Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
131 O Retorno de Gêmeos
Ao olhar para as mãos, Ikki percebeu que elas eram muito menores do que se lembrava; seu rosto tinha menos cicatrizes e as roupas eram de um tempo que ela já havia se esquecido. Olhou para o alto e viu um tapete cósmico no céu recheado de estrelas e constelações. Ao seu lado, atiçando uma fogueira de chamas brancas, havia uma silhueta envelhecida usando um robe escuro.
— Quem é você? — perguntou Ikki, logo que acordou. — Onde eu estou?
Ela era muito mais jovem e ainda mais desconfiada. O velho olhou para ela e voltou a ajeitar os pedaços de madeira na fogueira. A garota olhou ao redor e percebeu, com assombro, que não estavam em lugar nenhum. Era como se ela estivesse deitada no céu noturno e aquela figura sentada em um tronco flutuando no espaço enquanto cuidava da fogueira à sua frente. Ao se levantar, Ikki sentiu uma tontura repentina que a levou ao chão, novamente ajoelhada, pois era como se caminhasse no espaço, sem ter qualquer referência de horizonte.
— Fique sentada. — pediu a voz envelhecida. — Logo estará de volta.
— Onde eu estou? — perguntou ela, teimosa.
— Não importa. Logo não estará mais aqui.
— Estou sonhando?
— Não.
— Estou morta? — perguntou ela, ao que a figura pareceu hesitar por um instante.
Seus olhos eram como pérolas brilhantes no escuro.
— Não. — respondeu ele, finalmente.
Ikki pareceu se contentar e novamente tentou olhar ao redor para ver se encontrava qualquer âncora de sua realidade; nada viu, mas sentiu falta de alguém importante.
— Onde está meu irmão? Ele também estava comigo.
A figura finalmente parou de mexer no fogo e olhou para o espaço que os cercava, sem responder nada.
— Vamos, me fale!? Onde está o Shun? — a força da voz de Ikki assustou, por um instante, a figura misteriosa, como quem não está acostumado a ouvir qualquer outro som que não sua respiração.
— Não está aqui.
— Ora, que lugar é esse? Vamos, me fale. Se não estou sonhando ou morta... Eu preciso saber onde estou. Eu preciso saber onde meu irmão está.
Ela novamente se levantou, mas dessa vez conseguiu manter-se de pé diante da figura sentada em um tronco que flutuava no espaço, mexendo em uma fogueira que sequer parecia emitir qualquer calor.
— Quem é você?
A figura sorriu e Ikki sentiu uma certa familiaridade com aquele rosto envelhecido.
— Vou lhe dizer quando se despedir desse lugar.
— E quando será isso?
— Em breve.
A teimosia de Ikki parecia inútil diante de alguém que não estava disposta a dizer muita coisa. Talvez sem costume de dizer qualquer coisa. Ikki sentou-se ao seu lado no tronco, olhando para a fogueira de chamas brancas. Uma criança ao lado de um velho.
— Por que estou aqui?
As chamas ganharam coloração alaranjada e finalmente a fizeram sentir o calor do fogo. Ela olhou para o velho e o velho lentamente tocou a testa da menina com seu dedo indicador. Ikki sentiu uma explosão de Cosmo dentro dela, consumindo todo aquele universo ao seu redor. Aquela estranha memória lhe retornou por um segundo enquanto o General Dragão-do-Mar retorcia-se de dor à sua frente, levando as mãos à cabeça, tremendo o corpo protegido e deixando escapar lamentos.
— Quando voltei para este lugar, escutei você falando que não havia nada com o que se preocupar enquanto as Armaduras de Ouro estivessem separadas. Vai me contar agora a sua preocupação, Kanon de Gêmeos. Por que não quer que as Armaduras de Ouro estejam juntas no Templo de Poseidon? O que você está tramando, afinal de contas?
Ikki observava o General Dragão-do-Mar estrebuchar e tremer de dor, enquanto grunhia lamúrias e palavras desordenadas. Lentamente os espasmos foram parando até que Kanon ficasse imóvel. Completamente imóvel. E então ele endireitou as costas para Ikki e ela ouviu uma risada que começou baixa e grave e então aumentou gradualmente até explodir em uma gargalhada colérica. O General virou-se e encarou Ikki com seus olhos vidrados.
— É isso que você vê quando atinge seus inimigos com sua técnica especial, Fênix? Um corpo estrebuchando de dor, incapaz de controlar seus membros ou sua voz?
E continuava rindo, enquanto Ikki não compreendia.
— Isso é ridículo. — falou finalmente Kanon após sua risada morrer. — Sua técnica não pode me controlar, Cavaleira de Bronze.
— Está me dizendo que não sentiu nada? Estava atuando? Mas não é possível, nem mesmo seu irmão foi capaz de suportar o meu Golpe Fantasma.
— Um Golpe Fantasma? Que nome adorável. — comentou Kanon, cheio de si para ela, enquanto caminhava em sua direção com o Cosmo inflamado. — Quer dizer então que meu irmão sofreu com essa técnica ridícula? Não me surpreende. Você disse antes que achava meu irmão superior à mim.
— E ele é!
— Isso só mostra o quanto você não sabe do que realmente é feito um Cavaleiro. Aquele idiota do Saga gabava-se de poder destruir as galáxias, se fosse necessário, mas eu o fazia ficar de joelhos se preciso. Ele nada podia diante do meu poder.
— Não é verdade. Saga enganou um Santuário inteiro, criou ilusões para deixar até mesmo os Cavaleiros de Ouro do seu lado e era capaz de controlar os homens e mulheres ao seu redor usando uma técnica terrível.
— E quem você acha que o ensinou a fazer tudo isso? — perguntou Kanon, com força na voz.
— O quê!?
— Isso mesmo que ouviu, Fênix. Tudo que Saga sabia sobre a mente e como manipulá-la ele aprendeu comigo, seu irmão mais novo. E ainda assim ele foi derrotado por vocês. Porque era um idiota. — comentou com ira na voz, embora Ikki tenha notado certo ressentimento. — Uma criança que aprende um truque e não cansa de usá-lo, quando na verdade, deve-se fazê-lo apenas quando é absolutamente necessário.
— Você fala demais, Kanon de Gêmeos. — debochou Ikki, com um sorriso no rosto. — Olhe bem ao seu redor. Os Pilares foram todos destruídos, os Generais do Mar foram derrotados, o exército de Poseidon não passa de uma piada e o Deus dos Mares também será vencido se não libertar Atena. Você perdeu, Kanon. Igual seu irmão.
A voz de Ikki era dura, mas não encontrava nenhuma resistência do outro lado, pois Kanon se mantinha em silêncio com um sorriso simples no rosto. Esperando que a Cavaleira de Fênix pudesse chegar à conclusão óbvia que havia naquela trama toda. E ela aos poucos pareceu chegar ao ponto que ele queria. Ikki deu um passo para trás, sem tirar os olhos de Kanon, mas não fugiu dali como lhe havia ocorrido fazer.
— Não vai adiantar nada avisá-los.
— Atena…
— Precisa ser salva.
— Maldito… Você… você quer que isso aconteça. Que tudo isso aconteça. Você tramou para isso. — finalmente concluiu Ikki. — Colocou Poseidon contra Atena.
— E somente uma vez eu precisei usar minha técnica. — respondeu Kanon, com um dedo em riste.
Ikki cerrou os punhos, procurando uma saída em sua mente, quando finalmente deu as costas para o General Kanon e tentou partir daquele templo o mais rápido que conseguia, mas então percebeu que o caminho pavimentado do templo desapareceu para dar lugar à uma profunda escuridão que a fez parar de correr. A voz de Kanon soou de todos os lados.
— Aonde pensa que vai, Fênix? Me falou que iria arrancar a verdade de minha mente.
— Eu não preciso saber sua história para saber que tramou para colocar Poseidon e Atena para se enfrentarem. Se Poseidon souber de toda a verdade, ele pode nos escutar e jogar você para o inferno.
Ikki então ardeu o Cosmo de fogo e, com suas asas de Fênix, saltou na escuridão, destruindo as trevas em uma explosão de chamas que, finalmente, a libertou daquele lugar em que estava, apenas para levá-la a um outro lugar misterioso. Uma espécie de plataforma de pedra diante de um enorme rochedo à beira de um oceano bravo.
— Onde estou?
— Na minha prisão. — falou Kanon para ela. — Não era isso o que queria, Cavaleira de Fênix?
— Está apenas querendo me atrasar.
Kanon gargalhou.
— Quer contar toda a verdade para Poseidon? Você é mesmo uma criança. Não sabe o que se passa na mente de um Deus, Fênix. Poseidon jamais dará ouvidos a alguém como você.
— Então por que não me deixou ir?
— Veja, Fênix. Tem alguém atrás de você. — falou Kanon, interrompendo a garota.
Ikki olhou por sobre os ombros e viu um maravilhoso Cavaleiro de Ouro com sua capa branca esvoaçando às suas costas; os cabelos longos e o rosto distorcido de pavor. Ikki deu um passo atrás, mas não foi capaz de escapar de um soco forte no rosto, que a jogou para o chão.
— O que você está dizendo? Será possível que você enlouqueceu de vez? — falou Saga para Ikki, com a voz desesperada.
Ela não foi capaz de falar nada, pois seu corpo parecia paralisado. Atrás de Saga, que permanecia olhando para ela, incrédulo, Ikki viu Kanon usando a Escama de Dragão-do-Mar.
"Olhe para baixo, Fênix."
Ela ouviu a voz de Kanon vinda de várias direções em ecos cacofônicos. Engoliu em seco e olhou para o seu corpo. Embora não pudesse falar, parecia ser capaz de mover o rosto apenas de leve. E quando olhou para seu próprio corpo, assombrou-se, pois não era mais ela. As mãos eram de um homem, o corpo mais alto e forte, os cabelos longos e ondulados, uma roupa que nunca havia visto. Colocou as mãos no rosto e sentiu detalhes que não eram seus. Ela estava presa no corpo de outra pessoa naquela ilusão.
"Sou eu. Quinze anos atrás. No dia que tudo começou."
— Kanon, meu irmão, esse não é um momento para dizer algo ridículo como isso. Eu já estou farto de suas brincadeiras.
— Não estou brincando, Saga. — falou Ikki, sem que ela pudesse ter qualquer controle do que dizia. E sua voz era grave como a de Kanon. — Esse é o melhor momento. Você sabe muito bem disso!
— Matar Atena, que acabou de reencarnar na Terra? Você está louco?
— Não só ela. Me escute, Saga. Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida. Nós somos capazes de governar o Santuário e a Terra, meu irmão. Mas, para isso acontecer, para que nenhum deles interfira em nossos planos, nós precisamos nos livrar de Atena. E também do Mestre Camerlengo, que escolheu o idiota do Aioros para ser o próximo Papa.
— Você está louco. Aioros foi escolhido pelo Mestre Sião!
— O Mestre Sião está velho e acabado! — vociferou Kanon. — Seu tempo está contado e o Santuário está à mercê daquele irmão ridículo que ele tem e de um bebê comum.
— Cale a boca, Kanon!
— Me escute, Saga. Felizmente, no Santuário, ninguém sabe que nós somos irmãos gêmeos. Todos te respeitam, ninguém jamais irá suspeitar. Eu poderia ajudar você a matá-los e juntos iríamos controlar o Santuário e a Terra.
Saga desferiu outro soco forte em Kanon, que Ikki sentiu como se fosse em seu próprio rosto.
— Chega! Nós, os Cavaleiros de Ouro, existimos para proteger Atena. É essa a nossa missão. E, se por acaso alguma coisa me acontecer, Kanon, você será o novo Cavaleiro de Gêmeos. Você é o meu sucessor. Como posso confiar em você, se está planejando matar Atena!?
Kanon limpou o sangue da boca e levantou-se novamente.
— Escute, Saga. Por que não procura ser mais honesto com você mesmo, meu grande irmão?
— O que quer dizer com isso? — perguntou Saga, sério.
— Desde que somos crianças, as pessoas acham que você é atencioso e gentil como um deus misericordioso, não é mesmo? Um homem que cresceu admirando tudo que é bom no mundo e se esforçando para ser caridoso com todos. Eu, por outro lado, cresci admirando o fosso da humanidade, o que há de mais horroroso e maléfico no coração humano. Cultivando tudo que há de ruim e fazendo toda sorte de atrocidade na vida. Mas não me arrependo de nenhuma delas. Nenhuma! — bradou Kanon para o irmão, como se para lembrá-lo de coisas que Saga parecia querer se esquecer. — Ora, eu até gostava. Embora gêmeos, nós sempre fomos diferentes, como o céu e o inferno, não é? Não é assim que você vê?
— Não. É assim que você vê!
— É assim que é. — falou Kanon com bravura. — Mas eu sei que você também tem uma mente tão perversa quanto a minha. Sei que ela dorme no seu coração.
— Ah, de novo essa história. Cale a boca, Kanon.
— Você parece um anjo, mas no fundo é um demônio como eu.
Kanon deixou escapar uma gargalhada terrível naquele lugar e Saga novamente o socou, mas o irmão mais novo esquivou-se e abraçou Saga sem que ele conseguisse se desvencilhar.
— No fundo você e eu somos iguais, irmão. Não negue isso. — falou ele ao pé do ouvido do irmão.
— Cala essa boca. — falou Saga, quebrando o abraço e novamente acertando-o no estômago, fazendo com que Kanon ficasse de joelhos.
— Quanto mais você nega, mais eu posso ver sua verdadeira índole. — falou Kanon com dificuldades na voz. — Você é exatamente igual a mim, Saga.
Saga de Gêmeos tomou Kanon pelo colarinho da blusa e o arrastou pelo restante das escadarias do Cabo Súnion até chegarem na base do oceano, onde havia uma entrada na rocha. Saga lançou seu irmão Kanon para dentro da caverna e ascendeu seu poderoso Cosmo de Ouro, que fez barras de ferro antigo descerem para prender Kanon naquele lugar.
— Vai me prender aqui, Saga? — perguntou ele, do fundo da cela.
— Infelizmente, eu não posso permitir que uma pessoa como você fique livre. — falou, fugindo do olhar de Kanon. — Não depois de confessar tramar contra a vida de Atena.
O prisioneiro levantou-se do fundo da cela e correu até as barras de ferro, forçando-as o máximo que podia, enquanto gritava.
— Tire-me daqui, Saga!
— Kanon de Gêmeos. — começou a falar Saga, com dor na voz. — Por tramar contra a vida de Atena e colocar o futuro do Santuário em risco, você está dispensado de sua obrigação como um Cavaleiro de Atena.
— Eu nunca fui um Cavaleiro de Atena.
— Ficará preso nesta cela do Cabo Súnion até que o mal desapareça de sua mente e de seu coração.
— Ele está em você também, Saga. Não se engane.
— Somente um poder divino poderá lhe tirar daqui. Ou até que Atena possa perdoá-lo, Kanon.
— Tire-me daqui, Saga! Não sabe o que está fazendo!
Saga então deu as costas e começou a subir as escadarias do Cabo, deixando seu irmão ali.
— Tire-me daqui! Vai acabar por matar o seu próprio irmão. Tire-me daqui!
O Cavaleiro de Gêmeos não respondeu e continuou caminhando, enquanto Kanon, pelos pulmões de Ikki, ainda gritava de sua cela, debatendo-se feito um louco.
— Acha que somos diferentes então? Anjo e demônio, céu e inferno? Você se acha melhor do que eu, Saga? É isso? Está cometendo um grave erro. Lembre-se de que nós somos irmãos de sangue. Somos filhos da mesma mãe. Da mesma mãe!
Saga hesitou em seus passos.
— Você me prende como um demônio, mas você também deve ter sido amaldiçoado pelo mesmo mal. Somos iguais. Você só está enganando a você mesmo, Saga. E algum dia, eu não tenho dúvidas disso, a sua maldade vai dominá-lo. Você é podre por dentro, Saga. Luta tanto contra sua verdadeira índole, e isso a alimenta dia após dia. E vai chegar um momento em que você não conseguirá afastar todos os pensamentos perversos que te envenenam a mente. Toda vez que ouvir o demônio no escuro do seu quarto, você vai se lembrar de mim. Eu vou sussurrar nos seus ouvidos todas as noites de sua vida, Saga!
As ondas quebravam-se com mais força contra as rochas.
— O que há de errado na força que temos? Que mal existe em usá-la para conquistarmos aquilo que desejamos? Vamos, me diga! Fomos abençoados por uma força imensurável. E para quê? Para você ficar fingindo ser um anjo entre os homens? Não, Saga, nós devemos usá-la! — disse ele, batendo contra o ferro da cela. — Deveríamos usá-la juntos. E juntos poderíamos dominar o Santuário. Não, o Mundo inteiro!
Ele gargalhava feito um louco.
— Irmão, enquanto você viver, você nunca se esquecerá de minhas palavras, da vergonha, da culpa. E isso vai te consumir. A sua verdadeira natureza é ser maligno como eu sou. Tudo que eu fiz por você, agora você terá de fazer por si próprio, e isso te levará para um caminho de desgraça. Está me ouvindo?
— Maldito!
Mesmo longe, ela foi capaz de sentir ao redor de Saga ascender uma aura ameaçadora colada em seu Cosmo de Ouro. Ikki reconheceu aquela presença como aquela que enfrentou nas Doze Casas. No corpo de Kanon, ela sentiu no coração do irmão mais novo um alívio e até mesmo um estranho contentamento.
— Aí está.
E riu como um louco enquanto Saga finalmente deu as costas para ele e saiu do Cabo Súnion.
— Você está desperdiçando seu poder e depois vai se lamentar. Se continuar assim, eu mesmo matarei Atena e terei o controle da Terra. E então será tarde demais para você mudar de ideia, irmão. Está me ouvindo, Saga? Será tarde demais, Saga.
A voz de Kanon saindo da boca de Ikki, continuou vociferando impropérios e juramentos até o anoitecer, tamanho o ódio que ele sentia naquele momento. E Ikki podia também sentir como se fosse o seu próprio ódio dentro de Kanon, aprisionado. Ela escutou, do lado de fora, a voz de Kanon ecoar por todos os lados, calando todos os idiomas. Era o General que lhe falava do lado de fora da memória.
"Aquela era a Prisão Rochosa do Cabo Súnion, no Templo de Poseidon. Saga e eu éramos guardiões da Relíquia dos Mares, que o Santuário dizia ser o que mantinha Poseidon adormecido. Bom, para todos os outros, apenas ele era o Guardião, já que o Santuário não tinha conhecimento da minha existência. E, graças a isso, ele era capaz de cumprir seus deveres no Cabo Súnion, enquanto eu viajava pelo Mundo cumprindo suas missões e trazendo-lhe informações dos Homens e dos Deuses de Fora que ele usava dentro do Santuário para aumentar sua influência ao lado do Grande Mestre Sião e seu irmão. Fui eu quem descobri aquela Prisão em que ele me jogou para apodrecer por mais de dez anos de minha vida. Essas celas antigas foram criadas pelo Deus dos Mares em tempos mitológicos, mas, após ter sido vencido por Atena, ela não somente destruiu seu Templo no Cabo, como também se apoderou de suas celas para confinar seus inimigos capturados nas guerras que vieram. Um lugar do qual ninguém era capaz de fugir ou de ser resgatado sem que fosse de sua vontade. Um lugar terrível, abandonado até mesmo por Atena muitos séculos atrás. A maré do oceano subia de tempos em tempos e, quando isso acontecia, as celas eram todas inundadas até o teto, afogando em morte lenta aqueles que fossem fracos. E, por muitas vezes, a verdade é que eu estive prestes a morrer."
Em um lampejo de luz, Ikki experimentou milhares de dias em um segundo onde Kanon quase se afogou naquela cela, clamando por sua vida ao mesmo tempo que odiava seu destino. A sensação de afogamento invadiu Ikki, enquanto ela tentava debater-se e torcer aquelas barras de ferro maciças em uma cela inundada. Ela abriu os olhos dentro da água invadida e, do outro lado da cela, flutuando no oceano, o General Kanon de Dragão-do-Mar a olhava com um sorriso sádico. Olhava para si mesmo.
Ikki, na pele de Kanon, sofria dentro da água e se afogava como se ela mesma se afogasse. Ao abrir os olhos uma segunda vez, viu um brilho dourado ficar cada vez mais intenso ao seu redor, como se uma força invadisse a cela junto da água.
"Cada vez que eu estava decidido a me entregar, eu sentia um Cosmo cálido me salvando. O Cosmo era muito poderoso e confortante, um Cosmo que me dava forças para me manter vivo, enquanto meu ódio crescia dia após dia. Por quinze anos."
Aquela luz fez com que Ikki se acalmasse, como se esperando pela morte, lentamente adormecendo para o fim. Mas, ao acordar no instante seguinte, percebeu que a água toda havia baixado e a maré retornado ao normal. Ela vivia por mais um dia. Ikki então levantou-se, sentindo todos os quinze anos de ódio de Kanon, mas às suas costas ainda brilhava um lampejo dourado. Ela se virou e viu uma fresta de luz através da pedra muito desgastada do fundo da prisão.
"Olhe para seus punhos."
A voz de Kanon a guiou e, sem titubear, Ikki olhou para baixo e a primeira coisa que a surpreendeu, no entanto, foi a enorme barba escura que tinha no queixo. Passou a mão por ela, curiosa, e viu que suas duas mãos estavam enfaixadas com o tecido que uma vez havia sido a camiseta simples com a qual ela havia sido presa por Saga. Sentia a dor nas mãos. Tirou lentamente as faixas e sentiu-se horrorizada ao ver que elas estavam em carne viva, a pele ralada e grossa de feridas e um pedaço do osso de um de seus dedos aparecendo para fora.
"Essa prisão somente poderia ser aberta pelo poder de um Deus. O Cosmo de um Cavaleiro nada poderia fazer aqui, embora fosse feita apenas de ferro e rocha. E, ainda assim, por quinze longos anos, eu esmurrei a pedra dura da cela na esperança de encontrar uma saída. Movido apenas pelo ódio e o desejo de vingança contra meu irmão. E, depois de tanto tempo, finalmente cheguei a um lugar mágico. A minha salvação."
Ikki, como Kanon, enfaixou novamente os punhos e voltou a socar a parede até chorar de dor, mas finalmente conseguindo fazer ceder a parede para dentro de uma espécie de câmara escondida no coração do rochedo. Um templo esquecido e escuro, senão por uma única fonte de luz: um pilar de pedra âmbar que parecia emitir uma luz própria. Um único pilar no centro da câmara, cuja fundação enterrava-se perdida na pedra e o teto baixo daquele templo engolia a outra ponta. Era como se Ikki visse apenas uma parte dele, que atravessava aquela curiosa câmara e se perdia nas profundezas da rocha.
Ela caminhou até ele e encontrou um selo de papel colado com uma inscrição:
Αθηνά
"Um selo de Atena."
A mão de Ikki, ou de Kanon, tocou no selo e ele se desfez no ar, imediatamente causando um enorme terremoto que fez ceder o chão do templo em que ela estava, jogando-a no fundo do mar e afundando-a em um redemoinho que a puxava mais e mais para as profundezas.
No fundo do oceano, ela abriu os olhos e viu-se flutuando entre as estrelas, com planetas e galáxias subindo eternamente ao seu redor. Podia respirar perfeitamente e, ao girar o corpo que flutuava, olhou para o outro lado e viu o velho de robe preto olhando-a flutuar. Ele estava de pé, ao lado do tronco em que sentavam e da fogueira que havia voltado a queimar de branco e sem calor. Ele a puxou de volta para o tronco onde se sentaram.
— O que aconteceu? — perguntou a criança.
— Seu Cosmo queimou as Galáxias.
— Ainda posso senti-lo.
— Falta pouco.
O corpo da pequena Ikki dissolvia-se em luz.
— Disse que me falaria seu nome. — cobrou a criança, que nada esquecia.
O velho sorriu.
Ikki despertou no Templo de Poseidon. Olhou para as mãos e percebeu que ainda eram as mãos de Kanon; ainda era o corpo de Kanon que ela carregava naquela memória interminável. No alto, ela encontrou com assombro o céu-de-mar, e diante dela as longas escadarias de um templo completamente arruinado. Seguiu os passos daquele Kanon liberto e subiu para a nave principal daquele santuário destruído e submerso em trevas. A única luz vinha de um corredor estreito que levava até uma câmara, a luz pulsava levemente. Aquela luz atraiu Ikki. Havia atraído Kanon.
— É inacreditável! — surpreendeu-se Kanon ao chegar no lugar.
"Aquele era o Salão das Criaturas."
Ouviu Ikki a voz de Kanon do além-sonhos. Um lugar onde sete estátuas de criaturas marinhas estavam posicionadas ao redor de uma enorme estátua do Deus Poseidon com seu tridente poderoso. Exatamente à frente da estátua, a fonte da tênue luz que pulsava era uma linda ânfora branca e dourada, onde Ikki percebeu haver outro selo da Deusa Atena. Ela ajoelhou-se diante do objeto sagrado e levou as mãos à sua tampa; mal precisou fazer qualquer movimento mais decidido, pois somente com sua respiração pareceu que aquele selo também se desfez no ar e o objeto se abriu em um espetáculo de luzes, revelando a face de todas as criaturas do Mar. Ikki reconheceu o Limnádis, que havia enfrentado, como também a Escama que Kanon usava.
— Foi você quem se atreveu a me acordar? — falou uma voz terrivelmente profunda, como se falasse por todo o oceano acima de sua cabeça.
Ela, como Kanon, hesitou por um instante e, de verdade, sentiu naquele peito que não era seu um medo enorme diante daquela voz retumbante.
"Atena havia trancado Poseidon naquela ânfora."
— Responda, por que você me acordou? — tornou Poseidon, falando pela estátua.
Kanon gaguejou em sua resposta.
— Achei que já fosse o momento de você despertar, meu Senhor.
— Infeliz! Esse não é o Tempo de Poseidon. Sabe o que pode lhe acontecer por cometer esse erro?
— Espere, meu Senhor! — tremeu Kanon. — O Selo de Atena já havia perdido seu efeito, eu imaginei que…
— Tolo! O Selo de uma criança como aquela jamais seria um problema para mim. Isso não me impediria de despertar quando eu quisesse.
— Perdoe-me, meu Senhor, eu achei que…
— Escolha bem suas últimas palavras…
— Não, espere! — suplicou Kanon diante do Senhor dos Mares. — Perdoe-me a insolência, Senhor Poseidon, eu cometi um grave erro ao saber que Atena havia ressuscitado no Santuário da Grécia. Eu imaginei que…
— Atena reencarnou? — perguntou Poseidon.
— Sim. Sim, meu Senhor. Faz poucos meses que ela acaba de retornar à Terra. O Santuário se prepara para uma Guerra contra o Reino do Mar. É por isso que vim até aqui avisá-lo. Me perdoe ter incomodado seu sono.
Kanon tremia e respirava fundo enquanto aquela Câmara escura ficou em silêncio. Até que a voz profunda de Poseidon novamente se fez ouvir.
— Que estranho. Na era mitológica, eu lutei contra Atena pela posse da Ática. Depois disso, nós tivemos várias outras batalhas, mas todas elas foram há muito tempo. Eu não tenho tido uma batalha contra aquela pequena indomável há séculos. Por que ela reencarnou agora para me enfrentar? O que aquela criança está tramando dessa vez? Há pouco mais de duzentos anos, a Terra tremeu como há tempos não fazia e eu despertei para compreender o que se passava. Naquela época, Atena enfrentava outro de seus muitos inimigos. Alguém que realmente deseja tomar a Superfície, e por isso eu decidi voltar a adormecer. Até você me acordar, mortal.
— Perdoe-me, Senhor Poseidon, por favor, eu lhe suplico. O Santuário realmente está se movimentando e há um Cavaleiro de Atena que vive rondando o Templo do Cabo Súnion. Eu tinha certeza que estavam se preparando para atacar este Reino e quis avisá-lo. Por favor, me perdoe.
Fez-se outro silêncio na Câmara, em que Kanon sofreu por alguns minutos até que a voz divina outra vez se manifestou.
— O que você viu, reles mortal, foi um dos Guardiões das Relíquias dos Mares.
— Relíquias? — repetiu Kanon para si próprio, notando que poderia haver mais de uma.
— Presentes que entreguei às Antigas Civilizações dos Mares para que cuidassem das águas que lhe davam vida. Serão eles que irão convocar a Profundidade. Quando todas as Relíquias forem destruídas, aí então se dará o Tempo de Poseidon despertar.
Kanon calou-se, ouvindo e processando tudo aquilo.
— E esse não é o Tempo de Poseidon. Posso sentir que todas as Relíquias estão intactas e as Civilizações ainda perduram. Atena retornou para enfrentar aquele que é o seu verdadeiro rival. E tem sido assim desde os Tempos Mitológicos. Você cometeu um erro, mortal.
— Desculpe-me, Senhor, por favor, perdoe a minha estupidez.
— Diga-me seu nome, mortal.
Kanon hesitou outra vez e viu que as estátuas ao redor de Poseidon tinham nomes de criaturas antigas dos mares. Ele engoliu a seco e escolheu uma delas, a que estava mais próxima e melhor iluminada.
— Sou Dragão-do-Mar, meu Senhor. Dragão-do-Mar.
— Dragão-do-Mar. — repetiu a voz profunda.
— Senhor, permita-me ficar aqui em seu Santuário até que seja chegado o seu Tempo de despertar. Eu irei lhe servir e preparar a sua gente para quando for chegada a hora.
Longo silêncio até que Poseidon falou outra vez.
— Muito bem, Dragão-do-Mar. Quando for chegada a hora, a minha grande vontade cobrirá o Templo e todos os oceanos. Os Marinas sentirão o meu chamado e então virão até este Salão. E estaremos prontos para enfrentar qualquer um que esteja ameaçando a vida em nossos braços. Não volte a me acordar antes desse tempo.
— Obrigado por essa dádiva, Senhor Poseidon.
Silêncio. A estátua novamente perdeu o lampejo que tinha e a ânfora voltou a reluzir de maneira tênue. Kanon olhou para ela e de volta para a face dura da estátua de pedra, engolindo em seco.
— Senhor Poseidon? — tentou ele, com medo.
Mas não houve resposta. Ikki levantou-se usando o corpo de Kanon e respirou fundo, saindo daquele Salão o mais rápido possível, colocando as mãos nos joelhos e respirando fundo enquanto sentia o peito bater mais forte. Não havia notado o tanto que havia sentido medo daquela interação divina. Ela olhou para o Templo e percebeu que estava completamente arruinado; a cidadela de Atlântida estava toda abandonada.
Naquele momento, Kanon sentiu uma ideia nascer em sua cabeça e Ikki teve a mais perfeita sensação de que havia sido naquele instante que ele percebeu ter uma grande oportunidade nas mãos.
"Sim. Era a minha chance."
Ikki olhou para Kanon, que estava de pé usando sua Escama no meio do pátio. Ela, como ele no passado, desceu as escadarias até o dono da ilusão e falou com sua voz de menina:
— Tem alguém atrás de você.
Kanon pareceu confuso ao ouvir aquela voz feminina em seu próprio rosto e olhou por sobre seus próprios ombros. Viu Saga de Gêmeos usando sua Sagrada Armadura de Ouro, com uma expressão de decepção imensa no rosto. Mas aquele rosto derreteu-se em ódio e seus olhos vidraram-se de vermelho e, com uma gargalhada imensa, ele levantou os braços e engoliu Kanon em sua poderosa Explosão Galáctica obliterando todos os ossos e células de Kanon.
Ikki caiu para um lado com sua Armadura de Fênix, e Kanon do outro no pátio do Templo do Oceano Atlântico-Norte. Aos poucos, ela se levantou com dificuldades, com a mente desequilibrada.
— O que foi isso? — perguntou Kanon, de joelhos. — Isso não foi uma memória.
— Foi um presente meu para você, Dragão-do-Mar.
— O quê!? Mas seu golpe não atingiu minha mente, como pode ter interferido em minha ilusão?!
— Você subestimou a força do meu Golpe Fantasma, Kanon. Você é realmente muito forte e sua ilusão é das mais incríveis que eu já presenciei, mas sua mente não está imune aos poderes da Ave Fênix.
Kanon finalmente colocou-se de pé, olhando com assombro para Ikki, que outra vez colocou-se em posição de luta.
— Foi Shaka de Kyi, não foi? A Cavaleira de Virgem. — comentou Kanon com ela, que respondeu com a face confusa. Kanon sorriu ao falar. — Posso sentir os ensinamentos de Shaka em sua ilusão.
— Você é mesmo uma serpente, Kanon. Foi capaz de perceber os ensinamentos de Shaka na minha técnica, mas quando chegamos aqui, fingiu não perceber que haviam Cavaleiros se levantando para enfrentar Poseidon.
O General ficou calado com o sorriso no rosto.
— Tudo que está acontecendo aqui é uma trama sua, não estou certa? Você fez essa batalha. Causou essa crise para que os Cavaleiros de Atena fossem obrigados a virem ao Reino de Poseidon enfrentar os Marinas. Céus, não era mesmo você naquele rochedo em Asgard, era o infeliz do irmão de Siegfried que você controlava com a mesma técnica que Saga usava, não é verdade?
— Eu disse que a usei apenas uma vez. — respondeu Kanon, com deboche. — E foi o suficiente.
— A Missão de Atena pelos Sete Mares, isso também foi obra sua?
— Uma pequena alteração em um livro. A curiosidade do Santuário fez o resto.
— Maldito!
— O que está em curso não pode mais ser desviado, Fênix. Logo Atena estará morta, os Marinas estão derrotados e o Santuário não passa de um punhado de Cavaleiros de Ouro perdidos e trancados em seus Templos.
— E vai viver o resto da sua vida como um monstro marinho, é isso? Seu irmão pelo menos conseguiu tudo aquilo que você desejava.
Kanon gargalhou.
— Não se deixe enganar, menina. Apenas uma das Relíquias de Poseidon foi destruída, a força do Deus dos Mares pode parecer impressionante para vocês, mas não passa de um lampejo de seu verdadeiro poder. Enquanto ele estiver nesse estado, envenenado pelas lembranças e vícios humanos, eu o controlarei como eu bem quiser. E como tenho feito desde que ele era uma criança. Logo que Atena morrer, ele voltará ao seu Sono Eterno e eu subirei à Superfície para tomar o Santuário para mim.
E então o General Kanon olhou para o horizonte e vociferou para o céu-de-mar suas juras:
— Está me ouvindo, Saga!? Eu vou conquistar tudo aquilo que você perdeu. Vou lhe mostrar, onde quer que esteja, que eu sou muito maior do que você!
E gargalhou feito um maníaco.
— Agora eu finalmente compreendi tudo.
Kanon e Ikki olharam para a entrada do Templo e ali viram que Sorento de Sirene os estava observando; sua Escama completamente destruída e, ao seu lado, uma Urna de Ouro.
— Sirene? O que está fazendo aqui?
Ele arremessou a Urna de Ouro na direção de Ikki e ordenou:
— Destrua o Pilar do Oceano Atlântico-Norte, Cavaleira de Atena. Ele não irá lhe impedir. Na verdade isso é exatamente o que ele quer, estou errado, Dragão-do-Mar? Ou melhor dizendo: Kanon de Gêmeos.
— Vai ajudar os inimigos de Poseidon a destruir o Templo do Mar que você jurou proteger, Sorento de Sirene? — perguntou Kanon para ele.
— Agora que eu sei que toda essa batalha não foi obra da Vontade de Poseidon, mas sim de um homem como você, ela não tem mais sentido de existir. É melhor que o Templo seja destruído, pois está envenenado da sua própria vontade. Poseidon o levantará inúmeras vezes quantas forem necessárias e vai fazê-lo sem a sua influência maligna.
Ikki ardeu seu Cosmo de fogo e a Urna respondeu ao seu chamado, enviando para sua mão uma das Armas de Libra: a Tonfa de Ouro, que a Cavaleira de Fênix usou para saltar na direção do pilar e atingir a pedra. Assim como com todos os demais, aquele pilar rachou completamente e tombou para o lado em um enorme estrondo. O nível do céu-de-mar baixou a tal ponto que a maresia da água salgada garoava em todos eles.
— Vá até seus amigos. — pediu Sorento para Ikki, mas ela virou-se para Kanon.
— Antes disso…
— Eu não falarei uma vírgula sobre as Armaduras de Ouro. — retrucou ele à ela, imediatamente, com extremo veneno.
— Eu já entendi isso. Mas tem algo que você precisa ouvir de mim.
Kanon tinha um sorriso no rosto, de quem está certo de sua vitória.
— Kanon de Gêmeos. Eu estive na sua pele durante seus anos de prisão no Cabo Súnion, graças à sua elaborada ilusão para me fazer perder todo o tempo do mundo. Ali eu senti as dores e revoltas que passaram por sua mente, sofri com o ódio e a sede de vingança que havia em seu peito. Mas também experimentei a tranquilidade e o conforto daquele Cosmo que o salvava de tempos em tempos da morte certa. E quando encontrou a Câmara do Pilar no coração do rochedo, eu estava na sua pele e senti o seu coração bater forte por imaginar que havia sido Poseidon que o havia salvo por todos aqueles anos. Ora, mas é claro que teria sido ele, não é mesmo? Afinal de contas, ele é o Deus dos Mares. Somente ele poderia lhe poupar de ser afogado pela água salgada de seu Oceano. De seu Reino.
Kanon enquanto escutava desarmava o sorriso debochado.
— Mas diga-me, Kanon, depois de tantos anos.. aquele era mesmo Poseidon?
Ele não respondeu, e foi Ikki quem ganhou um sorriso no rosto dessa vez.
— Não era, não é mesmo? E agora que sentiu o verdadeiro Cosmo de Poseidon, você sabe exatamente quem te salvava em todas aquelas noites sem esperança. E eu sei quem é, pois foi ela que me deu forças durante muitas batalhas. À mim e aos meus amigos. Foi Atena. Era Atena que te salvava nos momentos em que você perdia a esperança. Ela que você jurou matar para ter o poder, ela, por quem você manipulou Poseidon para sacrificá-la. Foi ela que te salvou.
— Cale a boca. Ela não passava de uma criança quando eu estava preso, como poderia ser ela?
— E ainda assim ela foi capaz, não é mesmo? Você sentiu esse mesmo Cosmo neste Templo. Quando Atena cantou o seu amor de dentro do Pilar Fundamental, eu tenho certeza que essa sua mente doentia deve ter ficado absolutamente perdida, mas a sensação do Cosmo de Atena é inconfundível. Você tem uma dívida eterna com a deusa que jurou matar, Kanon.
— Cale-se! — falou o General, ascendendo seu Cosmo para atacar Fênix.
Mas então o sopro da flauta dourada de Sorento fez soar os melismas maravilhosos que o artista havia escutado da voz de Atena, criando uma nova música de sua técnica, levando Kanon diretamente ao chão com a sensação de que seu coração havia se derretido. Incapaz de atacar ou fazer qualquer outra coisa.
— Esse é o Amor de Atena. — falou Sorento, interrompendo sua canção.
Ainda assim, Kanon seguia no chão, tal força aquela música havia operado em seu peito.
— Eu também não quis acreditar nessa sensação que a Voz de Atena nos faz sentir. Quando ouvi essa melodia pela primeira vez, senti um medo imenso. Medo de que nossa vontade de purificar a humanidade em nome da justiça não estivesse certo. O que ela te faz sentir, Kanon?
O General não respondeu e continuou ajoelhado.
— Vá até o Templo de Poseidon. Resgate a Deusa Atena, Fênix. — pediu Sorento.
Ela caminhou até o moribundo no chão.
— Tem uma última coisa que eu preciso lhe contar, Kanon. O nome de quem me enviou de volta para esse lugar.
Ela se ajoelhou e sussurrou algo no ouvido de Kanon, que o fez abrir os olhos como se tomado de assombro. Ela se levantou e, carregando a Urna da Armadura de Libra, correu finalmente para o destino final daquela batalha. Kanon deixou-se cair no chão como quem desiste da vida. E então riu de sua própria tolice.
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