Enquanto o planeta recolhia os escombros da profunda destruição que as chuvas causaram pelos quatro cantos do mundo, Asgard parecia abençoada pelo que seus cidadãos consideravam um verão fora de época, um verão-do-norte, como chamavam os mais humildes na praça central; um verão que consistia em breves intervalos de luz do sol, espalhadas em horas longas de um céu branco, mas sem a precipitação de neve ou mesmo do vento cortante das montanhas. Era o suficiente para pregarem que Odin os havia mesmo abençoado e perdoado Hilda por seus pecados naqueles últimos meses.

Uma semana se passou da Queda de Siegfried até aquele dia pacato. Seiya e Geist passavam os dias junto aos jovens e inexperientes estivadores do porto, uma vez que os navegadores e capitães mais velhos haviam sucumbido pela fome conforme os anos se passaram, e os artífices de Asgard também perderam-se para a loucura ou a sede de poder, de modo que o porto precisava mesmo de uma boa manutenção se a Princesa Freia quisesse voltar a figurar nas rotas de comércio da região, tirando aquele país da mais profunda miséria e abandono.

Sentado na proa de um casco carcomido pelo tempo, Seiya observava o horizonte gélido daquela região salpicado de blocos de gelo que chocavam-se à distância.

— Seu uniforme está rasgado, tenente. — Seiya olhou para trás e encontrou Geist com seu sobretudo igualmente destruído.

— Tenente? — perguntou ele, franzindo o cenho.

Ela apenas assentiu com a cabeça e Seiya devolveu o sinal de maneira séria, reconhecendo sua repentina e surpresa promoção com uma certa etiqueta; ele voltou a olhar para os blocos de gelo no horizonte e Geist aproximou-se dele. Ela percebeu, mais perto do menino, que Seiya sorria ou parecia segurar um riso frouxo.

— O que é engraçado, Seiya?

O garoto olhou para ela e falou com certa graça.

— Me lembrei de quando lutamos um contra o outro no castelo. — ela compreendeu e voltou a encarar os blocos de gelo. — E agora eu sou seu tenente-do-mar.

— Não fosse a Armadura de Ouro, não sei se teríamos dividido uma aventura pelos sete-mares.

— Eu iria me levantar e te vencer de qualquer jeito. — provocou ele, olhando para trás.

— Nunca saberemos. — retrucou Geist, séria.

Seiya respirou fundo.

— Você está diferente daquele menino que me venceu na Ilha.

— Diferente?

Ela assentiu e continuou:

— Está crescendo.

Seiya ficou em silêncio refletindo sobre aquilo enquanto as ondas quebravam contra o casco do navio em que ele estava sentado. Raramente refletia sobre qualquer coisa, quanto mais sobre sua própria vida e toda aquela que ele ainda tinha para viver. Para crescer.

— Me sinto em paz. — falou ele, dando voz aos seus pensamentos, quase sem compreender muito bem o que uma coisa havia com a outra.

— Em paz?

— Sim. Olhar para esse oceano enorme me traz paz. Me lembra um pouco da minha infância.

— Vê como tenho razão? — continuou Geist. — Quando sentimos saudades de algo, é porque temos um passado carinhoso de onde viemos. É a partir desse momento que passamos a crescer.

— Quando passamos a sentir saudade das coisas?

— Exatamente.

Seiya deixou escapar um sorriso, lembrando-se do que tanto sentia saudade e compartilhou com sua capitã.

— Me lembro de quando ia com a minha irmã para a praia e nós dois ficávamos olhando para as ondas do mar.

Geist respirou fundo adivinhando que a memória de Seika ainda era algo que o garoto guardava muito fortemente no peito; e que talvez desde o momento em que foi separado dela ele tenha sido obrigado a crescer muito antes do que deveria. E aquele destino parecia comum a todos os Cavaleiros de Atena. Como era com ela também; e de seu lado, a melancolia daquele oceano salpicado de blocos de gelo a fazia pensar sobre Shaina, que havia partido dali sem dar notícias de sua chegada no Santuário.

Seiya já parecia compreender um pouco melhor os silêncios de sua capitã.

— Ela deve ter chegado já. Nada é capaz de parar a Shaina. — o garoto sorriu e Geist experimentou sentir certo conforto, que parecia ser um tipo de feitiçaria daquele garoto corajoso.

Os Cavaleiros de Bronze alternavam seus deveres para com Asgard com uma estadia tranquila no casebre bonito na montanha da Princesa Freia. June estava sentada na cama em que o Guerreiro Deus Hagen ainda jazia desacordado, embora agora fosse atacado por delírios febris somente para retornar ao seu estado catatônico minutos depois. Com um pano úmido, a garota cuidava de sua febre e de seus suadouros noturnos, pois ainda sofria os efeitos do terrível Golpe Fantasma de Fênix. A Princesa Freia precisou tomar o posto de sua irmã Hilda em Valhalla, enquanto ela se recuperava do fardo de carregar os poderes divinos do Anel de Nibelungos; a Voz de Odin era cuidada nos salões antigos do Palácio pelo mestre-curandeiro de Asgard, que tinha toda sua atenção para ela. E justamente por isso, coube à June emprestar seus conhecimentos para trazer algum conforto àquele Guerreiro Deus.

Andreas, um homem mais velho de pele pálida e cabelos terrivelmente escuros, visitou ao menos duas vezes aquele casarão para averiguar o estado de Hagen. E seu diagnóstico não era muito diferente daquilo que June já sabia: tudo que o rapaz precisava era de cuidado e de tempo, pois nada poderia ser capaz de acordá-lo daqueles delírios que não fossem suas próprias forças. Mas se agora delirava, ao menos já era um quadro clínico melhor do que o torpor catatônico em que estava afundado anteriormente.

Sentada na cama, June ouviu duas batidas na porta e, quando seus olhos se ergueram para ver o visitante que havia entrado, encontrou o rosto calmo de Shun. O garoto deixou a porta entreaberta, pois logo sairia; viu como a amiga refazia as bandagens nas mãos de Hagen e, sem olhar para ele, perguntou o que deixava a todos apreensivos.

— Alguma novidade? — perguntou ela sobre o Santuário.

— Ainda não. — respondeu Shun, mantendo-se à distância, mas notando que Hagen parecia sofrer. — O que está acontecendo com ele?

O garoto parecia preocupado, mas June logo acalmou seu coração.

— Está reagindo, finalmente. Sua mente talvez esteja caminhando para o fim de suas ilusões. Mas não há como adivinhar quanto tempo mais irá demorar até que ele acorde.

June parecia esperançosa, mas Shun seguia com o rosto pesado.

— Você está bem? — perguntou ela, sempre preocupada com o amigo.

— Estou. Fico apenas imaginando o que ele irá sentir quando acordar e perceber que todos seus amigos não estão aqui. Assim como toda tragédia que abateu sua terra natal.

June olhou para o doce garoto que conhecia já há muitos anos; e há muitos anos sabia como era muito mais doloroso para Shun machucar do que ser machucado. Sabia das extensões de seus ferimentos, mas nunca sabia exatamente a extensão dos ferimentos que causava, quem sofreria além daquele que caía diante dele. June sabia que Shun facilmente se deixava levar pelo sofrimento dos outros.

— É verdade que não sabemos como ele vai reagir ao acordar. — adicionou June, tentando tirar Shun daquela tristeza. — Mas é o mínimo que podemos fazer por ele.

Shun não respondeu e June percebeu que precisava fazer a conversa desenrolar para tirá-lo da atenção aos seus próprios pensamentos tristes. Aquela terra fria operava sobre Shun um efeito curioso, que somente ela parecia ser capaz de notar: ele tornava-se mais e mais triste a cada dia que se passava, enquanto toda a cidade parecia florescer. Seus ombros mais caídos, a sua voz mais branda, sua energia se apagando aos poucos, como se Shun fosse, mais do que todos eles, uma criatura solar e, na ausência da luz do sol, ele minguasse feito uma flor que morre aos poucos. Ikki também seria capaz de notar aquela sutil diferença no irmão, mas Fênix havia desaparecido desde o dia da batalha, como era de seu costume. Um costume que agora June odiava, pois ela queria que Shun tivesse a irmã ao seu lado.

Tentou fazê-lo lembrar-se dela, pelo menos.

— E a Ikki, tem notícias dela? — perguntou, embora já soubesse da resposta.

— Está por aí. — respondeu Shun, lacônico. — Eu sei o que está tentando fazer, June.

— Não sei do que está falando, Shun. — disfarçou ela. — Eu gostaria de conversar com ela. Hagen foi atingido já há um bom tempo e continua sob os efeitos do Golpe Fantasma. Isso não parece normal.

Shun ergueu os olhos para encontrar os de June, que continuou falando.

— Você tem certeza absoluta do que ela lhe contou, Shun? — perguntou June, buscando relembrar o que Shun havia compartilhado com todos há alguns dias.

— Sim. Ikki me disse que ele voltará ao normal, é uma questão de tempo. E que tudo depende do sentimento que Hagen tem dentro de seu coração. Dele ser verdadeiro.

— O que isso significa? Não consigo imaginar Ikki dizendo algo assim. — perguntou-se June, olhando para Hagen. — Hagen era um dos guardas de Valhalla. E então tornou-se um Guerreiro Deus para proteger Asgard. Que sentimento é esse que pode salvá-lo? O dever com sua terra? A coragem? O que será que falta à ele?

— Ikki uma vez me disse que apenas duas pessoas foram capazes de se recuperar rapidamente de seu Golpe Fantasma.

— Duas pessoas? — perguntou June, voltando a olhar para Shun, curiosa.

— Sim. Eu não sei quantas foram vítimas de Ikki e não gosto de pensar nisso, mas entre todas elas apenas duas se recuperaram plenamente, ela me disse. E tão rápido, que nem mesmo ela entendeu. Nem Saga foi capaz de voltar a si tão rápido e, no final da batalha nas Doze Casas, ainda estava sob os efeitos da técnica de minha irmã quando foi derrotado por Saori.

— Pois então quem são essas pessoas que se recuperaram?

Shun olhou para June quando lhe confessou:

— Hyoga e Shaina.

— Hyoga e Shaina?

— Sim. Os dois foram capazes de se recuperar rapidamente do Golpe Fantasma.

— Hyoga e Shaina… — balbuciou June para si tentando encontrar a resposta em algo comum entre os dois.

— Talvez o que Ikki quis dizer não seja sobre o sentimento de Hagen por sua terra, mas talvez por alguém.

— Alguém? — perguntou June, confusa com todo aquele diálogo impossível.

— A Princesa Freia parece se preocupar muito com ele. — adicionou Shun.

— Não está querendo dizer que o sentimento que vai salvar Hagen é…

— O amor. — completou Shun, olhando para June. — Lembro de Hyoga me contar que o Golpe Fantasma o fez ver a mais terrível das ilusões, mexendo com aquilo que era mais precioso para ele. A sua própria mãe abandonada no fundo do oceano. A coisa que ele mais amou e ama na vida. E que havia sido graças a esse sentimento que ele foi capaz de se livrar do efeito do Golpe Fantasma, como um milagre.

— O amor? — perguntou June, incrédula, voltando a olhar para Hagen, que sofria delirante, antes de concluir o que lhe parecia muito óbvio. — Isso é ridículo.

— Talvez. — falou Shun, comiserado. — Mas foi o que salvou Hyoga.

June olhou longamente para Hagen e limpou um pouco mais de seu suor, sem acreditar que algo tão pueril poderia ser o melhor remédio para aquela enfermidade. Pois aquele antídoto foi exatamente o que fez Hyoga ressurgir de seus delírios para ajudar Atena em tantos milagres.

E naquela tarde poente, o Cavaleiro de Cisne estava junto de Shiryu fazendo a ronda na entrada da Cidade-Baixa para dar algum descanso aos guardas palacianos de Valhalla. Era o mesmo local em que os dois haviam lutado um contra o outro enquanto Hyoga experimentava uma possessão antiquíssima através de uma das Safiras de Odin. O peito arrebentado de culpa do garoto relaxou quando a Princesa Freia exigiu que o garoto ficasse no Palácio Valhalla, ao invés de instalar-se com os amigos no casarão da montanha, convivendo com as cicatrizes de seus erros. Juntos, eles conversaram por tardes e noites sobre as tragédias de Asgard, o peso de Odin; Freia contou a Hyoga algumas anedotas de seu Mestre Camus naquela terra, além de confirmar por mais de uma vez que aquelas cartas que ele havia ganhado de presente eram mesmo de seu antigo mestre.

O Cavaleiro de Cisne ainda sentia-se culpado por ter destruído a Relíquia do Mar, mas os tempos em Asgard e a população estavam de tão bom humor, que era como se nada de terrível tivesse acontecido de fato a partir de seu erro.

— Eu acho que você está gostando dela.

— Ah, Shiryu, fique quieta. — protestou o amigo, sem jeito, tirado de seus pensamentos.

— Eu não posso enxergar, mas posso sentir o ar mais quente. Você deve estar corado.

— Você não acha que eu vou mesmo acreditar nisso, não é mesmo?

Shiryu deixou escapar um sorriso breve no rosto e não viu, mas sabia que o amigo também estava um pouco tonto. Nada acontecia naquela ronda, mas antes que Hyoga a provocasse de qualquer outra maneira, ela pediu que ele ficasse em silêncio.

— Espere, Hyoga. Eu acho que está vindo alguém. — falou ela, colocando-se na direção da estrada.

Hyoga olhou adiante e aos poucos realmente viu que uma forma surgia: uma silhueta vacilante. Fosse quem fosse tinha muitas dificuldades em seguir adiante pela estrada de neve, de modo que ele se adiantou e correu até notar que se tratava de uma figura maltrapilha, enrolada em muitos panos e coberta por um capuz na cabeça; caminhava com a ajuda de um galho torto e, assim que Hyoga se aproximou, ela se desfaleceu em seus braços. Seu capuz caiu para trás e Hyoga reconheceu o rosto desmaiado no chão. Era Alice.

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As imagens de uma vida diluídas em um oceano escuro; os sons abafados em um abismo, enquanto ela tentava a todo custo chegar à superfície. As luzes de uma cidade iluminada pela noite surgiram através da água translúcida que ela observava submersa no oceano de sua própria tristeza. Um enorme farol brilhante pulsando sua luz prateada refletindo no espelho d’água. As estrelas do céu aproximando-se feito planetas e suas cores distorcendo-se em um horizonte onde já não existia cidade, farol ou oceano, apenas o profundo tapete cósmico.

Um frio extremo nos ossos e os pés calejados e sofridos em um fundo infinito e pálido. Aos poucos, aquela cortina branca parecia derreter feito tinta derramada lentamente, revelando atrás do véu formas fora de foco por todos os lados e cores. Aos poucos toma forma o rosto de uma amiga querida. Alguém que ela talvez já tivesse aprendido a esquecer, mas cujos olhos castanhos eram inconfundíveis.

— Alice! Mii!

Ela estendeu a mão e tocou seu rosto conhecido cheio de saudades.

— Seika. — disse ela, delirante, e com um pouco de saudade no peito.

Seiya olhou para Shun ao seu lado e tentou soar um pouco mais calmo.

— Não, sou eu, Mii. O Seiya.

— Seiya? — perguntou ela, voltando a si aos poucos, um pouco confusa, mas logo vendo com clareza os cabelos bagunçados do rosto de menino do Cavaleiro de Pégaso.

Voltou a si, finalmente, e sua mente imediatamente trouxe de volta a agonia daqueles sonhos que vivia tendo repetidamente, pois afinal de contas estava ali por um motivo profundo.

— Seiya! — gritou ela, tentando se levantar e assustando a todos. — A gente precisa ir. Temos que ir!

Seiya levantou-se junto e logo percebeu que Alice perdeu o equilíbrio ao tropeçar na bacia de água quente que aquecia seus pés doloridos e cair para o lado do menino; ele a segurou e June o ajudou a colocá-la de volta para ao menos sentar-se no sofá. Ela ainda estava muito fraca, pois havia passado o último dia quase inteiro atravessando o árduo Caminho do Norte.

— Não temos tempo. — balbuciou ela, ainda um pouco delirante.

— O que está dizendo, Mii? O que está acontecendo?

— A Saori, Seiya. — falou ela com dificuldades.

— O quê? O que tem a Saori? — tentou Seiya, mas Shun interferiu para conter o garoto.

A Princesa Freia trouxe da cozinha um bule de chá quente e June alguns pães da dispensa, pois a garota estava faminta e um muito fraca. Ela recusou tudo com as mãos e puxou Seiya de volta para junto dela, pois ela sabia que não havia ninguém no mundo mais teimoso que ele, e agora ela precisava da cabeça dura do menino.

— Me escute, Seiya. A Saori está correndo perigo. Nós temos que salvá-la.

Seiya sentiu o sangue congelar num primeiro momento de confusão e então tomou a caneca de chá quente das mãos de Freia e ajoelhou-se diante de Alice.

— Segura isso. Vai esquentar suas mãos. Tome um pouco e conte-nos o que está acontecendo.

Ela assentiu e tomou um primeiro gole do chá, recuperando um pouco da coloração no rosto. Fechou os olhos e finalmente falou a todos o que a angustiava tanto.

— Há alguns dias, eu já não sei ao certo quanto tempo, mas há pouco mais de uma semana, talvez, uma estranha chuva começou a cair no Mundo inteiro. Uma chuva forte, interminável, que não dava trégua alguma. E então vieram os maremotos que chacoalhavam os oceanos e levantavam ondas que pareciam montanhas no mar de tão grandes. Engoliram pontes, derrubaram prédios e construções das cidades costeiras. E a chuva simplesmente não parava de jeito nenhum. O Mundo inteiro estava sem entender o que acontecia e as notícias que chegavam de todo o lugar eram terríveis.

Os garotos todos estavam próximos ouvindo o relato de Alice, ao ponto de ninguém se atrever a dizer qualquer coisa.

— Saori sabia que era Poseidon.

— Poseidon?! — assustaram-se alguns entre eles.

— Sim. — confirmou ela, bebendo de seu chá. — Ela esteve no Cabo Súnion por muitas noites ao lado de Nicol enquanto vocês navegavam pelos Sete Mares. Então, assim que as chuvas começaram, ela tinha certeza de que era o Deus dos Mares. E decidiu ir sozinha até o Cabo Súnion certa noite. Eu e a Mestre Mayura estávamos juntas, mas era como se não estivéssemos. — lamentou ela, com tristeza na voz.

Ela engoliu em seco antes de continuar e olhou para Seiya com certo desespero.

— Ela gritou por Poseidon exigindo vê-lo, para tentar afastar sua influência na Terra. E ela gritou tanto, mas tanto, até que finalmente ele respondeu.

— O quê!? — confundiram-se todos à sua maneira.

— O Mar se tornou revoltoso ao redor do Cabo. E do fundo do mar, surgiu uma Emissária de Poseidon. Ela se ajoelhou na frente de Saori e Saori exigiu que ela a levasse até onde o Deus do Mar estava. — seus lábios tremiam com aquela memória. — E então as duas foram varridas da nossa frente por uma onda impossível que subiu até o Templo. Não pudemos fazer absolutamente nada.

— E onde ela está? — perguntou Seiya, desesperado.

Alice continuou seu relato com os olhos vidrados.

— Eu esperei por dois dias ela voltar no Cabo Súnion, mas ela não voltou. Eu vi as chuvas pararem e o céu inteiro se abrir por milagre. — disse ela olhando para todos, como quem conta sobre um milagre. — Mas ela não voltou. A Saori não voltou. Quem veio até mim finalmente foi aquela Emissária de Poseidon que a havia levado embora. Eu nunca vou esquecer seu rosto. Ela trouxe de volta com ela o Báculo de Ouro e a notícia de que Saori havia se sacrificado pela Terra.

Shun quase desmaiou, mas foi contido por June que também tinha o estômago congelado de desespero; Shiryu deixou-se cair em uma poltrona, pois suas pernas haviam vacilado por um instante. Os ombros de Hyoga caíram e seus olhos procuraram o chão, enquanto Seiya ficou apenas boquiaberto. Até mesmo Geist não foi capaz de conter o sentimento de impotência naquele momento.

— Mas ainda temos tempo! — falou Alice, ao ver que a sala inteira parecia ter derretido com sua história.

Ela se levantou e olhou para todos.

— Ela ainda está viva e podemos salvá-la se formos ao Reino de Poseidon. É por isso que estou aqui.

A cor pareceu voltar à Seiya e ele se levantou para encará-la de perto.

— Eu não sei explicar. Tudo que a Emissária me disse foi que em poucos dias, a vida de Saori seria consumida pelo mar. Mas eu ainda sinto que ela vive, Seiya. Eu sei que ela está viva.

— Eu acredito em você, Mii! — falou Seiya imediatamente, seguro de si e dela.

Shun pareceu reviver nos braços de June e Shiryu também levantou-se confiante da poltrona. Dentro daquele clima de certa euforia, no entanto, escutaram a porta se abrir com força e Hyoga disparar para fora daquele casebre. Shun fez menção de ir atrás dele, mas a Princesa Freia colocou-se na sua frente.

— Deixem ele ir. — pediu ela, olhando fundo nos olhos do menino preocupado com o amigo.

— O que aconteceu? — tentou Alice, que não sabia das tragédias de Asgard.

Fez-se um momento de silêncio entre todos até que Shiryu finalmente explicou à Alice um pouco da dor que habitava o coração de Hyoga.

— Muitas coisas também aconteceram aqui em Asgard, Mii. E Hyoga talvez seja aquele que mais sofreu entre todos nós.

— Nós conseguimos selar seis Relíquias do Mar ao redor dos oceanos. — começou a falar com tranquilidade a Capitã Geist. — Mas quando chegamos em Asgard, algo terrível se passou.

— E Hyoga acabou destruindo a última Relíquia do Mar.

Alice levou a mão à boca.

— Acham que ele pode ter libertado Poseidon? — perguntou Alice, finalmente compreendendo parte do drama entre eles.

— E agora deve estar se culpando pela morte da Saori. — falou Shun, olhando pela janela o vulto de Hyoga desaparecer nas montanhas.

A Coruja de Atena caiu sentada novamente no sofá olhando para Shun; e pela primeira vez percebeu como o menino estava com o semblante absolutamente entristecido, com os olhos fundos e sem brilho. Seiya usava os farrapos do uniforme em que havia zarpado, os cabelos ainda mais desgrenhados e os braços feridos. Shiryu estava séria e June também tinha a expressão preocupada quando trocou o chá de sua caneca. Era a primeira vez em muitos meses que reencontrava seus amigos.

— Ah, Seiya, me desculpem. — começou ela falando a todos. — Eu sinto muito que tenham passado por tudo que passaram até agora. Eu não havia me dado conta do tempo que fazia que não nos víamos. Saori e eu morríamos de medo todas as noites de que algo tivesse acontecido com vocês e eu fico realmente aliviada de que todos estejam bem. Mas então… Eu sinto muito, mas nós temos que…

— Não há nada pelo que se desculpar, Mii. — interrompeu Shiryu ao lado de Seiya.

— Vamos buscar a Saori. — anunciou Seiya, confiante.

— Não devemos perder mais nenhum tempo. Marin me contou que havia um modo de ir ao Reino de Poseidon a partir de Asgard e é por isso que estou aqui.

— Marin? — surpreendeu-se Seiya.

— Sim, foi ela quem me ajudou a chegar até aqui.

— É verdade isso, Princesa Freia? — perguntou Shun para ela.

— Sim. A Ponte Bifrost. A lenda diz que a Ponte Bifrost é aquela que conecta o Mundo dos Homens ao Mundo dos Deuses. Hyoga saiu daqui para ir atrás dela, eu tenho certeza disso.

— Lembro dele comentar que um Tenente Marina já havia atacado Asgard antes de chegarmos. — lembrou-se Shiryu.

— Exatamente. Isso significa que eles usaram a Ponte Bifrost, mas esse conhecimento perdeu-se no tempo para nós. Há um grupo investido em procurar por ela enquanto falamos. — Freia olhou pra Shun. — A Cavaleira de Fênix juntou-se a esse grupo, pois quanto mais profundo na montanha os guardas vão, mais insuportável é a temperatura por causa da lava que corre por debaixo de Asgard.

— Isso significa que Hyoga corre perigo. — preocupou-se Shun.

A Princesa Freia não respondeu, pois na verdade a preocupação era real. De todo modo, ela sabia, bem como todos ali sabiam, que nada iria convencê-lo a não tentar. Seiya e Shun já juntavam as coisas para ser de alguma ajuda, quando Geist pediu atenção do grupo.

— Parem todos. — pediu ela, misteriosa, e então caminhou em direção de Alice. — Tem algo que eu gostaria de entender melhor, Alice. Eu não consigo compreender o que a trouxe até aqui. Os motivos pelos quais percorreu toda a distância entre o Cabo Súnion na Grécia até Asgard nestas condições em que você está. — os olhos todos retornaram para a garota e Geist seguiu, muito séria. — Responda-me, Alice, por que você e Marin não voltaram ao Santuário? E onde está a Cavaleira de Águia?

A fala de Geist era tão bem acentuada que ninguém ousou interrompê-la e, à medida que falava, os Cavaleiros de Bronze pareciam se dar conta, cada qual ao seu tempo, de como aquilo realmente não parecia fazer qualquer sentido. E então todos os olhos caíram sobre Alice, que sentiu-se acuada e, mais do que isso, precisou lembrar-se de outra terrível notícia que precisava dar para aqueles garotos amigos seus.

— Marin voltou para sua missão. — começou Alice pelo mais fácil e preparou-se para o restante de seu relato. — A Mestre Mayura parece já ter aceitado que Atena não está mais nesse Mundo. E o Santuário terá de se defender sem ela. — havia um certo tom de amargura em sua voz.

— Eles acreditam que Atena está morta? — perguntou Shiryu, de forma calma.

— É como se estivesse. O Reino de Poseidon fica em Outro Mundo.

— Os Tenentes Marinas podem ir e vir desse Mundo. — protestou Seiya com aquele absurdo.

— Mas não os Cavaleiros de Atena. — pontuou Alice o que se passava no coração de Mayura. — A verdade é que o Santuário já se prepara para a batalha contra o Exército de Hades.

— E vai abandonar Atena? — perguntou June, sem compreender.

— Atena escolheu deixar a Terra para dar uma segunda chance à ela.

— Eu não posso acreditar que tudo isso está acontecendo lá fora e nós estamos aqui parados fazendo rondas todos os dias. — reclamou Seiya.

— Seiya tem razão. — ecoou Shiryu e falou para Geist. — Por que o Santuário não nos avisou de nada?

— Pelo mesmo motivo que Alice não voltou para lá.

Alice sentiu o peso dos olhos de Geist e desviou deles por um instante, de volta para a lareira.

— Fale logo de uma vez.

Espantaram-se todos com a voz dura que vinha da porta; olharam para trás e encontraram o rosto sisudo de Ikki, que havia entrado na cabana sem que ninguém houvesse visto. Alice olhou para todos eles antes de falar, pois o que tinha para dizer era doloroso de escutar; suas palavras, no entanto, foram claras para todos ali que precisavam ouvir.

— Nós fomos banidos do Santuário.

Choque. Seiya e os outros entreolharam-se, absolutamente confusos; Shiryu aprumou-se na poltrona, incrédula de ter ouvido o que Alice havia dito. Cada qual perguntava-se à sua maneira o significado daquilo e, novamente, Geist precisou intervir para evitar que a sala se transformasse em uma feira incompreensível. Calou a todos para que Alice pudesse explicar.

— A Saori fez um último pedido à Mestre Mayura. — disse ela com os olhos marejados, pois era dolorido demais pensar nela no passado.

— Mas que idiota. — falou Ikki, adivinhando as motivações de Saori.

— Não vou deixar que fale assim dela! — bradou Alice, levantando do sofá com uma fibra que deixou todos atônitos.

A bacia de água que esquentava seus pés virou toda no tapete, a manta que lhe esquentava foi parar no chão e ninguém ousou pará-la. Nem mesmo Ikki seguiu com seu deboche. A voz da menina era vibrante e triste.

— O Mundo inteiro foi chacoalhado pelas forças de Poseidon com uma chuva interminável e mortal. Muitas cidades ficaram submersas, vilas inteiras foram varridas, populações inteiras foram dizimadas. Muitas pessoas morreram. Muitas. Muitas crianças ao redor do Mundo não resistiram, Ikki. E tudo isso ela sentia nas costas dela. E para além do Mundo… o Cavaleiro de Taça, Nicol, foi assassinado na Colina das Estrelas. E ela não aguentava mais tudo isso. Não aguentava mais ficar sofrendo sem fazer nada como uma estátua de pedra. Ela não suportou a ideia de que vocês… de que vocês talvez tivessem morrido aqui em Asgard. Ou em alto-mar. — disse ela, olhando para Geist. — Até que ela decidiu fazer algo. Decidiu marchar sozinha até o Reino de Poseidon e fazer o Deus dos Mares, um Deus Antigo do Olimpo, parar com as chuvas que destruíam a Terra. Fez isso por toda a humanidade. Fez isso por todos nós. E por todos nós, a única coisa que ela pediu em troca ao Santuário foi que não permitissem mais o nosso retorno. Porque ela sabe que é lá que vai ser o campo de batalha contra o Exército de Hades na Guerra Santa. Seu último desejo como Atena desta Era foi nos poupar dessa Guerra.

Por um instante ninguém ousou discordar daquele discurso apaixonado de Alice. O primeiro que ousou levantar a voz foi aquele que todos esperavam.

— Ela não pode escolher pela gente! — falou Seiya, bravo.

— Ela já escolheu. — respondeu Alice. — Ela quer que a gente viva a nossa vida longe dessas batalhas.

— Mas isso é um absurdo. — falou Seiya. — E nós não vamos aceitar isso. Agora ela comprou uma briga maior ainda, porque a gente vai descer pro Reino do Mar e vai mudar a cabeça dela.

Alice deixou escapar um sorriso no meio de sua tristeza de tão absurdo que aquele moleque era, mas naquele momento aquilo era exatamente tudo que ela precisava ouvir.

— Você disse que essa Sereia de Poseidon falou que ela ainda estava viva, não é mesmo? Senão você não tinha se arriscado a vir até aqui. — perguntou ele e Alice assentiu com a cabeça. — Então está decidido. Vamos descer ao Reino do Fundo do Mar, resgatar a Saori, secar o vestido branco dela inteiro e voltar pro Santuário todos juntos.

Seiya estava louco, mas Shiryu ao seu lado se levantou, entusiasmada com o plano; Geist orgulhou-se de seu Tenente, June já tinha quase certeza absoluta de que tudo aquilo realmente aconteceria e até mesmo Ikki deixou escapar um sorriso de canto de boca com aquele desmiolado. Shun era o único que mantinha o semblante fechado, enquanto a Princesa Freia deu a má notícia para todos.

— Como eu disse, nós infelizmente ainda não encontramos a antiga Bifrost.

— E não encontraremos tão cedo. — completou Ikki, entrando na discussão.

— A Cavaleira de Fênix tem nos ajudado a mapear os caminhos antigos do subterrâneo de Asgard. Cavernas e vales profundos que os antigos Anões usavam para minerar. É dito que em uma dessas cavernas existe uma Ponte de Arco-Íris que os Anões esculpiram diretamente na Rocha das Estrelas que se depositou na principal montanha de Asgard desde a criação do Mundo.

— É uma missão quase perdida. — adicionou Ikki. — Existem muitos caminhos no subterrâneo e não acho que eu tenha coberto nem um décimo do que existe. E até agora nenhum sinal de um arco-íris dentro da montanha.

— Droga. — afundou Seiya no sofá.

— Tenho certeza de que se todos nós ajudarmos, podemos encontrá-la. — falou Shun à sua irmã.

— Não, vocês só irão atrapalhar. — falou Ikki.

— O que está falando, Ikki? — revoltou-se Seiya. — O Hyoga saiu daqui para ir atrás da Bifrost, nós somos Cavaleiros de Atena, o calor não deve nos afetar tanto assim.

— Aquele chorão só vai me atrasar, assim como todos vocês.

Ikki quase causou um incidente entre ela, Seiya e Alice, que não suportavam aquela pose em um momento de crise como aquele, enquanto Shun tentava conter os ânimos, cobertos de emoção e vontade; novamente Geist precisou acalmar a todos para dar a eles alguma esperança.

— Espere, Seiya. Eu acredito que possamos fazer algo. Princesa Freia, eu e Seiya temos trabalhado no cais na recuperação de algumas embarcações; diga-me, seria possível que o Povo de Asgard nos emprestasse qualquer uma delas?

— Sim, temos algumas de que podemos dispor, pode levar um tempo para que estejam aptas, mas…

— Não se preocupe com isso. — retornou Geist.

— O que tem em mente, Capitã?

— O Cristal de Oricalco.

— O Cristal? — perguntou ele, pensativo.

— Sim. Se usarmos o Cristal de Oricalco, talvez seja possível chegar ao Reino do Fundo do Mar, como fizemos na Terra do Capitão Meko Kaire.

— Sim, é verdade! — reagiu Seiya, iluminando o rosto inteiro. — Mas a Lunara voltou com a Shaina, como vamos criar um mecanismo como aquele?

— Não precisamos de um mecanismo complicado para afundar um navio, Seiya.

— Ah, claro que não, como eu sou burro! — percebeu logo o garoto, empolgando-se de volta.

— O plano é afundar um navio? — perguntou Alice, um pouco desconfiada.

Mas Seiya já havia desatado a correr pelas escadas daquele casarão ao segundo andar.

— Não há tempo para ficarem procurando por todas as Cavernas de Asgard. Vocês precisam partir o quanto antes ou será tarde demais. — falou June e tranquilizou a todos diante daquela ideia maluca. — Nós já fizemos isso antes. Vai dar certo, confiem em Geist.

— Você não virá conosco, June?

— Não, Shun. Ficarei para cuidar do Guerreiro Deus. — respondeu ela olhando para Freia, que agradeceu. — Confio Atena a vocês.

— Aqui está! — voltou Seiya, esbaforido, com uma caixa tosca em mãos; ele abriu e revelou, flutuando, um lindo cristal de luz âmbar sutil e muito bonito. — O Cristal de Oricalco.

— Bom, então vamos logo de uma vez. — animou-se Alice, sem ter muita certeza daquela ideia, embora sempre confiante no Cavaleiro de Pégaso.

Geist pediu a atenção de Freia, enquanto os Cavaleiros de Bronze já se aprontavam, cada qual buscando sua Urna de Armadura.

— Eu irei com vocês até o cais e avisarei ao grão-mestre para destacar qualquer embarcação que precisar. — confirmou a Princesa de Asgard.

— Preciso avisar o Hyoga. — anunciou Seiya, tentando sair pela porta, mas sendo impedido por Ikki.

— Deixe aquele infeliz comigo.

Seiya olhou fundo nos olhos de Ikki e viu dentro dela que havia, ao seu modo, uma certa preocupação com o rapaz também. E que teimar naquele instante sobre aquilo somente atrasaria a todos ali da urgente missão de reencontrar Atena no fundo do mar.

— Não abandone ele, Ikki. — pediu Shun ao seu lado.

— Ele vai superar. — falou ela, apenas.

Escolheram confiar em Ikki e finalmente saíram todos pela porta, com o coração pesado de diversas maneiras. Saori lentamente caminhava para sua morte e Hyoga tinha o coração dilacerado culpando-se por todas as tragédias ao redor do Mundo. Nicol estava morto. Outra batalha estava para começar, pois Shun certamente não se enganava em pensar que trazer Atena de volta seria simples. Seu semblante triste foi desmanchado pelo abraço quente de June que o envolveu e levantou sua cabeça.

— Prometo que vou voltar, June. — falou ele, quase de forma automática.

Como sempre, June queria que ele ficasse ali com ela. Mas como sempre, ela sabia que não adiantava. Ele estaria ao lado de seus amigos em qualquer batalha que fosse, ainda que ele odiasse.

— Cuida dele. — pediu June para Seiya ao lado do amigo.

Ele assentiu e puxou o amigo pelo braço, desequilibrando-o como se corressem para a hora do almoço, quando na verdade partiriam para lutar contra Deuses. Shiryu, Geist e Alice aguardavam os dois na estradinha de Asgard e tiveram que correr atrás deles quando Seiya apareceu puxando Shun pelo braço. June despediu-se à distância e viu à sua esquerda Ikki olhando para aquele grupo entre as árvores.

— E no final iremos todos morrer. Eles vão se afogar no oceano, enquanto eu e Hyoga iremos ser soterrados pela lava. Ao menos vamos todos desobedecer aquela garota teimosa. — deixou escapar um pigarro de deboche sozinha. — Viver a nossa vida. Até parece.

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Asgard não era uma enorme cidadela, de modo que o caminho daquela face da montanha até o cais da cidade-baixa era curto o suficiente para que os Cavaleiros e Freia atravessassem o mais rápido que podiam, cada qual com seu próprio silêncio. E não demorou muito para estarem entre os estivadores de Asgard, com Freia pulando de marinheiro em marinheiro, enquanto Geist já gritava algumas palavras de ordem para Seiya de cima de um convés.

Era definitivamente uma embarcação simples, igual aquela que Shaina havia usado para voltar ao Santuário, mas ainda menor e com muitos reparos a fazer. Geist reiterou para Freia que aquela era perfeita para o que planejavam, afinal de contas o que planejavam era mesmo afundar o navio até que eles alcançassem o Reino do Fundo do Mar. Seiya e Geist colocaram o Cristal de Oricalco na proa do barco, presa de maneira tosca, mas eficiente, para que não desaparecesse pelo Oceano os deixando à deriva e sem proteção nas profundezas.

Alice observava a maneira com que Seiya trabalhava ao lado de Geist, sua compostura, sua confiança, seus olhos certeiros; depois de tanto sofrimento, Alice experimentou uma leveza em seu peito que há tempos não sentia. Fazia já muito tempo que não o via, desde que ele havia partido com a tripulação do Galeão. Vê-lo novamente com toda aquela vontade trouxe de volta um tanto de ânimo que o Caminho do Norte havia lhe derrubado. O garoto inclusive parecia mesmo ter crescido alguns centímetros e o rosto se esticado, ainda que sutilmente. Seus olhos se pareciam ainda mais com os de Seika.

O garoto finalmente pulou para fora do barco anunciando a todos.

— Estamos prontos.

Shiryu e Shun assentiram e subiram a bordo com suas Urnas de Armadura nas costas.

— Vamos, Alice. — falou ele para ela, mais próxima.

E ela sorriu como há tempos não fazia. Abraçou Seiya e também embarcou na pequena escuna. Seiya fez alguns últimos preparos do lado de fora do barco e virou-se para embarcar quando deu de cara com Geist esperando-o ao lado da ponte.

— Capitã?

— Não mais, Seiya. — falou ela ao garoto.

— O que está dizendo? Não, não diga isso agora. Precisamos de você para navegar esse navio.

— Esse navio já tem um capitão capaz. — sorriu Geist. — Chegou a sua hora, Seiya.

— Mas, Geist…

— Preciso estar em outro lugar, Seiya.

— Que lugar é mais importante do que ao lado de Atena? — perguntou Seiya, incrédulo.

— Atena estará sempre em boa companhia ao lado de Pégaso. Eu estarei onde preciso estar.

— Voltará ao Santuário?

— Não. Você ouviu o relato de Alice. — falou Geist, muito séria, e adicionou: — Após a calmaria vem a tempestade. Seiya, eu não acho que terão vida fácil no Fundo do Mar, como também não acho que estaremos seguros na superfície. Mas estarei do lado de cá para conter a tempestade quando ela vier.

— Ah, Geist. — lamentou ele, enquanto ela lhe arrumou o sobretudo surrado que ele fez questão de trazer para sua última missão. — Foi um prazer enorme servir ao seu lado.

— Já fala como um grande marinheiro. — retornou ela, com um sorriso mínimo no rosto.

Seiya olhou para Geist cheio de força, quando sua Capitã finalizou:

— Capitão Seiya.

O garoto não conseguiu evitar um sorriso breve se desenhar em seu rosto.

— Leve a Esperança em seu peito, Seiya, e traga a Deusa Atena de volta.

Ele assentiu e virou-se para trás, onde seus amigos todos o olhavam confiantes: Shun, Shiryu e Alice estavam dentro do barco esperando seus comandos.

— Que Odin vos proteja, Cavaleiros. — desejou Freia quando Seiya embarcou. — Que tenham sucesso em reencontrar a Deusa Atena e que nós possamos nos ver outra vez em uma ocasião mais oportuna.

— Obrigado por tudo, Princesa Freia. — agradeceu Shun em nome de todos.

E os Cavaleiros de Bronze entraram naquela tosca embarcação com uma missão importantíssima à frente. A missão eterna de suas vidas: salvar Atena.

Notas finais
SOBRE O CAPÍTULO: Esse é considerado o último capítulo do arco 'Ordem de Atena'. A ideia foi fazer uma brincadeira com a Ordem de Atena ser sobre os Cavaleiros, quando na verdade era sobre a ordem que Saori dá para Mayura e Shaina sobre o banimento dos Cavaleiros de Bronze. Sabemos que no Mangá Clássico, o banimento acontece no começo da Saga de Hades, por motivos parecidos. Aqui eu escolhi trazer o banimento antes da Saga de Poseidon, pelos mesmos motivos, para dar uma dramaticidade maior às escolhas de Saori e dos próprios Cavaleiros, sem contar que era uma maneira de isolar o Santuário. PRÓXIMO CAPÍTULO: Viagem Ao Fundo do Mar Seiya e seus amigos chegam ao Reino Submarino.