Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
124 União Dourada
Um quarto pequeno de poucas camas espalhadas, todas elas improvisadas e vazias pela noite. O teto de uma choupana simples, que antes eram vigas de madeira antigas e carcomidas por onde a goteira de chuvas por vezes entrava, foi substituída por um imenso tapete cósmico, como uma janela para o universo. E dentre as muitas galáxias distantes, uma estrela sempre brilhava mais forte do que todas. Sua luz prateada aumentava o tamanho das sombras conforme se aproximava daquele quarto de forma impossível.
E deitada na única cama que tinha colchão, uma garotinha aos poucos despertava com a intensidade daquele brilho, capaz de atravessar suas pálpebras e cegar seus olhos. Ela colocou a mão na frente para evitar que aquela luz lhe queimasse por completo, mas percebeu que a intensidade daquela estrela era tamanha que ela quase podia enxergar os ossos dentro de sua mão, como se a pele estivesse transparente.

Aquele astro colossal se aproximava perigosamente de sua cama, mas a garota percebeu que, quanto mais perto estava, mais ela parecia capaz de adivinhar a forma daquele corpo celeste que descia até sua cama. Um corpo de luz.
— Angelo? — perguntou ela com forte sotaque à figura astral que não lhe respondia. Que nunca respondia.
A garota fechou os olhos com medo daquele ser-de-luz, mas ao abri-los novamente percebeu que o brilho daquela estrela aos poucos se consumia para dentro daquele corpo celestial, revelando a silhueta de sua forma e, pela primeira vez na sua vida, uma voz que lhe respondia de volta.
— Os Cavaleiros de Atena lutam por sua Deusa.
Longos cabelos compridos esvoaçavam ao redor daquele ser angelical despido de qualquer vestimenta que não fosse a luz mais quente do universo. O Cosmo.
— Atena!
O nome saiu da boca de Shaina de maneira desesperada quando ela despertou de sonhos intranquilos na Grécia; percebeu estar ainda sozinha na escuridão de um imenso quarto de pedra, cujo teto distante e suas colunas escuras lhe davam uma terrível sensação de estranheza. Era muito diferente daquele em que havia se acostumado desde sua infância naquela terra estrangeira. Com o peito ainda acelerado, ela se levantou apressada para encontrar a única pessoa capaz de decifrar aquele enigma.
Uma noite livre de todas as pesadas nuvens que, por dias, fizeram cair uma chuva intermitente no Santuário. E justamente graças à Deusa da Grécia que o mundo inteiro agora parecia livre das mazelas de Poseidon. Agora os povos do mundo podiam se recuperar da profunda destruição que devastou por tantos dias a Terra, como se o planeta quisesse mesmo se ver livre daqueles que viviam sobre ele.
Naquela mesma noite, Miro de Escorpião desceu de seu templo pisando duro até a deserta Casa de Libra, onde agora nem mesmo a maravilhosa balança de ouro estava mais. O Cavaleiro parou diante da frisa onde antes a Armadura repousava e refletiu sobre aquela ausência. Pois não era a única nas Doze Casas. Desceu da Casa de Libra com pressa para o próximo templo.
Ao entrar na Casa de Virgem, no entanto, logo imaginou que não teria facilidade para atravessá-la e um espetáculo de luzes o fez parar, desconfiado. Já não podia mais ver as colunas e pedras do templo de Shaka e a pouca luz que fazia sua linda Armadura de Escorpião reluzir finalmente se apagou por completo, jogando-o no mais profundo breu.
— Aonde pensa que vai, Miro de Escorpião?
A voz de Shaka soou de todos os lados e Miro respondeu com tranquilidade:
— Vou até o Cabo Súnion.
— Os Cavaleiros de Ouro não devem abandonar as Doze Casas. Sabe muito bem disso. Atena abandonou este Mundo e o Santuário se prepara para a maior das Guerras Santas. Não há qualquer tarefa a ser desempenhada no Templo de Poseidon.
— Existe a tarefa de caminhar ao lado de Atena.
A voz de Miro retrucou com força e houve um silêncio breve na Casa de Virgem até Shaka retomar uma lembrança.
— Atena não está mais nesse Mundo.
— Pois eu irei até onde ela estiver.
— Miro de Escorpião, você não passa de um Mortal. Os milagres terrenos não seriam capazes de lhe guiar até onde a Deusa Atena está. Ela está onde decidiu estar. Escolheu poupar a humanidade da fúria dos Mares. Essa foi a sua decisão e os céus de sua Terra agora estão abertos novamente.
— Está errada, Shaka. Onde Atena caminha, um Cavaleiro de Ouro deve estar ao seu lado. Tem sido assim desde os Tempos Mitológicos.
— E você por acaso se enxerga à altura da honra de caminhar ao lado de Atena? É isso que está me dizendo, Cavaleiro de Escorpião?
Miro ignorou a provocação e pisou firme para qualquer direção que o levasse para longe daquele Cosmo, adivinhando que Shaka parecia criar diálogos para atrasá-lo. Mais uma vez a voz de Shaka soou calma em seus ouvidos, o que o deixava cada vez mais impaciente.
— Eu já disse que não foi essa a missão que foi designada a nós, os Cavaleiros de Ouro do Santuário.
— Meu Cosmo manda que eu vá! E eu não vou ficar aqui parado.
— Abandonará seu dever diante da iminente invasão do Inferno?
— De nada vai adiantar ficarmos aqui esperando por uma Guerra se Atena estiver precisando de nossa ajuda. De nada adiantará nossa luta se Atena morrer. Somos os Defensores de Atena!
— Está errado, Miro de Escorpião. Ainda que Atena caia, nós, os Cavaleiros de Ouro, ainda teremos de lutar e defender seu Santuário até que nossas vidas se acabem.
— Você fala como se Atena já estivesse morta, Shaka de Virgem. Talvez ela não esteja. Talvez ela ainda precise de nós.
— Estou apenas lhe alertando de nossa missão. E deixar o Santuário dessa forma é trair não só a sua missão, como também a Deusa Atena que você quer proteger.
— E quem você pensa que é para me dar uma lição sobre trair Atena?
A voz de Miro não ecoou, pois aquela miragem parecia abafar todos os sentidos, mas o silêncio criado era explosivo e tenso. Então uma efêmera esfera de luz se acendeu à frente de Miro, para onde ele caminhou decidido. Ao sair daquela câmara escura, viu-se na palma da mão de Buda.

— Chega desses truques, Shaka. — pediu ele, ascendendo seu Cosmo de ouro.
— Não está raciocinando direito, Miro. Deixarei você aqui o tempo que for necessário para que volte à razão.
Miro respirava fundo, já cansando-se com aquele teatro inútil. Fechou os olhos e falou com firmeza para os quatro cantos daquela ilusão.
— Eu já falei que não ficarei aqui. — a palma de sua mão emitiu um brilho carmesim, fazendo com que a unha de seu dedo indicador se transformasse em um venenoso ferrão de escorpião.
O Cosmo Dourado de Miro reluziu ao redor de seu corpo, refletindo no metal antigo de sua Armadura e iluminando os dedos daquela palma colossal da estátua de Buda. Um raio carmesim manifestou-se sutilmente e atravessou o punho da mão que o segurava, fazendo espatifar aquela ilusão feito um vitral e revelando, finalmente, a Casa de Virgem.
À sua frente estava a Cavaleira de Ouro Shaka, com sua maravilhosa Armadura de Virgem, o sári branco de detalhes dourados sobre o peito na diagonal e a mão direita ao lado do corpo onde brilhava um ponto escarlate quase imperceptível, mas sem dúvidas dolorido.
— Uma. — contou Miro, mostrando a unha carmesim de seu dedo.
Outro silêncio terrível entre aqueles Cavaleiros de Ouro, deixando ecoar apenas as gotas de sangue que caíam da mão ferida de Shaka. E então o som de passos invadiu o templo de forma desesperada.
— Mas o que diabos está acontecendo aqui? Será possível que vocês dois ficaram loucos?
A voz de trovão de Aioria interrompeu a atenção dos dois Cavaleiros de Ouro, ao passo que o Leão Dourado colocou-se entre ambos para evitar qualquer absurdo.
— Respondam!
Miro olhou para o amigo de forma confiante, mas respirou fundo antes de lhe relatar o que lhe angustiava tanto.
— A Armadura de Aioros abandonou a Casa de Sagitário, Aioria. Assim como as Armaduras de Libra e de Aquário.
— Como é que é? Do que está falando, Miro? — perguntou Aioria pisando duro em sua direção.
— Não precisa acreditar em mim. Veja você mesmo. Suba até a Casa de Sagitário. A Armadura não estará mais lá. — falou Miro, apontando para a saída da Casa de Virgem. — Siga até a Casa de Aquário e verá que apenas a Armadura de Capricórnio continua em seu Templo. As demais desapareceram.
— As Armaduras de Ouro sumiram de seus templos?
Aioria estava confuso e olhou para Shaka que, àquela altura, também parecia um pouco surpresa.
— Não seria a primeira vez. — continuou Miro, muito sério, para Aioria. — A Armadura de Sagitário escolheu proteger Atena durante toda a sua vida. Tenho certeza de que o espírito de Aioros continua lutando por ela. Assim como o espírito de Camus reside em Aquário. Enquanto nós ficamos aqui obedecendo às ordens do Santuário, eles estão indo ao auxílio de Atena onde quer que ela esteja. Assim como nós deveríamos fazer.
Aioria deu um passo para trás, em choque.
— Mas Atena… — balbuciou ele ao lembrar-se do relato da Camerlengo Mayura dando conta aos Cavaleiros de Ouro de que Atena havia partido daquele Mundo em uma decisão sua para enfrentar Poseidon e fazer valer sua autoridade na Terra.
Desde então, ela não havia retornado. E o Santuário lamentou e chorou a partida daquela Atena-Sofrida nos dias que se seguiram.
— Não pode ser… — gaguejou o Cavaleiro de Leão. — Mas o que será que pode estar acontecendo?
Miro pisou firme em sua direção e falou de maneira muito séria.
— Atena decidiu marchar e tivemos de respeitar sua decisão, mas se as Armaduras de Ouro abandonaram o Santuário, então talvez exista algo a mais acontecendo que nós não sabemos. E os espíritos dos Cavaleiros de Ouro que se foram podem sentir o chamado de Atena que nós, que estamos nesse plano terreno, não conseguimos enxergar, pois estamos trancados nessa montanha feito pássaros em uma gaiola. Feito um macaco na caverna. E se isso for verdade, então devemos ir ao encontro dela.
Os dois entreolharam-se e Miro sentiu que havia ainda em Aioria uma dificuldade enorme em desobedecer às ordens daquele Santuário governado pela sapientíssima Mestre Mayura, que apenas recentemente havia perdido alguém muito querido para ela. O próprio astromante Nicol, que havia decidido os rumos de uma batalha que culminou no abandono de Atena de seu Santuário. Os olhos de Aioria perderam-se procurando alguma resposta, até que se fecharam, como se ele precisasse guardar dentro de si um profundo desgosto.
— E você? Por acaso não sentiu nada de estranho, Shaka?
Miro olhou por sobre os ombros para a figura reflexiva da Cavaleira de Virgem, de olhos fechados, mas ainda atenta sobre os dois.
— Não. Mas talvez a Mestre Mu possa jogar luz nesse mistério.
Aioria olhou para trás e viu na entrada do templo o brilho de Mu de Áries se aproximando ao lado do enorme Aldebarã de Touro, que sempre parecia escoltar qualquer um que viesse ao seu lado. Aioria parecia movido pelas palavras do Cavaleiro de Escorpião, de modo que logo perguntou à Cavaleira de Áries:
— Mestre Mu, diga-nos: foi capaz de sentir as Armaduras de Ouro abandonando o Santuário?
— Sim. — respondeu ela, de maneira lacônica. Aioria e Miro entreolharam-se, cortados de esperança e dor.
— Esperem, Cavaleiros de Ouro. — pediu Aldebarã, pois imediatamente adivinhou na face de cada um deles o pensamento que atravessava suas mentes.
— Não vamos ficar aqui nem mais um segundo. — anunciou Aioria.
— Nós somos os Cavaleiros de Ouro do Santuário. — argumentou Miro, indignado, embora ainda contido.
Mu respirou fundo e calculou todas as suas palavras.
— E devemos nos lembrar disso quando estamos cheios de dúvidas no coração. Lembrar os motivos pelos quais Atena ergueu as Doze Casas do Zodíaco na Era Mitológica. E a importância dos Cavaleiros de Ouro em seu Santuário. Olhar para nossos corpos e nos lembrar da honra e do imenso dever que significa trajar a Armadura de Ouro de Atena.
— "Ser a luz da vida que ilumina a sombra da morte."
Miro e Aioria olharam sobre os ombros, pois havia sido Shaka quem lembrou-se de um pequeno verso que todos eles foram obrigados a decorar à exaustão ainda quando eram crianças. Miro e Aioria também lembraram-se dos dias enfurnados em casebres escondidos em Rodório enquanto o Velho Sião lhes recitava palavras antigas sobre o significado de ser um Cavaleiro de Ouro de Atena.
Aquela lembrança calou a todos, pois naquele instante notaram com ainda mais força a ausência dos demais alunos que haviam naquela memória carinhosa; o jovem Camus, muito calado e sempre anotando algo em seu diário; a dupla Afrodite e Máscara da Morte, que não paravam quietos no fundo da sala. Shura, a garota séria que por vezes auxiliava o próprio Papa durante as aulas. E a monitoria dos inseparáveis Aioros e Saga, garantindo que aquele grupo de crianças prodígias repetissem seus exercícios à perfeição.
Todos eles agora mortos.
— Eu apenas não consigo conceber a ideia de que aquela garota... a Deusa Atena... ela esteja sofrendo, e nós aqui torcendo por milagres.
— Foi Atena quem escolheu marchar até Poseidon. — falou Aldebarã para o Cavaleiro de Escorpião. — Dê algum crédito à ela. Escute, Aioria, se as Armaduras de Ouro foram ao seu auxílio, pois então seu irmão Aioros e os demais ainda queimam seus Cosmos dentro de cada uma delas para que ela não esteja só. Para que os Cavaleiros de Ouro estejam ao lado dela, como diz a lenda. Mas também para que ela possa voltar ao Santuário que ergueu nos Tempos Mitológicos, ainda protegido pelos Cavaleiros de Ouro. Por todos nós.
A voz de Aldebarã pareceu pacificar o templo e jogou todos eles em um silêncio profundo, em que a voz de trovão do gigante gentil parecia ecoar dentro de cada um deles. Miro virou as costas para todos e anunciou:
— Se aquela garota estiver lutando contra Poseidon, isso significa que fizemos um funeral vazio para a Deusa Atena. E isso não pode ficar assim. O Santuário precisa fazer alguma coisa!
O Cavaleiro de Escorpião partiu dali com pressa, sem que ninguém o impedisse, em direção ao Templo de Atena.
— Miro! — Aldebarã correu em sua direção, também desaparecendo, com medo de alguma atitude impensada do Cavaleiro de Escorpião.
Aioria estava petrificado, pois seu coração o atraía para fora daquele templo, mas em direção ao Cabo Súnion, para que pudesse lutar ao lado de seu irmão por Atena. Mu de Áries passou ao seu lado e colocou a mão em seu ombro, como se adivinhasse seus pensamentos.
— Logo estará conosco, não é mesmo, Aioria? — e o Cavaleiro de Leão devolveu-lhe um olhar hesitante.
Ela partiu sem sua resposta, pois ele precisava respirar melhor. A Armadura de Ouro de Leão no seu corpo parecia pesada; pois talvez sem ela, ele poderia simplesmente correr dali até a batalha. Mas vestir a Armadura de Leão era também a maior honra que ele já havia recebido; a maior alegria de sua vida foi quando ela o aceitou pela primeira vez e o brilho dourado refletido nos olhos orgulhosos de Aioros, seu irmão. Acalmou o punho que estalava seu cosmo sem que ele houvesse percebido e finalmente deixou a guarda se relaxar. Respirou fundo uma última vez e virou-se para acompanhar o grupo até o Templo, quando percebeu que Shaka continuava ali.
Aioria percebeu o ferimento na mão dela e preocupou-se com o veneno de Escorpião que ele sabia que corria no corpo da Cavaleira de Virgem. Mas ao mesmo tempo que ele se preocupou, ainda havia entre ambos certa animosidade por tempos passados, de modo que Aioria fez menção de se retirar dali, quando Shaka chamou sua atenção.
— O coração de Miro pode estar à frente de seus deveres, mas ele não está de todo errado.
Aioria deteve-se outra vez e respondeu à Shaka, de costas.
— O que quer dizer com isso agora?
— Atena abandonou este Mundo. — continuou ela, com firmeza. — E a essa altura pode estar morta.
— Falando assim, parece que está mesmo torcendo por isso. — retrucou Aioria, virando-se para ela.
— Quando os Deuses se enfrentam, tanto faz por quem torcem os mortais.
— Pois eu acredito em Atena.
— Assim como eu.
— Será mesmo que acredita ou apenas diz isso como parte de seu dever de Cavaleira?
— Que pergunta ingênua. — respondeu ela, deixando Aioria revoltado. — A verdade é que a garota é Atena. Eu também vi a Triste Noite revelada na Flecha de Sagitário de seu irmão, Aioria. Assim que Atena se levantou na Casa de Áries, eu também pude experimentar a noite em que Aioros de Sagitário morreu e a salvou. Caminhando por suas pernas e guiado por seus olhos. E o arrependimento que senti naquele instante estará para sempre dentro de meu Cosmo.
Aioria ficou em silêncio.
— Era isso que você precisava ouvir, Cavaleiro de Leão?
— Talvez isso seja aquilo que você precisava ouvir, Shaka.
Ela ficou pensativa pela primeira vez, mas falou com tranquilidade.
— Outra verdade é que Atena partiu sozinha para os domínios de Poseidon, um Deus mais antigo e, aparentemente, mais poderoso do que ela. E agora esta Terra, que ela deveria proteger, como Miro deve proteger a Casa de Escorpião, está sem sua presença.
— Os desastres cessaram.
— Aqueles desastres cessaram. Até quando irá perdurar a paz na Terra depois desse ato inconsequente? Onde estará Atena quando o próximo Deus se levantar?
— O que quer dizer?
— Longe do Santuário ela não será capaz de deter os Deuses que ameaçam os homens que deve proteger.
— Você já está parecendo o seu antigo Mestre.
Shaka ficou em silêncio e hesitante e aquilo enfureceu Aioria mais do que se ela tivesse realmente concordado.
— Como se atreve, Shaka de Virgem!? — vociferou ele, aproximando-se dela.
— E se esta Atena realmente não fizer frente aos Deuses que virão? O que fará, Aioria?
— Lutarei.
— Lutaremos todos, Cavaleiro de Leão. A mais terrível das Guerras Santas.
E na tensão que se formou, Shaka foi corajosa de dar as costas para Aioria. Mas seguiu falando com imponência antes de sair.
— Torça para que Atena esteja de volta ao nosso lado.
E assim Aioria ficou com uma sensação de que Shaka sabia muito mais do que compartilhava e, portanto, poderia ir às últimas consequências para que Miro ficasse no Santuário; inclusive permitir-se ferir, para que as Doze Casas não estivessem vazias. Mas enquanto caminhava até o fundo de seu templo, Shaka refletiu que Miro não confiava nela e por isso não lhe falou sobre o sumiço das Armaduras de Ouro.
Pois algo realmente parecia estar errado.
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Ao oeste do Chile, aquela era uma época de clima temperado, embora a proximidade com o continente antártico carregasse ventos frios do sul. Nachi de Lobo e Ban de Leão-Menor atravessavam as pradarias e vales da Patagônia em busca da Armadura de Bronze perdida naquela região. Os dois caminhavam com suas roupas civis e as urnas de Armadura nas costas escondidas em couro à semelhança de malas de viagem.
— Será que Jack e os novatos já encontraram as armaduras perdidas que foram procurar e voltaram ao Santuário?
— Acha que somente a gente está perdido? — perguntou Ban, muito calmo.
— Não estamos perdidos. — corrigiu Nachi, olhando para o amigo. — Veja.
Ban calou-se, embora fosse muito maior que o amigo; entre os Cavaleiros de Bronze do Santuário, ele era o mais tranquilo. E viu que o amigo à sua frente apontou para um grupo de ovelhas pastoreado por um homem a cavalo com um cachorro divertido correndo ao lado. Nachi levantou os braços, indicando que chegavam em paz. O cavaleiro não deu atenção a eles e seguiu pastoreando o rebanho até a cerca de uma fazenda próxima.
— Vamos. — chamou Nachi, olhando para Ban. — Hora de você gastar seu espanhol de novo.
E seguiram pelo pasto com tranquilidade até a porteira de uma vasta fazenda que descia alguns hectares monte abaixo, onde levantava-se um enorme casarão e construções ao redor. O pastor de antes chegou à cavalo para olhar com curiosidade aqueles dois jovens, que não passavam dos quinze anos, com uma enorme mochila nas costas.
— ¿Perdidos?
Nachi olhou para Ban.
— No. Estamos aquí buscando un tesoro. Muy viejo. Quizás escondido. Una caja brillante.
O homem em cima do cavalo mediu as duas crianças de cima a baixo, embora Ban fosse descendente de gigantes e muito maior do que Nachi. Então olhou distante para o dia que ia morrendo e pediu com as mãos que eles se afastassem.
— No queremos problemas con nadie. Somos un pueblo sencillo. No nos metemos con en ese tipo de cosas.
Claramente ele parecia saber de alguma coisa e Ban o pressionava de maneira educada.
— Tranquilo. Tampoco queremos problemas con nadie. Venimos de muy lejos y hemos venido aquí para liberar a tu pueblo de esta carga. Sé que este tesoro puede haber traído mucha gente mala a esta región. Todo lo que queremos es poner fin a esto y traerles un poco de paz. Mira.
E então Ban tirou sua própria urna das costas e retirou a cobertura que a escondia, revelando a maravilhosa Urna de Bronze de Leão-Menor. Os olhos do homem no cavalo tornaram-se confusos e voltaram a olhar para o enorme garoto e novamente ele tentou fazer com que os dois saíssem dali de perto de sua fazenda como se fossem uma assombração.
— Sólo dinos la dirección. — pediu Ban e o homem apontou mais além, uma região entre-vales, disparando com seu cavalo.
Nachi e Ban deixaram aquela fazenda de ovelhas para caminhar na direção que aquele amedrontado fazendeiro havia apontado. Ban recolocou sua urna nas costas e ainda olhou algumas vezes para o grande casarão à distância, onde o homem continuava na porta da frente esperando que eles desaparecessem de vista.
— Eu ainda não entendo como você foi pra Tanzânia, não aprendeu nada sobre o Cosmo, mas voltou falando espanhol.
O enorme garoto ficou sem jeito.
— Ah, é uma região com muitos turistas.
— Turista nada, bobão. Foi uma garota, não foi?
— Vamos continuar na trilha, Nachi. — desconversou o grandão.
— Trilha uma ova, e você se reencontrou com ela quando voltou depois dos jogos?
Não havia ninguém no Chile com um sorriso maior do que o de Ban durante aquela travessia; Nachi caiu na risada e os dois seguiram juntos a subida pelo vale, enquanto Ban respondia às perguntas insuportáveis de Nachi sobre sua bonita amizade com uma garota, cuja família mudou-se da Argentina para o pé do Kilimanjaro em busca do sonho de trabalharem com os alpinistas da região, paixão que os pais da garota tinham em comum.
— Por isso que luta tão mal. — comentou Nachi ao final da história de paixão de veraneio do amigo.
— Fica quieto, Nachi. Quieto.
Pediu Ban para que ele segurasse um pouco as gargalhadas com a história, pois se aproximavam de uma clareira entre os vales em que ele podia ouvir alguns gemidos esparsos; os dois se entreolharam para confirmar o que escutavam e então caminharam com mais cuidado, até que descobriram uma cena dantesca.
Em uma clareira no meio da rocha das montanhas havia um número enorme de corpos espalhados na pedra; sangue tingia o chão e as rochas ao redor, enquanto um único homem no centro parecia ter ainda alguns segundos de vida. Os Cavaleiros de Bronze notaram que sua armadura era de uma coloração diferente daqueles que estavam espalhados e imaginaram se tratar de facções rivais.
— Quem é você? — perguntou Ban, em espanhol.
— Soy Matías… — falou ele, engasgando com o próprio sangue.
Ele ainda levantou os olhos para os Cavaleiros de Bronze, mas não foi capaz de falar mais nada, apenas balbuciar sua última palavra.
— Traición.
E então desmaiou em meio àquele tanto de corpos espalhados. Ao fundo daquele vale, Ban observou que havia uma Urna maravilhosa de Bronze em que cinco estrelas em cruz estampavam o alto relevo da caixa.
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Ao adentrar a Casa de Peixes, Mu precisou desviar dos muitos destroços que haviam sido deixados propositalmente como uma memória da batalha. As pedras derrubadas agora pareciam ornamentos do templo que levavam até o grande salão oval onde as paredes ao redor tinham bocas de peixes que jorravam água por canaletas. Ao fundo desse enorme salão ficava um canteiro bonito de rosas vermelhas onde a Urna de Ouro de Peixes repousava.
A Mestre Mu respirou fundo, estendeu sua mão sobre a Urna de Ouro, e seu Cosmo dourado resplandeceu refletindo nas águas e ressoando com a Armadura que surgiu maravilhosa na forma de um Peixe de ouro envolto de rosas.
— Assim como Capricórnio. — observou Aioria, finalmente surgindo às costas da Cavaleira de Áries.
— Sim. — respondeu Mu, acalmando seu Cosmo e deixando a Armadura retornar ao seu estado de repouso.
— O que isso pode significar, Mestre Mu? Como podem as Armaduras de Sagitário, Libra e Aquário terem desaparecido, mas as demais não?
— Gêmeos e Câncer também continuam em seus templos. — observou ela, lembrando-se de ver as urnas brilhantes, cada uma em seu templo. Falou com sinceridade: — Eu não sei, amigo.
Aioria se adiantou e ajoelhou-se ao lado da urna.
— Quando Seiya e Alice lutaram contra os Cavaleiros de Prata, a Armadura de Sagitário decidiu lutar ao lado deles. — lembrou-se o Cavaleiro de Leão.
— A Vontade da Armadura. — refletiu a Mestre Mu. — A jovem Shiryu também me contou que ao lutar na Fronteira dos Mortos, a Armadura de Ouro de Câncer abandonou Máscara da Morte durante a batalha. Não há dúvidas de que as Armaduras de Atena são dotadas de um poder misterioso capaz de ressoar com o Cosmo de seu Cavaleiro. Mas as Armaduras de Ouro foram forjadas de uma maneira especial que nem mesmo os antigos artífices de Jamiel sabiam de todo seu segredo. Pode se imaginar que exista dentro delas algum tipo de Vontade capaz de fazer o que Sagitário fez.
— Talvez tenha sido mesmo Aioros. — refletiu Aioria, lembrando-se da fé inabalável que tinha seu irmão. — Mas se todas as Armaduras de Ouro são capazes dessa tal Vontade, então por que as outras continuam no Santuário?
A Mestre Mu voltou a encarar a Urna de Ouro quando uma terceira voz surgiu em eco naquele enorme salão: era Shaka de Virgem, que havia tomado distância do Cavaleiro de Leão para evitar uma subida constrangedora.
— Aioria pode ter razão. Se for mesmo verdade que as Armaduras de Ouro foram ao auxílio da Deusa Atena respondendo a um desejo de seus antigos Cavaleiros, não seria loucura imaginar que, assim como Máscara da Morte foi rejeitada por sua própria Armadura, os demais também assim o foram por seus crimes contra o Santuário.
Mu refletiu sobre aquela cruel possibilidade.
— De forma que a Armadura não poderia responder sequer à memória de seus Cosmos como Defensores de Atena.
Aioria levantou-se, decidido, e encarou Shaka por alguns instantes antes de virar-se para a saída.
— Vamos. A Mestre Mayura deve ter alguma resposta.
E seguiu caminho até o Templo de Atena, onde esperava encontrar com Miro e Aldebarã, já adiantados. Shaka aproximou-se da Mestre Mu.
— Ele deve se perguntar porque a Armadura de Virgem não me abandonou.
— Não fale isso, Shaka.
— Não se preocupe por mim, Mestre Mu. — censurou a Cavaleira de Virgem com rapidez.
Mu ficou calada, respeitando aquele desejo, quando percebeu que a Cavaleira de Virgem também estendeu sua mão sobre a Urna de Peixes, deixando ressoar de maneira sutil seu poderoso Cosmo ao redor daquela fonte.
— Na Casa de Aquário. Você também sentiu, não é? — perguntou Mu para ela.
— Naturalmente.
E as duas então seguiram juntas pelas escadarias que levavam até o Templo de Atena. A última construção daquela fortaleza. Um lugar enorme, construído no topo da montanha, com salões, túneis, áreas de serviço, mezaninos e todos eles vazios naquela noite. Como sempre estavam, com a exceção dos raros encontros dos Cavaleiros de Ouro em convocações extraordinárias pelo Papa. Ou seu Camerlengo. Ou o falso Camerlengo.
Aioria alcançou Miro e Aldebarã, que estavam parados no Salão do Trono, que continuava repartido ao meio com todas as marcas da terrível batalha entre os Cavaleiros de Bronze e Saga. Os dois Cavaleiros de Ouro tinham seus elmos no braço, como se estivessem em sinal de respeito. Para Aioria aquela também era uma cena dura de reencontrar; coisa que os Cavaleiros de Ouro talvez não tenham feito desde que desceram após vencer o terrível Cavaleiro de Gêmeos, ainda naquela noite fatídica, carregando os corpos desacordados dos Cavaleiros de Bronze. Preocupados com a vida das crianças, talvez eles não tivessem dado muita atenção ao estado daquele Salão.
— Os Cavaleiros de Bronze devem estar lutando novamente. — refletiu Miro, olhando para toda aquela destruição.
— Não tenho dúvidas disso. — falou Aioria. — Não existe absolutamente nada que fique em seus caminhos se precisarem lutar por aquela menina.
— Por Atena. — corrigiu Aldebarã.
Shaka e Mu chegaram e os Cavaleiros de Ouro alinharam-se diante do trono partido. Juntos, os Cavaleiros de Ouro do Santuário subiram os últimos lances de escada até a parte externa do Templo, uma área aberta logo abaixo do Colosso de Atena, onde tempos atrás a Deusa enfrentou a dualidade mortal de Saga de Gêmeos. Ao surgirem novamente para a área externa, os Cavaleiros de Ouro foram recepcionados por uma chuva fina que passou a cair na Grécia.
— Voltou a chover. — preocupou-se Aioria e encontrou o olhar de Miro.
Olharam todos para cada canto daquele pátio, mas não encontraram ninguém. Nenhum sinal da Mestre Camerlenga. Acharam estranho, cada qual em seu silêncio. Mu encarou a entrada do pequeno templo que existia aos pés do Colosso de Atena, lembrando-se de memórias antigas, de quando ainda era apenas uma garotinha reunida ali com todos aqueles que agora estavam ao seu lado, bem como outros que já haviam partido também. Havia sido o dia em que o Papa Sião surgiu de dentro daquele pequeno templo com um bebê.
— Nenhum sinal da Mestre Mayura. — comentou Aldebarã por todos, mas principalmente para a Mestre Mu, que perdeu-se em pensamentos por um momento.
Ela olhou de volta para o enorme Cavaleiro de Touro, o semblante preocupado, o elmo nos braços. Ele olhou dela para Miro e Aioria, que tornavam-se cada vez mais impacientes.
— Não podemos perder mais tempo aqui. — começou Aioria.
— A chuva pode ser o prenúncio de algo pior. Precisamos ajudar. — comentou Miro ao seu lado.
— Ninguém sairá daqui. — anunciou Mu, corajosa.
Aioria surpreendeu-se com o tom forte da amiga.
— Não posso acreditar que vai ficar do lado dela.
A Mestre Mu encarou com firmeza os olhos de Aioria; atrás da Cavaleira de Áries, Miro percebeu que Shaka também se posicionou para impedi-los, se fosse necessário. Aldebarã logo percebeu que se não fizesse algo, os quatro Cavaleiros de Ouro iriam se enfrentar ali mesmo.
— Por Atena, não façam nenhuma besteira. — implorou o gigante.
— Ouçam a razão. — começou pedindo Miro. — Se Aioria e eu nos juntarmos à batalha, eu tenho certeza que poderemos resolver tudo rapidamente.
— Não podem ter certeza de nada. — comentou Shaka.
— Mas que diabos! — bradou Aioria, e Mu falou rapidamente para aplacar aquela fúria.
— Tem algo que precisam saber sobre o sumiço das Armaduras de Ouro.
Mas antes que Mu pudesse revelar o que havia sentido, um brilho tênue chamou a atenção de Aldebarã.
— O que é aquilo?
O brilho dourado se manifestava dentro daquele corredor escuro debaixo do Colosso. Não era a única fonte de luz, pois notou que suas mãos também pareciam responder àquele pulso solar. As Armaduras de Ouro de todos ali pulsavam sutilmente um brilho de sol na mesma cadência que aquela luz efêmera debaixo do Colosso de Atena.
— O que está acontecendo agora? — perguntou-se Aioria. — O que queria dizer sobre as Armaduras, Mu? O que meu irmão Aioros pretende?
Mas Mu também estava confusa, surpreendida por aquele fenômeno.
— As Armaduras de Ouro estão ressoando entre si. — falou mais para si do que para qualquer outra pessoa.
— Tem alguma coisa lá dentro nos chamando. — falou Aldebarã, olhando para todos.
Sem mais nenhuma palavra, Aioria e Miro correram para dentro, seguidos pelos demais. O pequeno corredor estava iluminado por uma luz dourada tênue e pulsante. E o que encontraram diante da bonita estátua de Atena que existia dentro de seu próprio Colosso de Pedra era o maravilhoso Báculo de Ouro, flutuando. Sua coruja ornamental de ouro pulsava a luz que os havia guiado até ali, a mesma luz que ressoava com as Armaduras que trajavam.
— A Deusa da Vitória. — observou Mu.
— Niké. — completou Shaka.
— O Báculo de Atena. — maravilhou-se Aioria.
— Isso significa que ela está mesmo em perigo. — refletiu Miro.
O Cosmo dos Cavaleiros de Ouro ascenderam ao mesmo tempo ao redor de seus corpos e então outro Cosmo imenso invadiu todo aquele Templo, ao ponto de fazê-los se colocar em guarda para qualquer surpresa. A Mestre Mu escutou de longe o eco de uma voz conhecida.
— Mu. Mestre Mu.
Ela chegou a olhar para trás, pois não tinha certeza de onde aquela voz lhe falava.
— Consegue me ouvir, Mestre Mu?
— Mestre Ancião? — perguntou ela para o ar.
— Vejo que ainda não me esqueceu, jovem amiga. — riu o velho Mestre somente na mente da Cavaleira de Áries.
Mu fechou os olhos e espalhou seu cosmo para dentro daquele templo, tornando o brilho daquele Báculo de Ouro ainda mais forte.
— Mas é claro que não, Mestre Ancião. — respondeu ela, finalmente, e então todos que estavam ali finalmente escutaram dentro de seus Cosmos as risadas roucas do Mestre de Rozan.
Os Cavaleiros de Ouro entreolharam-se e então perceberam que o templo debaixo do Colosso de Atena em que estavam derreteu-se em suas formas escuras para dar lugar à maravilhosa cachoeira de Rozan. O chão de pedra antiga que pisavam deu lugar a um tapete cósmico e, diante de todos eles, surgiu o corpo atarracado e velho do Mestre Ancião, sentado diante da queda infinita das águas. Ele novamente deixou ouvir sua risada rouca.
— Muito obrigado, Shaka de Virgem, assim é mesmo melhor. — respondeu o Mestre Ancião, e Mu percebeu como a própria Cavaleira de Virgem sentiu-se um pouco surpresa.
— Você é o Mestre Ancião dos Cinco Picos Antigos. — observou Miro, diante de todos.
— O antigo Cavaleiro de Libra.
— O atual Cavaleiro de Libra, jovem Leão. — corrigiu o Mestre, levantando o dedo para Aioria.
— Há muitos anos que o Cavaleiro de Libra não responde aos chamados do Santuário.
— E você deve ser o Grande Touro de Ouro. — riu o velho diante da cachoeira. — Meu velho amigo falava muito de você.
O gigante Aldebarã sentiu-se uma formiga e, ainda que em um tempo de incerteza como aquele, a Mestre Mu não pôde deixar de sentir certa graça ao vê-lo tão desconcertado.
— Perdoe-me, Mestre Ancião. — interrompeu Aioria, com educação. — Sinto que não seja por acaso que tenha se manifestado para nós nesse momento de crise.
O Mestre Ancião respirou fundo e grave antes de falar.
— Já devem ter adivinhado que Mayura, a Coruja de Atena, já não se encontra mais no Santuário. Nesse caso, receio que a função de Papa ou Grande Mestre recaia sobre esses velhos ombros como o Cavaleiro mais antigo entre todos vocês. Eu certamente irei ter uma conversa muito séria sobre isso com o Velho Sião quando nos reencontrarmos, pois esse não havia sido nosso acordo.
Os Cavaleiros de Ouro entreolharam-se e então escutaram o riso rouco do Mestre Ancião.
— Cavaleiro de Libra, não creio que esse seja um momento adequado para esse tipo de comentário.
— Você tem razão, Cavaleiro de Escorpião. Perdoe este velho.
— Mestre, eu sinto muito, mas a verdade é que assim como Mu e Shaka, eu posso adivinhar que tentará nos convencer a ficar aqui enquanto todos os sinais ao nosso redor nos dizem que Atena está lutando neste momento por sua vida.
— Tem razão, jovem Aioria.
— Nesse caso, não há nada que possa falar para nos dissuadir.
— Escute-me com atenção, Leão.
— Não, perdoe-me, Mestre, mas a verdade é que o Senhor esteve por toda sua vida longe do Santuário. Não pode imaginar a frustração que é ficar preso aqui dentro sem poder fazer nada.
— É aí que está enganado, jovem Cavaleiro de Leão.
Aioria hesitou por um instante.
A figura atarracada à frente deles deixou seu Cosmo Dourado irradiar por aquelas águas e invadir todo aquele templo, enquanto tomava fôlego e escolhia melhor as palavras, dentro de sua rouquidão, para lhes falar sobre tudo aquilo que significava ser um Cavaleiro de Ouro. Aqueles jovens guerreiros o escutaram emocionados.
Perto dali, em uma das câmaras do Templo do Pontífice — o Salão do Grande Mestre, como era comumente chamado —, havia um local nos andares inferiores por onde jorravam águas termais em uma enorme sauna de banho antiga. Shaina deixava-se afundar completamente naquelas águas para que pudesse apagar o Mundo ao seu redor, diante da enorme tristeza que sentia e da qual não se perdoaria nunca se a vissem daquele jeito.
No Norte do Mundo, no coração das montanhas de Asgard, Ikki escutou um uivo ecoando contra os paredões de pedra das cavernas que ela mesmo vasculhava em busca de um caminho até o Reino de Poseidon. Ela partiu rapidamente, saltando por sobre pontes naturais e jogando-se em abismos que agora já eram familiares. Carregava sua Urna de Bronze nas costas e uma tocha para iluminar seu caminho adiante.
Pousou ao lado de uma reentrância enorme enquanto pedras grandes e pequenas espalhavam-se ao redor como se houvessem sido explodidas para criar uma entrada na rocha. Ela olhou para a figura que estava ao lado da entrada e reconheceu a loba-Fenrir, que até então a auxiliava naquela tarefa inglória de passar dias e noites nas cavernas de Asgard em busca do Caminho certo.
— Muito bem. — anunciou ela para Fenrir, que a chamou para dentro de uma trilha estreita que se abriu naquela reentrância.
E conforme caminharam por aquela trilha, aos poucos uma luz iridescente invadiu o lugar, pois sem dúvidas que ao final daquele curto caminho estava uma maravilhosa ponte talhada com pedras das mais variadas cores, que pareciam refratar uma luz própria feito um caminho de arco-íris.
— Bifrost. — adivinhou Ikki, finalmente descobrindo o que buscava há tempos.
Um breve assovio de Fenrir chamou a atenção de Ikki e ela ergueu a tocha que trazia para as paredes e teto daquele corredor que antecedia a bonita ponte; estava rabiscada de lascas de gelo e havia seções completamente congeladas.
— Aquele idiota. — falou Ikki, abrindo um curto sorriso adivinhando quem havia sido o causador daquela descoberta.
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