Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
115 Regressos do Além
Notas iniciais
A chuva em Rodório havia se reduzido à uma finíssima garoa que caía somente de vez em quando.
O amanhecer nublado daquele dia havia sido desperto pelo soar de sinos da praça principal, anunciando que vinha ao longe uma embarcação pelo Mar Egeu. A população toda se amontoou no porto na esperança de ver retornar a tripulação do Esperança de Atena. Era a primeira vez que o porto ancorava navegantes em meses.
Porém, o navio que chegava ao longe certamente não era aquele bonito Galeão que havia partido cheio de festa; era uma embarcação muito menor, menos elegante e comum demais para ser o navio de Atena. Ainda assim, havia certa inquietação e um tanto de curiosidade no porto enquanto aguardavam a chegada de seus filhos.
Entre eles, no entanto, havia uma criança que pedia licença para todos enquanto passava por entre quadris, por debaixo de pernas, espremendo-se entre mulheres até chegar na fileira da frente, já com a embarcação atracando lentamente ao porto. Era Kiki, coberto de ansiedade com seus olhos procurando por um rosto conhecido.
Um sentinela do mar amarrou a embarcação a um toco e estendeu a ponte para que a tripulação pudesse descer; e a cada figura que surgia, alguém no porto chorava ao ver que um parente ou amigo querido havia tido a sorte de retornar. Havia um clima fúnebre naquele porto. Ofélia, Téo, Tales e outros subalternos que Shaina havia buscado na Alemanha na sua viagem de volta reapareceram. Todos caminhavam cansados e de rosto fechado, embora recebessem de seus entes próximos um abraço forte.
E a cada marinheiro que descia da embarcação, Kiki parecia tornar-se mais e mais ansioso, pois quem ele esperava não parecia ter chegado.
Até que ao final do sétimo ou oitavo marinheiro, ele finalmente reconheceu imediatamente a falta de altura de uma criaturinha que descia da embarcação dando um pequeno salto para cobrir a distância entre o barco e o porto, quase caindo na água. O menino se despregou da multidão, correu pelo madeirame e ergueu Lunara no abraço mais apertado de Rodório, quase derrubando-a para trás.
— Ai, Kiki, que isso! — reclamou ela, quase sem fôlego.
— Ah, Lunara, você voltou! Você está de volta, eu não posso acreditar! Tá tudo bem com você mesmo?! — repetia ele, com o semblante preocupado.
— Me solta! — pedia ela, sendo esmagada.
— Você está mesmo inteira? Não te roubaram pedaço nenhum?
— Claro que eu tô, seu bobão. — respondeu ela, quando finalmente foi colocada no chão.
— Não cortaram suas maria-chiquinhas?
— Mas que ideia de bobo, por que iriam cortar? — perguntou ela, chocada, colocando a mão no cabelinho.
— Ai, eu não sei. — respondeu ele, abraçando-a novamente. — Você está bem mesmo? Não mente pra mim, que eu sou mais velho que você.
— Eu estou inteira e tô até mais alta que você, se quiser saber. — respondeu ela, orgulhosa.
A garota viu nos olhos de Kiki que ele estava terrivelmente dividido entre a preocupação e uma enorme alegria de reencontrá-la, o que tornava seu rosto completamente abobado. Ela deixou escapar um sorriso ao perceber o que se passava e o menino finalmente deu por si do papel que fazia naquele porto e tentou disfarçar à sua maneira.
— É bom mesmo, porque a Mestre Mu está morta de preocupação com você.
— Ai, fica quieto, Kiki! Olha só! Eu trouxe um presente pra você.
— Um presente?
— Sim! — gritou ela, mexendo na sua bolsa a tiracolo e tirando dela um bracelete de ouro maravilhoso. — É lá de Asgard, a Terra dos Deuses do Norte. Eu trouxe pra você.
Kiki olhou para aquele bracelete e achou-o maravilhoso. Tinha algumas poucas pedras preciosas de cores diferentes e uma inscrição em runas que não sabia ler.
— O que diz aqui?
— Ai, eu não sei. Deve dizer Kiki, O Bobão. — adicionou ela com um sorriso.
— Você vai ver o bobão! — protestou ele, mas já foi colocando o bracelete no próprio braço e ajeitando o aperto para que não lhe machucasse. — Até que ficou legal.
— Ficou ótimo! — comemorou Lunara. — Dizem que você pode se jogar numa piscina de magma e num vai te acontecer nada se estiver usando ele. É enfeitiçado!
— Eles te deram e você vai dar pra mim?
— Bom… eles não me deram.
Ela havia roubado, adivinhou Kiki.
— E não vão sentir falta?
— Vão nada, eles têm milhares de tesouros, você precisava ver!
— Escute aqui, se eu for caçado por causa desse bracelete, você vai ver!
— Ai, cala a boca!
Kiki olhava maravilhado para o bracelete de ouro no antebraço de criança; mexia ele para lá e para cá, fazia círculos com o braço, jogava-os para o alto e divertia-se como a luz reluzia naquele ouro maciço e projetava-se no casco da escuna. Sentia-se o próprio Cavaleiro de Ouro com seu Bracelete Dourado.
— Ah, combinou perfeitamente comigo. — disse ele, finalmente.
Lunara estava muito contente e ganhou de volta outro abraço apertado de Kiki, que não podia conter a saudade que havia sentido da pequena.
— Você não vai viajar nunca mais pelos mares. — censurou ele.
— Ai, claro que vou. Eu vou virar a maior Capitã dos Mares.
— Num vai coisa nenhuma.
— Ei, pirralha!
Os dois se soltaram e viram a furiosa Shaina surgir no porto; se ela havia chamado a atenção apenas de Lunara, sua aparição também paralisou todas as pessoas que estavam ali recebendo a tripulação. Ela caminhou com os olhos duros até a pequena, que sentiu-se ofendidíssima por ter sido tratada daquela maneira.
— Pirralha? Eu sou a Tenente Lunara, Alferes Shaina, no mar você deve me respeitar.
— Fique quieta por um instante. — pediu Shaina. — Geist… digo, a sua Capitã mandou que eu lhe dissesse que você está dispensada de seus deveres.
— A capitã disse isso? — surpreendeu-se Lunara.
— E de minha parte, eu peço que fique longe de qualquer confusão. Leve ela daqui, Kiki.
E foi tudo que Shaina lhe falou, pois ela deixou as duas crianças com seus brinquedos ali e pisou duro na madeira do porto para sair o mais rápido possível daquela multidão triste, atravessando o corredor que se abriu entre os populares para que ela passasse por todos. Saiu com muita pressa para longe daquele porto, pois sem dúvidas tinha assuntos mais urgentes além daquela recepção.
A praça central e a própria cidade de Rodório estava um tanto vazia, pois seus poucos habitantes estavam todos no porto ou na praia recebendo quem havia retornado daquela tripulação; de modo que ninguém apareceu para pedir qualquer bobagem para Shaina, tampouco ela precisou endireitar qualquer cidadão que estivesse fora de linha. O que muito a impressionou, de imediato. Ela caminhou rapidamente da cidade para a estrada que ligava até a montanha das Doze Casas, guardada sempre por dois Cavaleiros de Bronze.
Fazendo a ronda no sopé da montanha das Doze Casas, Jabu e Ichi percebiam à distância a movimentação em Rodório que era o sinal de que uma embarcação havia aportado na cidade, mas como eles não poderiam nem sairiam de seus postos por pura curiosidade, ambos não sabiam exatamente o que se passava.
— Ichi, presta atenção! — falou Jabu preocupado para o amigo, que estava encostado de maneira lânguida na pedra. — É a Shaina. Ela vai te matar.
— Droga.
O Cavaleiro de Bronze levantou-se rapidamente, arrumou o moicano e os dois esperaram a Mestre-de-Armas aparecer entre eles.
— Ichi, Jabu, digam-me onde está Sírio. — chegou ela perguntando imediatamente, com a mais profunda fúria nos olhos.
— Sírio? — confundiu-se Jabu por um instante e Ichi respondeu.
— Sírio ainda não retornou, senhorita Shaina. Nem Jack e os outros.
— Não retornaram? — perguntou-se ela, confusa.
Shaina olhou para o lado, como se procurasse na mente quais poderiam ser seus próximos passos. Fechou os olhos e socou a pedra ao lado de Ichi, que precisou se recolher para não ser acertado.
— Shinato e Mirai também continuam no exterior. — atualizou Jabu, mais corajoso.
Ela deixou escapar o que parecia ser um sibilo de cobra, como se a fúria dentro dela realmente ebulisse e não se contivesse em seu corpo.
— Claro que não… — falou ela, muito mais para si mesma.
— O que está acontecendo, senhorita Shaina? — perguntou Ichi, curioso e burro.
— Nada que seja da sua conta, Cavaleiro de Bronze.
Ela respondeu de maneira ríspida e os dois se encolheram imediatamente; uma outra voz, no entanto, manifestou-se às costas de Shaina.
— O que não é da conta dos Cavaleiros de Bronze, Shaina?
Era o enorme Aldebarã, que trajava apenas roupas simples e tinha ainda ao redor da cabeça as ataduras para o tratamento dos ferimentos de seu covarde ataque, que ela agora sabia se tratar de uma enorme traição dentro de seus domínios.
— Aldebarã!? — surpreendeu-se ela ao vê-lo de pé. — O que está fazendo de pé?! Você deveria estar cuidando de seus ferimentos! — Shaina tinha a voz vacilante de quem tenta não transparecer certa alegria em ver que o gigante aos poucos voltava ao seu humor normal, e que seu descuido não havia causado sua morte.
— Não se preocupe pelo grande Aldebarã, os ferimentos já são leves e ele consegue subir alguns degraus. — adicionou a Mestre Mu, muito séria, surgindo ao lado do amigo.
Ela, no entanto, trajava sua maravilhosa Armadura de Ouro de Áries, com o elmo ao lado do braço.
— Mestre Mu. — surpreenderam-se os Cavaleiros de Bronze, assim como Shaina.
Ao notar que Shaina contaria ali mesmo o que lhe afligia o coração, Mu pediu que se calasse com a mão e falou com brevidade.
— Guarde para o Conselho. Sua chegada pelo mar era esperada. Mas agora precisamos nos encontrar com os demais Cavaleiros de Ouro e a Mestre Camerlenga. Qualquer que seja seu relato, ele deve ser ouvido por todos.
— Você tem razão, Mu. Nesse caso, seria bom que Jamian nos acompanhasse dessa vez.
— Jamian? — perguntou-se Mu. — O Cavaleiro de Prata de Corvo?
— Sim. Jamian. — confirmou Shaina. — Não vão me dizer que ele também não voltou ao Santuário?
— Jamian não retornou ainda, Shaina. — atualizou Jabu entre eles, pois era quem havia ficado encarregado de verificar as rondas dos Cavaleiros na ausência de Shaina.
A face da Mestre-de-Armas tornou-se lívida por um instante e tanto Aldebarã como Mu notaram que havia algo de errado.
— Vamos, Shaina. — convidou Mu, com uma pressa fora de sua personalidade sempre tão calma.
Ela levantou os olhos para a Cavaleira de Ouro e assentiu, embora ainda estivesse perdida em pensamentos. Junto a Mu e Aldebarã, Shaina subiu os primeiros degraus de uma montanha que havia subido muitas vezes desde que havia sido alçada como Mestre-de-Armas do Santuário. Antes que se distanciassem muito, no entanto, o corajoso Cavaleiro de Unicórnio chamou sua atenção uma última vez.
— Espere, Shaina! — arriscou Jabu, gritando de baixo. — O que aconteceu com Seiya… com Seiya e os outros?
Ela olhou-o nos olhos como se tivesse fogo.
— Estão vivos. — limitou-se ela a responder.
E finalmente o trio começou a subir os degraus das Doze Casas com enorme pressa, deixando para trás a comoção de Rodório por aqueles retornos, bem como as enormes dúvidas no peito de Jabu e de Ichi.
— Alguma coisa deu errado em Asgard. — comentou ele para o amigo.
— Viu a Armadura dela? — apontou Ichi. — Estava toda rachada. Será que…
— Devem ter lutado. E Seiya também.
— E o que será que ela queria com o Sírio e o Jamian? — perguntou Ichi.
— Eu não sei, Ichi, eu não sei. — respondeu Jabu, preocupado. — Droga, Jack, onde estão vocês?
Shaina, Mu e Aldebarã subiram as Doze Casas com pressa e em silêncio, embora a Mestre-de-Armas tentasse processar toda a história de Asgard, que em breve ela teria de contar a todos como se fosse a primeira vez; lhe anestesiava a ausência inesperada de Jamian de quem esperava, pelo menos, já ter atualizado todos dos transtornos no Norte enquanto estivera preso. Mas ele não estava lá. E onde Jamian poderia estar? Ela estava confusa.
E quando atravessou a Casa de Touro percebeu que, além de confusa, também estava enfurecida, pois nem por um dia durante a travessia dos mares até o Santuário ela deixou de pensar em Sírio, em como ele lhe havia sugerido traição e ela o descartou como a um cachorro. Sentia-se culpada e aquele rastro de gelo e sangue no templo de Aldebarã eram como as cicatrizes de um erro seu.
Confusa e enfurecida, Shaina atravessou muitas outras Casas do Zodíaco até ser recebida por Miro de Escorpião, impaciente, que aguardava os três últimos convidados na entrada da Casa de Sagitário. Os olhos de Miro eram sérios e urgentes; ele escoltou os três até o mezanino daquela importante Casa, passando pelo bonito testamento de Aioros.
Ao redor de uma mesa estavam sentados já Aioria de Leão e Shaka de Virgem, frente a frente, com a Mestre Camerlengo Mayura sentada à ponta da mesa; os três Cavaleiros de Ouro espalharam-se nas cadeiras vagas, mas Shaina permaneceu de pé, a princípio.
— Estávamos te esperando, Shaina. — começou Mayura, muito séria. — Soubemos pelos corvos do Norte que sua chegada era esperada por esses dias. Espero que tenha tido um bom retorno.
— Os mares estavam bravos até se acalmarem, mas nada disso importa. Há muito sobre o que precisamos falar.
— Pois então comecemos de uma vez. — falou Aioria, gravemente, pedindo que se sentasse.
— Mestre Mayura, perdoe-me, mas onde está Atena? — perguntou Shaina, com veneno entre os dentes. — Estamos em uma crise sem precedentes. Uma tragédia se abateu sobre Asgard e temos enormes problemas dentro do próprio Santuário. Era de se esperar que ela, pelo menos, estivesse entre nós para nos ouvir.
As palavras duras ficaram pairando no ar entre todos e Shaina percebeu como os Cavaleiros de Ouro desviaram os olhares de sua mirada acusatória. Somente Mayura poderia responder àquela provocação, é claro.
E sua voz grave deixou Shaina à par da tragédia.

— Atena não está mais entre nós. — começou ela, com uma gravidade imensa na voz.
Shaina deu um passo para trás, como se buscasse o ar para compreender o que aquilo significava. E então, feito um lampejo de luz, lembrou-se dos rostos tristes no porto que ela não havia dado um segundo de atenção, da preocupação dos Cavaleiros de Bronze e da gravidade no rosto dos Cavaleiros de Ouro. Algo terrível havia se passado também no Santuário.
— Atena? — perguntou apenas, sem acreditar.
— Foi ao encontro de Poseidon para evitar que a chuva divina destruísse o planeta.
— Então Poseidon realmente…
— Retornou. — completou Miro, impaciente.
— Quando foi que isso aconteceu? — perguntou Shaina, com o olhar distante.
— Há mais de uma semana. — respondeu Mayura.
Exatamente quando as tormentas, que chacoalhavam a embarcação em que ela viajava, cessaram e o barco deixou de sacolejar pelos ventos; imediatamente cerrou os olhos novamente, guardando dentro de si a vergonha de julgar mal aquela Atena, quando ela provavelmente havia sido a causa de seu retorno seguro para o Santuário. Aioria precisou ajudá-la a se sentar à mesa enquanto parecia juntar os cacos de seu pensamento.
— O que aconteceu em Asgard, afinal de contas, Shaina? — perguntou Aldebarã, ecoando sua dúvida ao pé da montanha, mas agora para que todos pudessem escutar.
A Mestre-de-Armas olhou para todos antes de contar a história da tragédia do Norte; e o fez de maneira automática, tentando conciliar em sua mente tudo o que precisava compartilhar com a ausência sufocante de Atena no Santuário. Shaina sentia que Saori precisava estar mais presente nos Conselhos, mas naquele momento, sentada ao redor dos Cavaleiros de Ouro, Shaina nunca sentiu sua ausência tão forte. Pois ela estava sempre entre eles. E agora Atena não estava mais. Ela engoliu a seco e seguiu falando.
— Asgard estava sob domínio de Poseidon desde o começo. A missão de Moisés e sua tripulação estava fadada a falhar de qualquer jeito. — iniciou ela, deixando o rosto de todos surpreendidos. — Seiya e os outros selaram todas as Relíquias ao redor do Mundo, mas quando chegaram em Asgard…
Fez uma pausa para relembrar-se.
— A tripulação do Galeão foi rendida e presa nos calabouços de Valhalla.
Lamentos surpresos dos Cavaleiros de Ouro.
— Assim como foram detidos também Jamian e o Cavaleiro de Cisne, que haviam partido pelo Caminho do Norte. Assim que chegaram em Asgard, também foram presos.
— Mas se eu entendi bem, Shaina, antes de subirmos as Doze Casas até aqui, você acreditava que Jamian já havia retornado. — comentou Aldebarã para todos, compartilhando uma parte do diálogo que já haviam tido, de modo que todos estivessem à par.
— Sim. Ao que tudo indica, Jamian foi solto antes mesmo do restante dos Cavaleiros de Bronze e os demais chegarem à Asgard.
— Jamian de Corvo não retornou ao Santuário, Shaina. — confirmou a Mestre Mayura.
— Mas como isso é possível? — perguntou-se ela, tentando imaginar o destino do amigo.
— Disse que Moisés, a tripulação, Jamian e Hyoga foram presos. — perguntou Miro debruçando-se à mesa. — Presos acusados de qual crime?
— Invasão. — respondeu Shaina, relembrando a história.
— Não acreditaram em nossas Cartas. — concluiu Mayura.
— Não. — concordou Shaina, pesarosa. — A Governante de Asgard é Hilda, uma mulher a quem consideram ser a Representante de Odin, o Deus do Norte.
— Odin. — repetiram alguns Cavaleiros de Ouro.
— Hilda é considerada por muitos como a própria encarnação de Odin na Terra. Ela é quem decide os rumos de Asgard. E foi ela quem decidiu pela guerra, cega pelo poder que tinha nas mãos.
— Uma guerra? O que quer dizer com isso, Shaina? — perguntou Mu, calmamente.
— Hilda tinha em seu dedo um Anel de ouro capaz de dar a ela um poder comparado ao dos Deuses e a ira de centenas de guerreiros furiosos do Norte.
— O Anel de Nibelungos. — comentou Shaka.
— Exatamente. — concordou Shaina, e Mu tomou a palavra.
— O Anel de Nibelungos é um tesouro de Asgard que deveria ser usado apenas no Fim dos Tempos do Norte. O que ele fazia no dedo de Hilda?
— Será que eles consideraram o Retorno de Poseidon como o Fim-dos-Tempos? — perguntou Miro a Aioria ao seu lado, confuso.
— Não, não, se Asgard estava sob os domínios de Poseidon, não parece ser o caso. Mas eles acreditavam que seriam invadidos. Invadidos por quem?
— Deixe Shaina contar; vamos, Shaina, continue. — pediu Aldebarã, interrompendo os dois.
— Hilda acreditava que o Anel havia sido um presente de Odin para guiar o Povo de Asgard para fora das Terras Congeladas, mas na verdade não passava de uma armadilha.
A atenção de todos estava em Shaina.
— O que vocês precisam entender sobre Asgard é que existe uma rivalidade ancestral entre as famílias mais tradicionais daquele lugar. Hilda era invejada pela posição que tinha. E um de seus principais conselheiros, um homem chamado Sigmund, entregou-se à Poseidon e enganou Hilda, entregando à ela o que ela acreditava ser o Anel de Nibelungos de Odin.
— Mas que tragédia, um de seus mais próximos guerreiros? — perguntou-se Aioria e Shaina confirmou.
— Pois o que era o Anel, afinal de contas?
— O Anel carregava todo o poder do lendário Nibelungos e foi capaz de dar à Hilda toda a força e ira dos Deuses. Mas havia algo mais naquele Anel. Algo que só viemos a descobrir no final da batalha.
— Uma batalha. Então é por isso que sua Armadura está cheia de rachaduras. — pontuou Mu, mais próxima à Shaina. — Vocês tiveram de lutar.
— Sim. — confirmou Shaina. — Eu cheguei em Asgard e a batalha já havia começado. O Cavaleiro de Andrômeda me contou tudo que havia se passado assim que a batalha terminou. Ao que parece, ele foi pessoalmente ao centro de Asgard pedir que fosse levado até Valhalla para falar com a Representante de Asgard.
— Com Hilda. — lembrou-se Mu, e Shaina assentiu.
— O garoto não sabia absolutamente nada sobre tudo isso, nem que seus amigos estavam nas masmorras do castelo. E ainda assim, um dos Conselheiros de Hilda que cuidava da cidade-baixa, como eles chamam, atendeu seu pedido e o levou até lá. Mas a única coisa que Andrômeda conseguiu em Valhalla foi ser preso junto aos demais nos calabouços.
— Mas que imprudência. — reclamou Aioria.
— A Cavaleira de Fênix já suspeitava de que algo estivesse errado, já que não havíamos recebido notícia nenhuma do Galeão ou de Jamian e Cisne e convenceu os Cavaleiros de Bronze a se deixar ser presa pelos sentinelas da cidade.
— Não tem um pedaço de cérebro na cabeça dessas crianças. — reclamou Miro dessa vez.
— Mas deu certo. — tornou Shaina. — Pois ao contrário de seu irmão, que foi preso em Valhalla em uma cela da qual Cavaleiro ninguém seria capaz de sair, Fênix foi levada para uma cela comum, pois não sabiam quem ela era. E ali deu a sorte de encontrar com a irmã de Hilda, uma garota chamada Freia, que aparentemente estava sendo presa todos os dias em Asgard.
— O que a irmã da Voz de Odin fazia na prisão? — perguntou-se Aldebarã.
— É como eu falei. — continuou Shaina. — Esse é um lugar em que, embora eles vivam centenas de anos fechados dentro de si, às vezes parece que não falam a mesma língua. Freia era contra sua irmã Hilda e acreditava que havia algo de errado com ela, e discursava em todos os bares e tavernas para que o povo se levantasse contra Valhalla. E assim era presa quase todos os dias pelos guardas.
— Então ela sabia! — comentou Aioria.
— Não! Apenas suspeitava, pois ninguém conhecia sua irmã tanto quanto ela. Ela sabia que o Anel de Nibelungos não poderia ser usado naquele momento e sabia o quão diferente Hilda estava. Mas não sabia e sequer imaginava toda a traição por trás. Tudo isso só viemos a saber tempos depois. Mas foi assim que a Cavaleira de Fênix ficou sabendo que Asgard acreditava ser alvo do Santuário, que estava interessado em impedir a marcha para o sol de seu povo.
— Uma mentira para nos colocar contra Asgard. — ponderou Mayura.
— Exatamente.
— Pelo mesmo homem que havia dado o Anel para Hilda. — completou Shaka.
— É o que parece. Freia decidiu acreditar em Fênix, de que o Santuário não buscava nada daquilo. De que apenas estávamos interessados em selar a Relíquia do Mar e que já havíamos selado seis delas ao redor do Mundo. Freia sequer sabia que existiam mais Relíquias dos Mares.
— Como nós também não imaginávamos. — lembrou-se Mayura.
— Poseidon deve ter escondido de todos. — imaginou Mu.
— Mas Freia disse à Fênix que a Relíquia do Mar de Asgard era guardada pelo poder de Hilda. Somente passando por ela seria possível chegar até a Relíquia. Mas isso não poderia ser feito, pois possuída pelo poder do Anel de Nibelungos ela jamais permitiria que os Cavaleiros chegassem perto do lugar.
— Seria preciso quebrar o feitiço. — adivinhou Miro.
— E isso só poderia ser feito com uma espada lendária chamada Balmung.
— Fazendo um pedido genuíno à Odin. — lembrou-se Shaka de seus ensinamentos.
— Carregando as Sete Safiras de Odin. — adicionou Shaina. — Não basta fazer um pedido a Odin, ele somente lhe atenderá se você for um filho de Asgard e estiver de posse das Sete Safiras de Odin. Sete Safiras preciosas que serviam de pedras guardiãs das Robes Divinas, as Armaduras dos Sete Guerreiros Deuses, os principais conselheiros e heróis de Asgard.
— Essa foi a batalha que travaram. — concluiu Mu, e Shaina assentiu.
— Uma batalha terrível e triste ao mesmo tempo. Mas uma batalha que vencemos. Juntamos as Sete Safiras de Odin após derrotarmos todos os Guerreiros Deuses. O Cavaleiro de Cisne empunhou a Espada Balmung e rompeu o feitiço do Anel de Nibelungos.
— Hyoga? — surpreendeu-se Miro.
Shaina olhou para ele e assentiu com dureza.
— O Cavaleiro de Cisne viveu uma tragédia particular. Jamian foi solto para retornar ao Santuário, mas Hyoga ficou sob os cuidados de outro Conselheiro interessado na posição de Hilda. Esse homem chamava-se Alberich. Ele era o antigo conhecido de Camus.
Os olhos de Miro encheram-se de confusão.
— Alberich usou os sentimentos de Cisne para manipulá-lo a defender Asgard por Camus. E assim deu a ele uma Safira e uma Robe Divina, que tomou a mente do Cavaleiro de Cisne, fazendo com que ele lutasse até mesmo contra seus amigos.
— Que desgraçado. — comentou Aioria.
— Mas ao mesmo tempo o tornou um Filho de Asgard. — falou Mu, compreendendo os motivos pelos quais Hyoga foi capaz de erguer a Espada Balmung.
— Sim. Quando Hyoga se desfez do feitiço em sua mente, ele foi capaz de levantar a Espada Balmung e romper o Anel de Nibelungos no dedo de Hilda. E foi então que ficamos sabendo da terrível armadilha. A Relíquia não estava sendo guardada por Hilda, mas sendo usada por ela. A Relíquia era o Anel.
Todos ali seguraram a respiração em choque.
— A Relíquia que deveríamos ter trancado com o Selo de Atena, Hyoga acabou por rompê-la de vez com a Espada Balmung.
— E então Poseidon acordou. — repetiu para si mesma Mayura.
Houve um silêncio enquanto todos pareciam repassar as palavras de Shaina em suas cabeças, cada qual se prendendo a um detalhe, pensando na batalha, nas rachaduras em uma Armadura de Prata como aquela, na força impressionante dos Guerreiros Deuses que foram capazes de dar trabalho até mesmo para Aldebarã. No drama de Hyoga e de todos. Foi Aioria quem rompeu o silêncio.
— Mas esse homem traiu seu povo e deixou seus irmãos morrerem para ressuscitar Poseidon antes de seu tempo em troca de quê? Apenas para ser governante de Asgard?
— Não deve se surpreender com a sede de poder que existe na humanidade, Aioria de Leão. — pontuou Shaka calmamente ao seu lado, pela primeira vez.
— Tudo que sabemos é que, no momento final, Sigmund foi vencido por seu irmão mais novo, Siegfried, diante do Colosso de Odin. Ele trajava uma Escama de Poseidon no corpo, o que nos deu a certeza de que ele havia mesmo traído Asgard em favor de Poseidon.
— Mas que absurdo. — rompeu-se Miro.
— E essa foi a tragédia de Asgard.
— Uma tragédia que culminou no reaparecimento de Poseidon, o Deus dos Mares, e espalhou destruição pelos quatro cantos da Terra. — falou Shaka atraindo para si o olhar de Shaina.
— Shaka tem razão. — concordou Mu. — Enquanto esteve fora, Shaina, o Mundo foi chacoalhado pela fúria de Poseidon. Milhões de pessoas morreram nos quatro cantos do Mundo.
— E sua fúria foi somente apartada quando Atena decidiu marchar para pacificar os Oceanos diante do próprio Poseidon. — falou Aldebarã, com imenso orgulho.
— Como foi que isso aconteceu, Mestre Mayura? — perguntou ela.
A Mestre, sempre sentada em sua cadeira de rodas, coberta de faixas até nos olhos, atraiu para si os olhares curiosos dos Cavaleiros de Ouro. Ainda que soubessem relatos, não haviam ainda escutado de sua parte o que havia se passado no Cabo Súnion.
— Atena foi ao Templo de Poseidon. E lá chamou por ele até ser atendida. E desceu ao Reino do Mar para exigir que Poseidon parasse de tremer a Terra. E ele parou. — falou Mayura, atraindo para si a atenção de todos. — Ela não voltou mais. E cá estamos nós.
Olharam-se por um instante, calculando aquele imenso encontro entre Deuses tão antigos, bem como ponderando os desdobramentos daquela triste batalha em Asgard. Shaina não parecia ter terminado seu relato.
— Os Cavaleiros de Bronze decidiram ficar em Asgard para proteger a Terra do Norte, caso Poseidon decidisse invadir a Terra.
— Atena parece ter cuidado disso sozinha. — falou Aldebarã para todos.
— Geist está com eles aguardando nossos próximos passos. — falou Shaina para Mestre Mayura.
Ela respirou fundo, ponderando absolutamente tudo que havia sido discutido, bem como tudo aquilo que Shaina não havia vivido.
— Creio que já nos estendemos demais. — falou Miro, por todos. — O Santuário não pode ficar sem suas defesas, Mestre Mayura.
— Tem razão, Miro de Escorpião. — concordou ela. — Amanhã podemos decidir os próximos passos, por ora, fiquemos vigilantes.
— Espere, Mestre Mayura. — pediu Shaka de Virgem, fazendo com que todos se sentassem novamente. — Eu não acho que a Mestre-de-Armas tenha terminado.
E, de fato, embora Shaka estivesse sempre de olhos fechados, ali parecia que apenas ela havia notado que Shaina havia permanecido sentada à mesa, perdida nas nuvens pesadas que relampejavam na sua mente. Shaina imediatamente encarou Shaka com sua face inamovível, descoberta em pensamentos. Ela não fazia planos de escondê-los, apenas buscava as melhores palavras.
— É verdade, Mestre Mayura. — começou ela. — A Princesa Freia de Asgard nos confidenciou que sua irmã Hilda, antes de desfalecer em seu torpor, confessou a ela algo que eu precisava trazer diante de todos nós.
— Ora, então diga de uma vez, Shaina. — pediu Miro, impaciente, ainda de pé.
— A verdade sobre o ataque à Aldebarã. — falou ela, olhando para o gigante curioso e para Mu, sua clínica dedicada. — E a verdade é que Asgard teve ajuda de uma pessoa dentro do Santuário.
— Mas isso é traição! — vociferou Aioria, levantando-se da mesa.
— Sim. Um traidor no Santuário. — confirmou ela.
— E quem é esse traidor, Shaina? Vamos, diga-nos! — pediu Miro.
— Infelizmente elas não puderam confirmar sua identidade.
— Mas isso então é inútil!
— Não é verdade, Miro de Escorpião. — ponderou Shaka, calmamente.
— Pois eu suponho que você vá saber quem é essa pessoa?
— Não, mas podemos deduzir algumas coisas. O Cavaleiro de Corvo foi enviado à Asgard, solto de seu cárcere para retornar ao Santuário, mas nunca mais voltou.
— O que quer dizer com isso, Shaka de Virgem? — tentou Shaina.
— Está insinuando que Jamian seja o traidor? — perguntou Aioria para Shaka.
— Não, ele não seria capaz! — falou Shaina imediatamente, por ser seu amigo. — Não, eu tenho certeza que não.
— Como pode ter certeza, Shaina?
— Eu tenho certeza, Miro de Escorpião. — tornou ela, e então olhou para Aldebarã. — Eu tenho certeza, pois eu sei quem foi o traidor que permitiu a entrada do Guerreiro Deus na noite em que Aldebarã foi atacado.
Os olhos todos colaram nela novamente.
— Tem mesmo certeza disso, Shaina? Essa pode ser uma acusação muito pesada para ser feita sem a total certeza. — perguntou Mayura, antes que ela acusasse alguém.
— Sim, Mestre. Eu tenho. — falou ela, e embora fosse um tanto desconcertante encarar Mayura com sua faixa nos olhos, Shaina encarou-a, pois aquela informação não poderia estar diante dos olhos de mais ninguém. — Ao que tudo indica, o Cavaleiro de Prata Sírio de Cão Maior é o traidor.
— Sírio? — perguntou-se Aldebarã, surpreso.
— Sírio desapareceu do Santuário e não voltou desde que foi enviado com os Cavaleiros de Bronze para a América. — adicionou Mu.
— Tampouco os Cavaleiros de Bronze retornaram. — lembrou Aioria.
— Pois eu vou até o inferno para encontrá-lo, Aldebarã. — falou ela, olhando para o enorme Cavaleiro de Ouro, o único sem sua Armadura. — Fico feliz que esteja vivo, mas isso não diminui em nada o crime de Sírio. Eu vou buscá-lo, custe o que custar.
— Pois diga-nos, Mestre-de-Armas Shaina. — começou Shaka muito calma, mas ao mesmo tempo assustadora. — De onde vem toda essa certeza de que Sírio é esse traidor do Santuário?
A pergunta fez Shaina perder o fôlego antes de responder, uma pergunta que fez o ambiente se tornar tão tenso que seria possível partir o ar com uma faca. A corajosa Mestre-de-Armas, no entanto, não fugiu à pergunta.
— Porque ele tentou me convencer a ficar contra Atena também.
Ela, a mascote do antigo Camerlengo, cruel e vil, poderosa e respeitada pelos asseclas de Saga, era vista pelo traidor como uma escolha óbvia para fazer parte de seus próprios planos.
— Não o prendi, pois julguei que precisávamos de todos os Cavaleiros do Mundo contra Hades. — disse ela olhando para Mayura, quase como se pedisse desculpas. — Também não acreditei que um miserável como aquele fosse capaz de qualquer coisa sozinho.
— Aparentemente estava enganada. — adicionou Shaka. — O Grande Aldebarã pode estar vivo, mas tem alguém que não está mais.
O sangue de Shaina gelou dos pés à cabeça e seus olhos caíram novamente em Mayura, quando antes ouvia atentamente o que Shaka dizia; ficaram todos em silêncio, pois ninguém mais poderia dar aquela triste notícia. E ela também escolheu as palavras mais claras e respeitosas.
— Enquanto esteve fora, Shaina, o astromante Nicol de Taça foi morto na Colina das Estrelas.
Shaina levantou-se da cadeira estupefata.
Nicol era amigo de confiança de Mayura, um presente que o Santuário havia recuperado em um tempo de poucos aliados como aqueles; o responsável direto por recuperar a memória queimada por Saga. O principal farol de conhecimento nos próximos passos do Exército de Atena, principalmente com relação à vindoura batalha contra Hades. E agora ele estava morto. E Shaina não podia deixar de sentir que era sua culpa.
— Graças à ação de um traidor dentro do Exército de Atena, um Cavaleiro de Ouro foi atacado e um Cavaleiro de Prata foi morto em seu ofício.
A voz de Shaka lembrou os crimes dentro do território para ela.
— Não foi culpa sua, Shaina. — falou Aldebarã, gentilmente com ela, já adivinhando as nuvens que se formavam em sua cabeça.
— Não diga isso, Aldebarã, eu jamais poderei me perdoar com o que aconteceu com você e… e com Nicol.
— Se você tivesse feito seu trabalho, talvez nada disso teria acontecido.
— Cale a boca, Shaka! — bradou Aioria.
— Eu não queria que nada disso tivesse acontecido! — respondeu Shaina, deixando seu punho estalar de ódio.
— Mas aconteceu. Pedir perdão não vai apagar seus erros, Shaina, tampouco vai mudar aquilo que você é…
Shaka não completou a frase, pois Shaina saltou a mesa que separava as duas e acertou um soco poderoso na direção da Cavaleira de Ouro, tão forte que a eletricidade do Cosmo da Cavaleira de Prata rompeu a mesa em duas.
— Shaina! — bradou a Mestre Mayura, surpresa, e mesmo Aioria estava a ponto de juntar-se à briga quando foi impedido por Mu.
Os olhos furiosos de Shaina ardiam em fogo e seus dentes rangiam.
— Não vou deixar você completar essa frase.
— E por acaso sente-se melhor agora, Shaina? — perguntou Shaka, contendo a fúria da Mestre-de-Armas com apenas um dedo.
— Eu não sou uma traidora. — falou ela entre os dentes.
— Não. Aquilo que você é, Shaina, é a Mestre-de-Armas do Santuário.
E a empurrou de volta com seu Cosmo para longe dela. Shaina ficou ofegante com os olhos escondidos por seu cabelo.
— Parem com isso. — pediu a Mestre Mayura. — Voltem às suas Casas do Zodíaco. Essa reunião está terminada.
Aioria desvencilhou-se do punho de Mu que o segurava, fez uma mesura e saiu dali com pressa, com medo de que se ficasse um pouco mais ele seria o próximo a tentar acertar a Cavaleira de Virgem. Mu e Aldebarã também se despediram e partiram dali junto de Miro. Shaka foi a última.
Shaina também se levantou ao fundo depois de ver os Cavaleiros de Ouro desaparecerem, fez uma mesura vacilante e torta diante da Mestre Camerlenga e também deixaria a Casa de Sagitário, não fosse a voz de Mayura às suas costas.
— Shaina, venha comigo.
— Não, Mestre, eu…
— Venha. Comigo.
Shaina obedeceu.
-/-
Na Casa de Virgem, Aioria de Leão, furioso, andava de um lado para o outro após deixar a tensa reunião na Casa de Sagitário. Mu e Aldebarã logo chegaram e notaram a impaciência do Leão Dourado.
— Não vá fazer nenhuma besteira, Aioria. — pediu Aldebarã e ele não respondeu.
— Aldebarã, meu amigo, peço que volte à clínica.
— Mu…
— Deixe que eu falo com Aioria.
— Certo. — concordou o paciente.
Olhou de maneira gentil para Aioria, que tinha apenas ira nos olhos, distanciando-se pelos corredores da Casa de Virgem.
— O que pretende fazer, Aioria? — começou Mu.
— Quem ela pensa que é, Mestre Mu? — vociferou Aioria. — Ela não é ninguém pra colocar o dedo na cara de Shaina. Eu estou cansado disso.
— E vai fazer o quê? Vai lutar contra ela novamente?
— Não, não farei nada disso, mas ela vai ter que me escutar.
— E ela vai te ouvir?
Aioria deixou escapar uma risada.
— É, eu esqueci que ela desliga seus sentidos conforme é conveniente. Isso não lhe incomoda, Mu? Você também foi acusada de ser uma traidora do Santuário antigamente e agora Shaka aponta o dedo na cara de Shaina como se ela fosse mais do que todos nós, quando na verdade ela era a que mais estava defendendo os desejos de Saga. Ela é a que menos deveria levantar a voz para Shaina.
— Ela sabe exatamente disso, Aioria. — começou Mu, tentando acalmá-lo. — Não há ninguém entre nós que sabe melhor o que realmente é ser vista como uma traidora.
— Ah, pelo amor de Atena. Eu passei todos os anos da minha vida sendo visto como um traidor. — bradou Aioria.
— Mas nunca foi. — retornou Mu. — Com Shaka é diferente, não é? Você ainda acha que ela foi uma traidora.
— E não foi?
— E se tiver sido, não é ela que melhor sabe o peso de um erro terrível como esse? Ou como o de Shaina?
— Shaina não traiu o Santuário! Ela cometeu um erro. Um erro terrível, mas ela não é uma traidora.
— Traidora ou não, isso diz respeito apenas à maneira com que as pessoas enxergam umas às outras. Um erro como esse, no entanto, é algo que Shaina precisará compreender dentro de si como superá-lo para que não a impeça de continuar defendendo este Santuário. Como Shaka teve de fazer. Ou ainda tem de fazer.
— Você é leniente demais com ela, Mestre Mu.
— Agora já está contra mim.
Aioria finalmente parou por um instante olhando para Mu, que tinha no rosto desenhado um sorriso breve. Ele respirou fundo olhando para a saída da casa e, por incrível que fosse, deixou escapar uma risada.
— Não vai adiantar nada, não é?
— Não. — respondeu Mu, e Aioria colocou a mão na cabeça, um tanto cansado.
— Será que algum dia eu me entenderei com ela?
— Eu não espero por isso. Mas eu sei que vocês dois, ao seu modo, permitem que o Santuário seja o lugar mais seguro do Mundo. E esse é o Destino dos dois.
— Está bem, Mu. Vou deixar que ela seja soterrada pela culpa sozinha, então.
— Muito considerável da sua parte.
E juntos deixaram a Casa de Virgem, despedindo-se na Casa de Leão, com a Mestre Mu apressando-se para fazer uma última visita à clínica para dizer ao paciente Aldebarã as receitas da noite e do dia seguinte.
Da Casa de Sagitário para o Templo do Mestre, Mayura foi acompanhada à contragosto por Shaina, que andava às suas costas resmungando consigo mesma, imaginando que a conversa que teriam seria a sua substituição como Mestre-de-Armas do Santuário para um cargo em que não tivesse tanta responsabilidade e seus erros não afetassem tanto os rumos do Exército de Atena.
Atena que agora havia deixado a Terra e sua proteção aos Cavaleiros do Santuário.
Ao chegarem no Templo, Shaina percebeu que o Báculo de Atena flutuava em frente ao enorme Colosso da Deusa que velava por todo o Santuário. Mayura deixou-se cair em sua cadeira-de-rodas e tornou a olhar para Shaina pela primeira vez debaixo de suas vendas.
— Shaina.
— Diga de uma vez, Mestre. — pediu ela, impaciente.
— Eu preciso que você execute um pedido pessoal da Deusa Atena para todo o Santuário.
— O quê? — confundiu-se ela. — Eu achei que…
— Achou que eu lhe pouparia do fardo de ser a Mestre-de-Armas…
— Não, eu jamais pediria para ser rebaixada por conta da responsabilidade, mas…
— Shaka te enganou, Shaina. Ela sabe melhor do que ninguém como a culpa pode ser um ponto fraco e, em um momento de crise como estamos, você precisa estar focada. Ela tirou de você toda a raiva que você sentia por si mesma naquele ataque. Mas a verdade é que a trágica morte de Nicol não poderia ser culpa sua, ainda que tenha deixado Sírio livre.
— Como assim?
— Sírio ou qualquer outro Cavaleiro de Prata e de Ouro não sabia o paradeiro de Nicol. Ele estava na Colina das Estrelas sob minha autorização e carregando o meu amuleto. Mais ninguém sabia. Sírio não teria sido capaz de dizer a qualquer um em Asgard onde ele estava.
Shaina ficou um tempo pensativa.
— Então como isso pode ter acontecido, Mestre Mayura?
— Eu não sei. E sinto que talvez jamais saberemos a resposta desse mistério.
— Mas se existe alguém lá fora capaz de matar um Cavaleiro de Prata como Nicol no local mais restrito do Santuário…
— Nenhum de nós está seguro. — completou Mayura.
— Não devemos mais ficar sozinhas. — falou Shaina. — Os Cavaleiros de Ouro talvez possam se proteger, mas eu pedirei a todos do Exército do Santuário que não andem desacompanhados onde quer que forem.
— Já demos essa ordem antes que chegasse. — falou Mayura. — A ordem que eu preciso que você execute é uma mais importante.
Ela então entregou um envelope para Shaina, selado com o signo do báculo de Atena, em que dentro uma carta com a bonita caligrafia de Saori trazia as poucas linhas carinhosas e pesarosas de uma ordem absurda. Ao terminar de ler, Shaina leu tudo novamente. Inspecionou a parte de trás sem acreditar.
— Mas isso é um absurdo!
— É uma Ordem de Atena.
— Mas Mestre Mayura, nós não podemos. Já mal temos Cavaleiros no Santuário para defender contra uma invasão, se isso acontecer, estaremos perdidos!
— É uma Ordem de Atena.
— Não pode concordar com isso!
— Não concordo. Mas é uma Ordem de Atena. E Atena marchou do Santuário para pacificar Poseidon e dar uma segunda chance ao Planeta Terra em troca de sua vida. O rastro de destruição no planeta se encerrou e temos a chance de poder viver e defender esse Mundo graças à Atena. E tudo que Atena pediu em troca foi o que está escrito nessas linhas.
Shaina ficou em silêncio, incapaz de retrucar, pois ainda que queimasse dentro dela a revolta por aquele absurdo, queimava também a culpa de ter deixado Sírio partir sem pagar por seus pecados. E ela não poderia adicionar mais um erro acima daquele. Teria de executar aquela ordem. Uma ordem de Atena. Não, pensou Shaina corrigindo-se sozinha, uma Ordem de Saori.
Ela iria acatar.
No sopé da montanha, Aldebarã andava calmamente até a clínica de Rodório, sua casa nas últimas semanas. O gigante gentil ainda lembrava-se do milagre de Seiya em sua Casa de Touro; a força daquele cosmo inabalável que ele sabia muito bem ter algo a mais do que aqueles poucos momentos em que havia tocado o Sétimo Sentido. A fé naquela garota. Não, a fé em Atena, pois ele mesmo acreditava em Atena e lutaria por ela tanto qualquer Cavaleiro daquele Santuário, mas aqueles meninos e meninas tinham fé em Saori Kido.
O gigante entrou dentro de casa e deixou escapar outro sorriso quando se deparou com a duplinha de crianças olhando pela janela para uma tímida festa que agora se arrastava em Rodório com o retorno dos tripulantes pela noite. Os dois desceram do sofá ao perceber que Aldebarã havia retornado e o Cavaleiro de Ouro adorou reconhecer naquele cotoco de gente a pequena Lunara; seu cabelo ainda preso em duas maria-chiquinhas nas laterais, mas completamente desgrenhados. Suas duas marquinhas na testa manchadas, os olhinhos caídos, a roupa inteiramente puída e o pingente de ponta de corrente negra no pescoço.
— Ora, ora, essa deve ser a famosa Lunara.
— Eu sou famosa? — perguntou ela para o gigante.
— Eu não via a hora de te conhecer.
— Eu sou a Tenente Lunara. — apresentou-se ela.
— E eu sou o Gigante Aldebarã. — cumprimentou ele a mãozinha da pequena. — Então você é a garotinha que deixou o Kiki doido de saudade esse mês inteiro.
— Ai, cala a boca, tio Aldebarã! — reclamou ele, arrancando risadas do grandão.
— É verdade. Ele só falava em você, de como tinha saudade, ficava resmungando, olhando pro oceano esperando você chegar.
— Ele tá louco, Lunara! Andou tomando muito remédio e fica falando um monte de bobagem. — acusou Kiki. — Eu vou pedir pra Mestre Mu te botar pra dormir, pra ver se pára de falar tanta asneira.
Lunara adorou os relatos e já saiu correndo atrás de Kiki, feito a sombra que ela era dele, enquanto Aldebarã experimentou dar risada em um cenário que ele sabia muito bem ser de muita tristeza. Mas talvez aquele fosse exatamente o destino do mundo: onde a tristeza se espalhava feito um oceano, o sorriso das crianças mais jovens era um farol de esperança.
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