Notas iniciais
O final desse capítulo vai ser um ponto importante para o futuro da história, então se preparem para os próximos capítulos.

Daniel saiu no corredor e trancou a porta do seu apartamento, para sair na sua nova missão. Ao passar, em frente à entrada da sua vizinha, o rapaz pensou ter sentido energia etérea, mas quando virou para a porta e tentou analisar melhor. Acabou perdendo o foco. Porque Marcos atravessou a parede resmungando alguma coisa e, assim atrapalhou a concentração do Buscador.

— Posso saber o motivo de sair e não me chamar? — Quis saber Marcos ao lançar seu velho olhar de ódio. Daniel olhou mais alguns segundos para a porta de Ana Julia, mas voltou sua atenção para sua alma.

— Procurei você pelo apartamento todo e não consegui achá-lo, então decidi sair na frente e deixar que a ligação o força-se vir atrás de mim — respondeu Daniel. O Buscador passou dias sem brigar com sua alma e, pelo visto, iria começar uma em poucos instantes.

— Estava tão concentrado organizando as minhas memórias, que acabei ficando invisível e não notei o tempo passar — disse Marcos e sua forma etérea piscou. Daniel levantou sua sobrancelha, pois notou que o espírito não iria começar uma briga. —Vou ser diferente com você, Daniel! Chega de brigas entre nós, okey?

O Buscador não pôde conter, mas ficou de boca aberta ao encarar seriamente a alma, que também o olhava severamente e ambos foram juntos para o elevador.

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Daniel adora sentir o ar frio da noite em seu rosto, em dias que a lua está cheia. Caminhava lentamente para chegar a uma casa no lado norte da cidade.

— É sério que essa família tem problemas com uma boneca? — Perguntou Marcos andando lado a lado com Daniel. — Aposto que é uma Alma Depravada!

O Buscador olhou para sua alma e novamente levantou uma sobrancelha, por estranhar muito sua boa intenção. Já, que na grande maioria das vezes ficava de cara feia ou tentava irritar todos os espíritos pelo caminho. Daniel acabava tendo que usar seus poderes para afastar as almas, que Marcos irritava, fazendo, o mesmo entrar no Modo Buscador e depois a Alma de Ligação aprontava algo no seu interior.

Passaram por duas mulheres fantasmas e Daniel esperou que Marcos fizesse alguma coisa, mas só as cumprimentou. O rapaz esticou a mão para colocar na testa do espírito, por querer ver se estava bem, porém lembrou-se antes de encostar que era apenas uma alma.

— Você realmente mudou — disse Daniel ao abaixar a mão. Ambos olharam um para o outro.

— O Marcos que você conheceu no passado não existe mais. — A alma começou falar. — Sabe que fiquei confuso ao voltar para o mundo dos vivos, então vou tentar consertar os meus erros! Começando ao parar de atrair almas para vocês e também nunca mais vai precisar dormir preocupado ou entrar no Modo Buscador…

— Não sou de guardar mágoas por muito tempo, então vamos deixar aquilo no passado e viveremos daqui para frente? — perguntou Daniel com um sorriso nos lábios, quando sentiu o toque da mão etérea de Marcos em seu ombro. A sensação era a mesma de colocar um gelo sob sua pele.

— Não sabe o quanto ouvir isso me alegra! — Exclamou novamente Marcos ao fazer algo que deixou Daniel surpreso. O Buscador foi abraçado pela primeira vez, por sua alma. Seu corpo ficou frio, mas estranhamente quente ao mesmo tempo. Demorou um pouco para o rapaz também retribuiu o abraço.

Daniel queria dizer algo, mas lhe faltavam palavras para expressar o que sentia naquele momento. Sua mente pensava que agora poderia ter paz em sua vida e tentar dar paz na morte de Marcos.

— Aquela é a casa que vamos trabalhar — disse, por fim, o Buscador ao sentir algo surgir em seu interior. Daniel pela primeira vez sentiu algo, em relação a Marcos. — E chega desse sentimentalismo todo!

Os dois se soltaram para voltar a andar. Não falaram mais nada um com o outro, mas o Buscador pode sentir que não havia mais tanta tensão entre os dois.

A casa tinha um muro baixo na frente. Daniel não tinha notado antes, mas todo o bairro era composto por várias casas no mesmo estilo, era como um padrão para a construção. Todas as casas tinham uma garagem na lateral, com uma faixa branca nas janelas da frente.

— A pessoa que fez o projeto deste bairro tem um sério problema de TOC — disse Marcos ao se aproximar mais de Daniel, que apertava um pequeno botão perto do portão.

— Deve ser apenas o padrão da construtora, Marcos — comentou Daniel ao ver alguém abrindo a porta da entrada e saindo na pequena varanda.

— Gostaria de algo? — Perguntou uma mulher com roupas de dormir.

— Sou a pessoa que foi indicada para ver o problema da boneca. — Daniel respondeu ao ter a sensação de estar sendo vigiado. Olhou novamente para as duas direções da rua, mas não viu nada fora do normal.

Marcos notou o olhar preocupado do seu humano, então tentou captar algo de errado, pois soube na hora, que Daniel estava sentindo a presença de alguém. Só que o espírito não conseguiu sentir absolutamente nada, nem mesmo as duas almas que passaram por eles no caminho para a casa, estavam mais ao seu alcance.

— Pensei que iria vir mais cedo e não uma hora dessas — resmungou a mulher novamente e na direção do portão.

O Buscador não demorou quase nada para reconhecer a mulher, ou melhor! Daniel logo soube a qual raça a moradora da casa pertencia e ficou um pouco apreensivo. A moça tinha longos cabelos negros. Eram tão escuros, fazendo o rapaz pensar que nenhuma ponta de claridade conseguia passar. A pele, em um tom pálido, quase chegando à tonalidade de, quando alguém passa muito tempo dentro da água.

— Você é uma Senhora D’ Água — disse Daniel no momento que a dona da casa chegou ao portão.

Percebeu o efeito que sua frase provocou na mulher e logo se arrependeu em ter dito. Daniel sabia dos incríveis poderes mentais das Senhoras sobre os homens. O Buscador estudou brevemente sobre o mito das Senhoras D'Água. São mais popularmente conhecidas como Iaras ou Mãe D’Águas. Olhou de canto de olho para Marcos e fez menção de colocar a mão sobre o peito.

— Relaxa garoto! — Exclamou a mulher abrindo o portão lentamente. — O Joshua indicou você para auxiliar com a boneca da minha filha, já que não quero ir à Espiridom. O grupo das Senhoras dessa cidade não gostou de ter uma das suas servas casada com um homem e agora elas querem minha prisão e, por isso, não posso nem pensar em colocar os pés em suas terras. Tirando também que na Espiridom vou ter que pagar muito mais caro.

— Então você é uma Senhora Errante? — Perguntou Daniel ao abaixar sua mão. Pode sentir que Marcos suspirou um pouco mais aliviado ao seu lado, mas não se permitiu olhar novamente em sua direção. Queria ficar olhando fixamente para os olhos da mulher, que eram de um verde vivo.

— Sim — respondeu. — Pode me chamar de Kranti! Você deve saber que é raro uma Senhora ter seu coração roubado, por um homem. — abriu todo o portão e Daniel entrou, mas ainda estava um pouco apreensivo. — Tive que fugir para morar com o amor da minha vida…

Chegando perto da casa, quando a mulher simplesmente parou de falar. Daniel avistou pela porta um homem brincando com uma menina na sala.

— Sei que tem um espírito na boneca da minha filha e preciso que tire — pediu Kranti. — Tem outra coisa! Meu marido não sabe a respeito do nosso mundo e disse que você era um padre moderno…

— Minha filha! Não virei os irmãos Winchester ou Caçador de Sombras para fingir ser alguém que não sou — comentou Daniel e escutou Marcos explodir em gargalhadas ao seu lado. Era um pouco estranho escutar a alma rir e mais ninguém ouvir.

— Posso dizer que sou um padre! — Disse rapidamente ao ver que a mulher ficou séria.

— Daniel no caso eu seria seu anjo ou seu Parabatai? — Marcos perguntou e explodiu mais uma vez em uma risada alta e longa.

O Buscador apenas censurou o espírito com os olhos e voltou sua atenção para a Senhora D’Água, quando foram para perto da casa.

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— Nunca mais comece a rir daquele jeito! — Exclamou Daniel na porta do quarto. O Buscador passou rapidamente pela sala da casa, enquanto Kranti apenas comentou com sua família que ele era o padre que veio olhar a boneca. Daniel suspeitou que a mulher estivesse usando seus poderes para manter o seu marido e a filha ocupados assistindo televisão, pois os dois mantiveram o olhar para a tela, no momento que o Buscador passou.

Olhava para o pequeno cômodo, enquanto Marcos andava de um lado para o outro. Daniel pode ver que a o espírito ainda estava querendo rir, mas fazia de tudo para segurar a vontade. Correu novamente seu olhar pelo quarto e avistou: uma cama com a colcha da pequena sereia, uma mesinha ao seu lado, logo embaixo da janela. O pequeno guarda-roupa do outro lado fez o Buscador pensar se caberiam muitas peças de roupas dentro do mesmo.

Ao olhar novamente para mesa e através de Marcos, viu uma cadeira velha e nela uma boneca. Foi e pegou o objeto, quando logo sentiu uma energia emanando do seu interior. A boneca tinha um vestido surrado, na cor vermelho. As mãos, cabeça e pés em um azul escuro.

— Consegue sentir a energia da alma? — Quis saber Marcos olhando para o brinquedo e depois para o rosto do Buscador.

Daniel não queria perder tempo com aquele espírito, então trocou a boneca de mão e disse a palavra correspondente à fusão. Sentiu seu coração apertar, depois o sangue esfriar e, por fim, o quarto ficou cheio da luz doentia do Mundo Espiritual, mas logo voltou ao normal. Estava apreensivo, por ser a primeira fusão dele com Marcos depois da sua suposta mudanças.

Antes mesmo de fazer qualquer coisa, sentiu uma onda de poder colidir contra seu corpo e o jogar com força contra à porta. Daniel perdeu o fôlego, mas logo retomou o controle da respiração e se colocou novamente de pé procurando a boneca, porém ficou levemente surpreso ao ver o brinquedo sentado novamente na cadeira e agora com a boca aberta, que antes não tinha. Sabia que as Almas Depravadas gostam de apegar-se a objetos importantes e de valor sentimental para os vivos, também sabia que seria difícil lutar naquele lugar pequeno.

— Você está bem longe de casa, Buscador. — Uma voz aguda saindo da boca, que era um rasgo na cabeça da boneca. Daniel chegou a pensar que o tecido tinha o formato de dentes. — Vamos fazer o seguinte! Saia dessa casa e me deixe alimentar-me dessa família, assim você ainda continua vivo.

Daniel piscou, mas teve certeza que o brinquedo inclinou a cabeça para a direita. Não tinha notado, mas a luz da lua cheia era a única claridade dentro do quarto.

— Não acho que uma boneca possa fazer algo comigo… — Antes de terminar a frase, Daniel percebeu a Alma começar a levantar a mão, então sentiu Marcos agir dentro no seu interior. Uma tela de fogo azul surgiu e logo depois, um impacto colidiu contra a mesma e as chamas se agitaram. — Obrigado!

O Buscador não perdeu tempo. Trouxe as duas mãos para perto do peito e as empurrou com agilidade e força contra a tela, que saiu em alta velocidade em direção da cadeira. Daniel não se preocupou em colocar fogo na casa ou destruir algo importante, pois o Fogo Etéreo não afeta nada no Mundo Físico.

A parede de fogo correu em direção à boneca na cadeira. O brinquedo tentou fazer algo para parar o ataque, mas não adiantou de nada. Daniel viu a boneca ser envolta em uma enorme quantidade de chamas azuis e, logo em seguida, gritos saíram da boca em formato estranho.

— Fácil demais! — Exclamou Daniel ao sentir Marcos se agitar em seu interior. Preparou-se para qualquer tentativa de sua alma, mas nada aconteceu.

— Disse que vou ser uma pessoa, bem, alma diferente — comentou Marcos na mente de Daniel. O Buscador pode sentir a calma na voz de espírito.

Por um momento. O rapaz desviou o olhar da boneca, que agora queimava caída aos pés da cadeira. Daniel olhou para janela e viu novamente a luz prateada da lua. Pela primeira vez pode imaginar um futuro sem brigas com Marcos, um em que eles tivessem uma vida quase normal, mesmo, os dois pertencendo ao mundo sombrio e cheio de coisas estranhas.

— Daniel — chamou Marcos no interior do Buscador. —, olhe para a boneca!

O rapaz imediatamente direcionou seu olhar para o brinquedo que queimava, quando notou que as chamas azuis estavam sumindo e no lugar uma estranha quantidade de fumaça negra subia para o teto do quarto.

— O espírito que estava nessa boneca era muito fraco. — Daniel começou falar e seguiu na direção do objeto, que ainda soltava fumaça. — Me ameaçou e depois usou certa quantidade de poder, mas foi destruído de uma forma tão banal. Acho que só disse as palavras para tentar me assustar.

— Também acho! — Concordou Marcos. Daniel sentiu certo tom de preocupação na voz em sua mente. — Vamos sair logo dessa casa!

Foi para perto da boneca, que agora não emitia mais fumaça e a pegou. Não sentiu mais energia. Daniel sentiu Marcos ficar ainda mais agitado, então o deixou sair. Fechou os olhos e disse a palavra mentalmente para a fusão, mas como já estava unido com sua alma, o encanto funcionou como uma chave para destrancar a ligação. Sentiu seu coração parar e uma forte sensação de vento sair do seu corpo e ir para o quarto. Abriu os olhos e viu Marcos parado na sua frente.

Saiu em um pequeno corredor, que dava de frente de duas portas e ao lado um portal. Portal este que levava ao restante da casa. Daniel olhou para Marcos ainda dentro do quarto, quando o espírito começou a ficar invisível, mas antes pode notar certa apreensão em seu rosto.

— Está tudo bem? — Perguntou a Senhora D’Água ao vir de encontro, bem no portal.

— Sim — respondeu Daniel, que ainda estava com o brinquedo na mão esquerda. — Mas preciso levar a boneca comigo! Ela foi usada por um espírito e agora é suscetível a atrair outros da sua espécie, ou seja! Agora ela é uma relíquia.

A mulher assentiu com a cabeça e virou para a porta de entrada. O Buscador foi logo atrás, mas não antes de notar que o homem e menina estavam do mesmo modo. Saiu pela porta e sentiu Marcos passar ao seu lado.

Daniel pegou o pagamento com a mulher e seguiu pela rua deserta, estava começando a se sentir cansado, em função, de ter usado o Modo Buscador. Não que sempre ficasse sentido algo em seu corpo, mas às vezes o rapaz sentia uma enorme necessidade de dormir ou comer algo.

— DANIEL! — O Buscador escutou Marcos gritar um pouco atrás. Virou para ver o motivo do grito, quando sentiu seu corpo gelar com a cena que estava vendo.

Marcos estava sendo segurado por duas coisas estranhamente feias. Os dois seres tinham o corpo humano, mas suas peles eram negras e de uma aparência de carne em decomposição. Dos olhos saía uma coisa semelhante a sangue velho.

— Soltem… — Daniel tentou ordenar, quando um dos seres apontou a mão em sua direção. O Buscador logo, em seguida, sentiu sua cabeça começar a explodir em uma dor excruciante e sua visão começou a falhar. Levou as duas mãos para segurar sua cabeça, na tentativa de impedir a dor, mas não adiantou, de nada, quando começou a cair.

Daniel já não conseguia fazer mais nada. A única coisa que escutava eram os gritos de Marcos, mas até mesmo sua audição começou a falhar.

Notas finais
Obrigado por ler e espero que tenha gostado e deixe seu comentário!