Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
137 Epílogo II
O brilho do sol se pondo refletia-se nas águas calmas do litoral, as gaivotas cantavam revoando entre os mastros dos poucos barcos atracados no pequeno porto. Era a vista que Seiya teria de se acostumar dali em diante. Atrás dele, Shun se ocupava de abrir mais uma das muitas caixas que se espalhavam pelo quarto. O amigo reclamou e Seiya fez careta antes de voltar para dentro e ajudá-lo na tarefa.
Era um quarto com uma cama encostada na parede, uma pequena mesa de centro com duas cadeiras e um móvel branco com uma televisão pequena. Aquele era um dos quartos de uma pequena hospedaria de frente ao mar que a Fundação Graad adquiriu para ficassem próximos do Orfanato das Estrelas, onde Miho trabalhava. Já que estavam grandes demais para voltar para lá, tampouco queriam, e também estavam proibidos no Santuário.
Seiya abriu uma das malas no chão e nela encontrou algumas bobagens de quando ele próprio era criança no orfanato, que Miho havia guardado como lembrança e mandado para ele como presente de boas vindas à casa nova; ela estava radiante de tê-lo por perto. Entre alguns brinquedos simples, pôsteres e uma bola murcha, Seiya viu bem no centro um porta-retrato com um bilhete:
“Para colocar do lado da cama. Miho”
Seiya sorriu, pois era como se ela o ajudasse mesmo à distância, como se ele não fosse capaz de escolher o melhor lugar para aquele que era o melhor presente. Quando levantou o bilhete, viu que Miho havia comprado um porta-retrato simples na cidade para a foto mais importante de Seiya: ele com sua irmã, Seika.
O garoto sorriu e logo a colocou na cabeceira da cama. Shun sorriu para ele de volta. As gaivotas cantavam do lado de fora.
Shunrei correu na direção de Shiryu pela estradinha de terra que descia à ponte, logo que ela apontou entre as árvores; chorou, abraçou a amiga e a guiou até o casebre. Shiryu estava cega novamente, ou talvez nunca tenha deixado de ser. Apenas a magia do Mundo de Poseidon, que havia lhe dado o sentido da visão outra vez. Mas mesmo enquanto atravessavam a Ponte Bifrost, Shiryu percebeu que sua visão nublava-se quanto mais se aproximava de Asgard. Até que cegou de vez.
Nada disso ela falou para Shunrei, para que não se entristecesse; Dohko e Shinadekuro estavam ali e a recepcionaram com alegria e histórias da cidade. Dias alegres passaram até que Shiryu e Shunrei se despedissem dos dois outra vez; partiam para novas aventuras na cidade. O Mestre Ancião, nem por um segundo deixou a cachoeira por aqueles dias e Shiryu achou estranho.
De Asgard, Hyoga também despediu-se finalmente depois de passar um tempo ao lado de Isaac para garantir que a Terra do Norte tivesse alguma proteção; mas com Hagen novamente de pé, Hyoga sentiu que era momento de partir, embora Isaac tenha ficado para trás. Ele voltou para a Sibéria do Leste com algo muito importante.
No Norte do Egito, Ikki havia chego em uma cidade movimentada, mas que guardava um segredo escondido à vista de todos. O mesmo lugar em que Marin e Alice haviam saltado das nuvens para o mar. Naquela mesma noite, Marin subia a estradinha de terra até o casebre em que Shaina ainda vivia no Santuário.
Ela estava acordada olhando para o céu grego, tentando adivinhar nas estrelas o que viria a seguir, embora fosse conhecido por todos. Ouviu baterem na sua porta algumas vezes e, tendo visto pela janela a silhueta de alguém conhecido se aproximar, ela logo falou:
— Entre.
A porta se abriu e Shaina reconheceu Marin de volta. Ela usava sua proteção de guerra e a Máscara de Prata estava de volta escondendo sua face. Mas não estava sozinha; assim que abriu a porta, ela deu passavam para alguém pouco menor do que ela coberta em um manto e um capuz que a escondia.
— Quem é essa, Marin?
— Precisamos conversar, Shaina. — respondeu ela apenas.
Na colina dos mortos, onde urravam as almas penadas marchando eternamente para o esquecimento, Xiaoling escutou seu nome ser chamado pelos vales por uma voz odienta. Ela atendeu sem muita paciência e foi na direção em que as almas marchavam e, ao lado da boca do inferno, o abismo final, viu Máscara da Marte de pé olhando para ela.
— O que quer agora, diavola?
— O que acha de tudo isso, pulga? — disse abrindo os braços.
— Está mais cheio do que o normal.
— Morre-se muito mais gente do que o normal. Alguma coisa aconteceu lá em cima.
— Atena já não está mais aqui. Nem Seiya. Quem quer que seja, eles venceram. De novo.
— É o que parece, sim. Mas à um grande custo. Em toda minha vida, eu nunca vi este lugar tão cheio. Não é incrível?
Xiaoling deu as costas, impaciente com aquele deboche que precisava aturar como se fosse seu inferno particular.
— Sabe… — continuou ela a falar, fazendo com que Xiaoling parasse de caminhar. — A verdadeira Guerra de Atena sequer começou. De modo que eu fico me perguntando que batalha foi essa que causou toda essa matança. O que será que Atena deve ter feito? Ou deixado de fazer?
— Tenho certeza de que a culpa disso não foi dela.
— Talvez, talvez. Mas veja, todas essas almas vagando para o esquecimento significam que a hora do Inferno acordar está se aproximando.
— O Inferno?
— Ah, sim. O fogo púrpura já começa a queimar. Certa vez você me perguntou porquê as almas que vem para essa colina caminham sempre adiante, em uma fila interminável apenas para se jogarem neste abismo.
— E você me falou para pular nele, se eu quisesse saber.
Máscara da Morte gargalhou.
— Mas acho que chegou a hora de você saber. — disse ela. — Conta-se entre os Herdeiros da Colina que estas almas penitentes caminham sempre nessa direção, incapaz de desviarem-se e até mesmo corajosas para se lançarem no abismo, porque não vêem o mesmo que nós, vivos. Nós olhamos para isso e tudo que vemos é a total ausência de luz, um preto profundo e intransponível.
Ambas olharam de onde estavam para o fundo-do-abismo.
— Mas eles não. — disse ela apontando para os que se jogavam ali sob lamentos. — Seus olhos mortos, sua visão espectral, não enxerga como nós. E aqui, é dito que eles vêem uma enorme chama púrpura que os atrai como insetos à luz.
— A chama púrpura.
— Sim. E é dito que quando o Inferno está para despertar, mesmo os vivos que se atrevem a vir neste lugar, e principalmente os Cavaleiros de Câncer do Santuário que cuidam deste lugar, são capazes de enxergar ao menos uma pequena centelha do que vêem os mortos. A chama púrpura. E lá está ela.
Xiaoling olhou para o fundo do poço, mas nada podia ver; talvez não fosse tão acostumada àquele fosso como Máscara da Morte, mas tudo parecia perder cor naquela profundidade. Sentiu um leve empurrão de Máscara da Morte, seu estômago congelou e seu corpo inteiro tremeu; ela ainda teve tempo de virar-se para ver o sorriso macabro em Máscara da Morte. Xiaoling desequilibrou-se e caiu no abismo incapaz sequer de gritar. Máscara da Morte gargalhou e então falou somente para ela mesma:
— Chegou a hora.

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