemos em suas costas.
–Atvar, o príncipe gostaria de falar com o senhor a sós por alguns minutos. — falou Pterois ao monarca, fazendo uma referência.
Num canto reservado do jardim dos fundos, Dyseus parecia argumentar algo com seu pai adotivo. O rei reagiu negativamente, mas após algumas longas palavras do príncipe, pareceu concordar com a ideia.
Hoal se aproximou junto ao filho.
–O príncipe Dyseus gostaria de seguir com vocês.
Aceitamos a proposta, mas Elyce zangou-se.
–Jaas klen go anef, varsi!
–Elyce, eu já disse que você deve falar o Idioma Comum junto a visitantes. — repreendeu-a o rei. — E quanto a seu desejo de partir...
–Deixe comigo, pai — Dyseus tocou Hoal pelo ombro, interrompendo-o. Dirigiu-se à irmã — Irmã, sabes que não é permitido que vás. Eu sempre tive o desejo de conhecer o mundo lá fora, e sei que você é movida pelo mesmo sentimento, mas... agora não é possível. E se enquanto eu estiver fora, acontecer algo que impeça nosso pai de governar? Quem irá liderar o povo de Telmar?
–O capitão Pterois. — respondeu prontamente a princesa. — Ainda não me convenceste, irmão. Quero conhecer o mundo de onde viemos tanto quanto você.
–E futuramente o farás. Conhecerás todos os reinos, florestas, castelos, fortalezas e cidades que quiseres. Mas eu irei com eles também por necessidade. Existe algo que preciso descobrir.
A princesa olhou para seu irmão, esperançosa.
–Promete que voltará e que , quando aqui estiver em seu retorno, me deixará ir?
–Prometo. Juro pelo meu nome, pelo nome do nosso pai e de todos os reis que o antecederam.
Aparentemente, o discurso de Dyseus fora convincente.
–Então de bom grado o deixarei ir. — a princesa sorriu. Seu sorriso me lembrou uma das duas únicas mulheres que realmente amei algum dia: minha mãe. Sua expressão era acalentadora, e senti uma certa paz de espírito só de observá-la.
Recebemos uma estranha e incompreensível benção do rei(além de termos feito preces pelas fadas mortas na batalha contra o Kraken e os piratas), e subimos na serpente marinha. Despedimo-nos de Pterois(um bravo sujeito que alguns anos depois eu reencontrei, a propósito), Pseph(cujo motivo para se vestir como alguém da superfície eu ainda não sabia), Anfitrite(agora totalmente sã e em toda a plenitude da sua beleza, assim como sua irmã e a fada Iaeto), da princesa Elyce e de alguns servos estranhos.
–Tomem cuidado! — foi a última coisa que ouvi alguém dizer ali, antes de rompermos a barreira da cúpula de ar.
Estávamos novamente com as máscaras de algas, e Hvar teve alguma dificuldade para colocá-las da maneira certa. As armaduras de pedra foram recomendadas para que não sofrêssemos com a súbita mudança de pressão, já que estávamos num movimento quase que vertical, e muito, mas muito rápido.
A viagem durou cerca de 1 dia. Bastante veloz. De vez em quando, a serpente subia até a superfície, nos permitindo respirar livremente e finalmente rever o sol. Foi umas das melhores sensações que já tive.
Dyseus nos explicou muitas coisas durante a viagem, que seguia em direção oposta à que ia Telmar. Perguntei-lhe como ele retornaria para um reino em constante movimento.
–Esse colar — apontou para um objeto amarrado a seu pescoço. Uma concha — me guiará até meu reino quando a hora de retornar chegar.
–E como exatamente ele funciona?
Antes que Dyseus pudesse responder, Hvar, que estava na "proa"(ou melhor dizendo, no focinho da serpente), exclamou:
–Terra à vista! — o velho tossiu depois, provavelmente cansado do grito que dera.
De fato, um borrão verde surgira no horizonte.
–Terra? As Oito Terras? — Gustaf questionou.
–Talvez seja Arkhang. — retrucou Lonpak.
–Não. Seguimos para sudeste. O colar me diz isto.
Todos olharam estranhamente para Dyseus, mas meneei com a cabeça.
–Como pode provar que aquilo ali é uma ilha das Oito Terras? — perguntou Mljet.
–Você já provou. O que vemos é uma ilha, e até onde eu sei, Arkhang é um continente.
Não houve resposta. O príncipe telmarino estava certo.
Alguns minutos passaram, até que a serpente parou na costa da ilha, nos fazendo nadar para não encalhar.Dyseus a deu alguns petiscos(carne crua de baleia, quero dizer), e logo o enorme animal foi embora.
Estávamos numa praia fechada, rodeada por uma densa floresta tropical. Não havia nenhuma placa que indicasse onde exatamente estávamos. Era impossível saber se aquilo era realmente uma das Oito Terras, até que Mljet encontrou algo interessante.
–Um caranguejo-vitral! — Um crustáceo multicolorido porém meio que translúcido passou próximo a nós. Outras dezenas o seguiram, cavando um buraco na areia quente e se escondendo nele.
–Essa espécie... supostamente só existe num lugar em todo o mundo.
Todos sabíamos qual era o lugar.
–As Oito Terras. — dissemos eu, Lonpak e Gustaf em uníssono.
Havíamos chegado ao destino.
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