Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
127 Memórias de Dor
June sentou-se no banco da fonte que havia na propriedade de Freia e experimentou o silêncio daquela encosta congelada pela primeira vez. Nem por um segundo ela teve paz dentro daquele casarão junto aos demais Cavaleiros de Atena, mas aquele momento de silêncio lhe trazia uma enorme angústia, pois significava que todos haviam partido para suas novas batalhas enquanto ela havia ficado para trás.
Olhou para as botas que usava e pensou de forma melancólica sobre sua vida até ali. Sua curta vida, pois também ainda era jovem. Jovem e cheia de cicatrizes, como o resto de seus amigos. Respirou fundo e, quando levantou os olhos, percebeu à sua frente a figura austera de Geist.
— O que está fazendo aqui? — perguntou ela, surpresa, levantando-se do banco.
— Seiya será o Capitão dessa missão.
A Cavaleira de Camaleão demorou-se nos olhos sérios da amiga e deixou escapar um sorriso do rosto, pensando em Seiya e como ele era capaz de iluminar qualquer um. Lembrou-se de ter passado um dia inteiro olhando para seu rosto sofrido em alto-mar, logo no seu primeiro dia, cheio de sofrimento, tristeza e náusea. E agora tinha certeza absoluta que Seiya seria um grande Capitão em sua missão.
— Quem poderia imaginar?
— Meko Kaire poderia. — June sorriu à lembrança.
— Aquele cabeça-dura. E você, para onde vai agora? — perguntou, notando que Geist não parecia chegar para descansar, e sim para se despedir.
— Vou voltar para o Templo de Kalinago.
— Tortuga?
— Sim. Posso sentir a Tormenta se aproximando no horizonte. Seiya e os Cavaleiros de Atena terão sucesso em sua empreitada, eu tenho certeza disso. Mas isso despertará a maior Tempestade dos Mares e o povo de Tortuga deverá fazer um grande sacrifício para que o Mundo não seja engolido.
— Uma profecia dos piratas? Não sabia que eram tão apegados a lendas.
— Pois então não sabe nada sobre os corsários. — adicionou Geist com seriedade. — Toda lenda nasce de uma história. Toda história nasce de um dia. E nesse dia eu preciso estar lá.
June olhou fundo nos olhos de Geist, que não os afastou em nenhum momento. Aquilo preocupou a Cavaleira de Camaleão.
— Geist, não está pensando em… Isso não se parece com você.
A Cavaleira de Prata continuou com os olhos muito sérios.
— Vou com você. — anunciou June, já tornando-se indignada.
— Não. Somente os filhos dos mares serão aceitos no Templo de Kalinago nesse Tempo de Tormenta.
— Ora, não posso voltar ao Santuário, céus, não posso nem ao mesmo lutar ao lado de piratas. Eu não aguento mais ficar para trás enquanto todos os Cavaleiros de Atena lutam.
— Lutar não é o seu papel. — falou Geist com certa candura para a amiga.
June reagiu da pior maneira possível, chacoalhando a cabeça e imediatamente ardendo seu Cosmo maravilhoso, que transformava-se em cores diferentes conforme ficava mais enraivecida. Ela avançou na direção de Geist, mas seus punhos e chutes foram todos esquivados pela Cavaleira de Prata.
— Eu posso muito bem lutar.
— Eu sei muito bem disso, June. Tanto quanto qualquer um de nós. Eu, você, Seiya. Todos nós sabemos lutar como um Cavaleiro de Atena. Mas esse não é o nosso papel na Missão de Meko Kaire.
O coração de June acalmou, apagando o fogo colorido de seu Cosmo.
— A Missão de Meko Kaire?
— Sim. Assim como você, muito tempo eu passei refletindo sobre os motivos do Capitão ter escolhido as pessoas que ele escolheu para essa Missão.
June refletiu sobre aquilo e olhou para o horizonte, lembrando-se de palavras e momentos anteriores.
— Você era uma navegante antes mesmo de ser Cavaleira, eu fui escolhida para manter todo mundo vivo naquele navio. E Meko Kaire me contou na primeira aventura que tivemos em uma ilha abandonada, aquela onde encontramos todas as crianças: Seiya havia sido escolhido pelos milagres que era capaz de produzir.
— Uma maneira diferente de dizer que Seiya era teimoso. Incapaz de desistir. Esse era o seu papel na Missão. Nunca desistir. Sempre seguir em frente. Quando todos nós estivéssemos em um beco sem saída, Seiya saberia como continuar. E é isso que ele está fazendo agora mesmo. Mais do que lutar, ele inspira isso em seus amigos. E em todos nós.
June respirou fundo a brisa gélida da floresta. Geist seguiu falando ao seu lado.
— Assim como todos nós. Está vendo de uma maneira simplista. Veja a pequena Lunara, por exemplo. Aquela garota era como um pequeno diamante. Qualquer luz que jogássemos nela, ela refletia uma cor diferente em uma direção diferente. Era criativa. Por ser muito nova, podia olhar para todos os problemas sem qualquer vício ou ideia preconcebida. Um papel totalmente em branco. E cada conversa com ela era impossível prever o que poderia falar ou fazer. O caos da inocência.
— Lunara…
— Quanto à mim, Meko Kaire não me escolheu apenas porque eu já era uma navegante experiente. Apenas por saber a diferença dos ventos em alto-mar. Ele conhecia muito mais profundamente do que eu mesma a natureza de minha constelação. Argo. A Cavaleira de Argo, o navio incapaz de se perder de seu destino. Me escolheu, pois sabia que eu seria capaz de guiar a Missão de Atena pelo caminho certo. Para achar o caminho de todos nós.
E então Geist olhou fundo nos olhos de June, como quem encontra o caminho da Cavaleira de Camaleão. Admirou a profundidade daqueles olhos escuros e brilhantes, bem como os lindos detalhes etíopes do cabelo dela.
— Meko Kaire não te escolheu apenas porque seu Cosmo pode curar nossas feridas e alentar nosso corpo. Eu não seria capaz de encontrar caminho algum nas estrelas, Lunara não poderia criar nada com suas pequenas mãos habilidosas, tampouco Seiya seria capaz de nos inspirar se você não estivesse ao nosso lado. Cuidar não é apenas curar. E isso é tão profundo e importante quanto lutar em uma batalha.
— Geist…
— Se diz que um camaleão por vezes muda sua própria cor para caçar seus inimigos na floresta; você é aquela que muda suas próprias cores para ajudar as pessoas. — Geist tinha candura nos olhos e June chegou a se emocionar com as palavras. — Não sei o quanto isso pesa em seus ombros, mas ao mesmo tempo me parece que você não consegue fugir de sua natureza. É o seu papel.
Os olhos de June marejaram, pois sentia-se vista pela primeira vez; como se pela primeira vez alguém compreendesse ao menos um pouco do peso que era ser a pessoa que sempre ocupava-se das dores de todos. Geist não foi capaz de evitar o ataque de June e acabou envolvida por um forte abraço da amiga.
— Qualquer um pode ser capaz de lutar. Mas poucos são aqueles que realmente podem cuidar. Obrigada, June. Eu só entendo meu caminho na Missão do Esperança de Atena, a Missão de Meko Kaire, porque você fez tudo que existia ao seu redor para garantir que eu ainda estivesse aqui. Assim como Seiya e Lunara.
— Mas perdemos nosso Capitão. — balbuciou June aos seus ouvidos e Geist a segurou pelos braços e a encarou de perto.
— Não perdemos. Sua Missão vive em todos nós enquanto ele faz a jornada de seu povo ao lado de quem amava. A Morte é apenas uma dor para quem fica. Ele continua nas estrelas e no mar olhando por seu povo e por nós.
June limpou as lágrimas e sentiu que Geist também se despedia.
— Vai mesmo partir, não é?
— É o meu Caminho.
— Não vou te ver mais então?
— Quem saberá? — respondeu Geist, enigmática.
June deixou abrir um sorriso. Colocou a mão sobre os ombros da amiga e deixou que partisse.

— Obrigada, Geist.
— Obrigada, June.
Geist partiria de Asgard naquele mesmo dia, tendo negociado com a Princesa Freia em segredo uma embarcação em melhores condições para que ela pudesse chegar com segurança em seu destino e não afundar no Mar Ártico como havia feito Seiya.
-/-
June passou dois dias no Casarão de Freia cuidando de Hagen, imaginando o que estaria acontecendo com Shun e os outros. Até a tarde do segundo dia, em que alguns guardas palacianos da cidade-baixa vieram até o casarão da montanha anunciar que a Princesa de Asgard solicitava que ela comparecesse ao Palácio Valhalla o quanto antes. Junto deles, veio um alto homem pálido de cabelos negros e longos, trajando um longo robe branco cerimonial.
— Sou Andreas, o curandeiro de Valhalla. Muito obrigado por cuidar de Hagen por todo esse tempo. Sua presença é requisitada no Palácio, portanto eu irei ficar em seu lugar.
— Hilda já despertou?
— Sim. Graças a Odin, nossa Representante já encontra-se melhor.
June assentiu àquele grande homem, respirou fundo, tomou suas coisas e partiu para o Palácio Valhalla escoltada por uma dupla esquálida ao seu lado. Dois homens que levavam muito a sério sua função, mas que June percebeu que as armaduras que usavam eram muito maiores que seus corpos, feitas para guerreiros treinados e não jovens esquálidos. Resultado da fome que ainda assolava aquela região.
Mas embora o frio fosse menos fustigante aqueles dias, June percebeu que o povo da Cidade-Baixa por onde passava tinha o semblante cabisbaixo, caminhando como se todos carregassem um enorme peso nas costas. Uma tristeza depositada eternamente nos olhos. A escassez ainda era um enorme problema em Asgard, mas aquilo era ainda mais profundo. Era o espírito, como lhe contou a Princesa Freia assim que ela chegou à entrada de Valhalla.
— O povo de Asgard sente-se abandonado. Mais do que a fome, e isso não é pouco. A fome é como uma provação de lealdade à Terra de Asgard e a Odin. É dolorosa e terrível, mas é uma provação que esse povo tem suportado com valentia por muitos anos. — falou ela enquanto atravessavam os corredores enormes do Palácio. — Mas Hilda, que era adorada por todos, ter sido manipulada por Poseidon foi um golpe profundo na fé do Povo de Asgard. Muitos se perguntam por que Odin abandonou sua filha quando ela mais precisou. Assim como Sigmund. Sigmund era um grande herói e ainda existia certa esperança de que as acusações sobre ele fossem falsas. Um herói como Sigmund ter traído seu povo é uma desesperança maior do que a fome. Tira do povo de Asgard a fé em Odin, que tem sido exatamente aquilo que manteve o povo valente por todos esses séculos.
Um povo doente, refletiu June, enquanto atravessavam os salões gelados e abandonados do Palácio.
— Eu sinto muito, Princesa Freia.
— Tenho esperança de que iremos descobrir toda a verdade. — adicionou Freia para ela, enquanto entravam em corredores com alguns serviçais do palácio. — Minha irmã despertou de seu torpor e poderemos ir a fundo no que realmente aconteceu em nossa Terra.
Ao entrarem nos aposentos internos, June viu que Hilda estava de pé olhando por uma grande janela de vidro; seu vestido cintilante de azul claro brilhante, uma gargantilha de ouro e um xale de seda sobre os ombros. June adiantou-se e compartilhou sua alegria em vê-la melhor depois de tantos dias; Hilda já estava a par de tudo que havia se passado enquanto ela se recuperava e, depois das amenidades, dispensou os serviçais. Saíram juntas do Palácio Valhalla para o pátio externo onde havia se dado a grande batalha contra Siegfried, o Dragão do Norte.
— Vamos à Caverna de Surtr. — anunciou Hilda para elas.
Muitos artífices trabalhavam no local e pararam seus trabalhos para ver aquela pequena comitiva atravessar o pátio até a escadaria que levava à Caverna. O enorme Galeão de Atena ainda estava em processo de ser desmontado ou salvo de alguma maneira, para que pudesse ser devolvido ao Santuário; ainda que estivesse destruído, aquele era um Tesouro da Grécia, e o povo de Asgard sabia como ninguém o devido tratamento para tesouros como aqueles. Em outro tempo, talvez o Galeão de Atena virasse uma carcaça empilhada aos demais tesouros da Caverna de Surtr, mas Freia decidiu que seria um ato de boa fé devolvê-lo ao Santuário da Grécia, ainda que estivesse destruído.
Era uma visão nostálgica para June ver o que havia restado do navio em que passara os últimos seis meses atravessando os Sete Mares ao lado de uma tripulação incrível. Todos eles tomaram seu caminho, mas ela continuava ali.
As garotas seguiram em frente, para onde o caminho convergia ao pedestal em que Hilda orava pela sorte de Asgard, e de onde desciam as intermináveis escadarias na encosta do abismo até o fundo do vale onde ficava a entrada para a Caverna de Surtr. Cada uma desceu aqueles lances em silêncio lembrando-se da última vez em que estiveram ali; June correndo em desespero pelos paredões do abismo tentando evitar, ao lado de Shun, que Seiya morresse em uma queda mortal. Hilda lembrou-se de Sigmund trajado em uma estranha Armadura furta-cor que agora ela sabia se tratar de uma Escama de Poseidon; lembrou-se de sua voz profunda como a montanha lembrando-a de seu dever com a Relíquia dos Mares, algo que agora ela sabia muito bem se tratar de uma trama sórdida. Freia lembrava-se de algo muito mais leve e feliz.
— Eu e Hilda fugíamos do Palácio quando éramos crianças e descíamos todas essas escadas até a Caverna. Às vezes a gente esperava nosso pai dormir, e saíamos de mansinho pela janela. Atravessávamos os corredores, o pátio e então descíamos correndo todas essas escadas. — contou ela com uma certa leveza na voz. — Cada dia a gente escolhia um ou dois tesouros para imaginar de onde poderiam ter vindo, qual sua história e por que estavam ali.
Quando a escadaria finalmente acabou, Hilda olhou para Freia com o olhar confiante e tomou uma tocha de fogo que queimava no batente da saída das escadas para o vale escuro que rasgava aquela montanha em duas, criando aquele abismo. June lembrava-se de estar ali. Hilda também, pois as duas estiveram ali lutando, uma de cada lado. Houve uma troca de olhares entre elas em que nada foi dito, e a Voz de Odin seguiu adiante com sua tocha iluminando o caminho pelo Corredor que se abria do outro lado do vale. O Corredor de Antigamente.
Atravessaram em silêncio e June não deixou de se maravilhar com todos os tesouros que decoravam os cantos e paredes daquele corredor, bem como as lindas pedras brilhantes que cintilavam no teto baixo, como um tapete cósmico, mas irregular. Ao final do Corredor, Hilda acendeu a luz da caverna com sua tocha e a deixou pendurada na entrada; até para Freia e Hilda, a visão daquele lugar todo iluminado pelo fogo ainda era uma visão exuberante.
Pelas vielas recheadas de tesouros e berloques as irmãs caminhavam com extrema familiaridade, uma vez que conheciam cada palmo daquele lugar. Chegaram até uma estante de ouro de três andares, com insetos dourados dos mais variados, pedras preciosas, uma série de topázios, crateras e uma lamparina na seção do meio e elmos alados no último andar.
As irmãs entreolharam-se e Hilda pegou a bonita lamparina de mão que havia ali com todo o respeito.
— A memória é muito importante para nosso povo. — falou Freia, adivinhando as perguntas que haviam na mente de June. — O Corredor de Antigamente conta nossa história através de nossos tesouros, como deve saber. Essa lamparina é o Olho de Munin, uma lanterna da memória banhada com o sangue de nossos antepassados.
— Alberich sabia que a Relíquia estava no Anel de Nibelungos. — falou Hilda. — Tenho pensado nisso desde que despertei.
— Ele sempre almejou seu lugar, Hilda. — falou Freia para a irmã. — Não era suficiente ser um alto-conselheiro. Há muito tempo que essa tem sido uma reclamação de sua família. Nosso pai nos alertava sobre isso.
— Alberich não era um guerreiro. É verdade que ele era um diplomata muito capaz no estrangeiro e tinha um enorme carisma, mas aquilo que Alberich realmente era insuperável era no seu trabalho com os metais e pedras preciosas.
— Como as Ametistas que Seiya e os outros enfrentaram. — lembrou-se June.
— Alberich considerava isso abaixo de sua posição de direito. Ser um mero artífice, um artesão. — completou Freia, lembrando-se dele. — Mas corria em seu sangue a habilidade dos antigos anões das montanhas.
— Não me espantaria que ele tenha sido a pessoa que forjou a Relíquia do Mar no Anel de Nibelungos sem que ninguém fosse capaz de perceber.
— Não posso acreditar que ele seria capaz de profanar um tesouro como o Nibelungos.
— Ele seria capaz de tudo por sua sede de poder.
— Mas qual interesse ele teria nisso, Hilda? Ele não só causou a desgraça de Asgard, a Terra que ele tanto desejava conquistar, mas também acabou despertando Poseidon.
Hilda olhou para irmã e levantou a lamparina à sua frente com cuidado.
— Talvez não tenha feito sozinho.
— Sigmund. — arriscou Freia.
— A Lanterna da Memória nos mostrará.
As três caminharam juntas pelas vielas até a grota em que a Relíquia dos Mares deveria estar; ali não havia nada, apenas o pedestal de concha encrustado com o símbolo do tridente de Poseidon. Hilda ascendeu o seidr dentro dela, iluminando toda aquela grota com sua energia, bem como ativando a magia ancestral daquela lanterna que, magicamente, conjurou uma chama púrpura dentro dela. As bonitas formas da lamparina também iluminaram-se da mesma cor e tudo ao redor ganhou contornos arroxeados. June notou que alguns pontos daquela caverna ganharam uma iluminação mais realçada e clara, como se aquela luz púrpura revelasse na pedra marcas que somente poderiam ser reveladas com aquela magia.

— São traços de seidr. — explicou Freia. — A energia vital dos filhos de Asgard.
O Cosmo, refletiu June. Hilda adiantou-se até o lago raso que separava a entrada da concha e June percebeu que a luz daquela lamparina iluminou aos poucos o que revelou-se como uma enorme cratera no meio do lago raso. Não somente isso, o fogo bruxuleante da lamparina estalou e pareceu escapar da lamparina como se a chama houvesse saltado das mãos de Hilda. E então rapidamente cresceram e tomaram a forma de duas pessoas fantasmagóricas que pareciam lutar entre si. Uma das imagens cristalizou-se com perfeição e todas puderam ver que se tratava de Hilda.
A Voz de Odin, com seu vestido de seda clara e a lamparina mágica, viu-se face-a-face com sua versão guerreira usando a poderosa Armadura de Ébano de Valquíria.
— Uma memória? — arriscou June, adivinhando do que se tratava.
O outro corpo também cristalizou-se revelando Hyoga com uma linda espada nas mãos. Era a luta de Hilda contra Hyoga, trajando os Cristais de Balmung e empunhando a Espada Sagrada.
A luta naquela memória translúcida se deu exatamente como havia acontecido; até que Hyoga desceu a Espada sobre a mão de Hilda e um grande clarão apagou a memória.
— A luta final. — lembrou-se Hilda, com os olhos um tanto vidrados.
June e Freia observavam com assombro, uma vez que não imaginaram o que havia se passado ali dentro. Freia sabia a dor que era para Hilda se enxergar naquela posição tão distante de quem ela realmente era.
— Vamos descobrir a verdade, irmã. — tentou confortar ela.
O Olho de Munin na mão de Hilda ressoou com outro pedaço de memória, que pareciam ser gotas de sangue na beira da concha em que a Relíquia deveria repousar. Surgiu outro vulto ajoelhado.
— É Alberich! — adivinhou Freia, colocando-se ao lado da figura fantasmagórica.
Ele chorava e estendeu o braço para a Relíquia, deixando cair uma gota de sangue nela; até que algo pareceu chamar-lhe a atenção para a entrada da grota e ele levantou-se com dificuldade para sair dali.
— Ele esteve aqui antes de Midgard. — adivinhou Hilda, apontando a Lamparina para a entrada; June sabia que Midgard era o nome de Hyoga entre os Guerreiros Deuses.
Um rabisco no chão perto da entrada ressoou com a Lamparina e revelou outra forma fantasmagórica, que caminhou para onde o lago raso começava, mas sem se atrever a seguir adiante. Era uma forma sem rosto ou cor definida, como um espectro de luz púrpura.
— Sou eu. — falou June para as duas, atraindo seus olhares. — Eu estive aqui assim que recuperei minha Armadura. Antes de voltar para a entrada. Isso é incrível. Mas… por que estou assim?
— O Olho de Munin apenas revela a história de Asgard, mostrando-nos o passado daqueles que foram abençoados por Odin.
— Vejam, é Alberich novamente. — alertou Freia.
A figura de June, sem rosto e forma definida, havia se esvanecido, para mostrar Alberich de volta diante da concha de Poseidon.
— A Relíquia.
A Relíquia dos Mares estava em cima da concha com um brilho maravilhoso e iridescente, como se aquele filtro púrpura fosse capaz de revelar uma aura invisível ao redor de Draupnir, o bracelete de ouro. Alberich não parecia seguro como sempre; ele suava e sua respiração era pesada, mas num ataque de coragem ele colocou a mão no bracelete e retirou da concha com ímpeto, apagando a luz do artefato. As três acompanharam Alberich pisando forte para fora da grota e desaparecendo pela saída.
— Vimos os últimos momentos de Hyoga com a Espada, a minha silhueta e agora Alberich roubando a Relíquia. Estamos vendo as memórias desse lugar se desenrolarem ao contrário, não é?
— Sim, é isso. — confirmou Freia. — Uma memória vai puxando a próxima lembrança mais antiga.
— No entanto, o vimos roubando a Relíquia. Não o vimos colocando ela de volta.
— Alguém deve ter feito por ele. — falou Hilda. — Alguém que não deixou rastro algum para que o Olho de Munin pudesse revelar.
— Alguém de fora de Asgard. — completou Freia.
Um outro traço brilhante surgiu; e novamente Alberich reapareceu no lugar, mas agora com o semblante mais tranquilo e pensativo. Hilda e Freia entreolharam-se. O espectro de Alberich caminhou com calma pelo lago raso e elas notaram que a Relíquia do Mar espectral estava de volta em sua concha. O rapaz parou diante dela e a observou por um longo tempo.
— Foi antes dele tomar a decisão. E ainda assim ele sabia que o Olho de Munin registraria esse momento. — ponderou Hilda, tentando adivinhar os pensamentos do conselheiro, que agora jazia morto.
— Por que, Alberich? — perguntou Frei.a como se tentasse alcançar algum senso com aquela aparição. — Por que tudo isso?
Freia podia ver que Alberich naquela altura não parecia plenamente convencido do sacrilégio do qual faria parte em seu futuro trágico. Tentava encontrar as respostas no rosto do antigo amigo, mas aquela aparição fantasmagórica não era capaz de traduzir exatamente os detalhes de sua angústia.
— Ainda que soubesse que a Lanterna revelaria seus pecados, ele continuou mesmo assim. Talvez tenha imaginado que venceria. Que seria capaz de tomar o poder.
— E quase conseguiu. — lembrou Hilda, com amargura na voz. — Apenas não sobreviveu para tomar meu lugar.
Freia olhou para a irmã e encontrou-a com o rosto entristecido, como se ver aquelas assombrações do passado fosse pesado demais para ela. O fantasma confuso de Alberich desapareceu feito pó, retornando as três para uma espécie de realidade, pois o Olho de Munin pareceu diminuir sua luz; Freia adiantou-se ao lado da sua irmã e amparou seu desmaio.
— Vamos parar por aqui. — sugeriu ela.
— Não. — pediu Hilda, quase sem forças. — Precisamos descobrir a verdade.
A Voz de Odin entrou novamente no lago raso um pouco cambaleante, mas com coragem; endireitou-se sobre a água e estendeu a mão sobre a cratera por onde a Espada Balmung havia se juntado à montanha depois de cumprir seu objetivo. Sua irmã Freia ficou ao seu lado amparando seu corpo e juntas as duas ascenderam o seidr que vivia em seus corações, ressoando com toda a montanha. Hilda ergueu outra vez o Olho de Munin e novamente sua chama púrpura ganhou força revelando os espectros do passado.
Alberich surgiu novamente e todas olharam para a entrada da grota, às costas de June, que estava agora mais próxima da saída. Alberich tinha os olhos enfurecidos e pareciam mesmo encarar Freia e Hilda diretamente; gritando loucuras e acusando-as com o dedo com fúria. Sua voz não era revelada pelo Olho de Munin, mas tanto Hilda como Freia sentiram-se acusadas, como se aquela assombração de fato pudesse vê-las.
Ele se aproximou das irmãs e, mais de perto, elas perceberam que ele estava ensanguentado, o corpo com ferimentos, a roupa rasgada, o cabelo desgrenhado e sangue escorrendo-lhe pelo pescoço.
— Se afastem. — pediu June, que via tudo por outro ângulo, perto da entrada.
Tanto Hilda como Freia foram despertas daquela cena, da qual pareciam fazer parte. June podia ver algo que elas não podiam e, quando as irmãs se afastaram, viram outra figura fantasmagórica no lugar em que estavam. A pessoa com quem Alberich parecia estar possessa. Sua identidade, no entanto, estava escondida do Olho de Munin, revelando-se apenas como um espectro sem cor e forma.
— Havia mais alguém com ele. Alguém que não era de Asgard. — adivinhou June, de longe.
— Mas quem poderia ser? — perguntou-se Freia, buscando adivinhar a identidade daquela vil assombração a quem Alberich parecia acusar. — Será Sigmund?
— Não. Sigmund é filho de Asgard. O Olho de Munin o revelaria.
— Talvez não. — tentou June, enquanto elas ainda observavam aquela cena em que Alberich discutia com alguém sem face. — Hyoga foi revelado pela Lanterna, pois usou uma Armadura de Asgard.
— Hyoga foi aceito como um Filho de Asgard. — corrigiu Freia.
— Talvez Sigmund também tenha sido aceito como Marina de Poseidon, deixando para trás sua herança de Asgard. — compreendeu Hilda.
As irmãs ficaram em silêncio, pois ainda era extremamente doloroso se lembrarem da traição de Sigmund, um herói daquela terra. A discussão entre Alberich e a figura nas sombras pareceu se encerrar finalmente com o rapaz ferido abandonando a grota, deixando para trás a figura desconhecida na presença da maravilhosa Relíquia dos Mares.
A Relíquia, June já sabia, era conhecida como Draupnir, um Bracelete de Ouro que continuou brilhando forte no centro da concha. E então seu brilho passou a se tornar cada vez mais forte, ao ponto de Hilda e Freia se colocarem ao lado de June fora do lago raso, como se algo fosse acontecer ali próximo. Uma explosão de luz cegou as três e, em frente a concha, surgiu novamente a mesma silhueta com quem Alberich parecia falar antes. Era impossível ver sua identidade, mas havia uma certa qualidade em sua presença que não deixava dúvida para as três de que se tratava da mesma figura.
— Parece ter sido conjurado pela própria Relíquia. — observou June.
— Não estou convencida de que é Sigmund. — falou Freia para sua irmã.
A aparição olhou ao redor, como se tentasse se situar, e então voltou sua atenção para o Bracelete de Ouro; olhava-o com extrema curiosidade, rodeando seu pedestal oceânico.
— Olhem. — falou June, chamando a atenção das irmãs, que não conseguiam tirar os olhos daquele fantasma. — É Alberich.
Dessa vez, o rapaz esgueirava-se na entrada da grota, observando em silêncio e sorrateiramente a figura espectral que parecia investigar aquela Relíquia. Ainda que fosse uma lembrança, havia uma enorme tensão no ar, de forma que as garotas simplesmente mantiveram-se em silêncio. Até que viram o momento em que Alberich tomou coragem e surpreendeu a figura ameaçadora, acusando-o e expulsando-o dali. Outra vez um clarão brilhante tomou conta da grota fazendo com que June, Hilda, Freia e até mesmo a memória de Alberich protegesse o olho.
Até que tudo voltou ao normal.
— Parece ter sido a primeira vez que se encontraram. Alberich e a pessoa com quem conspirou. — observou June.
— Muito deve ter acontecido. Podemos ver apenas os momentos em que interagiram aqui, mas agora posso entender porque Alberich não destruiu o Olho de Munin. — falou Hilda olhando para sua irmã Freia. — Ele queria que eu fosse capaz de ver tudo isso.
— Se o plano falhasse. — falou June, e ela concordou.
— Precisamos ir até a cela de Sigmund. — anunciou Freia para a irmã, que fechou os olhos com dor. — Somente Alberich seria capaz de soltá-lo, graças às suas ametistas. O Olho de Munin vai nos revelar a memória. Não há como escapar.
Hilda concordou com o plano e todas viraram-se para sair daquela grota, mas June chamou a atenção das duas para quatro pegadas que revelaram-se na entrada pelo toque da luz escura do Olho de Munin.
— Elas têm uma cor diferente. — observou June, pois de fato aquelas pegadas pareciam ter um brilho oscilante, entre o azul brilhante — que era habitual dos rastros que haviam revelado até agora —, e um tipo de prata e até mesmo amarelo claríssimo curioso. — Uma outra memória?
Mas quando June levantou os olhos para olhar para as irmãs, as encontrou com os olhos cheios de lágrimas. Deram as mãos e Hilda levantou o Olho de Munin para revelar aquela memória. Uma enorme figura entrou na caverna com um robe escuro cerimonial e um capuz dourado; era um homem mais velho que revelou cabelos grisalhos assim que tirou o capuz. Logo que entrou, ele colocou-se de lado para que duas pequenas garotas pudessem entrar também. A primeira tinha cabelos encaracolados e olhos profundamente verdes, enquanto a segunda tinha os cabelos lisos e olhos azuis. Eram Freia e Hilda.
As duas emocionaram-se ao verem-se tão pequenas ao lado de seu pai que, lembraram-se bem, levara as duas para conhecerem os tesouros da Caverna de Surtr, em especial a Relíquia dos Mares, Draupnir. As duas deram as mãos naquela lembrança e June viu, ao seu lado, as duas irmãs, mais velhas, ecoarem aquela memória infantil também dando-se as mãos.
Quando todas as memórias se apagaram, Freia e Hilda choravam em um abraço.
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Ikki e Shun saltavam pelos montes-corais até aterrissarem em uma bonita escadaria com algumas colunas gregas nas margens subindo para um lindo platô na cidade-submarina. Os irmãos pararam de correr quando escutaram no céu os ruídos altos de um dos pilares sendo destruído, enquanto no horizonte procuraram a colossal construção tombar para o lado.
— Olhe, Ikki! Um Pilar do Oceano. — e então o garoto olhou para a irmã com surpresa nos olhos. — Acabou de ser destruído.
A Cavaleira de Fênix também olhava para o horizonte com confusão nos olhos.
— Este pilar não estava no horizonte até um segundo atrás. É como eu imaginava, alguma coisa ou alguém estava agindo para nos fazer andar em círculos até agora.
— Um General Marina.
Shun escutava os rumores do pilar colossal se desintegrando e finalmente colidindo com o pátio de pedra de seu templo. Ainda que estivessem distantes, o ronco da destruição chegava até eles.
— Aqueles idiotas teimosos conseguiram se levantar. — apontou Ikki com certa ironia.
— Foi o Hyoga. — comentou Shun de volta, com um sorriso no rosto. — Posso sentir seu Cosmo.
— O Cavaleiro de Cisne se levanta novamente. Muito bem. Vamos, Shun. Vamos até o Templo de Poseidon. Hyoga logo estará junto de nós.
O Cavaleiro de Andrômeda concordou com a cabeça e juntos seguiram subindo as escadas. Mas no topo do platô para onde se dirigiriam uma silhueta se revelou. Alguém imponente. Um General Marina aguardava os Cavaleiros de Bronze usando sua maravilhosa Escama Oceânica, uma capa azulina e um elmo que escondia totalmente seu rosto.
— Infelizmente vocês não poderão ver o Senhor Poseidon. — falou o General imediatamente com sua voz grave de trovão.
— Dragão-do-Mar. — adivinhou Shun imediatamente ao reconhecer o General que havia recebido os Cavaleiros de Bronze assim que naufragaram naquela cidadela.
— Dragão-do-Mar? — repetiu Ikki, pois na verdade lembrava-se daquela armadura de outro lugar.
— Sim. Cuidado, Ikki. Esse homem é muito mais poderoso do que os demais Generais Marinas. Foi ele que nos recebeu neste Reino logo quando chegamos.
— Poderoso, então? Tão poderoso que seria capaz até mesmo de se livrar da morte, Dragão-do-Mar? — perguntou Ikki, de maneira desafiadora. — Eu vi seu corpo ser desintegrado no céu pelo poder do Dragão do Norte. Como pode estar aqui diante de nós? Responda-nos Sigmund, irmão de Siegfried, traidor de Asgard.
Seguiu-se um momento de silêncio tenso, quebrado apenas por uma risada maquiavélica do General.
— Como a Ave Fênix. — sorriu o homem, de maneira ameaçadora. — O Dragão do Norte acreditou ter vencido o Dragão-do-Mar, mas não poderia estar mais enganado.
— Então você é Sigmund, o traidor de Asgard que tramou com Poseidon para tomar a Terra do Norte. Deveria ter vergonha do que fez. Muitas pessoas que te amavam acabaram morrendo por sua culpa. — falou Shun, que só então percebeu que aquele General havia sido o homem que enfrentou Siegfried em seus últimos momentos.
O General deixou apenas escapar um sorriso.
— E o que um traidor como você faz aqui? — perguntou Ikki. — Não deveria estar protegendo um Pilar?
— Não há mais nenhuma necessidade de protegê-lo.
— O que quer dizer com isso?
— Vocês são os únicos Cavaleiros de Atena ilesos que sobraram no Reino. E a sua presença aqui é uma ofensa ao Imperador Poseidon. Vim eliminar os dois de uma vez por todas.
Shun e Ikki entreolharam-se de maneira curiosa.
— O tão poderoso General Marina não está se esquecendo de alguém?
— Um Cavaleiro de Ouro. — completou Shun à provocação de Ikki.
— Talvez estivesse muito ocupado criando labirintos para nos fazer correr em círculos e deixou de notar um detalhe importante, defensor de Poseidon. — adicionou Ikki, enquanto o General Marina parecia calado.
O enorme Dragão-do-Mar hesitou por um instante e olhou para o céu-de-mar, deixando um sorriso se desenhar no rosto ao notar na distância uma cosmo-energia curiosa.
— Vocês são mais insistentes do que eu imaginava. — falou ele, confiante, queimando o Cosmo ao redor de seu corpo. — Não posso perder tanto tempo aqui.
Uma aura dourada feito fogo passou a reluzir ao redor dele, trazendo assombro para o rosto de Shun e Ikki; os dois deram alguns passos para trás, quase por instinto, como quem está diante de uma assombração. Pois de fato a sensação era mesmo estar diante de uma assombração do passado.
— Essa cosmo-energia... — começou Shun com a voz entrecortada.
— Não é possível.
O General começou a descer as escadas de maneira ameaçadora.
— O que houve, Cavaleiros? Estão paralisados como um sapo prestes a ser devorado por uma serpente. — e então deixou escapar uma risada grave, que trouxe calafrios para os dois irmãos. — Eu sou uma pessoa tão misericordiosa que vou lhes poupar desse medo que sentem. Vou acabar com tudo isso em um instante.
Fincou os pés abertos e levantou os dois braços acima da cabeça, rompendo o tecido da realidade e revelando atrás de si um tapete cósmico com centenas de planetas e galáxias orbitando seu próprio corpo, que agora brilhava feito um astro celeste.
— Não, não pode ser! — assombrou-se Ikki. — Essa técnica. Ela… ela é como…
O Dragão-do-Mar deixou escapar uma gargalhada sinistra pelo ar e seu brado retumbante fez explodir as estrelas e planetas ao redor dele, obliterando as Armaduras de Bronze dos dois irmãos.
— Explosão Galática!
-/-
Hilda, Freia e June deixaram a Caverna de Surtr com o Olho de Munin em mãos; subiram as enormes escadarias da base do vale escuro até o pátio externo do Palácio Valhalla. Novamente os trabalhadores pararam até que Hilda entrasse no Palácio.
Dentro de Valhalla, desceram as escadarias até as masmorras do Palácio; June teve um calafrio ao lembrar-se de ter sido mantida presa naquele lugar até ser salva por Ikki, agora já há tantos dias. Estava ali outra vez, mas agora ao lado da Voz de Odin e da Princesa de Asgard; as duas absolutamente focadas na missão de encontrar a verdade. Se Sigmund havia sido a face da traição nos momentos finais daquela terrível batalha, era um tanto misterioso que sua face estivesse oculta do Olho de Munín.
— Não posso acreditar que Sigmund tenha se tornado um Marina. Que o Olho de Munin tenha apagado sua história desta Terra. — comentava Freia, enquanto desciam as escadarias.
— Sua cela vai nos contar a verdade. — falou Hilda com confiança.
Em um nível ainda mais inferior ao que June havia sido mantida presa, eles chegaram até um corredor tosco com muitas celas de cada lado; todas cavadas na rocha da montanha e guardadas por portões de ferro maciço. Alguns sentinelas palacianos escoltaram o grupo até a última cela ao final do corredor, onde haviam mantido vivo o guerreiro Sigmund. Hilda notou no semblante dos homens e das mulheres que faziam a ronda daquele lugar um olhar entristecido de memórias.
Freia, ao lado de sua irmã, notou nos olhos de Hilda como havia dentro dela também uma imensa sensação de culpa.
— Tudo que Sigmund queria era me alertar do perigo. — falou ela, quando estavam já dentro daquela cela fria.
— Não é culpa sua, irmã.
— A ordem para que fosse preso foi dada por mim. É minha responsabilidade.
— Eu também fui presa muitas vezes sob sua ordem, Hilda. — falou Freia com dureza para a irmã. — É também responsabilidade de cada um de nós o quanto vivemos e morremos pelo que acreditamos. E não havia ninguém como Sigmund. Era um exemplo para todos nós. É também responsabilidade dele e de sua memória que tenha caído em desgraça.
Hilda olhou para a irmã e surpreendeu-se com as palavras duras e firmes dela, pois afinal de contas o governo daquela terra abandonada era mesmo dividido entre ambas; Hilda exercia a Voz Divina e as penitências para com Odin, mas era Freia quem precisava lidar diretamente com o povo sofrido daquela terra.
— O Olho de Munin vai nos trazer a resposta. — anunciou Hilda finalmente fazendo arder o frio de seu seidr, cobrindo-se de branco-névoa.
A relíquia iluminou-se outra vez com uma chama púrpura que surgiu dentro do candeeiro, e então as filigranas que ornamentavam o ferro que continha o fogo também pintaram-se de roxo brilhante. A luz da cela fria diminuiu e, no chão, surgiram feito mágica algumas gotas luminosas espalhadas ao lado da cama.
— Sangue? — perguntou June ao ver aquele padrão curioso no chão.
— Não. — corrigiu Hilda. — Lágrimas.
Deitado na cama de pedra, a luz do Olho de Munin revelou uma forma translúcida e frágil de um homem em vestes simples, mas muito surradas, o rosto cavado de fome e sofrimento, a barba enorme por fazer, os cabelos oleosos na altura do ombro e uma enorme cicatriz no rosto. Freia caiu de joelhos e levou a mão à boca.
— Sigmund… — lamentou ela por tê-lo julgado tão rigorosamente.
— Sigmund. — repetiu Hilda, aproximando-se com a lanterna para ele. — Ah, Sigmund.
June notou como o homem chorava silenciosamente, deitado na cama com os olhos vidrados. Mais do que isso, a sua revelação era a prova de que Sigmund ainda era um Filho de Asgard e não havia sido ele aquele conspirador ao lado de Alberich. Um raio de luz colocou sombras em seu rosto e ele se encolheu de medo, tremendo feito uma criança.
— O que está acontecendo?
— Ali. — apontou June. — Na parede.
Hilda levantou a lanterna para a origem daquela luz e percebeu que um desenho se formava na parede, como se rabiscado por um giz de luz: um triângulo perfeito. Começando do alto para a base. Freia observava as reações de Sigmund e ele parecia se afastar, como se apavorado por uma assombração que já conhecesse. A rocha da cela dissolveu-se em um infinito cósmico através daquele triângulo, como se fosse possível observar as galáxias por aquela janela.
— Mas o que significa isso?
A silhueta de Sigmund finalmente pareceu vencer o medo que sentia e, feito um louco, revoltou-se e levantou da cama, esbravejando contra aquela abertura na cela; com o dedo em riste, sua garganta parecia se esforçar para gritar palavras que elas não podiam ouvir. Até que ele finalmente pareceu ser atingido no meio da testa por algo quase imperceptível, paralisando-o por completo e mantendo seus olhos claros e feridos abertos enquanto seu corpo tremia levemente.
— Eu já vi isso antes. — falou June com um calafrio.
— Olhem! — assustou-se Freia, apontando para a parede.
De dentro das galáxias, através do triângulo, uma silhueta disforme pisou para dentro daquela cela com o braço estendido, como se controlasse o corpo de Sigmund. Feito um feiticeiro demoníaco, aquela figura humanoide púrpura e disforme rodeou o prisioneiro, que manteve-se congelado com os olhos vidrados.
— Parece estar sendo controlado. — Hilda quase perdeu o equilíbrio.
A figura disforme parou diante de Sigmund e, com o braço direito, pareceu gesticular na direção de diversas partes do corpo do prisioneiro; primeiro suas pernas, e as garotas dentro daquela cela viram surgir, feito um passe de mágica, uma proteção furta-cor bronzeada e brilhante nas pernas de Sigmund.
— A Escama! — adivinhou Freia.
— Eu não posso acreditar nisso. Quem quer que seja essa figura nefasta, ela colocou a Escama de Poseidon em Sigmund. — indignou-se finalmente Hilda, conforme o corpo do herói era coberto pela proteção marina.
— E então ordenou que Sigmund fosse até a Estátua de Odin te enfrentar. Nada disso ele fez por vontade própria. Sigmund foi apenas uma vítima disso tudo. — falou Freia, cambaleando para o lado.
— Hilda. — falou June, com os olhos pregados naquela figura disforme. — Me dê a Lanterna.
As duas irmãs olharam para June, confusas.
— Confiem em mim. Eu tenho um pressentimento terrível…
Hilda e Freia entreolharam-se e a Voz de Odin decidiu estender a Lanterna para June, que fez arder seu Cosmo de Cavaleira de Bronze iluminando aquela cela fria e dando contornos diferentes àquele lugar.
— Você disse que o Olho de Munin revela as memórias do povo de Odin, pois ele está banhado pelo sangue dos heróis de Asgard do passado.
A Cavaleira de Camaleão, com sua força, fez um rasgo na palma de sua mão e deixou que o seu sangue banhasse o Olho de Munin. Aquele tesouro de Asgard reagiu aos poucos com o sangue de June, ganhando alguns contornos dourados em suas filigranas, e a própria chama púrpura também tornou-se dourada por um instante, para então transformar-se em uma chama que oscilava entre o ouro e o roxo de maneira mágica. Era o sangue quente de uma Cavaleira de Atena.
— Tenho um pressentimento terrível de que talvez essa figura nefasta seja alguém mais próximo do que nós imaginávamos.
As luzes púrpuras daquela cela se misturaram a matizes douradas e, dos pés à cabeça, finalmente aquela figura disforme e sem definição foi ganhando contornos visíveis: uma calça simples e uma bota amarrada, a compleição forte, os cabelos compridos e os braços longos.
— Um Cavaleiro de Atena! — exaltou-se Hilda, ao ver que o sangue de June havia começado a revelar a figura.
— Mas quem é esse? — desesperou-se Freia.
-/-
No Reino de Poseidon, os corpos de Shun e de Ikki espatifaram-se contra a escadaria que haviam subido; suas armaduras completamente destruídas pela técnica devastadora daquele oponente terrível. Corajosos, os irmãos lutavam para se colocarem de pé novamente, enquanto Ikki balbuciava palavras incompletas.
— Não. Você não é Sigmund. Não é aquele que eu vi ser derrotado em Asgard. Esse Cosmo… Esse maldito Cosmo. Quem é você?!
O General deixou reverberar outra gargalhada terrível.
— Querem mesmo saber? — tornou ele, caminhando novamente na direção dos irmãos que tentavam se ajudar a colocar-se de pé. — Está bem. Será a última coisa que verão antes de serem enviados para o inferno.
Com o braço estendido, Dragão-do-Mar desenhou à sua frente um triângulo perfeito que iluminou-se de ouro conforme seu dedo pintava no ar, abrindo à frente dele uma espécie de portal para galáxias distantes. Feito um feiticeiro, o General controlou aquele triângulo de bordas douradas com os braços e lançou-o para o teto oceânico daquele Reino. Ikki e Shun viram no céu como um enorme maelstrom formou-se ao redor do triângulo, que agora brilhava em ouro e parecia sugar feito um buraco-negro a própria água daquele céu-de-mar. Os corpos dos irmãos estavam completamente paralisados.
— Aquele é o Triângulo de Ouro. Ao atravessar aquela fenda, vocês serão desintegrados e espalhados por todo espaço e tempo. Não serão nada além de poeira cósmica e memória vagando pelas dimensões.
O Cosmo do General iluminou-se de ouro e os Cavaleiros de Bronze viram-se indefesos, flutuando a poucos palmos de Dragão-do-Mar.
— Aquele é o Triângulo de Ouro. — repetiu ele, de maneira ameaçadora. — E esta é a face que os enviou para o inferno.
O General Dragão-do-Mar lentamente retirou seu bonito elmo da cabeça, revelando os longos cabelos emaranhados e o semblante duro. O mesmo rosto que tirou o fôlego de June de Camaleão na cela fria de Asgard, pois era o mesmo homem que havia controlado Sigmund e enviado Shun e Ikki para uma viagem sem volta. O mesmo homem. O mesmo nome. E esse nome saiu ao mesmo tempo da boca de June, em Asgard, e dos irmãos Ikki e Shun no Templo de Poseidon.
— Saga!
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