Os Caçadores: A Última Guerra
60 Calmaria
Notas iniciais
Uma semana se passou desde a batalha no Fruit e Leonor estava em uma calmaria suspeita. As atividades da cidade pararam. Os habitantes já não estavam mais lá, o que facilitava a vida das autoridades. Por consequência disso, a Neo Imperium, Imperiatrix e os Caçadores vigilavam separadamente a cidade inteira, assim como outras guildas da cidade.
Eu e Fairy estávamos caminhando no Jardim Principal de Leonor (vários bancos, árvores de todas as cores, tipos e tamanhos, uma grande roda de cimento quadriculado rodeado por um matagal em volta, ao lado de um lago grande e cristalino).
— Como é bom ter paz pelo menos um pouco. – eu comentei, sentando no banco em frente ao lago.
Fairy sentou ao meu lado e concordou:
— Realmente está muito bom essa calmaria, mas acredito que seja passageira. Ainda estamos em guerra e durante semanas tivemos poucos conflitos. Acredito que algo grandioso está por vir.
Receoso, eu perguntei:
— O que você acha que está por vir, Fairy?
— Eu não sei. Estava comentando com meu marido sobre guerras passadas e ele também me disse que é muito estranho nenhum lado se manifestar. É como se o inimigo estivesse esperando algo.
Eu fiquei pensativo sobre o que Fairy tinha respondido. Peguei uma flor que estava próxima ao meu pé. Uma bela e linda tulipa. Retirei suas pétalas e as joguei na água daquele lago. Fiquei observando as pequenas ondinhas mexerem com elas.
— Eu penso em desistir dos Caçadores. Seguir meu próprio rumo. Como essas pétalas que estão sendo levadas pelas ondas desse lago. Deixar a vida me levar. Você entende?
Fairy estranhou o meu posicionamento e perguntou:
— Você pensa em deixar os Caçadores?
— Sim. Desde a morte da Malena eu venho pensando nisso. Se intensificou depois que derrotamos a Yambakka. Sinto que meu lugar não é aqui, sabe. Penso em ir para outro país, andar sozinho ou com você, que é minha “criação”. Não vejo mais graça em nada disso.
Ela ainda estava estranhando e colocou a mão na minha testa, como se estivesse sentindo minha temperatura:
— Anark, você está bem? Você não sabe o que esta dizendo. Você sempre elogia Leonor, esse lugar todo. Até ajudou na construção de um novo Seed. Você até desenhou toda a arquitetura do prédio. Agora vem me falar que aqui não é o seu lugar? Me poupe.
Fairy se levantou, furiosa e saiu andando. Eu olhei para trás e olhei ela indo embora, mas resolvi ficar sozinho, naquele jardim sem ninguém.
Resolvi dar um mergulho naquele lago. Tirei a camisa e o short, colocando-os sobre o banco em que estava sentado. Entrei lentamente no lago e depois mergulhei fundo. Deixei aquela água cristalina lavar a minha alma, mas algo me incomodava. A traição de Lilly e Blue passaram por minha cabeça. As lágrimas, em baixo d’água, misturaram-se com a do lago. O choro de criança veio à tona e naquela imensa angústia senti o meu poder mágico crescer. Meu corpo ficou mais forte. Fiquei mais determinado a vencer cada batalha e me decidi que depois que aquela guerra passar, eu sairia dos Caçadores. Seguiria a minha própria vida.
Depois de algumas dezenas de minutos, saí da água e percebi que estava de noite. Eu deveria ir ao novo Seed para o jantar, mas eu resolvi andar mais um pouco pela cidade.
Enquanto estava colocando a roupa, filmes passaram em minha cabeça. A luta do Blue contra Sleepy, a da velha da Yambakka, todas as minhas lutas. Todas as minhas vitórias tentavam me convencer a ficar, mas o desejo de ir além me falava o contrário.
Depois que coloquei as roupas e o sapato, peguei o CloudBook e coloquei no bolso, fechando seu zíper. Comecei a caminhar para fora do jardim e quando cruzei a esquina, observei alguém cruzando a de lá. Me escondi atrás de um container de lixo, espiando a cada segundo os passos daquele estranho:
— Maldita Brality. Ela acha que pode roubar o inimigo dos outros, assim. Ela vai ver só. Um dia vou ficar tão forte quanto ela e vou acabar com a sua raça, ou eu não me chamo Necroman.
— “Necroman”. – eu pensei, percebendo que esse era seu nome e já supondo que era inimigo.
O que eu não sabia é que ele tinha o poder de ler pensamentos, o que chamou a atenção dele. Com uma rajada de Chi negro, ele arremessou o container longe e fiquei exposto.
— Anark.
— Você me conhece?
— Mas é claro! – respondeu ele, lambendo os beiços como se estivesse prestes a me comer. – O mestre fala muito de você. O que anda fazendo aqui, uma hora dessas da noite. É perigoso!
Indiferente, eu respondi:
— Acabou de escurecer. Resolvi tomar um ar. Blue é seu mestre?
— Sim. E ele te odeia, o que me impede de te matar agora.
Eu peguei o meu livro, segurei firme e coloquei a roupa do Anjo das Águas. Necroman juntou Chi negro em seu corpo, gritando:
— Isso não quer dizer que eu não posso te dar uma surra.
Com sangue nos olhos e determinado, eu provoquei:
— Então vem!
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