Os Cinco Elementos

9 O Presságio da Guerra


Após a cerimônia ninguém deixou o casal em paz, Alden era jogado de um lado para o outro sendo obrigado a beber, comer e dançar, mesmo casado não conseguiu chegar próximo da sua esposa depois do primeiro beijo. Iva estava sendo tratada da mesma maneira, as mulheres da tribo havia seqüestrado a jovem e arrastavam-na de um lado para o outro dançando, pulando e gritando. No meio de toda esta festa apenas uma pessoa mantinha-se calma, o Grande Sábio que se encostou num banco de madeira longe de todos, bebia e comia calmamente observando toda aquela agitação. Kilac aproximou-se dele sentando-se com uma vasilha cheia de bebida e disse:

– Você costumava ser mais simpático, o que houve com toda sua animação?

– Temo que com o passar do tempo estou ficando cada vez mais ranzinza, só de pensar que logo trocaremos a alegria desta festa pela tristeza de uma guerra, sinto um vazio em meu coração.

– Quinn... Você esta entre nós desde épocas antigas e mesmo assim não entendeu como nós aproveitamos nossos momentos.

– Então você se lembra do meu nome... – Disse o Grande Sábio sorrindo. – Acho que você tem razão, minha compreensão de tempo foi desaparecendo com o passar dele. Esqueço que para as pessoas comuns um momento feliz pode significar mais do que vários momentos tristes.

– Bom, acho que devemos parar com esta conversa agora, temos muito o que fazer e quero aproveitar todo o tempo que puder para festejar.

Depois de muita bebedeira, os aldeões, que não caíram embriagados no meio da festa, começaram a voltar para suas tendas, Kilac encontrou Alden encostado em uma pedra observando tudo ao seu redor, chegou próximo ao rapaz e perguntou:

– Ainda esta tonto?

– Não... Já estou bem melhor, apenas um pouco cansado. – disse Alden esboçando um leve sorriso. – Sr. Kilac poderia me responder algo?

– Se eu souber a resposta.

– Quando cheguei houve um grande mistério sobre sua vontade de realizar minha união com Iva, porque escolher um estranho e não alguém de sua tribo?

– Huhuhu... Jovem Alden, quanto você chegou a nossa aldeia eu logo reconheci de que tribo você viera, depois que me certifiquei fazendo algumas perguntas não restou duvidas de que você era da tribo de Helain. No momento em que você demonstrou um pequeno interesse em Iva logo vi a oportunidade de tirar minha neta deste lugar...

– Mas porque tirar Iva daqui? Ela não é feliz neste local?

– Ela é muito feliz aqui, mas com os atuais acontecimentos achei que ela ficaria protegida com você em sua tribo. Não esperava que o Grande Sábio aparecesse novamente e também não imaginei que você iria querer participar desta guerra.

– Então minha união com Iva não passou de um plano para tirá-la do perigo... Ela casou-se comigo por ordem sua?

– Em parte sim... Mas ela não casaria apenas por uma ordem, isso é algo que vocês terão que conversar posteriormente.

– No final acabei estragando seus planos não? Iva continuara próxima ao perigo, pois terá que me acompanhar até a costa oeste.

– Hufff... Já aconteceu muita coisa comigo que a principio julguei errado, mas no final eram coisas boas, acho que com você ao lado de minha neta muitos acontecimentos serão positivos. O que me leva a um assunto que queria discutir em particular, sobre sua viajem até a costa oeste. Peço que após esta festa você parta imediatamente com Iva e um grupo a sua escolha, meus pressentimentos nunca falham e quanto antes todos estiverem informados sobre o Exercito dos Cinco Reis e sua volta mais rápido poderemos nos preparar.

Neste momento Iva aproximou-se dos dois, puxando a mão de Alden e o levantou, quando os dois estavam próximos ela disse:

– Ainda não respondi sua pergunta não é?

– Bom, acho que vou beber mais um pouco – disse Kilac se levantando e deixando o casal a sós.

– Hahaah... – sorriu Iva com vendo seu avô levantar-se com dificuldades por ter bebido mais do que agüentava — Alden fico feliz de meu avo ter escolhido você como meu marido, não imaginava que você iria aceitar casar-se com alguém que não é de sua tribo – disse ela encostando suas mãos no rosto de Alden.

– Iva eu... Quero dizer... A primeira vez que nos vimos...

Iva sorriu vendo que Alden estava sem jeito, ela nunca tinha visto alguém de outra tribo alem de Aden, mas não foi a aparência dele que chamou sua atenção, mas sim o jeito cuidadoso e carinho que ele tratava as pessoas e principalmente ela. Enquanto Alden tentava tecer uma frase Iva puxou sua cabeça para frente dando-lhe um beijo, o mais longo beijo que ele já recebera, não eram necessárias palavras naquele momento, apenas um simples gesto que firmara um laço entre os dois e que seria inquebrantável.

O plano original era que pela manha todos partissem para a missão de contatar as aldeias vizinhas, mas como a festa ficou muito animada ninguém percebeu que o sol já estava bem alto, Kilac se aproximou de Quinn e disse:

– Acho que já esta na hora... Vamos reunir alguns homens e partir.

– Concordo... Devemos nos apressar, serão três dias de caminhada.

Kilac convocou os caçadores mais experientes para acompanhá-lo, inclusive Ikaku, mas este recusou, pois queria acompanhar o grupo de Alden até a Costa Oeste. Kilac aproximou-se de Alden e Iva e começou algumas explicações sobre o trajeto e qual rumo deveriam tomar. Foram formados dois grupos, no grupo de Kilac estavam o Grande sábio e mais quatro homens, já no de Alden estavam Iva, Ikaku e seu tio Kairus, que foi responsável por cuidar do grupo de jovens. Antes de cada grupo tomar seu caminho o Grande Sábio aproximou-se de Alden e disse:

– Alden, gostaria de perguntar uma coisa a você, podemos conversar um pouco?

– Podemos sim, o que o senhor gostaria de saber?

– Você sabe como encontrou aquela pedra?

– Bom... Eu apenas caminhei pela floresta e tentei achar um local próximo as montanhas onde poderia encontrar uma variedade melhor de pedras... Acho que foi apenas coincidência achar aquele local no qual a pedra estava.

– Nada disso, não existem coincidências, você seguiu seus instintos e acabou encontrando a pedra, mas o que te guiou na verdade foi algo que você ainda não compreende... Lembra-se quando você estava do lado e fora da tenda de Kilac e eu pedi para você entrar?

– Sim eu me recordo daquele momento... Fiquei um pouco assustado com aquilo, mas afinal o senhor é o Grande Sábio, deve possuir muitas habilidades assustadoras...

– Hahahha... Nem tantas quanto eu gostaria... Mas você também pode desenvolve-la, lembre-se da sensação que você sentiu antes de encontrar a pedra e depois que entrou na caverna e a encontrou... Quando você chegar a Costa Leste precisará lembrar-se desta sensação.

Então o Grande Sábio continuou a explicar para Alden sobre como sentir as presenças mágicas das pedras, mas os grupos já tinham se abastecido de comida, água e armas e estavam prontos para partir, ao ver que seu grupo estava preparado o Grande Sábio sussurrou algo no ouvido de Alden e depois desejou-lhe boa sorte, partindo em direção ao Sul. Alden estava com uma expressão de duvida, pois não tinha entendido direito o que o Sábio havia dito, então seguiu seu caminho junto ao seu grupo rumo a Costa Oeste.

.................

Na Ilha Exílio Heloir caminhava acompanhado de mais dois homens quando foi abortado por Baldo:

– O conselho deve se reunir neste momento, Perheu nos aguarda em seu salão.

– Bom dia a você também rei Baldo, diga a Perheu que irei em seguida e já avisei Assuero e Zaci sobre nossa reunião, agora tenho assuntos a resolver com os mestres artesões. – disse Heloir desviando-se de Baldo e seguindo seu caminho.

– Não vire as costas para mim Heloir, não terminei o assunto. – contestou Baldo segurando um dos braços de Heloir e irado por sua atitude.

– Não me toque, não te dei tal privilégio – respondeu Heloir com uma voz tenebrosa e emanando um ódio no olhar que fez Baldo recuar temendo um ataque – como eu disse, tenho um assunto a resolver, seja um bom mensageiro e peça aos outros que aguardem minha chegada – dizendo com uma voz calma porem extremamente fria virando-se para seguir seu caminho.

Baldo gostaria de colocar Heloir sob seus pés e esmagá-lo, mas ainda precisava de seus conhecimentos para sair da ilha, por causa da raiva cerrou os punhos e procurou algo para descontar sua raiva, mas conteve-se para não agir conforme Heloir queria, assim voltou ao salão onde seria a reunião e esperou a chegada dos outros reis. Baldo possuía planos próprios e possuía desejos obscuros, mesmo Perheu que era o mais velho e o mais sábio dentre os reis temia suas ambições, enquanto esperava pela chegada de seus aliados manteve-se em seus pensamentos e continuava a repetir palavras “Logo sua vida não importará! Logo será minha...”.

Neste momento Perheu entrou no salão e seus olhos fitaram a cena de Baldo balbuciando palavras de um modo medonho e logo disse em tom de escárnio:

– Esta realizando algum tipo de prece?

– Talvez sim – respondeu Baldo com a voz rouca e calma –... Duvido que ela possa ser ouvida por alguém, mas mesmo assim eu sempre a pronuncio.

– Fascinante – disse Perheu sentando-se em uma das cadeiras – onde estão os outros?

– Já estão a caminho...

No momento em que Baldo terminava sua frase um homem negro com a cabeça raspada, extremamente forte e com altura muito superior aos homens comuns entrou no local.

– Bom dia senhores?

– Bom dia Assuero, fico feliz com sua presença – respondeu Perheu de modo diplomático – por favor, tome um lugar, estamos aguardando dos outros dois... Quer algo para beber?

– Não obrigado, estou me abstendo de certas bebidas.

– Que bom, sobrará mais para mim – disse um homem de cabelos vermelhos encaracolados, entrando no salão vestido com um manto de peles.

– Você não acha que esta um dia muito quente para vestir este tipo de traje Zaci? – disse Baldo.

– Sou das montanhas de fogo, lembra-se? Qualquer local que não esteja próximo aos braços quentes de um vulcão não será quente o suficiente para mim – respondeu Zaci puxando uma cadeira, sentando-se e colocando os pés sobre a mesa.

– Bom... Acho que podemos começar a reunião – disse Baldo.

– Mas e quanto a Heloir, não participará? – Perguntou Assuero.

– Não acho que ele esteja interessado nesta reunião – respondeu Baldo – Vamos decidir os assuntos principais sem a presença dele.

– Não foi isso que ordenei que falasse Baldo! Pelo visto nem como mensageiro você serve – Exclamou Heloir entrando no salão vagarosamente.

– Achei que não iria nos agraciar com sua presença, você nunca participa das reuniões extraordinárias do conselho – Disse Baldo.

– Não participo por estar sempre ocupado com o transporte que nos tirará desta ilha... Mas me diga qual foi sua maior contribuição para nossos planos? Quando você levantara seu traseiro real da cadeira e fará algo realmente importante pelo conselho? – respondeu Heloir.

– Senhores nos reunimos hoje por um propósito e não o percamos! – impôs Perheu – Caso tenham alguma pendência particular resolvam depois que completarmos nossos planos, enquanto estivermos aqui temos que cooperar para que nossa convivência seja frutífera.

– E qual é o motivo desta reunião? – Perguntou Assuero.

– Conforme Heloir temos a partir de hoje 28 dias para quebrar os selos desta prisão... Nesta data todos os preparativos, incluindo o transporte e as armas estarão prontos. Teremos que nos concentrar no ritual e completá-lo até esta data ou não conseguiremos sair desta ilha a tempo – Disse Perheu.

– Então ficaremos confinados no palácio das sombras durante todo este período? – Perguntou Zaci.

– Exatamente... Finalizem suas pendências com seus generais até o anoitecer, depois que o sol se por passaremos os próximos dias no palácio concentrando-se apenas na quebra dos selos – Respondeu Perheu.

– Já organizei o que precisava com meus subordinados, não tenho mais pendências no momento – Afirmou Heloir – Estou disponível desde já.

– Não tenho nenhuma pendência, posso começar já caso precise – Respondeu Assuero.

– Acho que não tenho nada melhor para fazer então também estou disponível – Disse de maneira Zombeteira Zaci.

Baldo apenas observou sem responder nada, então Perheu apenas suspirou e falou a todos:

– Então começaremos o ritual...

.....

Kilac estava caminhando à frente do grupo, apesar da idade seu condicionamento físico era invejável, não tinham parado desde que saíram da aldeia e já estava quase anoitecendo quando Quinn perguntou:

– Iremos parar em algum momento?

– Logo iremos montar acampamento, mais a frente existe um riacho e um local seguro para dormir – respondeu Kilac.

Os caçadores apressaram o passo para adiantar o acampamento, enquanto Kilac acompanhava Quinn, ambos estavam sérios e não trocavam muitas palavras pelo trajeto, até que o silencio foi quebrado novamente por Quinn:

– Essa não é aposentadoria que você esperava não é mesmo?... Kilac?

– Ahm... Desculpe estava pensando em algo.

– Quer dividir seus pensamentos comigo?

– Talvez se tivéssemos escutado Thallos, tudo acabaria naquele dia... Mas Helain e Irise tinham um coração muito gentil para permitir aquela atrocidade...

– Thallos era um extremista, antes da guerra ele já pensava em destruir todos os forasteiros que se aproximassem da sua aldeia. Muito diferente de Helain e Irise que acolhia a todos que precisassem de ajuda, mas foi graças a essa diversidade de pensamentos e atitudes que vocês conseguiram vencer a guerra, não foi?

– Foi mesmo... Fico pensando o que eles fariam hoje, com esta nova ameaça de guerra? Eles foram os maiores lideres de seus clãs e também os melhores guerreiros, gostaria de poder lutar ao lado deles novamente...

Neste momento os dois chegaram ao lugar de descanso, era um antigo ponto de vigia da tribo de Kilac no qual era possível observar toda a planície sul onde acabava a floresta, naquele pondo passava um riacho que seguia para oeste e sumia dentro da floresta. Os caçadores já estavam preparando a refeição e montando o acampamento, tudo já estava pronto para o descanso antes de mais uma longa caminhada, neste momento Quinn virou-se para Kilac e disse:

– Eu entendo que com a companhia de seus velhos amigos vocês conseguiram vencer os Cinco Reis, mas tenho certeza que o legado deles foi passado a diante, todos sabiam que um dia os Reis encontrariam uma maneira de escapar... É bem provável que encontremos homens tão corajosos e habilidosos quanto os antigos lideres.

– É o que eu mais desejo velho amigo... Tenho plena esperança em encontrar os discípulos que herdaram os conhecimentos deles.

Neste momento enquanto conversavam um brilho intenso foi visto a oeste, em segundos um feixe ascendeu aos céus, criando uma torre de luz. Os caçadores de Kilac estavam admirados e aterrorizados com o acontecido, no grupo que rumava para oeste Ikaku, que fazia a vigia, quase caiu da arvore em que estava ao ver aquela cena, Alden e Iva, que dormiam ao pé da fogueira, acordaram com o clarão que se formou, Kairus também acordou com o acontecido, ao ver a torre de luz já sabia o que significava, em breve todo o temor de uma nova guerra seria real.

Um sentimento forte surgiu no coração de Kilac, o grupo de Alden estava indo naquela direção e ele temia por sua neta, ele sabia o que poderia acontecer se eles não conseguissem contatar as tribos antes que os Reis fugissem de seu exílio, foi ai que Quinn tocou em seu ombro e disse:

– Acalme-se... Já sabíamos que um dia eles tentariam fugir, mas levara um tempo para que quebrem o selo, sua neta e seus guerreiros conseguiram voltar a tempo e com certeza trarão boas noticias...

Mesmo com as palavras do Grande Sábio, Kilac continuava preocupado com a situação, agora o tempo era curto e ele pretendia aumentar ainda mais a velocidade no próximo dia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.