Notas iniciais
As consequências da batalha em Asgard e os próximos passos do Santuário.

Distante do triste céu claro do Norte, a noite na Grécia era feita de corujas piando na escuridão e um calor curiosamente fora de época. O céu para sempre estrelado aos poucos recebia a inconveniente visita de nuvens carregadas. A região do Santuário mantinha-se em um estado de alerta, com sentinelas dobrando a vigília nas estradas que levavam a Rodório e, principalmente, ao sopé da montanha das Doze Casas. Entre os habitantes de Rodório, a animação do verão aos poucos foi se tornando desconfiança, pois muito pouco era informado pelos guardas que serviam à Mestre-de-Armas, e as histórias entre os pescadores também tornavam-se cada vez mais confusas. A certeza de que a missão do Esperança de Atena pelos Sete Mares era um sucesso já desaparecia a cada dia que passavam sem notícias.

Embora a desconfiança, a vida seguia normalmente no cais, mas as conversas de fim de tarde na praça principal já traziam, além das fofocas da região, também questões e boatos sobre os desdobramentos das novas ameaças divinas. O clima de incerteza acima da montanha também não era muito diferente, onde cada Cavaleiro de Ouro mantinha-se alerta e apreensivo por Seiya e os demais em alto-mar.

Saori estava em seu dormitório naquela noite trocando-se para ir dormir, enquanto escutava duas vozes felizes através do alto-falante do celular. As duas contavam-lhe novidades do Mundo lá de fora. Da porta, ela escutou três batidas secas de alguém que a aguardava se aprontar; ela imediatamente pausou o áudio e respondeu.

— Só um instante.

A porta se abriu e Saori deixou escapar um grito de susto.

— Mii! — reclamou ela, cobrindo-se com uma toalha.

— Achei que tivesse dito para eu entrar.

— Eu estou me trocando! — protestou Saori, jogando uma almofada na direção da amiga que se abaixou e viu-a se espatifar contra a parede. — Fecha isso!

Alice fechou a porta com um meio-sorriso no rosto.

— Você podia ficar cega, sabia? — perguntou Saori, com deboche.

— Sabia. A Shiryu falou que foi assim que ela perdeu a visão.

— Alice! — reagiu Saori, absolutamente em choque com a audácia da amiga.

— Eu juro por tudo que foi ela que disse. — respondeu ela, dando risada.

— Mentirosa. — respondeu Saori, sorrindo.

A amiga audaciosa jogou a roupa de volta para que Saori terminasse de se vestir e viu que o celular estava em cima da cama com uma mensagem pausada.

— Estava ouvindo o áudio de novo?

— Ah, Mii, é tão bom ver que elas estão bem. — falou Saori, sentando-se na cama com o rosto feliz. — No fundo eu gostaria que você, o Seiya, a Shiryu e todo mundo pudesse ficar em paz. Viver vidas normais. Ser jovens. Fazer besteiras por aí.

— O Seiya faz besteira mesmo sendo Cavaleiro.

— Você sabe o que eu quero dizer. — falou Saori, um pouco pensativa. — Por minha causa, isso foi roubado de vocês.

— Não começa ou eu vou chamar a Ikki. — ameaçou Alice com o dedo em riste. — E além disso, pense no preço que elas tiveram de pagar pra ter essa vida normal.

— É, eu sei. — concordou Saori, respirando fundo e lembrando-se da maldição de Éris em cima das duas.

— Mas eu também sinto falta das nossas noites de cantoria com a Kyoko, você lembra?

— Sim! — reagiu Saori, animada. — Como era mesmo a música que ela sempre cantava?

As duas cantaram dois versos e um refrão juntas antes de caírem na risada, lembrando-se de momentos em que eram mais jovens e, talvez, mais livres.

— Aquelas noites no quarto. Eu não fazia nem ideia de que tudo isso ia acontecer. Não podia nem imaginar. — refletiu Saori, sentada na cama com o olhar perdido.

— É tão bom te ver assim feliz, Saori.

Saori olhou para ela com um sorriso no rosto, mas que aos poucos foi se desmanchando conforme ela foi se lembrando do que veio em sua vida e, afinal, sobre quem ela era. Alice percebeu a mudança na expressão da amiga e logo buscou mudar o assunto.

— Por que me chamou aqui?

— Ah. — pareceu se lembrar Saori, levantando-se da cama e indo até uma das estantes.

Abriu uma gaveta e dela tirou um livro grande que chamou a atenção de Alice.

— O que é isso?

— É um livro escrito pelo Nicol. — falou Saori, empolgada, já se sentando encostada em um travesseiro.

Alice também subiu na cama para ler junto da garota, como faziam em longas noites de estudo quando eram mais novas na Mansão Kido, muitas vezes com Kyoko.

— É um registro das Atenas antigas que reencarnaram no Santuário. Não dá pra saber se realmente tem todas elas aqui listadas, mas é um compilado mantido pelos Pontífices antigos ao qual Nicol teve acesso no arquivo do Papa Sião.

— Que incrível.

— Mii, você não acredita. — falou Saori, com um sorriso no rosto. — Você acredita que teve uma Atena que reencarnou como homem?

Alice chocou-se com a mão na boca e tomou o livro da amiga.

— Deus me livre! — reagiu ela, e Saori desatou a dar risada.

A Coruja folheou o tomo rapidamente para ver quantas entradas haviam até chegar ao fim.

— Hm. Olha, a última Atena parece que se chamava Sasha. — comentou Alice, apontando uma anotação no livro, e logo abriu um sorriso ao virar a página. — Olha, seu nome! Mas as páginas estão todas em branco.

As duas se entreolharam e Saori lhe respondeu feliz.

— Pra que eu escreva minha própria história.

Alice sorriu e Saori também. Nicol era mesmo especial, ainda que cheio de maneirismos e regras.

— Ah, isso é incrível, não é, Mii? — falou Saori pensando longe e, de certo modo, um tanto aliviada. — O Nicol disse que tentaria fazer algo assim quando me viu confusa e perdida no Cabo Sunion. Ele é muito atencioso. Vive preocupado.

— Ele é, e muito conhecedor também.

— Eu encontrei esse livro por acaso. — falou Saori, levantando-se. — Ele deve tê-lo deixado em meus aposentos antes de partir, mas só vim encontrá-lo agora, pois eu estava tão preocupada com Aldebarã que pouco vim até aqui. É tão importante para mim saber quem foram todas essas mulheres.

— Que bom, Saori. — respondeu Alice com um sorriso sonolento no rosto, ao ver a amiga folheando as páginas daquele diário.

— Ele ainda não voltou, né? — perguntou Saori, preocupada.

— Não. Mestre Mayura acha que disfarça, mas eu sei que isso já começa a preocupá-la.

Saori respirou fundo e Alice puxou-a de volta para a cama.

— Vem que eu preciso saber tudo sobre esse desastre do Homem-Atena.

Saori riu e as duas deitaram juntas na cama para ler aquele livro de cabo à rabo; Saori fixada nos olhos da amiga aguardando ela perceber que aquela ideia absurda de uma Atena-homem não passava de uma brincadeira sua. Naquela noite, dormiram felizes.

-/-

E aquela noite era a noite da queda de Siegfried.

A praça central de Asgard-Alta recebia toda a população do reino após o encerramento da batalha que ecoou pelas ruas de pedra, tamanha violência e destruição carregada no pátio de Valhalla até culminar na queda de um galeão do mar que navegava pelos céus; histórias que seriam contadas para sempre naquela região. Pois vieram todos os habitantes do território, morassem eles aonde fosse: na cidade-baixa, nas fazendas secas da região mais ao sul, ou mesmo no coração das cavernas, como abrigavam-se alguns dos mais miseráveis. Todos agora entravam pela cidade, avisados pela guarda-palaciana de que a convocação era irrestrita para todo e qualquer filho de Asgard. Haviam poucos idosos e poucas crianças, e muitos homens e mulheres com o rosto sofrido debaixo de um frio ainda mais árduo.

Enquanto todos chegavam confabulando e falando aos conhecidos que encontravam na praça, notaram que uma garota parecia os esperar com um simples vestido azul claríssimo e os olhos profundos de quem parecia não ter pregado os olhos há meses. Hilda aguardou até o último habitante daquela região chegar. Ela, que os conhecia todos, olhou para todos os olhos que a encaravam naquela manhã.

Sua voz era firme.

— Povo de Asgard. — começou ela, com imenso respeito. — Nós somos aqueles que perduramos a mais profunda das penitências neste canto abandonado do Mundo. Sou honrada e faço da minha vida a servidão ao nosso Deus Odin para traçar o rumo de nosso povo sofrido. Portanto é também de meu mais divino dever lhes pedir a todos aqui, alto e para que todos escutem, debaixo do Colosso de Nosso-Senhor Odin, minhas mais dolorosas desculpas.

A maioria daquele povo olhou para sua senhora ainda confuso, embora uma boa parte já soubesse melhor da imensa invasão e batalha que se operou em Asgard-Alta.

— Desculpa-me, Povo de Asgard, pelo caminho tortuoso que escolhi seguir há alguns meses e que chegou ao fim de maneira trágica neste dia em que vos falo. O dia em que Asgard perdeu filhos insubstituíveis, valorosos e brilhantes.

Com todo o respeito que a cerimônia exigia, ninguém atreveu-se a interromper sua senhora quando ela enumerou os vitimados daquele dia.

— Mime. Alberich. Sid. Siegfried. Sigmund.

E cada nome que era anunciado por Hilda, um grupo diferente parecia reagir com muita tristeza, pois embora os Guerreiros Deuses entre si fossem distantes, cada um deles era valoroso ao seu modo e tinham entre seu povo grande confiança e carinho. Suas mortes foram muito sentidas.

— Estes são apenas alguns que viraram estrela debaixo de nosso céu. — continuou Hilda, com a voz trêmula. — Quantos outros ainda perderam suas vidas nesses últimos meses em que meus olhos se nublaram e trilharam um caminho de guerra, distante de nossos corações.

O seidr profundamente gélido de Hilda finalmente se manifestou ao redor de seu corpo, fazendo com que seus cabelos esvoaçassem com sua energia; ela estendeu o braço direito para fora da plataforma e fechou os olhos. A neve que caía muito sutilmente do céu-branco convergiu em sua mão direita na forma de uma maravilhosa espada, que Hilda segurou pela lâmina, tal qual Odin fazia em sua Estátua colossal.

— Odin. Dai-nos vossa força. — começou ela a sua prece de olhos fechados. — Deixai que eu conserte os terríveis erros que cometi. Dai-nos os meios para salvar Asgard, ainda que isso custe a minha vida.

Freia estava nos degraus da escada lateral que subia da praça da fonte para aquele pátio onde Hilda falava ao seu povo; seus olhos cheios de lágrimas pela irmã sofrida.

— Somos do extremo norte do mundo. Isolados pelo gelo e pela neve, mas nós aceitamos todo esse sacrifício com muita força para proteger nosso maravilhoso Reino por Odin.

Hilda abriu os olhos, falando de seu coração para o céu.

— Nobres Guerreiros Deuses, não saberei nunca se seria possível me desculpar com cada um de vocês. A tudo eu pude ver e sentir enquanto estava sob a força de Nibelungos. E o Anel me obrigou a ver como cada um de vocês sofreu. Todas as suas dores e tragédias. Poseidon não somente me fez cair em seu truque, como também humilhou meu coração.

A Valquíria apertou a espada ainda mais fortemente com sua mão, que sangrava pela lâmina afiada, deixando pingar gotas de seu sangue divino na fonte congelada que estava abaixo dela.

— E a culpa é minha. Culpa de minha cegueira. Eu nada pude fazer e a artimanha vil de Poseidon tornou maléfico o meu mais profundo desejo de dar a vocês um pouco de luz e de amor. O meu mais profundo desejo de servir a Odin me afastou do povo que eu deveria proteger. E sei que causei muita, muita dor.

Ela então olhou para seu povo, sua mão machucada na lâmina da espada ainda vertia muito sangue e a aura brilhante ao redor dela também tomou a espada que brandia quando suas últimas palavras foram ouvidas.

— Asgard, por favor me escute. Não sei se poderão me perdoar, pois seus filhos perderam suas vidas somente porque a mim eles dedicaram sua mais profunda lealdade. Sei que sou uma pecadora e dentro de meu peito não cabe o arrependimento que me dói e que me acompanhará o resto de minha vida. A nossa história é marcada por sofrimento e penitência, pois este será o meu. Pelo resto de minha vida.

— Tu és Hilda, a Voz de Odin. — falou um velho homem entre a multidão. — Odin já te castigou o suficiente, nossa Senhora.

E então ele se ajoelhou.

E depois dele todos aqueles que estavam na praça fizeram o mesmo.

Hilda chorou.

— Odin, por favor, proteja esta Terra!

A espada banhada em seu sangue iluminou-se com as cores do arco-íris e uma coluna de luz a transportou da mão de Hilda para fazê-la desaparecer, enquanto a Senhora de Asgard caiu de joelhos perto do parapeito, sendo acudida por sua irmã mais nova, Freia.

Entre a multidão ajoelhada, no entanto, um homem sorria debaixo de seu capuz.

-/-

Houve grande comoção na praça central de Asgard-Alta, mas Hilda caiu no colo de sua irmã mais nova, Freia, e logo precipitou-se do outro lado das escadas o curandeiro-mestre de Valhalla: um homem altíssimo, de cabelos escuros e a pele muito pálida, trajando uma túnica clara e uma capa para o frio. Ele tomou Hilda nos braços, como havia tomado muitas vezes em sua infância, e adentrou os enormes salões do Palácio Valhalla; Freia ficou ali para atender ao povo de Asgard, pois na ausência de sua irmã era a ela a quem recaía a responsabilidade de zelar por eles.

E enquanto os filhos de Asgard se reconstruíam na praça-central à frente da entrada do Palácio Valhalla, debaixo do Colosso de Odin, no pátio externo destruído pela batalha e ao lado dos escombros do Galeão, os Cavaleiros de Atena estavam espalhados pelas ruínas em silêncio. Um vento frio soprava do alto da montanha, como se tentasse levar para longe a desgraça que havia se abatido sobre aquela terra, levantando os cabelos daqueles jovens guerreiros.

Estavam esgotados e em pedaços, não somente em espírito, mas o estado em que se encontravam era lamentável. Cada qual parecia padecer de sua própria tristeza; Shaina e Geist estavam juntas à beira do abismo embaixo do Colosso de Odin olhando para o fundo daquele lugar, onde ficava a Caverna de Surtr. Shaina agora já usava toda sua Armadura de Ofiúco, rachada em alguns pontos, enquanto Geist trajava seu sobretudo de detalhes dourados agora muito rasgado. Seiya já não tinha mais o sobretudo-dos-mares com o qual Saori o havia presenteado, mas tanto ele como June eram os únicos com suas Armaduras em perfeito estado; os dois estavam sentados juntos de Lunara ouvindo dela o que havia se passado desde que se separaram e contando de maneira breve o que justificava toda aquela tristeza entre eles. Shun, Shiryu e Ikki estavam em silêncio uns próximos aos outros, com suas Armaduras muito avariadas, especialmente o Escudo de Dragão, que encontrava-se destroçado.

Entre todos, no entanto, Hyoga era o que parecia estar em pior estado.

Seus ombros caídos de cansaço, pois seu corpo sustentou a força da Safira por todo aquele tempo, exaurindo-o de quase toda sua energia, sem falar na surpreendente presença de Odin na Espada Balmung que ele teve de brandir. Os olhos cavados e perdidos em um horizonte em que nada havia; o espírito estilhaçado por sentir que aquele último golpe com a Espada Balmung havia sido o último ato de uma cadeia de falhas que Hyoga parecia reviver uma a uma naquele instante.

A armadilha no Palácio tomando-o de surpresa, a manipulação de Alberich que o fez usar a força da Safira e vestir uma Robe Divina, a destruição dos Guerreiros Deuses sem que ele pudesse fazer qualquer coisa para proteger aquela Terra e cumprir o desejo de seu Mestre. Um desejo passado por cartas que ele já não sabia quais eram reais ou falsas, mas às quais seu coração ainda se prendia. E finalmente a destruição da Relíquia dos Mares.

— Não foi culpa sua, Hyoga. — tentou Shun, aparecendo ao seu lado e tentando tirá-lo de seu transe.

O garoto finalmente pareceu acordar de seu torpor e olhou lentamente para Shun com seus olhos sofridos.

— E de quem mais poderia ser, Shun? Eu destruí a Relíquia.

— Não tinha como você saber. — tentou Shun novamente e Hyoga engoliu em seco.

— Isso não muda o fato de que fui eu que destruí a Relíquia. A Relíquia que eu deveria ter Selado, eu destruí! — falou ele, bravo consigo mesmo, enquanto, um a um, seus amigos se aproximavam com muita dificuldade. — Seiya, June, Geist e os outros devem ter passado provações terríveis para selarem todas as outras Relíquias pelos Sete Mares. Todas as Relíquias ao redor do Mundo. E a única que era minha responsabilidade, ao invés de protegê-la, eu não só a destruí como também tirei a chance de todos vocês cumprirem com sua missão. A missão de Atena.

Havia uma profunda tristeza em seus olhos.

— Eu destruí a Relíquia. — repetiu ele, quase feito um maníaco, mas falou com sua voz firme e grave. — E lutei contra meus amigos! Me deixei enganar feito uma criança. Arruinei com a missão de Atena e coloquei Asgard em risco.

— Hyoga! — pediu Shiryu, mas ele não parecia capaz de ouvir qualquer razão.

— E agora Poseidon irá despertar. — falou olhando para o além.

— Nós lutaremos se for preciso. — disse Seiya, confiante.

— Mas não seria preciso se eu não tivesse falhado. — comentou Hyoga, novamente revoltado consigo mesmo.

— Chega! — bradou Shaina um pouco de longe, ao lado de Geist.

Olharam todos para ela, que caminhou para o centro daquele círculo de amigos.

— Agora não adianta mais chorar o que já aconteceu. O que está feito está feito. Se Poseidon se levantar, nós lutaremos. E pronto. O que precisamos fazer agora é retornar ao Santuário e repensar os nossos passos.

Instalou-se certo silêncio entre todos ao ouvir a voz firme de Shaina, afinal, ela era mesmo a superior deles.

— Pois eu não voltarei ao Santuário. — falou com firmeza Hyoga olhando para Shaina, recebendo dela o olhar mais atravessado de todos.

— O que quer dizer com isso, Hyoga? — perguntou ela.

— Asgard agora está em perigo por minha culpa. — falou ele, pisando firme. — Se Poseidon se levantar para tomar o Mundo, este será o primeiro lugar que será atacado.

— Não pode saber disso. E se Poseidon atacar o Santuário, que é onde está o seu dever de Cavaleiro defender?

— Me escute, Shaina, por favor. — aprumou-se Hyoga diante da superiora. — Enquanto eu estive nesta Terra esperando pela chegada de Seiya, um Tenente Marina de Poseidon invadiu a floresta ao lado do Palácio Valhalla e foi graças à força da Safira de Odin que fui capaz de lutar contra ele e vencê-lo em combate. Do contrário eu já estaria morto.

— Um Tenente Marina? — perguntou Seiya, curioso.

— Sim. De força descomunal. Sua Armadura era perolada e profundamente azul como o oceano. Os guerreiros de Poseidon são extremamente poderosos.

Seiya olhou imediatamente para Geist, que tomou a palavra.

— Também encontramos esses guerreiros em nossas viagens. Certamente são os Marinas de Poseidon, que ressurgiram para lutar ao lado do Deus dos Mares.

— E agora com a Relíquia destruída, eu tenho certeza de que esses Marinas virão à essa terra. Mas não virão mais sozinhos como daquela vez. — tornou Hyoga.

— Asgard não é responsabilidade do Santuário. — vociferou Shaina, firme.

— Mas, por nossa culpa, Asgard já não tem a proteção dos Guerreiros Deuses. — lembrou Shun, profundamente triste entre eles.

— É o que acontece em uma guerra. — tornou ela, mas Seiya foi quem lhe confrontou com a voz firme.

— Ora, Shaina, o Santuário tem os Cavaleiros de Ouro e a proteção de Atena. Asgard não tem ninguém!

A voz de Seiya pareceu ecoar por toda Asgard; ninguém o respondeu, como ele esperava, ficando todos em um silêncio tenso. Ao olhar por sobre os ombros, para onde todos estavam olhando, Seiya notou que Freia estava na saída do Palácio Valhalla que levava até aquele pátio externo, certamente ouvindo o final ou talvez toda aquela discussão.

Ela pisou firme na direção deles e falou como a Princesa que era.

— Hyoga tem razão de que há uma grande chance de Asgard ser atacada se Poseidon decidir tomar o Mundo. E Seiya também tem razão de que esta terra carece de seus guerreiros. Mas Asgard é um povo muito mais valente e firme do que você pode imaginar, Cavaleiro de Pégaso.

— Me desculpe, Princesa Freia, eu não quis… — ela silenciou o garoto brevemente com um gesto delicado.

— Embora nossos sentinelas e guardas sejam valorosos e corajosos, — falou ela olhando diretamente para Ikki — as batalhas que Poseidon nos fará lutar estão além das nossas atuais capacidades. Ainda assim, lutaremos até o último homem e mulher se for preciso.

— Não será preciso. — falou Hyoga, colocando-se à frente de todos.

— Eu não posso pedir absolutamente mais nada a vocês, Cavaleiros de Atena.

Freia falou a todos eles, mas seus olhos continuavam nos de Ikki, distante de todos, pois procurava manter certa distância daquele grupo emocionado de meninos e meninas.

— O garoto falou por todos nós. — respondeu Ikki à distância. — Não deixaremos que esses malditos Marinas tomem esta terra.

Shun sorriu de volta para sua irmã e até Seiya sentiu-se confiante ao ver que Ikki lutaria com tudo se fosse preciso. Freia tornou a falar entre eles.

— Conta-se nas histórias antigas que nosso povo e os filhos de Poseidon visitavam-se por caminhos agora perdidos entre nós. Mas se o que Hyoga disse for verdade, então eu só posso acreditar que os seguidores de Poseidon conhecem as antigas pontes que levam à nossa terra.

— Poderiam invadir a qualquer momento. — concluiu Seiya, e Freia concordou com ele, pesarosa.

Freia, no entanto, parecia dividida quando olhou para Shaina e seus olhos furiosos.

— De todo modo, ainda que Asgard esteja em perigo, ainda que eu reconheça e não tenha palavras para agradecer a coragem de vocês, Cavaleiros de Atena, eu preciso insistir para que voltem ao Santuário.

— O que quer dizer com isso? — perguntou a Mestre-de-Armas, desconfiada.

Freia silenciou um instante para escolher as melhores palavras enquanto encarava Shaina.

— Minha irmã Hilda, infelizmente, encontra-se em um estado letárgico depois de ter suportado a magia de Poseidon por todo esse tempo. Mas antes que ela apagasse totalmente para seu descanso no palácio, contou-me algo à beira de sua cama. Algo que é importante que vocês saibam.

— Diga de uma vez.

Shaina encarou a princesa frente a frente, enquanto os Cavaleiros de Atena, até mesmo Ikki, se aprumaram melhor para ouvir a revelação.

— Hilda quis que soubessem que a invasão da Sombra de Sid ao Santuário só foi possível com a ajuda de um Cavaleiro dentro de suas terras.

O sangue de Shaina pareceu ferver naquele mesmo instante em que milhares de perguntas foram feitas ao mesmo tempo. Todas ao redor do mesmo tema.

— Quem?

Mas Freia não sabia, tampouco Hilda lhe confidenciou, pois era mesmo algo do qual elas não tinham conhecimento. Ao fundo, distante de todos, eles ouviram a risada debochada de Ikki, que continuava encostada em uma pilastra derrubada.

— Do que está rindo, Fênix? — perguntou Shaina, revoltada. — Aldebarã quase foi morto, eu não estou entendendo a graça.

— Ora, Shaina, você deveria saber melhor do que ninguém. — respondeu ela, olhando para a Mestre-de-Armas. — Saori não é exatamente uma unanimidade como Atena naquele Santuário. Muitos daqueles que lutaram contra ela antes, agora precisam lutar por ela. Não me espanta que haja traidores entre aqueles que deveriam protegê-la.

Shaina deixou-se levar pela ira daquele momento e seus cabelos eriçaram, estalando com a eletricidade de seu cosmo; Ikki talvez tenha pisado além da linha com a pessoa errada. A Cavaleira de Ofiúco saltou em sua direção e partiu ao meio o que restava do pilar em que Ikki estava encostada, levantando-se para encarar a garota a um palmo de distância.

— O que está insinuando, Fênix?

— Que há um traidor no Santuário. — falou Ikki, de olhos fechados e um sorriso breve no rosto, mas repetiu para evitar desconfiança. — No Santuário. Não diante de mim.

Shaina tinha ira nos olhos, mas foi apartada daquela insanidade por sua amiga Geist, que surgiu ao seu lado para impedir que as duas se enfrentassem ali mesmo. Ikki deixou-a sozinha com sua ira e afastou-se para o outro lado do grupo, apoiando a perna contra os destroços do Galeão, colocando-se perto do grupo dos Cavaleiros de Bronze, pois em verdade à ela já parecia muito claro quais seriam os próximos passos.

— Geist. — falou Shaina, próximo à amiga. — Preciso que fique aqui com eles.

— Está certo. — concordou ela.

A Mestre-de-Armas virou-se para encarar o grupo de Cavaleiros de Bronze que deveriam estar sob seu comando; seu olhar não era capaz de disfarçar seu descontentamento com absolutamente tudo que havia falhado naquela missão, pois, no fundo, sua fúria era consigo mesma.

— Eu voltarei ao Santuário. — anunciou ela para todos. — O que se passou aqui não é o tipo de coisa que se compartilha por cartas. Quero estar pessoalmente diante de Atena e da Mestre Mayura.

Os Cavaleiros de Bronze assentiram, quando ela continuou com fogo nos olhos.

— Eu encontrarei o traidor.

— Dê a ele toda essa sua fúria. — pediu Ikki à ela.

Shaina não respondeu.

-/-

Três dias se passaram.

Os Cavaleiros de Atena hospedaram-se no casarão das montanhas à convite de Freia, onde cada qual ocupou-se de sua consciência. E embora o convite fosse estendido a todos, Ikki não ficou junto a eles e desapareceu por todos os dias; algo que a Princesa descobriu ser de seu próprio costume. Shaina também não aceitou o convite e posou nas cabanas perto do porto, de onde vistoriou de perto o barco que lhe preparavam para zarpar dali, enquanto sua cabeça esfumava de ódio. O caminho pelas águas era muito mais rápido do que pelo Caminho do Norte.

O clima em Asgard, por outro lado, parecia ter sido abençoado por aquela apaixonante oração de Hilda antes de desfalecer, pois a neve cessou, as nuvens inclusive tornaram-se menos espessas e aqueles sofridos habitantes foram agraciados até mesmo com noites mais longas para velarem um sono merecido para um povo tão castigado. Havia até aqueles que juravam ter visto a coroa do sol entre algumas nuvens que vacilavam no céu.

Mas a governanta de Asgard, Hilda, a Voz de Odin e Representante do Deus Maior na Terra, não acordou um momento sequer por aqueles dias; após uma breve conversa à beira de sua cama com a irmã, ela fechou os olhos e desmaiou em um estado de torpor profundo amargando pesadelos terríveis, absolutamente esgotada depois de ter sido possuída pela força do Anel de Nibelungos e perdurado tanto sofrimento quanto naqueles dias. Freia ficava ao seu lado tanto quanto podia no Palácio Valhalla, junto ao curandeiro-mestre.

June cuidava de Hagen na ausência de Freia, também atormentado pelo Golpe Fantasma de Ikki, enquanto os demais Cavaleiros de Bronze atendiam aos seus ferimentos e ausências, pois fazia já um bom tempo que não se viam. Seiya e Lunara compartilharam todas as aventuras que vivenciaram pelos Sete Mares com os amigos, com o máximo de detalhes e, talvez, certos exageros.

E embora Hyoga tivesse seus amigos ao seu lado, ainda lhe pesava no peito a culpa de ter sido enganado por Alberich, destruído aquela Relíquia mesmo após ter tido a grande honra de segurar nas mãos a Espada Balmung.

— A Relíquia seria destruída de um jeito ou de outro. — falou Freia certa vez, ao flagrá-lo novamente cabisbaixo próximo à lareira do casarão. — O Anel jamais sairia da mão de minha irmã, senão por sua destruição. Nenhum poder do Mundo além da Espada Balmung seria capaz de quebrar seu feitiço. E nenhum poder do Mundo seria capaz de vencer Hilda com aquele Anel. Era uma situação sem solução. A partir do momento que Hilda colocou aquele Anel no dedo, a Relíquia não poderia nunca mais ser selada.

— Mas se eu soubesse…

— Você não sabia. — adiantou-se Freia. — Ninguém sabia.

— Alberich sabia. — respondeu Hyoga, novamente sentindo-se enganado.

Freia olhou fundo para ele.

— Sim. Alberich sabia. — ponderou ela.

— Alberich também sabia que fomos feitos todos de idiotas. Inclusive ele mesmo. Essas foram suas últimas palavras antes de morrer.

— Alberich era um Conselheiro extraordinário. Melhor do que ninguém, ele sabia muito bem jogar com as pessoas. Agradar. Manipular, dissuadir, persuadir. Ele era tudo menos um guerreiro. Uma mente realmente brilhante. Pra ele ter sido enganado…

— Somente uma mente ainda mais brilhante do que a dele.

Freia olhou de volta para Hyoga, ambos confusos, mas aflitos de existir alguém tão ardiloso como Alberich ainda nas sombras.

— De todo modo, Hyoga, eu irei descobrir toda a verdade. — assegurou Freia, aproximando-se dele.

— O que quer dizer com isso? — surpreendeu-se Hyoga.

— Há muitos presentes de Odin na Caverna de Surtr. Um deles nos contará a verdade. Mas para que isso aconteça, minha irmã Hilda precisa estar novamente de pé e saudável.

— E como ela está?

— Melhor a cada dia, mas ainda muito, muito fraca. Andreas, o curandeiro-mestre de Valhalla, está cuidando dela.

A conversa entre os dois naquela cozinha de madeira foi interrompida pelo rosto doce de Shun, que surgiu pela porta anunciando a presença de guardas palacianos do lado de fora. Freia adiantou-se e, juntos, saíram para o lado de fora onde Seiya, June e Lunara já os esperavam.

— Princesa Freia. — começou o guarda. — Os preparativos da embarcação já estão finalizados.

— Muito obrigado, Einar. — e então virou-se para os Cavaleiros de Atena. — Vamos.

Deixaram todos o casarão de Freia e caminharam até o porto de Asgard, que situava-se no extremo-sul da cidade-baixa, que era o local em que Seiya agora lembrava-se de terem sido enganados pelos Guerreiros Deuses e levados às masmorras. Atravessaram os pátios da cidade-baixa por onde Freia era saudada pela população que parecia viver seus melhores dias em muitos anos, com o frio muito menos intenso e alguns milagres particulares, como o retorno de alguns animais na floresta-baixa, o que permitia a caça pelos homens mais velhos.

Até o mar parecia tranquilo e os blocos de gelo à distância pouco se moviam, ao contrário da animosidade que havia no oceano alguns dias antes. Geist supervisionava os preparativos finais no porto, embora os estivadores de Asgard fossem muito habilidosos e conhecessem o mar tanto quanto seus amigos corsários de Tortuga. Shaina observava à distância os preparativos, coberta de ansiedade para retornar ao Santuário; Geist encontrou-a perdida em pensamentos quando se aproximou da amiga.

— Eles já devem estar a caminho.

Shaina não respondeu.

— Eu ainda acho que seja mais prudente que eu vá junto, Shaina.

— Não. Eles precisam de você aqui. — retrucou ela, finalmente, como se saísse de um transe. — E além do mais, não deve ser a coisa mais difícil do mundo navegar daqui até a Grécia. Se você consegue, eu tenho certeza que posso também.

A provocação não era incomum entre as duas em tempos mais tranquilos mas, naquele momento, Geist sentiu que havia algo errado com a amiga.

— Porquê veio para Asgard, Shaina?

Ela olhou de volta para a amiga e tentou esconder seus sentimentos desviando o olhar para o mar.

— Deveria usar uma Máscara de Cavaleira se quisesse esconder algo de mim. — falou Geist, em um tom sério que Shaina debochou por um instante antes de responder.

— Era preciso alertar os Cavaleiros sobre a Sombra de Sid.

— É uma imprudência que o Santuário tenha enviado sua Mestre-de-Armas em um tempo de crise. Poderia ter mandado algum outro dos Cavaleiros de Prata.

— Não há ninguém em quem podemos confiar.

— Fale a verdade para mim, Shaina. — tornou Geist, ao ver que a amiga fazia rodeios sem conseguir enganá-la. — Teve aquele sonho de novo?

Shaina finalmente quebrou a postura e olhou de volta para Geist, confirmando as suspeitas da amiga; mas Shaina voltou a apoiar-se no corrimão para olhar os preparativos no porto.

— Fazia anos que ele não aparecia. — falou Shaina apenas para a amiga. — E agora já é a segunda vez em semanas que sonho a mesma coisa.

— E ele falou alguma coisa dessa vez?

— Não. Como sempre.

Geist notou que Shaina tomou um tempo maior para responder. Achou estranho.

— O homem de luz. — refletiu Geist, olhando para o horizonte gélido de Asgard. — Lembro o quanto ficava desesperada no quarto.

— Cale a boca, já está exagerando. — reagiu Shaina.

Mas a verdade era que Geist não exagerava, pois lembrava-se bem do quanto aquilo intrigava a jovem aspirante a Cavaleiro no minúsculo quarto que dividiam no Santuário; de quantas vezes levantava-se sobressaltada à noite e ela própria, mais jovem, acudia a amiga no quarto. E no exílio, não era raro que um corvo da noite trouxesse uma carta curta de Shaina direto do Santuário para ela, onde lhe relatava ter sido visitada novamente pela estranha figura. E então meses se passavam sem que nada acontecesse, apenas para ela ser visitada novamente uma noite aleatória do ano.

Geist colocou a mão no ombro da amiga, preocupada, e Shaina deixou sua postura se desanuviar por um instante devolvendo à ela um olhar de ternura quase incompreensível. Então Shaina olhou por sobre os ombros de Geist e seu semblante novamente endureceu como a Mestre-de-Armas que era.

— Isso não importa. — falou Shaina com força. — Lá vêm eles. É hora de partir.

As duas entreolharam-se. Não havia espaço para grandes demonstrações entre elas, mas elas encontravam nos olhos de cada uma toda a consideração e compreensão que precisavam. Geist tinha certeza absoluta que Shaina chegaria à Grécia navegando sozinha, nem que para isso ela precisasse bater em todos os portos do mundo antes de acertar.

— Não esquece do vento. — alertou Geist uma última vez.

Shaina assentiu e então as duas desceram pelas escadas para esperar o grupo que chegava ao lado do barco. E assim que Seiya e os demais apareceram na amurada do porto, viram já na água uma escuna portentosa preparada para quem partia. Todos pararam diante das duas Cavaleiras de Prata e foi Shaina quem deliberou suas últimas ordens naquela terra gelada.

— Geist ficará em Asgard e coordenará a defesa desta Terra até que as próximas ordens do Santuário sejam enviadas.

Todos assentiram sem uma única palavra.

Shaina deu as costas para todos e embarcou na bonita escuna.

Geist olhou de volta para aquele grupo de maltrapilhos Cavaleiros de Bronze e ajoelhou-se perante Lunara, segurando seus ombrinhos com as mãos fortes de Capitã.

— Tenente Lunara. — começou gravemente. — Você é brilhante e fantástica, menina.

A pequena quebrou o decoro e abraçou sua Capitã o mais forte que pôde, deixando-a desconcertada.

— Volte em segurança, Lunara. — pediu a Capitã, levantando-se finalmente.

Seiya então se ajoelhou para a pequena, a beijou na bochecha e lhe deu um longo abraço apertado; arrumou as mangas de seu casaco de pele na pequena e fez uma promessa:

— Logo eu tô de volta, viu.

— É bom mesmo. Se cuida, Seiya, que eu sei que você sempre acaba se machucando.

— Não exagera, Luna. Pelo menos dessa vez eu acho que ninguém vai me envenenar.

— Ei!

— E se eu me machucar, sei que você vai cuidar de mim quando eu voltar. Você e a June.

— Com uma injeção enorme!

— Agulha não! — protestou ele fazendo ele e a pequena rir.

Abraçaram-se novamente.

— Vou voltar inteiro dessa vez.

— Mentiroso.

Ele riu e a abraçou novamente.

— Tchau, Lunara. Até logo.

— Até, Seiya.

E a pequena garota seguiu despedindo-se de cada um deles antes de entrar na escuna para seguir viagem com Shaina de volta à segurança do Santuário da Grécia. Mas antes que ela entrasse na escuna, entrou outra pessoa para se despedir de Shaina.

— Ei. — chamou ele e a garota pareceu se desconcertar ao vê-lo ali.

— O que quer aqui? — respondeu ela, ríspida, olhando de volta para o mar.

— Vim me despedir, Shaina.

— Veio perder seu tempo.

Seiya reconhecia que ela estava absolutamente furiosa, talvez consigo mesmo, ao descobrir um traidor em suas frentes. Mas ela se dedicava muito, tanto quanto qualquer um deles e Seiya aprendeu a reconhecer isso.

— Tome. — estendeu ele um pedaço de carne ressecada. — Vai te ajudar no enjôo da viagem.

— Cale a boca, Seiya. — reagiu ela, irritada.

— Também é bom não ficar com os olhos fixados dentro do barco. Tente olhar para o mar, isso diminui a sensação de náusea.

Shaina ficou um tempo sem lhe responder e sem olhar para ele, mas acabou tomando a carne ressecada que ele havia lhe estendido de maneira ríspida.

— Agora sai daqui.

Seiya sorriu e voltou a ficar ao lado de seus amigos, não sem antes se despedir dela.

— Até logo, Shaina.

Ela não respondeu. O coração acelerado.

E logo eles viram a embarcação ser solta do cais e finalmente ganhar um pouco de distância deles sob muitas despedidas ao longe. Mas mesmo ao longe, Seiya escutou a voz de Lunara bradar aos ares:

— Diário de capitã. Eu sou a Capitã Lunara!

— Cala a boca, menina!

O garoto experimentou rir pela primeira vez com June ao seu lado, e até mesmo Geist parecia satisfeita ao ver que Lunara ia fazer da vida de Shaina um inferno dali até a Grécia.

Notas finais
SOBRE O CAPÍTULO: O resultado da batalha e a tristeza de Asgard diante da manipulação dos Marinas de Poseidon. Eu queria dar um encerramento para a fase de Asgard, enquanto colocava os elementos importantes para o próximo passo dos Cavaleiros, além de jogar Hyoga no fundo de uma tristeza que pode voltar contra ele lá na frente. Seguimos. PRÓXIMO CAPÍTULO: A FÚRIA DAS ÁGUAS O renascimento de Poseidon traz caos para o planeta.