Os Cinco Elementos

8 Um Desejo Realizado


Alden estava num descampado coberto por gramíneas e por mais que tentasse não conseguia enxergar nada ao seu redor por causa de uma densa nevoa, começou a andar e chamar por Kilac e Iva até que chegou a um local conhecido, a sua frente estavam os campos da fazenda de seu pai, mas algo estava diferente não havia o costumeiro barulho de pessoas trabalhando, de seu tio martelando as pedras nem dos pássaros que sempre estavam cantarolando por ali, na verdade não sentia a presença de ninguém. Aos poucos a neblina foi se dissipando e uma terrível imagem apareceu diante de seus olhos, sua aldeia estava destruída as casas de madeira e barro estavam em ruínas, ele correu para sua casa na esperança de encontrar sua família, mas ao chegar encontrou apenas objetos quebrados e tudo bagunçado, saiu de sua casa chamando o nome de seus pais, irmãos e tios, ninguém respondeu.

Desesperado e sem saber o que ocorrera, Alden sentou-se na beira do Grande Rio e percebeu que estava seco, aquele volume absurdo de água de descia das montanhas havia desaparecido, em meio a toda essa desolação ele começou a ouvir um barulho de passos, isto deu um pouco de alivio, pois podia ser alguém que conhecia e poderia explicar o acontecido. O barulho foi aumentando até que o jovem começou a enxergar um grupo vindo em sua direção, o grupo começou a se transformar em uma multidão e aumentar até que Aden estava de frente ao um exercito, um dos soldados apontou para ele e gritou:

– Lá está o ultimo! – E uma chuva de lanças cobriu o céu.

....

Acordou assustado e transpirando, olhou para os lados e logo lembrou onde estava, era a mesma tenda que dormira nas noites anteriores, logo entendeu que tudo não passara de um pesadelo, a visão de sua aldeia destruída e de um exercito, toda essa idéia tinha nascido das historias de Kilac, tentou voltar a dormir mas aquela visão ainda estava em sua mente, manteve-se deitado e apenas esperou pelo amanhecer. Quando os primeiros raios de sol apareceram, Alden já estava em pé e aos poucos todos os aldeões começaram a sair de suas tendas e iniciar seus afazeres, o grupo de caça de Iva já havia partido antes do sol nascer e Ikaku estava com um pequeno grupo confeccionando algumas armas.

Lembrou-se que Kilac tinha assuntos para discutir então resolveu terminar a conversa que havia iniciado no dia anterior, antes de entrar na tenda de Kilac percebeu que todos daquela aldeia já começavam o dia cheios de afazeres, nas tendas em que passava podia ver mulheres costurando peles, outras preparando comida, alguns homens confeccionando ferramentas, aquilo lembrava o dia-a-dia de sua aldeia. Ao chegar próximo da tenda de Kilac começou a ouvir uma conversa, parecia que ele e o grande sábio estavam discutindo algo importante, até que Alden pode ouvir:

– Mas não podemos sacrificá-lo deste jeito – disse Kilac.

– Não temos escolha, ele é descendente de Helain, vai sobreviver ao que for necessário... Falando nisso ele esta do lado de fora da tenda nos escutando. – disse o Grande Sábio.

– Entre Alden! – disse Kilac.

Alden se assustou com a perspicácia do Sábio, ao entrar perguntou:

– Como você sabia que eu estava do lado de fora?

– Isso você vai aprender algum dia, mas o que eu posso falar agora é que todo ser vivo possui uma certa energia, e alguns homens treinados conseguem senti-la e distingui-la...

– Bom... Vamos aproveitar que ele esta aqui e explicar a situação – disse Kilac com um tom um pouco irritado.

– Pois bem – disse o Sábio – Alden temos uma missão para você, queremos que você vá à costa oeste para avisar os povos que vivem naquela região sobre o que ocorrerá...

– Kilac me contou sobre isso ontem e eu já aceitei.

– Ótimo, mas sua ida até lá não será apenas para informá-los, naquela região se encontra um dos cinco templos e nele podemos encontrar mais uma pedra. Enquanto Kilac e eu iremos para o sul em busca da terceira pedra.

– E qual pedra devo procurar?

– “Pulsar do Vulcão” – Disse Kilac – Ela esta no alto de uma montanha que expele cinzas, todos da região temem subir até o templo, mas com sua coragem você conseguirá. Com a pedra você poderá falar ao ancião da aldeia e explicar o que esta acontecendo.

– Mas Alden, preste muita atenção, apesar de sua coragem tenha muito cuidado ao entrar no templo, aquele local costumava ser muito perigoso, não tente utilizar a pedra, independente da situação que esteja. – Disse o Sábio.

– Esta bem, me lembrarei do seu aviso.

Enquanto os três conversavam a volta do grupo de Iva foi anunciado, Kilac prontificou-se a recebê-los, chegou próximo a sua neta e conversou algo em particular, os outros caçadores entregaram suas caças para os responsáveis pela limpeza e destrincho das carcaças e todos começaram se mobilizar. Kilac anunciou algo na língua de sua tribo, o que fez com que todos se agitassem ainda mais, o grande sábio que estava ao lado de Alden falou com um tom sorridente:

– Parece que teremos uma festa!

Após ouvir as palavras do Sábio, Alden foi “capturado” por dois homens e levado a uma tenda próxima, eles retiraram sua roupa, o que deixou o jovem extremamente envergonhado, entregando-o a duas senhoras que começaram a passar uma espécie de esponja feita de cipós banhada em uma água perfumada. Depois do banho seu corpo foi pintado com uma espécie de tinta azul extraída de flores, vários desenhos ondulados e em forma de caracol foram feitos em seu tronco e braços, vestiram-no em uma roupa de peles que cobria suas pernas, como uma calça comum, mas deixava parte de seu peitoral desnudo mostrando os desenhos, alguns adereços como colares e fitas foram adornados em seu pescoço e braços.

Ao terminar de “enfeitar” Alden os mesmos dois homens, que estavam do lado de fora esperando, vieram buscá-lo, ao sair da tenda havia fogueiras assando a carne dos animais que foram caçados mais cedo, vários aldeões estavam cantando, dançando e bebendo, comemorando um grande acontecimento. Alden foi levado até um grupo de homens que se empanturravam de uma bebida escura com cheiro forte, ofereceram a ele em uma vasilha de madeira que utilizavam como copo, tentou resistir, mas foi obrigado a beber até a ultima gota, quando terminou todos soltaram um berro felicitando o jovem, que pelo susto quase caiu em uma fogueira.

Kilac apareceu no local trajando roupas diferentes da que estava anteriormente, em seu corpo também havia desenhos, ao se aproximar do grupo pegou uma das vasilhas e começou a beber com os que estavam ali, Alden começou a se sentir tonto e procurava um local para encostar, mas os festeiros que estavam ali levantaram-no pelos braços e começaram a dançar com ele pendurado nos ombros, após vários goles da bebida e muita dança, Alden começou a se soltar e sem perceber estava se divertindo como nunca, apesar de não saber o que lhe falavam a comunicação passou a ser gargalhadas e gestos alegres que se mantiveram por um longo tempo.

Alden foi levado até uma roda de pessoas, que estava próxima, todos estavam comendo, bebendo e falando alto, Kilac sentou-se ao seu lado e começou a falar:

– Jovem Alden, esta festa é comemorar sua união com Iva e agora teremos mais um costume de nossa tribo, então, por favor, levante-se.

– Acho que não consigo... — Disse Alden quase caindo de costas e sendo aparado por Kilac — Minhas pernas estão moles e minha cabeça esta girando, o que tinha naquela bebida?

– Hahahha... Você bebeu demais, mas logo isso vai passar... Apenas como alguma coisa ou você vai desmaiar.

Com dificuldade Alden levantou-se, e Kilac começou a falar algumas palavras a sua tribo, todos se levantaram e começaram a fazer uma dança típica, o balançar dos corpos deixava Alden ainda mais tonto, não conseguia mais distinguir quem estava em movimento e quem estava parado, até que foi acordado por um grito conjunto onde todos pararam e se ajoelharam perante Alden e Kilac. Ao olhar para o lado Alden viu Iva sendo acompanhada por duas mulheres, ela também estava com roupas diferentes, peles que cobriam parcialmente a parte superior de seu corpo deixando a amostra seus braços, costas e um pouco do busto, descendo como um vestido cobrindo toda a parte inferior de seu corpo.

Kilac pegou a mão de ambos e começou uma espécie de cerimônia, todos da aldeia acompanharam sem emitir um único ruído, então o grande sábio que estava próximo a Alden começou a explicar:

– Alden, Kilac agora só falara no dialeto de seu povo e eu irei traduzir o que você precisa saber!

Alden balançou a cabeça e tentou prestar atenção no que estava acontecendo, a tontura ainda não tinha passado, mas ele tentava manter-se centrado perto de Iva, então Kilac começou o discurso, após alguns minutos ele virou e falou algo para Alden, que logo foi traduzido:

– “Alden, neste momento oferece a companhia de minha neta para ambos desfrutarem de uma vida auspiciosa e cheia de alegrias. Você aceita cuidar, proteger, honrar e envelhecer ao lado de Iva?”

– Sim... Eu aceito. – Disse Alden já desperto e com os olhos fixos em Iva.

Kilac fez uma pergunta parecida para Iva que logo respondeu afirmativamente, após a resposta a cerimônia continuou até que Kilac pegou a mão de ambos posicionando uma sobre a outra e dizendo:

– “Agora como suas mãos, seus corpos e suas almas estão ligadas e o dever que lhes imponho e que protejam um ao outro até que o sono eterno os receba em seus braços gentis”.

Ao soltar as mãos dos jovens, ambos permaneceram se encarando sem esboçar qualquer ação, os espectadores começaram a se olhar estranhando a situação, até que o grande sábio aproximou-se de Alden e falou bem baixinho:

– Agora é a hora em que você deve beijá-la...

Assim foi selado o matrimonio entre Alden e Iva, um pequeno beijo que iniciara tímido porem levou a todos no local a emocionarem-se com a visão dos dois jovens em um gesto tão inocente.

....

Muito longe das densas florestas onde estava a tribo de Kilac, passando pelas campinas douradas e as grandes montanhas negras, atravessando o mar e chegando em uma ilha muito longe da costa oeste, dois homens conversavam em um salão acinzentado adornado por mobílias de madeira:

– Nosso exercito esta pronto, em pouco tempo poderemos partir desta prisão e nos vingar de todos que tramaram contra nosso reinado. – disse o primeiro homem que possuía longos cabelos prateados sentando-se em um trono de pedra com um símbolo de uma cobra entalhado na parte superior.

– Não devemos nos precipitar desta vez, seguiremos o plano de erradicação, só depois reuniremos novos súditos – disse o segundo que aparentava ser bem mais novo e possuía cabelos negros e cacheados.

O dois foram interrompidos pela entrada de um soldado que ao adentrar o salão prestou uma reverencia aos dois e falou:

– Grandes Reis nossa embarcação esta quase pronta, estamos apenas no aguardo das novas peças...

– Excelente – disse o homem de cabelos prateados – Avise os outros três que nos reuniremos em três dias para uma reunião.

– Sim alteza. – Disse o soldado –. Posso servi-los em algo mais?

– Esta dispensado, pode se retirar. – Disse o homem de cabelos cacheados. Após a saída do soldado ele continuou – Precisamos nos apressar, ou aquele intrometido irá nos atrasar novamente.

– Não se preocupe, tenho planos para ele, logo sua vida nos alimentara também...

– Perheu, Baldo! – Exclamou um homem de longos cabelos loiros – O que estão tramando sozinhos neste salão abandonado?

– Heloir... Ainda nos trata com palavras insolentes... – disse o homem com cabelos cacheados.

– Parece uma donzela reclamando Baldo, vim a pedido de Perheu... – disso calmamente enquanto caminhava em encontro aos dois. — As armas estão prontas e sendo distribuídas, em breve nossas armaduras estarão completas e poderemos iniciar nossos planos.

– Ótimo... Quanto tempo ainda até completá-las? – Disse Perheu.

– De acordo com o mestre artesão na próxima lua nova. — Disse Heloir.

– Temos 29 dias de espera... Então devemos começar o ritual mais cedo, não quero falhas desta vez. – Disse Perheu.

– Vou buscar Assuero e Zaci, para que iniciemos o ritual. – Disse Heloir.

– Começaremos pela manhã, aqui mesmo neste salão, não os deixe atrasar.

Heloir saiu do salão virando-se de maneira brusca, isso deixou Baldo furioso, pois Heloir não mostrava respeito algum, nisso Perheu levantou-se e entrou e um dos quartos que havia ali, também sem dizer nenhuma palavra. Baldo permaneceu no local apenas com seus pensamentos, era visível que algo sinistro o rondava, como um espectro sombrio, ele sentou-se no mesmo local que Perheu estava e ao encostar sua cabeça no trono esboçou um sorriso maligno repetindo por varias vezes as mesmas palavras:

– Logo sua vida não importara! Logo será minha...

Notas finais
Finalmente Alden e Iva casaram-se, será que essa paz durará? Como os Reis sairão de seu exílio? Mais aventuras no próximo capítulo.