Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
122 Cores do Amor
O som de batalhas já se espalhava pelo Reino de Poseidon; o clangor dos metais se chocando em diferentes direções deixava Tétis desnorteada. A pequena sereia cresceu sua vida toda admirando e sonhando com a oportunidade de descer ao Reino Profundo, cuidar de suas vielas, de suas construções, de seus corais. E agora este lugar precioso para ela parecia invadido por uma juventude desvairada que não media esforços de destruição para conseguir o que precisava.
— Vocês estão todos loucos. — falou ela, com o coração pesado.
— Nós estamos aqui para resgatar Atena. Eu já te falei que iria até o Fundo do Mar para encontrá-la. — respondeu ela, e Tétis demorou-se um momento nos olhos confiantes de Alice.
— Vão todos morrer. — concluiu ela, apontando para o céu. — Olhe! Aquele furacão de água no horizonte. Aquele é o General Bian expulsando algum de seus amigos desse lugar para a superfície.
— Está enganada, Tétis. — retrucou Alice, e a Sereia olhou para ela de volta. — Aquele é o brilho do cosmo do Cavaleiro de Pégaso.
— O quê!? — reagiu ela, olhando de volta para o tufão que subia para a superfície.
A tromba d'água desapareceu em um grande estrondo e Alice pôde discernir claramente ao longe o som de um guizo soar cristalino, o que trouxe um sorriso ao seu rosto. E enquanto a Sereia Tétis acompanhava o final daquele espetáculo no horizonte, Alice voltou a encarar os olhos daquela curiosa Marina; a sua expressão corporal era de total surpresa, seus olhos estavam saltados e seus cabelos lhe escapavam do elmo pelas costas. Ela não encarava sua oponente naquele momento; e atravessou os pensamentos de Alice o total despreparo que ela tinha para uma batalha como aquela que os Cavaleiros de Atena propunham em seu Reino.
— Você não deveria estar aqui. — começou Alice, comiserada pela garota. — Você não é uma guerreira. Não tem treinamento para perceber a diferença entre o Cosmo de um Cavaleiro de Atena e um guerreiro de Poseidon.
— Eu sou uma Marina de Poseidon. Eu vou estar ao lado dele para sempre. É o que eu sempre quis ser.
— Você é uma Mensageira, não lute contra nós. Você vai apenas se machucar.
— Não vou deixar que cheguem perto dele. — disse ela correndo pela rua, mas sendo interrompida por Alice, que havia saltado e colocado-se novamente entre ela e seu caminho.
Alice armou-se em guarda, mas a Sereia Tétis ficou olhando-a sem compreender muito bem.
— Levante a guarda, Sereia. — falou Alice, como quem treina uma criança.
A Sereia Tétis se aprumou para a batalha e partiu para cima de Alice com chutes certeiros, pontapés benfeitos e treinados, socos diretos e cruzados que a Coruja de Atena esquivava e desviava com facilidade.
— Você pode ter tido algum treinamento de luta, mas essa não é a maneira com que os Cavaleiros lutam.
— Saia do meu caminho.
— Não posso deixar que vá atrás de meus amigos.
— Então vamos ter que lutar. Cilada de Coral!
Alice saltou no ar, escapando dos corais que brotavam do chão, e acertou uma voadora no rosto de Tétis, que foi ao chão. Seu elmo rolou para longe expondo finalmente seu bonito rosto incrédulo. Deitada, ela olhou para Alice que, pela primeira vez, viu de perto o rosto daquela garota que havia lhe roubado Saori no pontilhão de pedra. Seus olhos eram mesmo de assombro. Talvez nunca em sua vida houvesse presenciado tamanha violência.
Mas além do sentimento estranho de estar batalhando contra uma pessoa claramente despreparada, Alice teve outra vez a sensação terrivelmente familiar ao encarar aquele rosto. Os olhos brilhantes em que queimava algo tão profundo quanto o próprio cosmo; a expressão dolorida de quem não pode controlar o destino à sua volta.
— Quem é você de verdade? — perguntou Alice, dando voz aos seus pensamentos.
— Eu já lhe disse quem eu sou. — respondeu Tétis, com a voz trêmula. — Sou a Emissária de Poseidon.
— Não. Esse é o seu posto. Por que eu sinto que já te vi antes?
Tétis respirava fundo, tomando o fôlego que havia lhe escapado naquele último golpe. Continuava estendida e vencida no chão, enquanto Alice a encarava de pé; seus olhos eram sofridos e a Coruja percebeu como as lágrimas do coração de Tétis depositavam-se nos cantos dos olhos em um choro que ela parecia tentar conter com toda sua força. Toda sua fibra estava em evitar que seus olhos a traíssem. Foi justamente quando Alice reconheceu a pessoa que aqueles olhos a faziam lembrar.
Ela própria.
Seu reflexo no espelho, por muitas noites sozinha. Eram aqueles mesmos olhos.
Quando deu-se conta disso, sua guarda se tranquilizou e, pela primeira vez, talvez ela tenha realmente enxergado aquela garota à sua frente. Havia compreendido tudo e, do outro lado, percebeu também que a Sereia Tétis já havia lhe reconhecido muito tempo antes. Talvez no próprio pontilhão de pedra. Pelos mesmos motivos.
— Vou embora daqui. Você também deveria ir. — falou Alice apenas para ela.
E passou ao lado de Tétis caminhando para seguir adiante, desatando a correr pelas vielas rumo a algum daqueles Pilares do horizonte. A Sereia Tétis levantou-se como em um último esforço para tentar fazer algo, mas ao ver a silhueta de Alice se distanciando ela deixou-se cair de joelhos naquela rua.
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O Reino de Poseidon não eram apenas as belíssimas construções no fundo do mar, capazes de fazer brilhar os olhos cheios de encanto das pequenas sereias que se amontoavam no oceano para vislumbrar o brilho da cidade profunda. O Reino de Poseidon também são suas infinitas águas que ocupam o Mundo todo; seu corpo profundo nos oceanos, seus braços largos de rios entre os continentes e até mesmo a chuva que se precipita do céu. Mas em alguns raros momentos, Poseidon também está em todos. Quando um garoto triste chora e suas lágrimas são apagadas pela chuva, o Deus do Mar também pode sentir sua dor. De forma que, naquele momento, as lágrimas de Tétis eram também parte de Poseidon.
Assim como eram as lágrimas de Shiryu.
Derrotada, Shiryu estava estirada no pátio do Pilar do Oceano Índico, olhando para as vagas do mar que se quebravam no céu, muito acima de sua cabeça. Suas lágrimas escorriam pelo rosto. Ela desamarrou o lenço rosa que tinha na cintura, o mesmo lenço que usava para se vendar; um presente de Shunrei, para que ela fosse para sempre seus olhos. Mas naquele Outro Mundo, uma vez que podia enxergar normalmente, Shiryu a levou consigo na cintura e, naquele momento, buscou o lenço como uma forma de se lembrar. O lenço metade rosa e metade embebido em seu próprio sangue. Uma lembrança de Shunrei. Para que pudesse se sentir perto da amiga naquele momento que parecia derradeiro.
E, ao tomar o lenço, viu como o guizo de ouro que tinha no punho pulsava um brilho tênue que chamou sua atenção. E uma voz profunda e conhecida passou a ressoar com seu coração. Em seu Cosmo. Chamava seu nome.
— Shiryu. Shiryu!
E repetia sem parar como se tentasse alcançá-la de muito longe.
O brilho dourado do guizo em seu punho pulsava à mesma cadência que uma misteriosa luz desfocada do horizonte. Uma esfera dourada e luminosa e muito pequena parecia descer pelo Mar do Oceano.
— O que houve, Shiryu? — falou a voz, misteriosa.
— Mestre? — perguntou-se Shiryu, com a voz atravessada.
— Suas lágrimas chegam até mim pelas águas sagradas de Rozan, querida Shiryu. São elas que caem diante de mim nesta cachoeira infinita. Posso sentir sua dor.
— Mestre. Cuide de Shunrei, Mestre.
— Não, Shiryu. É você quem cuidará dela. Levante-se, Shiryu.
— Eu irei me levantar, Mestre, mas sinto que será a última vez.
A risada rouca do Mestre Ancião ecoou distante somente no cosmo da Cavaleira de Dragão.
— Eu já lhe disse uma vez, Shiryu. Você subestima sua capacidade de retornar de onde parece impossível. Olhe para o horizonte, minha filha. O Cosmo de Ouro está com você.
E no horizonte onde quebravam as ondas do Oceano Índico, novamente Shiryu viu se aproximar cada vez mais um brilho de ouro. E tudo se apagou ao seu redor.
— Eu não fui capaz de despertá-la, Mestre. O presente de Atena.
— Ela é parte de você. Não é uma arma que você precisa despertar. É o seu coração que você precisa unir a esse presente sagrado de Atena, Shiryu. E então ela irá se manifestar.
— Eu não fui capaz durante todo o treinamento.
— É um presente de Atena, Shiryu. Lembre-se disso.
— Um presente de Atena?
— À guerreira mais justa de todas.
— A justiça, Mestre? Você me ensinou…
— Que a justiça nunca deixará de ser a justiça.
— E o bem sempre prevalecerá.
— Não se deixe duvidar de quem você é, Shiryu.
— Quem eu sou?
A conexão pareceu ter sido cortada e o torpor sensorial em que Shiryu parecia afundada enquanto comunicava-se com seu Mestre foi abruptamente interrompido. Diante dela estava o corpanzil de Krishna sobre seu ferimento.
— O que está fazendo, Krishna?
— Você vai se levantar novamente, Shiryu de Dragão. — respondeu ela, enquanto parecia tratar o ferimento em seu baço. — Quero ao menos lhe dar a chance de se levantar com alguma dignidade.
— Mas por que está fazendo isso, se somos inimigas?
Krishna não respondeu, mas deixou escapar um sorriso. E ao final do curativo que fez no ferimento de Shiryu estendeu a mão para que ela se levantasse; e Shiryu se levantou fazendo uma ameaça à ela com muita amargura na voz.
— Eu vou destruir a sua Espada de Ouro, Krishna.
A General conjurou novamente a Espada que estava distante e colocou-se em guarda. As duas se encararam naquele pátio ensanguentado. O Cosmo de Shiryu ardeu de forma brilhante, fazendo com que as águas daquele Oceano Índico se transformassem novamente no poderoso Dragão que ela representava, enquanto a Espada Khanda de Krishna fez também arder o profundo Cosmo Oceânico de Celmira, representante do Gigante Filho de Poseidon.
Ela avançou com sua Espada de Ouro e o Ouro explodiu diante do corpo de Shiryu em um espetáculo de luz capaz de confundir as duas.
— Mas o que significa isso!? — surpreenderam-se elas, talvez com palavras diferentes, mas ao redor da mesma confusão.
A Espada Khanda havia parado em um Escudo de Ouro maravilhoso que agora estava no braço esquerdo de Shiryu, ressoando com o guizo de Atena. Mesmo Shiryu não compreendeu o que aquilo significava, mas a verdade era que aquele milagre havia detido a Espada Khanda pela primeira vez. Uma chance que ela não poderia perder.
Seu braço direito ergueu-se para o céu e o Oceano Índico acima de suas cabeças repartiu-se em dois com o Cosmo Dourado que surgiu ao redor de Shiryu. Nenhuma das duas percebeu esse espetáculo no céu, apenas aqueles que estavam distantes dali e foram imediatamente atraídos por aquele espetáculo sem igual. A voz de Shiryu ecoou por todo aquele pátio.
— Excalibur!
E seu braço direito transformou-se em uma espada de luz dourada que desceu destruindo de vez a Espada Khanda de Krishna, repartindo-a em duas metades que caíram para longe dali. A expressão de Krishna era de assombro diante. Ela cambaleou para trás e Shiryu colocou-se em guarda novamente; sua mão direita na forma de uma lâmina. Ela finalmente havia despertado o presente de Atena. A Sagrada Excalibur.
Tinha o Escudo e a Espada de Ouro nas mãos.
À sua frente, Celmira Krishna sentiu um ressoar baixo, mas curioso, e um brilho tomou conta de sua Escama que, com assombro, ela viu se repartir em várias partes, deixando seu torso nu.
— Excalibur. — repetiu Krishna em choque, balbuciando palavras antigas, buscando suas referências de vida. — Agora eu entendo o que escondia nesse seu braço direito. Esse brilho magnífico de ouro. Sua Excalibur foi capaz não somente de destruir a Espada Khanda como também repartir a minha Escama dos Mares.
A General encarou Shiryu, finalmente, e percebeu que seu rosto parecia confuso.
— Você poderia ter repartido meu corpo inteiro e acabado com essa batalha se quisesse, e não o fez. Eu entendo sua mente, Shiryu. Escolheu usar sua Excalibur para dar um golpe em meu corpo tal qual aquele que a Espada Khanda desferiu contra sua Armadura, não é mesmo?
Shiryu de Dragão continuava sem saber escolher as melhores palavras.
— Krishna, eu não podia imaginar. — comentou Shiryu, com os olhos pregados nos da General. — Perdoe-me, eu…
A princípio, Celmira não compreendeu aquela repentina confusão de Shiryu quando percebeu que seu torso nu era o que trazia tanta confusão à sua inimiga. Celmira Krishna deixou escapar um sorriso breve.
— Você é adorável, Shiryu. — sorriu ela, respirando fundo. — Não há nada pelo que perdoar, Dragão. É o que sou e sempre fui. — respondeu ela.
Shiryu parecia confusa, pois o torso nu diante dela sem dúvidas era o de um homem, embora o rosto carregasse a delicadeza feminina de uma mulher guerreira, sua postura, sua elegância. Shiryu engoliu em seco seu equívoco, não sem antes quase suplicar perdão através de seus olhos; e quando Shiryu encarou os olhos profundos e maduros de Celmira, havia entre as duas uma compreensão absolutamente distante. Talvez tenham se encarado por muito mais tempo do que imaginariam. Shiryu era ainda muito jovem, mas para sempre voltaria naquele instante pelo resto de sua vida.
Mas naquele momento presente havia ainda um Pilar Oceânico de pé à frente dela e a missão de salvar Atena. E quando ela quebrou aquela longa encarada entre ambas para olhar para o Pilar, Krishna desarmou-se e simplesmente sentou-se no pátio com os olhos fechados. Shiryu finalmente desarmou sua guarda pela primeira vez ao vê-la sentada no chão.

— Sem a sua Espada, você é uma loba sem suas presas. Que bom que se rende, Krishna. Fico feliz que vamos interromper essa batalha. Eu não gostaria de derramar seu sangue sem motivo.
Shiryu estava aliviada, mas o corpo de Krishna flutuou diante dela e passou a emanar uma cosmo-energia fabulosa e brilhante, vermelha como o sangue na água ao entardecer. Shiryu tentou adiantar-se para impedir que ela fizesse qualquer coisa, mas não pôde fazer nada.
— Mas que Cosmo estranho é esse emanando dela? É como se existisse uma barreira invisível.
Krishna tinha os olhos brancos de luz enquanto flutuava em uma altura razoável; Shiryu olhava para ela de baixo sem entender aquele fenômeno impressionante. Ela brilhava no Oceano e Shiryu percebeu que a luta não havia ainda terminado, mas quando armou-se para continuar a lutar, percebeu que não podia dar um passo adiante. Seu corpo estava paralisado.
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Na pequena ilha paradisíaca, um punhado de homens protegiam a entrada do Templo Gan com suas lanças brancas em punho; vestiam todos suas proteções mágicas na cor púrpura e tinham calças folgadas e sujas de terra e sangue da recente batalha na cidadela. Correndo pelo pátio vazio, o Tenente Marina Abdulmalik atravessou o Templo Gan com seus passos ecoando contra as paredes de mármore e ouro; trajava sua maravilhosa Escama Oceânica, que flutuava cores de azul ao refletir as opulentas colunas do Templo de Ouro. Nas mãos ele carregava sua famosa Lança de Prata.
Saiu pelo Templo e o contingente de guerreiros se reagrupou ao redor dele.
— Estão todos bem, Abdulmalik?
— Sim. — respondeu ele, tomando o ar. — Estão todos no Porto do Norte, devemos ganhar tempo para que o Povo de Celmira possa conseguir partir daqui dentro das próximas horas.
— Ninguém passará! — bradou um guerreiro mais velho e Abdulmalik assentiu com a cabeça.
Da viela de prata que levava até aquele lindíssimo Templo de Ouro, um guarda apareceu correndo esbaforido e caiu de joelhos aos pés do grupo de Abdulmalik.
— Eles estão vindo. Pelo menos dois contingentes. — falou com muitas dificuldades, enquanto Abdulmalik ajoelhava-se para tentar recompor seu amigo. — A cidadela foi tomada.
O Tenente Marina olhou na distância, onde podia enxergar o Oceano Índico e a cúpula de algumas das construções da cidadela.
— Onde estão Sadira e os outros?
— Foram pegos, senhor. — respondeu o guerreiro esbaforido com uma tristeza nos olhos enquanto tentava se recompor. — Escute bem, senhor Abdulmalik, você poderá ouvir suas âncoras arrastando pelas ruas da cidadela.
Abdulmalik fechou os olhos com dor e abraçou aquele jovem diante dele.
— Senhor, será possível que a Senhora Celmira nos traiu? — perguntou ele, com a voz vacilante aos ouvidos do mestre.
— Não, jamais! — retrucou Abdulmalik, segurando em seus ombros e então levantando-se para encarar aquele pequeno destacamento, que era o último que havia sobrevivido àquele ataque surpresa na ilha. — Não deixem que nossa confusão nos cegue do enorme amor da Senhora Celmira por seu povo. Se há uma traição em curso, ela não poderia nunca ser de Celmira. Celmira é a senhora de seu povo. Senhora de nós todos! E seu amor é o que faz de nossos prados os mais floridos e nosso ouro mais brilhante. O amor de Celmira. Escutem todos. A Relíquia do Mar continua em seu pedestal. Selada pelos Cavaleiros de Atena como da última vez que Celmira esteve entre nós. A proteção de Celmira continua ao redor de sua amada ilha.
— Se não a Senhora Celmira, talvez os Cavaleiros de Atena tenham revelado nossa localização. — ponderou um dos guardas ao redor.
— E, no entanto, quem nos ataca veste as Escamas de Poseidon.
— Como veste Celmira. — tentou um outro, mais ousado, atraindo o olhar atravessado do Tenente Marina. — E como veste o senhor.
— O que está tentando insinuar?! Irmãos meus caíram em batalha e minha família agora foge da ilha que carrega suas vidas com medo de perdê-la.
— Então como podemos explicar tudo que está acontecendo? — retrucou o mesmo homem, claramente muito emocionado e perdido.
— Não podemos. Não agora. Agora precisamos lutar. E defender o Templo. Defender o povo de Celmira.
— Mestre Abdulmalik, perdoa-me, mas todos sabemos do amor que nutre pela Senhora Celmira.
— Cuidado com suas próximas palavras! — ameaçou Abdulmalik, olhando para ele.
— Não será possível que está se deixando levar por esse sentimento?
— Tenha a mais certeza absoluta disso, lanceiro Khaliq! Por toda a minha vida. E aqui lutarei e defenderei esse Templo de Ouro ou morrerei tentando. E se eu sobreviver, passarei a eternidade nessa rua de prata aguardando Celmira retornar. Não importam mais os motivos pelos quais estão aqui. Quero que fique ao meu lado apenas aqueles que amam. Escolha algo pelo qual você morreria sem saber exatamente o motivo e lute ao meu lado, Khaliq!
O homem deu alguns passos para trás e tirou do pescoço um pingente de bronze.
— Por minha filha Sara. — anunciou ele, com lágrimas nos olhos.
— Por Hadi, meu pai! — falou outro, com uma lembrança.
— Por nós! — comentou uma mulher ao lado de um lanceiro mais alto.
E cada qual lançou mão de algo precioso para aquela batalha. O grupo de seis ou sete adiantou-se e colocou suas lanças brancas à frente para enfrentar outro grupo de invasores que corria pela montanha até o Templo Gan. Eram marinas de menor escalão, com suas Escamas escuras e simples, armas diversas na mão como âncoras, escudos, correntes e até mesmo arpões afiados.
A batalha se deu em um corredor estreito; os guardas de Celmira saltavam pela pedra para se esquivarem como podiam das investidas à distância daquele destacamento e suas lanças encontravam o coração de seus inimigos. Mas pelo menos dois daqueles valorosos protetores do Templo caíram naquela batalha, enquanto Abdulmalik derrubava tantos outros invasores. Já era a terceira ou quarta onda e aqueles guardas junto dele eram os últimos que estavam de pé.
A horda de Poseidon gritava uma única palavra no idioma de Abdulmalik e seus comandados.
ޚިޔާނާތްތެރިން! ޚިޔާނާތްތެރިން! ޚިޔާނާތްތެރިން!
E repetiam para sempre como se houvessem decorado apenas aquela palavra durante a invasão.
— Traidores? Como ousam?! — vociferou Abdulmalik, depois de amontoar os últimos corpos de seus oponentes no corredor.
Ouviram, outra vez, os gritos de guerra ao longe que anunciavam outra onda em busca de invadir e vandalizar aquele Templo que Abdulmalik jurou proteger até o retorno glorioso de sua Senhora Celmira. Ele fincou sua Lança de Prata no chão e virou-se para seus comandados às suas costas, mas encontrou apenas os corpos daqueles valorosos homens e mulheres feridos e derrubados pelo ataque.
Ele caiu de joelhos e foi encontrado pelo contingente de Marinas que o rodeou naquele momento, prontos a darem o golpe final antes de invadir o Templo Gan.
Abdulmalik olhou para a entrada do Templo, com seu pórtico de ouro cravejado de joias e o sol parado acima de uma montanha distante, lentamente se pondo. Talvez para sempre para ele. Mas o sol transformou-se da esfera branca eterna, capaz de cegar a todos, para ganhar contornos e chamas violentas em um outro tipo de luz que chamou a atenção dos Marinas e fez Abdulmalik sentir dentro de si uma energia revigorante e forte. Ele balbuciou as palavras que trouxeram esperança para seu peito.
— Kundalini.
Estava repleto de felicidade. E saltou na direção da luz, cegando a todos seus oponentes no chão; de seus dois braços um rastro de luz desceu feito um raio e atingiu a Lança de Prata que estava fincada no meio daquele enorme grupo de Marinas. Feito um para-raio, aquela lança espalhou um pulso de energia que derrubou todos seus oponentes de uma só vez.
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Celmira Krishna brilhava feito um sol carmesim no céu-oceânico Índico e Shiryu tinha dificuldades para olhar diretamente para ela. Sua voz grave falou com autoridade.
— Ao destruir a minha Espada de Ouro, Shiryu, a divisora da ignorância Khanda, você me fez despertar aquilo que representa o mais profundo do meu ser. O Kundalini. A energia cósmica adormecida dentro de meu corpo.

— Kundalini?
— Kundalini é uma energia criadora cultuada por meu povo que flui para todo o Universo e une o Céu e a Terra a tudo que existe.
A luz de Krishna era imensa e Shiryu lembrou-se do Sétimo Sentido; talvez aquela fosse a versão da Essência do Cosmo para o povo de Celmira Krishna.
Ela brilhava no Oceano e sua voz grave continuou.
— É também a energia do divino feminino, Shakti. — ela repousou as duas mãos ao lado do corpo em postura de meditação. — E você, Shiryu, não poderá dar mais um passo sequer adiante. O Pilar estará longe de seu alcance.
Shiryu tentou saltar na direção de Krishna, mas foi repelida para longe por uma barreira intransponível.
— Desista, Shiryu. Nem mesmo sua Espada e seu Escudo de Ouro poderão fazer frente ao Kundalini. Devo confessar que seu espírito de batalha é inspirador. Sua luta é inspiradora. Mas Poseidon busca a cura. Será que não consegue enxergar no horizonte a chegada de uma nova Era?
— O que quer dizer com isso?
— Estamos em uma Era de Trevas, a Era de Kali. — falou Celmira, calmamente, com sua voz ecoando pelos paredões oceânicos. — Uma Era em que as pessoas não têm compaixão pelo próximo. Em que o amor está envenenado pela vaidade. Um Mundo tomado pela corrupção e desgraça. Onde as flores murcham e o amor foi esquecido. E Poseidon levantou-se para purificar e reconstruir esse Mundo. Tudo na Terra nasceu do Mar e tudo deveria retornar ao Mar.
— Não diga absurdos, muita gente inocente morreria nesse dilúvio não fosse o amor de Atena.
— Pois o Amor vaidoso de Atena irá permitir a longevidade da maldade e da corrupção. Uma pequena sobrevida ao fim inevitável.
— Não podemos aceitar que uma nova Era seja erguida em cima de cadáveres de pessoas que são inocentes. Essa sim é uma Era de Trevas que Poseidon tentou impor à força! E nós jamais iremos permitir algo assim, Krishna. Prepare-se!
Shiryu ardeu seu Cosmo, despertando o Dragão nas águas do Oceano, e urrou suas palavras mágicas:
— Cólera do Dragão.
Mas a barreira intransponível do Kundalini novamente a jogou de volta para o pátio de pedra, abrindo uma cratera com sua queda. Outra vez ela se levantou e então percebeu um espetáculo maravilhoso em que a energia ao redor de Krishna transformou-se daquele vermelho vibrante para reduzir-se à um tom alaranjado e calmo; Shiryu não podia compreender, mas Celmira parecia balbuciar mantras para si mesma enquanto sua energia crescia.
— Me escute com atenção, Shiryu de Dragão. Antes que encontre seu destino final, eu irei lhe contar algo muito precioso. O Kundalini é a força que cria essa barreira intransponível e sua força está em algo que nós chamamos de chacras.
Shiryu tinha dificuldades para olhar para aquela luz intensa, que agora havia abandonado os tons alaranjados para iluminar-se de ouro e amarelo.
— Os chacras são pontos focais usados em uma variedade enorme de práticas, os Tantras. O Kundalini é a serpente feminina da força que ergue-se da base de meu corpo até a iluminação de minha aura.
Krishna então cobriu-se de um verde profundo, enquanto Shiryu colocava-se lentamente de pé.
— Eu já entendi. Assim como nós, os Cavaleiros de Atena, temos os pontos cósmicos que correspondem à nossa Constelação, você canaliza sua energia nos chacras para orientar a sua força.
— E minha identidade. — completou Krishna, com a luz ao redor de si magicamente transformada em um azul oceânico belíssimo.
— Isso significa que eu poderei vencer o Kundalini se atingir os seus chacras, Krishna.
— Exatamente, Shiryu de Dragão. Poderá vencer aquilo que te acorrenta os pés.
Ela estava paralisada novamente, fazendo um esforço enorme para dar um único passo adiante. A luz ao redor de Krishna crescia cada vez mais e então passou do azul profundo a um tom misterioso e confuso, algo entre o violeta e o próprio ciano.
— Em consideração ao seu espírito de luta, Shiryu de Dragão, acabarei com você de forma que não sofra mais.
O padrão de energia ao redor de Krishna finalmente pareceu ganhar sua forma final em uma trama de pétalas maravilhosas ao redor de seu corpo no mais intenso violeta. A voz de Celmira Krishna soou com força por todo o Oceano Índico.
— Maha Roshini!
Shiryu não pôde se mover, mas ainda que pudesse levantar seu escudo para se defender, não poderia fazer nada, já que aquela técnica de Krishna a atingiria de todos os lados, erguendo seu corpo e puxando-a com força contra aquela barreira intransponível até que abrisse outra cratera no chão de pedra. Seu corpo absolutamente ferido e cansado.
Deitada de costas para o chão, Shiryu experimentou abrir os olhos que aquele Mundo havia curado e percebeu que haviam manchas brancas em sua visão e, por um momento, acreditou que estivesse ficando cega novamente. Mas era a grandiosa luz de Krishna que havia ferido seus olhos. Ela fechou-os outra vez, pois Celmira era como um sol violeta queimando e brilhando à sua frente. Uma supernova que acabaria com todos os seus sentidos. E ela decidiu fechar os olhos para morrer em paz, talvez.
E ao fechar os olhos, notou algo incrível.
Na escuridão confusa onde não enxergava absolutamente nada, percebeu que escutava com mais nitidez o sino do guizo de ouro de Atena que tinha no punho. Assim como enxergava com sutileza uma espada de ouro disforme onde ficava seu braço direito, assim como também percebeu a proteção disforme no braço esquerdo, que era o Escudo de Ouro que havia salvado sua vida.
Mas não conseguia enxergar apenas aquelas duas armas em seu delírio na escuridão. Ao longe, no mais profundo breu de seus olhos fechados, Shiryu parecia enxergar algo à distância. Era Krishna no céu, mas seu brilho violeta incomodava seus olhos mesmo fechados, de modo que ela sentia-se compelida a olhar para qualquer outra direção. Colocou a palma da mão da Excalibur à sua frente, como para evitar que o brilho atravessasse suas pálpebras e ali pôde finalmente vislumbrar pela primeira vez o corpo de Krishna na escuridão.
E, na escuridão, brilhavam seus sete chacras de energia. Da base de sua espinha até o topo de sua cabeça, uma linha vertical com sete pontos de energia.
— Os chacras de Krishna. — balbuciou Shiryu para si mesma. — Se eu puder acertá-los…
Novamente Shiryu tomou o lenço rosa de Shunrei e amarrou-o nos olhos, como sempre fazia no Mundo de Atena.
— Shunrei. Seja meus olhos. Seja as cores da minha vida. — começou ela a se levantar, na esperança de que aquele lenço permitisse que ela enxergasse os chacras de Krishna por um instante que fosse.
O Cosmo de Shiryu ardeu naquele lugar, o enorme dragão chinês apareceu em suas costas, seus cabelos ergueram-se feito chamas negras e o Oceano Índico reverberou uma cantoria inesperada que parecia surgir como se cantada pelas baleias distantes do oceano. Era a voz de Saori.
— Atena. Faça um milagre em meu cosmo. Ilumine minha visão para que eu possa enxergar o Kundalini no corpo de Krishna!
— Dentro de você, Shiryu. — falou Krishna para si mesma.
Ela saltou e seu braço direito abriu o Oceano índico acima de sua cabeça; a figura de Krishna desapareceu e apenas os sete chacras de seu corpo surgiram.
— Excalibur!
— Maha Roshini!
A barreira intransponível explodiu em um espetáculo de luzes violeta e sugou Shiryu com força, arremessando-a contra o próprio pilar do Oceano Índico. Ela caiu desacordada aos pés do Pilar e Krishna no pátio de pedra em uma nova cratera no campo de batalha.
— Você conseguiu, Shiryu. — balbuciou Krishna, sem que ela pudesse escutá-la de onde estava ou nas condições em que estava. — Conseguiu destruir o meu Kundalini com sua Espada sagrada. Espero que viva, Shiryu. E viva livre. Livre para amar, Shiryu de Dragão.
Por sobre pilhas de corpos e sangue, Abdulmalik chorou e gritou ao vento o nome de sua paixão.
Celmira.
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