Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda de Seiya
133 A Sombra de Kanon
O céu-de-mar por todo o Reino de Poseidon estava a poucos metros de distância do chão, de modo que as ondas quebrando no ar precipitavam gotas em forma de uma chuva fina que caía por todo o lugar. No templo do Oceano Ártico, os corpos de Cassandra e Seiya estavam a alguns metros um do outro, ela morta e ele ainda lutando por sua vida. Sombras de um cardume apareceram no pátio, pois um grupo de sereias e tritões rodeavam o local pelo céu. Uma meia dúzia de homens e mulheres armados de proteções feitas de corais e conchas saltaram do céu-de-mar e pousaram no pátio acidentado do Templo.
— Por Poseidon, quanta destruição! — assombrou-se uma mulher entre eles com tristeza nos olhos.
Ela não chamava a atenção para nada em particular, pois para qualquer lado que olhassem veriam destroços daquele bonito templo do Oceano Ártico. As pedras acumuladas das pilastras simples do pátio, bem como os colossais blocos de concreto claro do Pilar derrubado.
— Apenas o Pilar Fundamental está de pé. — falou outro olhando para todos os lados do horizonte e notando a ausência dos demais.
— A presença de Vossa Profundidade parece vacilar. Vejam as ondas no céu. — apontou uma para o quebrante de ondas próximas do chão com certa violência, gerando uma precipitação salgada que quase podia se confundir à uma garoa oceânica.
— Kaven! — chamou um rapaz mais ao longe do grupo. — Veja, é um Marina!
O grupo correu até o corpo estendido de Cassandra e amontoou-se próximo à ela; alguns tocaram em sua Escama enquanto uma mulher analisava a extensão de seus ferimentos.
— Está morta. — concluiu, com dor nos olhos.
— Veja sua proteção. — falou outro, levantando com delicadeza e receio o elmo rachado de Cassandra. — É Oricalco. Exatamente como se dizia nos Contos Antigos.
— Igual à proteção de Dragão-do-Mar. — emendou outra, aproximando-se deles.
— E mesmo assim parece ter sido vencida. Como isso é possível?
— Os Guerreiros Deuses do Norte são tão poderosos assim? Capazes de rachar o metal antigo de Atlântida?
— Olhe, Kaven! — alertou a mesma mulher para o tritão, que parecia ser o líder.
O corpo de Seiya estava a alguns metros dali e todos colocaram-se em alerta, pois aquele parecia ter sido o responsável pela morte da Marina. Kaven pediu que se afastassem e ele mesmo caminhou com cuidado até o corpo do garoto; ajoelhou-se ao seu lado e viu o ferimento que tinha no baço, enrolado por um tecido embebido em sangue. Tirou a proteção tosca de coral de seu punho e colocou a mão na testa de Seiya.
— Está fervendo. — disse ele, e então gritou para seu grupo. — Ainda vive!
Ao escutar essas palavras, colocaram-se todos em guarda e ajeitaram suas proteções marinas; Kaven, que respirava fundo e com cautela, levou sua mão para tocar o metal claro do guerreiro vencido, mas antes que chegasse à Armadura de Pégaso ela foi impedida com violência por um chicote poderoso.
— Tire as mãos dele! — anunciou a voz de alguém próximo aos escombros do Pilar.
Olharam todos para a dona da voz e viram uma garota vestindo uma bonita Armadura púrpura, de miçangas amarelas nos cabelos e um chicote de bronze nas mãos; ela segurava o punho de Kaven, evitando que ele tocasse em Seiya. Com força, ela puxou o homem para que fosse jogado para longe do amigo e então correu para ficar entre o corpo dele e os marinas menores.
— Μια Πολεμίστρια Θεά του Βορρά!! — gritou uma garota ao lado de Kaven, que agora se levantava. June entendia basicamente o idioma e compreendeu o restante que falavam entre si.
— Então é mesmo verdade. — concluiu Kaven, entredentes, e dirigiu-se à June em postura desafiadora. — Asgard decidiu trair Poseidon e enviou seus Guerreiros Deuses para invadir o Reino do Mar pela antiga Ponte dos Mundos.
June achou estranho e respondeu prontamente.
— Eu não sou nenhuma Guerreira Deusa. — respondeu ela com a voz forte, em grego, suspeitando que algo ali não parecia certo. — Eu sou June de Camaleão, uma Cavaleira de Atena!
— Atena!? — perguntaram-se vários ao redor de Kaven.
Imperou certo silêncio naquele impasse, durante o qualJune olhou ao redor e percebeu os sinais da destruição e uma sensação angustiante tomar seu corpo.
— Asgard uniu-se ao Antigo Santuário da Grécia, Kaven. Isso é muito pior do que imaginávamos. — falou um dos rapazes para o líder, deixando escapar certo desânimo na voz.
O líder Kaven imediatamente olhou às suas costas para as sereias e tritões que mantinham sua postura corajosa.
— Não importa. Temos que fazer a nossa parte. Nossa missão deve prosseguir. Em nome de Poseidon!
— Por Poseidon! — concordaram todos em uníssono.
O grupo de meia dúzia avançou para cima de June, mas com seu chicote de Bronze e seu treinamento a Cavaleira June saltou sobre todos e rapidamente os derrubou como em uma coreografia em que os Marinas menores eram meros coadjuvantes de uma dança. Suas proteções feitas de conchas e corais se reduziram à areia e ficaram todos desacordados no chão ao redor dela. Logo que neutralizou aquele grupo e viu seus corpos caírem e não se levantarem mais ela se desarmou e correu até o corpo do amigo chamando por seu nome.
Ajoelhou-se ao lado dele e percebeu sua respiração muito leve.
— Está vivo. — concluiu ela, com alívio na voz.
Inspecionou o corpo e viu que ainda vestia sua Armadura de Pégaso, intacta, mas tinha um tecido amarrado no baço todo embebido em seu próprio sangue. Olhou ao redor e não podia acreditar que aqueles guerreiros simples fossem capazes de dar qualquer trabalho a um guerreiro como Seiya. Procurando ao redor, finalmente viu um pouco além dos corpos dos Marinas o brilho de oricalco da Escama de Cassandra. Ela parecia diferente dos demais.
— Deve ter se sacrificado para vencer aquela guerreira. O que será que está acontecendo aqui? — perguntou-se ao notar a destruição no Templo.
Ao longe, sentiu no cosmo e nos ecos do Reino os clangores de uma batalha que ainda acontecia. Passou pela sua cabeça que os Cavaleiros de Atena ainda lutavam. Provavelmente contra Saga, aquele homem terrível contra quem já haviam lutado antes.
— Será que já sabem? — perguntou-se ela em voz alta.
Antes de partir, no entanto, ela decidiu dar uma atenção maior ao amigo, pois embora o ferimento no baço tivesse sido contido, as habilidades de Shun em nada se comparavam às dela, de modo que embaixo de seu corpo ainda havia uma poça de sangue misturado à água do oceano que caía.
— Perdeu muito sangue. Se continuar assim ele vai entrar em choque e pode até mesmo morrer nesse lugar. — concluiu ela o óbvio e colocou a mão em sua testa. — Seu corpo ainda está lutando. Droga, Seiya.
Rasgou uma parte da roupa que trazia e refez o curativo, agora com mais habilidade e eficácia do que o anterior; mais do que isso, June queimou seu Cosmo e envolveu o corpo de Seiya com seu chicote, passando a ele algum tipo de conforto em sua catatonia. Sua mão direita, ela delicadamente colocou em cima do ferimento e o fez cauterizar de vez às custas de sua própria energia. Achou estranha a natureza daquele ferimento, pois era diferente de tudo que ela estudava. Era, na verdade, muito mais simples.
— É profundo, mas comum. Como isso pode ter acontecido? — perguntou-se ela olhando de Seiya para aquela Marina.
Antes que pudesse compreender, sua atenção foi atraída por outra explosão de Cosmos ao longe; June calculou que aquela batalha parecia estar chegando ao fim. E na entrada daquele templo destruído à céu-de-mar aberto, ela viu mais duas figuras moribundas caminhando na sua direção. Usavam a mesma proteção brilhante que aquele corpo estendido no meio do pátio. Colocou-se outra vez em guarda e gritou logo para eles, ainda em grego.
— Quem são vocês?
A dupla parou por um instante, mas um deles logo respondeu, em língua-comum.
— Eu sou Sorento de Sirene e esse é Isaac de Kraken. Somos Generais Marinas de Poseidon.
— Não se aproximem! — ordenou June, queimando seu Cosmo e colocando-se novamente à frente de Seiya.
— Uma Cavaleira de Atena. — balbuciou Isaac para Sorento, para que somente eles pudessem ouvir. Aquele cosmo era inconfundível para ele, afinal de contas ressoava como aquele de seu mestre e de seu irmão.
— Mas do lado de quem? De Atena ou de Kanon? — perguntou Sorento, também baixo.
June percebeu que falavam entre si sem que ela pudesse ouvir, de modo que ficou ainda mais desconfiada com tudo. Olhou ao redor procurando alguma armadilha, talvez a mesma que tivesse derrubado Seiya.
— Por quem você luta, Cavaleira de Atena? — perguntou Sorento, finalmente. June estranhou.
— Ora, por quem mais uma Cavaleira de Atena lutaria?
— Há muitos que lutaram pelo Cavaleiro de Gêmeos. — falou Isaac para ela e June sentiu sua espinha gelar.
Não soube disfarçar a surpresa que sentiu ao ver que aquelas duas figuras desconhecidas sabiam da Crise do Santuário; como uma imagem de mau agouro, lembrou-se do rosto de Saga na visão do Olho de Munín. Se ali falavam abertamente de Gêmeos, era porque já sabiam de seu envolvimento. Parecia temido até mesmo pelos Marinas de Poseidon.
— O que querem dizer com isso? — perguntou ela, cedendo à confusão, e Sorento não hesitou em lhe responder.
— Um de seus Cavaleiros de Atena envenenou o Reino de Poseidon com sua ganância e causou a morte de muitas pessoas. De modo que eu lhe pergunto novamente, de que lado você está, garota?
A Cavaleira de Camaleão hesitou. Aqueles guerreiros moribundos falavam de Saga, de modo que ele parecia mesmo ter trazido destruição também para o lado de Poseidon, talvez até mesmo àqueles dois. Apertando os olhos, ela percebeu uma certa familiaridade com um dos Generais; desarmou a guarda e baixou seu chicote, pois debaixo daqueles ferimentos, da armadura rachada e os cabelos úmidos, ela lembrou-se do olhar bonito de Sirene.
— Eu me lembro de você. — falou ela. — Você é Sorento, não é?
Sorento olhou para Isaac, surpreso, e então de volta para ela. E finalmente também pareceu lembrar-se de quem ela era.
— A Ilha de Fukushima. Você estava naquela expedição. Estava junto do Capitão Kaire.
Ela confirmou e Sorento falou para Isaac ao seu lado.
— Uma expedição em nome de Atena visitou todas as Civilizações dos Mares na superfície para selar as Relíquias de Poseidon. Essa garota estava na expedição que eu recepcionei no oriente.
— Ela parece jovem. — observou o rapaz.
— Jovem como eles. — falou Sorento olhando para Isaac.
Aproximaram-se de June finalmente com a certeza de que ela estava ao lado daquelas crianças aguerridas e não daquele louco sujeito que havia tramado para enganar Deuses e homens. Enquanto caminhavam, tanto Sorento como Isaac viam o conglomerado de Marinas menores que haviam sido vencidos por June; Sorento lamentava e sabia que eram mais vítimas de Kanon.
Um deles segurou Isaac pelo pé enquanto caminhava; era Kaven, e sua voz dolorida balbuciou para eles.
— Não se deixem enganar, Generais. — pediu ele, de coração. — Ela vem de Asgard. Ela veio da Ponte.
— De Asgard? — perguntou-se Isaac, olhando para June.
Sorento ajoelhou-se perto de Kaven e tomou sua mão enquanto ele sofria; sua voz vacilante, mas corajosa, continuou falando.
— O General Dragão-do-Mar nos falou que isso poderia acontecer. Que Asgard tentaria invadir o Reino de Poseidon. E que os Pilares dos Oceanos seriam atacados. E se eles caíssem, era um sinal de que os Generais haviam sido derrotados. De modo que assim como o Reino foi atacado, era nossa obrigação levar a guerra até Asgard também. Em nome de Poseidon e da Vida nos Mares.
Sorento e Isaac entreolharam-se com a certeza das mentiras por trás das palavras de Kanon.
— O que poderiam fazer? Jamais teriam qualquer chance. — falou Sorento com dor no coração olhando para os demais tritões e sereias que se espalhavam naquele campo de batalha. — Por quê?
— Muitos outros virão. — falou Kaven com dificuldades. — Muitos já estão navegando em direção do Mar do Norte. Asgard será atacada. E era nosso dever fazer nossa parte. Nós passamos nossas vidas olhando de longe o maravilhoso Reino de Poseidon. Muitos de nossos antepassados atravessaram suas vidas inteiras esperando o Despertar para que pudessem cumprir seus destinos ao lado de Poseidon. É a Sua Vontade que mantém as águas que nos dão vitalidade e sustento. É o mínimo que podemos fazer para que sua Profundidade não desapareça. Quando lutamos por Poseidon, lutamos por todos nós.
Isaac olhou de volta para June que, de onde estava, podia escutar o relato de Kaven; seu coração amargou uma dor que ela não esperava sentir naquele momento. Percebeu ao seu redor, na verdade, que a extensão dos ferimentos que aquele destacamento experimentava era muito maior do que a força que ela havia colocado em seus golpes. Eles eram muito mais fracos do que ela imaginava.
A Cavaleira de Camaleão aproximou-se de Kaven lentamente, e nem Sorento nem Isaac a impediram. Ela se ajoelhou diante do homem, que recuou de medo dela como podia nos braços de Sorento. Ela olhou para o General de Sirene com ternura e lágrimas nos olhos.
— Deixe que meu Cosmo ao menos alivie a sua dor. — falou ela de coração, e Kaven olhou para Sorento, que limpou sua testa e assentiu com doçura.
June ardeu seu Cosmo quente e eliminou a dor do corpo de Kaven, sem ser capaz, no entanto, de interromper o que o matava por dentro; ela sabia que o homem estava condenado e sentia-se terrivelmente culpada por isso.
— Me desculpem. — começou ela com a voz vacilante, olhando para os corpos ao redor naquele templo. — Eu não quis acertá-los com força. Tudo que fiz foi para deixá-los no chão, mas…
— Eles não são guerreiros. — falou Isaac para ela. — Suas proteções são rudimentares e nenhum deles parece ter qualquer preparo para isso. Achou que encontraria aqui guerreiros de Poseidon, mas esses eram apenas jovens tritões e sereias sonhadores.
— E mesmo assim decidiram me atacar. Decidiram se juntar e invadir Asgard. — comentou June, com assombro.
— Isso não é culpa sua. — falou Sorento, com raiva no peito. — Isso é obra de Dragão-do-Mar, Kanon de Gêmeos.
— Quem? — perguntou June, surpresa.
— Kanon de Gêmeos. — repetiu Isaac para ela. — Ele é irmão do antigo Cavaleiro de Gêmeos do Santuário, Saga.
— Um irmão gêmeo? — refletiu ela olhando para o chão, lembrando-se do rosto que havia visto na memória do Olho de Munín, bem como suas lembranças no Barco de Atena.
Tudo agora fazia sentido e a atenção dos três foi direcionada para outras explosões na direção do único pilar ainda de pé.
— Os Cavaleiros de Atena estão no Templo lutando contra Poseidon. Querem resgatar Atena, mas o tempo está se esgotando. — observou Sorento olhando para longe.
— Espere, Cavaleira! — pediu Isaac assim que June deu alguns passos naquela direção.
Sorento olhou para o General e ele seguiu falando com muita seriedade para ela.
— Se veio mesmo de Asgard, então você é a única chance do povo do Norte não ser dizimado pelo exército de Poseidon na superfície.
— Eu sou uma Cavaleira de Atena. Não uma Guerreira Deusa.
— Me escute, Cavaleira de Atena. — começou Isaac, muito sério. — Eu sou o General do Oceano Ártico e conheço Asgard. Sei que o Povo do Norte passa por uma privação terrível e sofrem com a fome por mais de uma década. — adicionou ele, para surpresa até mesmo de Sorento. — Suas forças de defesa não existem mais; se ao menos os Guerreiros Deuses estivessem vivos, talvez não fosse necessário fazer qualquer coisa, mas Hyoga, o Cavaleiro de Cisne, me contou sobre a tragédia que se abateu sobre Asgard.
— Hyoga? — surpreendeu-se ela.
— Sim. O Cavaleiro de Cisne é um irmão que fiz na Sibéria ainda quando éramos mais jovens. A vida nos colocou em caminhos diferentes, mas aqui nos reencontramos e por ele eu soube tudo o que aconteceu na superfície. Não há ninguém em Asgard que seja capaz de defender a Cidade-Baixa ou sequer de evitarem que invadam o Castelo Valhalla se a Voz de Odin decidir acolher todo seu povo dentro de seus muros fortificados.
June escutava com os olhos aflitos.
— Talvez você imagine que os poucos sentinelas de Valhalla possam dar conta de tritões e sereias como esses que você venceu. Mas escutou o que Kaven disse. Há outras Civilizações dos Mares que podem ter caído nas histórias de Kanon e que podem estar chegando em breve nos portos da Cidade-Baixa. — falou Isaac e então olhou para Sorento ao seu lado. — Os Ilhéus Sombrios de Yakushima, os Corsários de Tortuga, os Fandita Giraavaru, entre outros.
— Você disse que conhece Asgard. — sugeriu June, sutilmente, mas Isaac refletiu rapidamente.
— O que acha que aconteceria se dois Generais Marinas como nós surgirem do outro lado da Ponte Bifrost para alertá-los de uma invasão que ainda está para acontecer? Uma invasão de Poseidon.
— Eu tenho certeza de que Freia e Hilda irão escutá-los se falarem a verdade.
— Está disposta a apostar a vida de todos eles? — perguntou Isaac, friamente para ela deixando June com uma péssima sensação.
Isaac seguiu falando em seu tom neutro.
— Eu posso sentir o seu Cosmo. A verdade é que você está muito longe da força de qualquer um dos Cavaleiros de Atena que passou por aqui.
Ela sentiu-se ofendida e olhou finalmente para os olhos de Isaac.
— Está falando que não sou capaz de ajudar nesta batalha?
— Sim. — emendou Isaac imediatamente. — Mas poderá salvar o Povo de Asgard. Pode marchar até Poseidon e não fazer nenhuma diferença, ou pode nos escoltar até Valhalla e salvar Asgard.
O General de Kraken era direto e dispensava meias-palavras; June viu-se novamente diante de um dilema, mas ao olhar para Seiya e sentir o Cosmo dos amigos no horizonte, ela lembrou-se da tarefa que deixou para trás para estar ali: o de alertar o Santuário de que Saga havia retornado. Pois agora, se aqueles Marinas estivessem falando a verdade, Saga tinha um irmão gêmeo chamado Kanon, que permanecia vivo e interessado em retornar à glória de seu antigo irmão. O Santuário precisava saber daquilo.
Decidiu finalmente por retornar à Asgard. Mais do que isso: estava segura de que seu destino era o Santuário de Atena.
— Como sabe que estamos falando a verdade? — perguntou Sorento para ela, fazendo com que June parasse por um instante.
A pergunta pairou no ar, mas foi Isaac quem respondeu por ela.
— Ela pode não ter qualquer chance na batalha contra Poseidon, mas rapidamente percebeu que nós não temos qualquer condição de enfrentá-la no momento, Sirene. Se pisarmos em falso, ela mesmo vai nos colocar nos calabouços de Asgard.
Sorento olhou de Kraken para ela. June, no entanto, adicionou com confiança para os dois:
— Não é só isso. Eu também posso sentir o cosmo do Cavaleiro de Pégaso. A Deusa Atena vai ser salva.
E então disparou na direção do Pilar de volta para Asgard. Sorento e Isaac, com dificuldades e apoiando-se um ao outro, seguiram-na deixando o Reino de Poseidon. Sorento olhou para o Pilar Fundamental uma última vez, como quem se despede de uma tragédia.
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Enquanto a Tempestade parecia rugir debaixo do mar, na superfície tudo parecia inabalável e tranquilo. A madrugada no Santuário, no entanto, continuava tensa no Templo de Atena, bem como nas quedas de Rozan. O Mestre Ancião meditava em frente à cachoeira com seu Cosmo dourado emoldurando seu corpo atarracado. Por todo aquele dia e noite, estiveram os Cavaleiros de Ouro aguardando algum sinal de que a batalha havia se encerrado. Aioria caminhava de um lado a outro no pequeno corredor, observado por Miro, também muito tenso, encostado à uma pilastra.
Aldebarã ficava de pé, perto da entrada, com seus braços cruzados à frente dos dois enquanto Shaka e Mu meditavam próximo à estátua.
— Não precisa ficar de vigia, Aldebarã. — protestou Aioria, parando sua marcha por um instante. — Não vamos fugir.
O grandão não respondeu, pois em via de regra tinha o semblante fixo na amiga que meditava ao lado da Cavaleira de Virgem.
— Voltou a chover. — anunciou Miro, olhando para fora do pequeno templo.
Aldebarã e Aioria imediatamente olharam também para a garoa fina que caía no pátio externo; o Cavaleiro de Leão percebeu que Touro também crescia cada vez mais impaciente. Muito mais do que a chuva repentina, Aioria e Miro aprumaram-se surpresos quando os Cosmos de Mu e Shaka se apagaram e a Cavaleira de Áries olhou para eles confusa, enquanto Shaka, de olhos sempre fechados, ganhou um semblante preocupado. No instante seguinte um Cosmo terrível invadiu aquele pequeno Templo de Atena.
Um Cosmo quase divino.
Até mesmo o Mestre Ancião sentiu aquela presença nos Cinco Picos Antigos, como se estivesse mesmo conectado à todos eles. Colocaram-se todos em alerta, mas Shaka os confortou.
— Não está aqui. — falou ela, com gravidade.
— Shaka… — começou Mu, mas a Cavaleira de Virgem logo seguiu.
— Sim, é o dono do Cosmo que sentimentos na Casa de Aquário. Lá sentimos apenas migalhas de sua presença, mas agora…
A palma dourada de Shaka brilhou com seu Cosmo, como se tentasse decifrar aquela presença.
— O que é isso? — alertou Miro para o alto.
O teto do Templo de Atena, antes escuro, deu lugar à uma miragem fantástica: um oceano revoltoso. E logo todo a realidade ao redor deles alterou-se para um lugar destruído e mágico. Estavam em uma praça central vazia, o oceano no céu e uma fonte de águas paradas abaixo, como se estivessem sentados em um trono acima das águas da fonte.
— O que é isso? Onde nós estamos? — perguntou Aioria.
— Não estamos em lugar nenhum. — respondeu Mu. — Não saímos do lugar. Continuamos no Templo de Atena.
— Isso é uma ilusão? — perguntou Aioria para Mu, embora esperasse a resposta de Shaka. Ela respondeu.
— Também não. Não é uma ilusão.
A miragem começou a mover-se rapidamente com o cenário saltando para adiante e então disparando em uma direção certeira por uma rua pavimentada que levava até um grande Templo onde se erguia um pilar colossal da parte de trás. As imagens passavam em um ritmo cadenciado e familiar.
— O que está acontecendo, Mu? — perguntou Aldebarã, confuso ao ver que a projeção oscilava de um lado para o outro.
— Amigo, eu não sei. Não sou eu que está controlando isso. Mestre Ancião, está vendo isso também?
— Sim, Mu, Cavaleiros de Ouro. — respondeu ele de longe em seus Cosmos.
— Mas o que diabos está acontecendo aqui? — protestou Aioria ao notar no canto superior daquela projeção, um enorme Pilar rasgando o céu.
— É o templo de Poseidon. — anunciou Miro com certeza na voz. — Lembro-me das colunas do Cabo Súnion. São exatamente iguais às construções desse lugar.
— Eu já entendi. — adivinhou finalmente Shaka. — Estamos enxergando através dos olhos de alguém que está lá. Neste exato momento.
— Alguém entrou em contato com nosso Cosmo e está nos permitindo enxergar a batalha.
— Mas quem será?
Mu olhou para Shaka, que teve um calafrio.
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Com a queda da máscara de cobre, Julian pareceu entrar em uma espécie de torpor, de modo que sua presença e seu Cosmo magnânimo haviam desaparecido do Salão do Trono. Alice procurava recuperar o fôlego do último ataque e finalmente baixou o Arco.
— Conseguimos? — perguntou Hyoga e Shiryu confirmou ao seu lado em silêncio.
— Vamos, Alice. — chamou Shun colocando-se ao seu lado.
O grupo caminhou junto, mas de forma cautelosa para a saída do Salão que levava para o Corredor das Águas; receosos de que aquela figura sentada no trono voltasse a acordar para atacá-los novamente. Como se caminhassem na ponta dos pés para não acordar um monstro que dormia, eles passaram ao lado do rapaz desacordado e, somente quando já tinham passado por seu trono foi que finalmente tomaram coragem para correr até onde precisavam estar: o Pilar Fundamental.
Alice ia à frente do grupo e logo eles cobriram toda a distância que separava o Salão do Trono até as escadarias do lugar em que Saori sofria. Subiram os primeiros degraus que levava até um enorme portão trancado no Pilar Fundamental e então saltaram logo para chegarem diante daquele colosso. Quando subiram os últimos degraus e viram-se diante do enorme portal, os Cavaleiros pararam, pois outra pessoa parecia fazer de tudo para entrar. Alice a reconheceu imediatamente.
— O que está fazendo agora, Tétis?
A Sereia com sua escama vermelha toda quebrada olhou por sobre os ombros para Alice e o grupo, mas não respondeu de volta. Voltou a socar o portão de pedra com ainda mais força, machucando suas mãos delicadas. As mãos de alguém que estava longe de ser uma guerreira.
— Saia da nossa frente. Nós vamos derrubar essa porta. — gritou Alice às suas costas.
Tétis olhou para ela e, ao fundo do Corredor dos Mares, percebeu no Salão do Trono como a batalha parecia ter se encerrado.
— O que aconteceu? O que fizeram com ele? — havia dor nos olhos da menina.
— Saia do nosso caminho! — vosciferou Ikki.
Shun adiantou-se entre os Cavaleiros e pediu um segundo de calma para eles; subiu os degraus até ela e reconheceu a tristeza nos olhos da menina. O garoto tomou com delicadeza as mãos machucadas de Tétis e a guiou para sair do caminho dos Cavaleiros de Atena, sem que ela oferecesse qualquer resistência, paralizada com a ideia de ter perdido seu melhor amigo.
— Vamos Alice, atire a Flecha de Sagitário como fez no Pilar de Sirene. — pediu Hyoga, ao ver o caminho livre.
Tétis desfaleceu nos braços de Shun e o garoto precisou se apurar para evitar que ela tombasse no chão; com calma, ele recostou a menina contra um dos pilares que vertiam água naquele corredor e deixou-a descansar calmamente. Ele sentiu o Cosmo ardente de Alice queimar forte mais adiante, mas quando se levantou sentiu a garota lhe segurar o braço calmamente. Ela tinha os olhos semi-cerrados e sua voz saiu fraca, tão fraca que Shun não foi capaz de discernir nada em suas palavras.
— Descanse. — pediu ele e pareceu ter sido uma palavra-mágica, pois os olhos de Tétis fecharam-se.
Como se fecharam também os olhos de Alice, concentrando-se em tudo e deixando seu Cosmo arder ao redor da Armadura; puxou o fio dourado do arco com coragem para mirar contra aquele enorme portão, por onde Saori havia entrado há alguns dias atrás. Ela respirou fundo. Precisava conectar-se novamente à tudo que havia para despertar o Sétimo Sentido e fazer aquela Flecha valer o tiro.
A chuva fina que caía faziam as mechas de seu cabelo invadirem sua vista e também esconderem suas lágrimas; seus braços tremiam de tanta força que ela colocava na corda do arco.
— Por favor, por favor, por favor, por favor, por favor, por favor. — falou ela entre os dentes, lembrando-se de tantos momentos felizes ao lado de Saori.
Seu Cosmo ardente fez seus cabelos balançarem, abrindo a visão clara para o Pilar Fundamental e o enorme portão de pedra. Aquela Flecha havia voltado já tantas vezes contra ela; sentia que seu Cosmo não era suficiente, embora precisasse desesperadamente ser naquele momento. Era inaceitável para Alice viver sem Saori. Ela havia sobrevivido ao atentado de Saga. E agora precisava sobreviver ao atentado de Kanon. Pedindo por um milagre em um grito visceral, ela finalmente atirou a Flecha de Sagitário que voou abrindo uma fenda na chuva e chocando-se violentamente contra o Pilar Fundamental.
O clarão fez com que ela protegesse os olhos, bem como os demais Cavaleiros de Atena. Até mesmo Tétis despertou por um instante. A Flecha de Ouro não havia retornado como havia acontecido antes, a força do seu golpe e o choque contra o concreto mágico daquele Pilar Fundamental fizeram até mesmo a chuva parar por um momento. Mas quando a luz se dissipou, não havia qualquer arranhão no Pilar. O milagre que ela havia produzido anteriormente diante de Sorento não parecia ter se repetido, pois naquele momento era como se nada houvesse atingido aquele alvo maciço. Ainda confusa, Alice finalmente olhou para seus pés e viu a Flecha de Sagitário partida em duas.
Alice foi ao chão de joelhos e os Cavaleiros de Atena todos se assombraram com aquele resultado.
Shiryu não se deixou esmorecer e não perdeu tempo; o Tridente que usara antes, ela arremessou contra o Pilar também, mas o mesmo resultado se produziu: a Arma de Libra simplesmente partiu-se em dois para choque de todos, caindo ao lado dela. E mesmo assim ela tentou de novo; distribuiu as Armas de Libra para Shun e os demais e arremessaram todos ao mesmo tempo com seus Cosmos no limite.
E todas as Armas se quebraram de volta.
— Não é possível. As Armas de Libra que foram capazes de derrubar os Pilares de Poseidon, agora estão se quebrando. — revoltou-se Hyoga, segurando a tonfa partida nas mãos.
Shiryu também olhava para as Armas espalhadas no chão e lembrou-se de seu Mestre; tinha que ter alguma alternativa. Saori não podia morrer ali dentro.
— As três Armaduras de Ouro. — lembrou-se Ikki entre eles, sem desistir jamais. — Vocês precisam tentar reproduzir a explosão das estrelas.
Hyoga e Shiryu se entreolharam, enquanto Shun aproximou-se de Alice, ainda ajoelhada e catatônica.
— Vamos, Alice. Nós precisamos de você.
Ela tinha um pressentimento terrível no peito, mas mesmo assim se levantou outra vez, pois era o que faziam os Cavaleiros de Atena. Shiryu gesticulou no ar uma postura que havia aprendido com seu Mestre, enquanto Hyoga levantou os braços unidos congelando a garoa que caía ao seu redor, os dois foram emoldurados pelo Cosmo de Ouro e olharam confiantes para Alice. Ela se levantou, respirou fundo buscando inspiração naqueles amigos.
Os Cosmos dos Cavaleiros de Ouro se levantaram e suas técnicas foram gritadas no Corredor das Águas criando mesmo uma espécie de vórtex cósmico colossal que, no entanto, também não fez qualquer diferença para aquele concreto mágico. O Pilar Fundamental seguia intacto.
— Tentem de novo! — ordenou Ikki, puxando Shun para ficar ao lado dos amigos.
Tentaram outra vez, mas agora com a adição dos Cosmos Brilhantes em Ouro dos irmãos, que adicionaram ainda mais luz e força à união de todos eles. Mas o resultado foi outra vez o mesmo. Ikki amaldiçoou os céus e partiu sozinha para socar o portão com sua força, logo seguida por Shiryu e Hyoga e até mesmo Shun.
Alice viu-se sozinha observando os amigos irredutíveis à sua frente tentando de tudo; sentiu o gosto salgado na boca de suas lágrimas, que curiosamente parecia diferente da água do oceano que caía ao seu redor. Reconheceu que chorava e que não apenas sentia a precipitação do mar. Olhou ao chão à sua frente e viu as duas partes da Flecha de Ouro de Sagitário. Ajoelhou-se e pegou cada uma das partes com suas duas mãos e chorou o nome de Saori implorando por algum milagre.
Tétis aproximou-se de Alice e olhou adiante para os Cavaleiros de Atena desesperados tentando fazer alguma coisa por Atena.
A fibra com que jogavam suas vidas contra o fogo por alguém como Saori era algo que Tétis tinha uma enorme dificuldade em compreender. Ela lembrava-se dela nas comemorações de Julian desde quando era pequena; lembrava-se das primeiras festas em que ela havia sido convidada, de como maltratava os trabalhadores da mansão, de como mandava e desmandava as poucas crianças romanis que eram convidadas. E em como desdenhava do pequeno Julian que vivia ao seu redor.
— Porque vocês gostam tando dela? — perguntou a Sereia algo que sequer parecia fazer sentido para Alice naquele momento. Naquela gravidade da batalha.
Mas Tétis não era uma guerreira e aquela violência toda fazia menos sentido para ela, do que sua doçura naquele momento de vida ou morte para Alice. A princípio, a Coruja de Atena sequer respondeu, quase sem acreditar na pergunta.
— Vamos, me responda. — insistiu Tétis colocando-se na frente de Alice, que finalmente levantou o rosto para ela. Os olhos inchados de lágrimas.
— Eu… eu não sei. — balbuciou Alice de volta.
— Não sabe? — perguntou Tétis com incredulidade na voz. — Estão destruindo tudo que existe por ela, como pode não saber?
— Ela… eu… Ela é a Deusa Atena. É o nosso dever. — escondeu-se Alice dentro do seu papel de Coruja.
— A Deusa Atena escolheu se sacrificar. Não estão aqui por Atena, estão pela garota.
Alice voltou a olhar para Tétis e viu no seu rosto uma confusão que por vezes encontrava na imagem que a encarava de volta no espelho. E percebeu que talvez aquela pergunta era muito mais para ela, do que para todos os outros. E finalmente respondeu de dentro do seu próprio coração:
— Eu gosto dela. — respondeu respirando fundo, como quem tira uma tonelada de sentimento das costas. — Me sinto em paz ao lado dela.
Tétis parou para ouví-la e mesmo Shun, que fazia de tudo para derrubar o Pilar, escutou as palavras doces de Alice. Não somente ele, mas Shiryu, Hyoga e também Ikki enquanto tentavam usar seus cosmos contra o Pilar.
— Ela é séria. Séria demais. Quase nunca sorri, mas também tem o sorriso mais lindo do mundo. — falou Alice surpresa consigo mesma e chorando as lágrimas na chuva. — Ela sofre tanto.
Shiryu parou de socar por um instante e apoiou a cabeça na pedra também chorando por Saori, lembrando-se de como ela esteve ao seu lado quando ela perdeu a visão. Assim como Shun, lembrando-se das tantas vezes que o recebeu para tratar do desaparecimento de Ikki, que agora estava ao seu lado. Ikki mantinha-se dura, odiando o fato de que Saori havia se sacrificado, ela que era tão corajosa e havia se colocado na frente de Ikki jurando que queria viver do seu modo. Hyoga lembrava-se da doçura de Saori em compreender seus sentimentos por Shoko e mantê-lo sempre informado sobre o paradeiro da garota, sempre garantindo que estivesse bem. Ela tentava, à seu modo, cuidar de todos eles. E agora eles não conseguiam salvá-la daquele destino terrível.
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Kanon chegou ao Templo de Poseidon e logo entrou na escuridão do Salão do Trono; um lugar que ele havia frequentado por muitas e muitas vezes, confidenciando segredos e dividindo conselhos diretamente ao jovem Julian Solo, recém empossado como Deus dos Mares. Olhando ao redor, Kanon percebeu a destruição naquele local e sentiu um enorme calafrio quando viu o corpo de Julian sentado no trono. Parecia desacordado e o Tridente de Poseidon caído ao lado do trono.
O Dragão-do-Mar ainda vestia sua Escama e interrompeu seus passos diante daquela figura paralisada. Percebeu que sua própria respiração havia parado.
— Senhor Poseidon? — tentou ele com a voz firme.
Ninguém lhe respondeu e Kanon respirou fundo. Olhou por sobre os ombros de Julian e viu os Cavaleiros de Atena tentando operar um milagre para destruir o Pilar Fundamental.
— O que foi que fizeram? — perguntou-se ele gravemente.
À tudo isso, os Cavaleiros de Ouro viam dentro daquela miragem que se aproveitava de seus Cosmos, embora nada pudessem ouvir. O General Dragão-do-Mar engoliu em seco e falou como se para si próprio:
— Poseidon está sangrando.
Julian ainda respirava.
Os dedos de sua mão direita despertaram daquele aparente desmaio e foram direto na têmpora, onde lhe doía intensamente a cabeça. Kanon deu um passo para trás. Julian, percebeu o filete de sangue sujando seu rosto e limpou-o com os dedos, manchando sua túnica e mão. Sentiu a ardência de seu próprio sangue.
— Eu sou humano? — perguntou-se balbuciando em aparente confusão.
— Julian. — apresentou-se Kanon diante de Poseidon com a voz forte e corajosa, como quem busca ancorar uma realidade específica nas suas palavras. — É bom vê-lo voltar a si.
— Julian. — repetiu ele. — Julian é o meu nome.
Olhou para o sangue na mão direita, que agora tremia.
— Julian é meu nome. — repetiu ele. — Julian.
Seu próprio nome perdia o sentido.
— Julian é o nome do homem. — a mão suja de sangue ele fechou em um punho forte enquanto se levantou imponente do trono. — Eu sou um Deus.
Um Cosmo assustador finalmente levantou-se e cobriu todo aquele Reino de Poseidon, causando um leve tremor por todos os Sete Mares. Kanon sem perceber, acabou de joelhos diante daquela figura finalmente divina.
— Acabou.
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