Notas iniciais
Aqui é um dos capítulos que mais gosto, pois tem uma surpresa do nosso folclore nele.

O sol da manhã queimava o pescoço de Daniel, enquanto caminhava pelas ruas de Nascente Empírica. Usava uma camisa regata branca, junto de seu velho short azul, que era de um novo material sintético, pois achou que naquela manhã iria fazer muito calor. Sempre gostou de sentir o calor em sua pele, mas não ficava queimado. Daniel apenas sentia seu corpo emitir um forte calor. Viu Marcos aparecer algumas vezes depois que saiu de seu apartamento.

Passaram-se alguns dias depois do ocorrido na casa dos pais do Marcos e Daniel notou uma mudança radical em sua alma. Marcos não tentou mais nenhuma vez matá-lo, agora sempre estava disposto a tentar ajudá-lo e com um humor totalmente diferente de antes.

— Quero pedir desculpa mais uma vez — disse Marcos ao aparecer na frente de Daniel, que não teve tempo para desviar e passou no meio da alma. O Buscador não aguentava mais escutar os pedidos de desculpas de Marcos, mesmo, já tendo dito que levaria tempo para aceitar. Daniel não sabia realmente quanto tempo levaria para superar os dois anos de sofrimento, mas no fundo sabia que não estaria mais tão bravo, pois seu coração era mole, porém o seu orgulho não.

A alma se desfez no momento que seu humano passou. Não demorou muito para reaparecer um pouco mais à frente. Daniel estava passando na frente de um bar e resolveu entrar.

— Pensei que iríamos para a Quinquilharia! — Exclamou Marcos ao aproximar-se.

— E vamos — comentou Daniel ao entrar em um estabelecimento, que a fachada era toda de vidro. — Vou apenas comprar uma água!

Conhecia o bar, pois sempre ia ao estabelecimento para beber algo e tentar esquecer os planos malucos de Marcos. Também sempre passava, quando a chefe dos Buscadores Brasileiros ficava tentando-o fazer entrar para a ordem. Camilla queria a todo custo que Daniel deixa-se de ser um Buscador Errante.

O lugar era composto, por mesas e cadeiras de madeiras pretas, com um grande balcão ao fundo. Na lateral esquerda perto das portas, viam-se os banheiros. Daniel gostava do lugar, pois era simples e sempre tinha as melhores bebidas. Olhou para trás e viu outra porta. O bar também tinha uma área reservada para as pessoas que gostava de jogos, mas Daniel nunca se atreveu ir jogar. Esse lugar fica atrás de uma porta vermelha na lateral direita de quem entra no bar.

— Olá — cumprimentou Daniel o moço no balcão. — Uma água, Klan!

— Um minuto amigo — disse o rapaz e foi pegar o pedido na geladeira um pouco mais atrás. — Está um dia quente!

O Buscador ficou olhando o barman ir pegar sua garrafa. Daniel viu sua pele negra e os cabelos crespos na cor castanho-escuro e os olhos incrivelmente vermelhos, com um rosto severo. Daniel sabia da bondade extrema do seu amigo. Sabia que o rapaz era um Saci.

No início da sua carreira foi bem difícil aceitar a existência de almas no mundo dos homens e quando soube que boa parte do folclore brasileiro, era real, acabou demorando em acostumar-se com as Senhoras D’ Água ou Iaras, fabricantes e vendedoras de seus cosméticos de beleza. Os Sacis trabalhando em bares ou lugares de jogatina, quando soube que as Pooras ou Caiporas vagavam pelo Brasil protegendo os animais. Tinha também as Anguis, que odiavam ser chamadas de Boitatá. E sendo as protetoras das matas.

— Aqui está sua água, Daniel — disse Klan ao entregar a garrafa. — Você vai passar a noite aqui?

— Não — respondeu o rapaz e pegou a garrafa. Dispensou o copo que o barman o entregou, estava com muita sede e não queria ter modos naquela hora. Virou a garrafa, bebendo quase todo o líquido de uma só vez, quando viu Marcos aparecer, na verdade. Não tinha notado que sua alma de ligação havia ficado invisível.

— Olha para a porta! — Ordenou Marcos.

Daniel girou na base, ainda com a garrafa em seus lábios e foi assim que viu um jovem entrando. No momento não havia notado, mas depois sentiu a sensação estranha de energia etérea vindo do mesmo. Buscador

— É aqui que estão precisando de um ajudante no bar? — Perguntou o jovem de cabelos castanho-claros.

— Sim! É aqui mesmo que estamos precisando de um ajudante — respondeu Klan ao contornar o balcão e ir à direção do jovem. — Qual é o seu nome?

— Pedro Siqueira — falou o garoto alegremente. Daniel julgou que o menino deveria ter pouco mais dezesseis ou quinze anos de idade. — Gostaria de ocupar a vaga de meio período!

— Ele não é muito novo para ficar perto de bebidas, Klan? — Daniel quis saber. Também percebeu que o jovem era um Buscador, mas pelo visto, o mesmo não tinha notado a verdadeira identidade de Daniel. — Você pode acabar na Prisão Cúbica!

— Ele vai ser perfeito! — Exclamou Klan ignorando Daniel, no momento que o mesmo foi para a porta. — Você não pagou a bebida!

— Coloque na conta — ordenou Daniel.

— Por que ele não sentiu que você é um Buscador? — Perguntou Marcos logo atrás de Daniel.

— Ele é somente um jovem, que ainda nem deve ter saído de Espiridom! — Disse Daniel ao chegar à rua. — Não sei se lembra das vezes que fomos naquele lugar! Espiridom é a central brasileira e escola para jovens Buscadores.

Daniel tinha esquecido que as novas lembranças de Marcos o deixaram confuso.

— Todos os seres do folclore brasileiro são reais? — Perguntou Marcos ao ficar do lado de Daniel. A rua quase não tinha movimento e isso deixou o Buscador muito feliz, pois não precisava ficar invisível e muito menos ficar desviando de pedestres.

— Quase todos são — respondeu Daniel ao jogar sua garrafa em uma lata de lixo. Estava atravessando uma das principais ruas da cidade e, mesmo assim, quase não havia movimento. O rapaz estranhou, mas deixou de lado. — Já estudamos isso, mas vou tentar te explicar novamente, então começarei pelos falsos mitos! O mito dos Curupiras é uma confusão criada através dos anos, pois não existem pessoas com os pés virados, na verdade! Eles foram homens amaldiçoados pelas Pooras e agora vagam pelas florestas protegendo os animais e a flora — fez uma pausa para ver se Marcos prestava atenção e o mesmo não parava de olhar para Daniel. —, e uma das formas de punição foi mudar a direção dos pés dos homens. Outro é o mito dos lobisomens, que são índios ou bruxos com o poder da metamorfose. — fez uma segunda pausa para ver se Marcos tinha seguido a linha de pensamento, até aquele ponto da conversa. — Cada povo se transforma em um tipo de animal, então assim surgiram vários mitos de homens se transformando em animais ou sendo amaldiçoados. Os países do norte possuem metamorfos transformam-se em lobos gigantes e, quando mordem alguém, acabam passando o dom para a vítima. Nos Estados Unidos os índios viram aguias, Europa em ursos e Japão em serpentes gigantes. Cada nação tem seu mito, mas, na realidade! São todos reais, pois para o surgimento de um, as pessoas devem ter visto ou imaginado. Os Normais vêm achando que esses seres não passam de contos para assustar crianças. Só que quase todos têm um fundo de verdade!

Marcos concordava com a cabeça, quando Daniel entendeu que sua alma estava começando a organizar suas ideias.

— Outra confusão é com as Mulas Sem Cabeça! — Continuou Daniel ao virar uma esquina e estar bem perto da Quinquilharia. — As mulas são as Emissárias da Luz, pois, por onde elas passam a vida nasce, ou seja, elas são responsáveis pelo surgimento das nascentes dos rios, florestas e seres vivos, porém um antigo Xamã teve ciúmes e jogou uma maldição sobre os animais. Sendo somente na luz da lua cheia, que elas podem voltar para suas formas originais, que é uma égua com crinas de fogo e cascos com ferraduras de ouro. A igreja Católica foi a primeira a descobrir sobre o mito e usou o argumento para as mulheres não cobiçarem os padres da época, pois as mesmas seriam amaldiçoadas.

Daniel viu que o espírito não iria mais fazer perguntas naquele momento, já que o mesmo voltou-se para seus pensamentos. Os dois viraram em mais uma esquina chegando à rua da loja do Joshua.

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Joshua arrumava algumas de suas prateleiras na sala atrás do balcão, quando ouviu o barulho da porta. Saiu do lugar bagunçado, que estava e não se deu ao trabalho de ficar preocupar com a situação.

— Queria falar comigo? — Perguntou uma jovem de cabelos pretos e cacheados. Joshua reconheceu imediatamente. Era Ana Julia.

— Sim quero! — Exclamou Joshua em sua neutralidade casual. — Já se mudou para o apartamento ao lado do Daniel?

A moça aproximou ainda mais do balcão e apoiou uma das mãos e o Bruxo pode ver a cor vermelha do esmalte nas unhas. O jovem correu os olhos pela sala em busca de algo possivelmente fora do lugar, mas viu que todas as suas prateleiras, gondolas e cestas estavam perfeitamente arrumadas.

— Faz alguns dias que mudei para o apartamento ao lado do Daniel — respondeu Ana Julia. Joshua notou que estava com calor, pois não parava de mexer em sua blusa verde-claro com a outra mão. — Ele quase não faz nada?

— Não — disse Joshua ao ir pegar um banco para se sentar. Também percebeu que deveria arrumar as coisas trás do balcão. — Ele é um Buscador Errante, ou seja, trabalha fora do sistema dos Buscadores. Preciso que você aproxime-se dele e torne-se uma amiga ou algo do tipo, porque a Camilla quer que ele entre para ordem e seja um objeto de estudo.

Ana revirou os olhos e Joshua apenas piscou lentamente e disse:

— O último Buscador Com Sorte morreu faz uns trinta anos! A Sociedade das Relíquias sempre teve interesse nesta classe de Buscador, já que eles são incomuns e, tirando que são os únicos que podem fazer magias como os Bruxos e ao mesmo tempo manipular energia etérea. Os Demens, Projetistas e Ceifeiros só conseguem fazer suas técnicas. Esse tipo de coisa deixa a Sociedade com medo! Eles, na verdade, temem um dia serem superados…

— Está de brincadeira — debochou Ana. O Bruxo, agora tinha sentado na pequena banqueta ao lado da estante de livros. — Não acredito que a Camilla realmente queira fazer alguma coisa contra o Daniel! Ela foi eleita pela Sociedade como líder. Tirando nossa missão de Buscadores de Relíquias, a outra é manter o equilíbrio entre o Mundo Físico e Etéreo! Ou seja! Não temos que ficar estudando os vivos, pois nosso negócio é a morte. Trabalhamos com almas e não com ciência!

Ana saiu do lugar e começou andar pela loja, enquanto Joshua continuou do mesmo jeito. Pensava se era uma boa ideia colocar uma Buscadora para tomar conta de um Buscador que não sabia muito do mundo, a qual, ambos pertenciam. Joshua também chegou pensar em contar seu segredo, mas deixou essa ideia de lado, agora mais que nunca tinha que evitar revelar o seu verdadeiro motivo de ajudar o Daniel.

— Pensei que fosse mais inteligente! — Bufou Joshua ao fundo. — Não importa o que você pensa ou siga. O importante é manter o Daniel fora de perigo! Ser um Buscador Com Sorte é perigoso em vários sentidos e não me pergunte o motivo! Estou te contratando para me avisar e agir se preciso.

— Vou tentar ser amiga dele e com o passar do tempo irei contar que sou uma Buscadora — disse Ana ao voltar para perto de Joshua. O Bruxo ainda continuava olhando para o nada e pensando em muitas coisas ao mesmo tempo.

— Ele deve chegar daqui a pouco e passarei uma nova missão — comentou Joshua ao direcionar seu olhar para jovem. Viu seu nariz extremamente pontudo e o rosto triangular. — Aproxime dele, assim que ele sair da missão e conte sobre ser uma Buscadora. Sei que é boa com mentiras!

— Acha que vai funcionar? — Quis saber a moça.

— Não quero saber se vai funcionar! — Joshua falou ao se levantar e ficar olhando diretamente nos olhos de Ana Julia. — Tem que funcionar...

O bruxo iria dizer mais alguma coisa, mas sentiu a presença de Daniel se aproximando da loja.

— Ele está chegando para pegar o pagamento — exclamou ao estalar seus dedos da mão direita e no mesmo instante surgiu um portal. — Vai pra casa! Quando for a hora de ir atrás dele te mando uma mensagem.

Percebeu Ana Julia fazer cara feia, mas mesmo assim a moça entrou no portal e desapareceu. O portal não tinha acabado de se fechar, quando Daniel entrou pela porta.

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Daniel entrou na Quinquilharia e pensou ter visto o fechamento de um portal ao lado do balcão, mas deixou a suspeita de lado. Sabia que Joshua era um antigo Bruxo imortal e seria perfeitamente normal ter um portal aberto em sua loja.

— Olá Joshua! — Cumprimentou o jovem Buscador ao passar pelas conhecidas prateleiras e especiarias ao sentir cheiro de chocolate e hortelã. — Vim buscar meu pagamento e ver se tem uma nova missão!

O imortal estava apoiado no balcão. Ficou olhando, por alguns segundos para o Buscador, enquanto ainda analisava se foi uma boa ideia ter colocado Ana para tomar conta dele, mas, mesmo assim, foi até sua estante de livro e pegou um envelope pardo.

— Dentro dele têm sua nova missão e a quantia de um mil e quinhentos reais — disse Joshua. Daniel percebeu que a face de seu amigo estava mais séria que o de costume, mesmo para uma pessoa que fingia ter sentimentos. O Buscador achou muito suspeito, porém não quis comentar.

Pegou o envelope e saiu da loja. Daniel estranhou muito o comportamento do Bruxo, que não notou que Marcos havia desaparecido. Olhou novamente para dentro do estabelecimento para ver se via Marcos, mas não viu.

— Estou aqui! — exclamou uma voz vinda pelo vento. Daniel virou-se para rua e viu Marcos perto de um poste de luz. — Não queria atrapalhar seus negócios e resolvi ficar aqui fora esperando.

O Buscador levantou uma sobrancelha para Marcos e tentou segurar uma súbita vontade de rir. Estava começando achar que todos resolveram ficar estranho naquele dia, quando olhou para o fim da rua e viu novamente a alma de um cachorro vindo à sua direção. Do outro lado dois fantasmas seguiam na direção oposta da dele.

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Daniel desceu no ponto de ônibus da quadra do seu prédio e caminhava lentamente, enquanto Marcos saiu correndo na sua frente, brincando com o cachorro fantasma. O Buscador caminhava olhando para o chão, quando sentiu a sensação de energia etérea na sua frente e não era o Marcos e muito menos o cachorro.

— Por que tem tanto medo assim? — Daniel escutou alguém perguntar e levantou os olhos na direção da voz. Avistou uma mulher de pouco mais de trinta anos. Não demorou em reconhecer a Camilla. — Preciso ter uma conversa muito séria com você!

Marcos brincava alegremente como animal, que não viu Daniel parar de andar e começar conversar com uma mulher. Largou no mesmo instante o animal e ficou invisível e foi para perto de seu humano.

— Já disse que não temos nada para conversar! — Exclamou Daniel ao fazer menção de ir para o lado da mulher, mas à mesma se colocou na frente do rapaz. — Você quer estudar os meus poderes e não serei sua cobaia!

Daniel sentiu a presença de Marcos ao seu lado e trocou o envelope de mão. Estava se preparando para entrar no Modo Buscador. Sabia que a chefe dos Buscadores Brasileiros não iria deixá-lo passar tão facilmente.

— Realmente queremos estudar seus poderes, mas acho que seria melhor ganhar para isso — disse a mulher passando uma das mãos nos longos cabelos escuros. — Você trabalha como um Buscador Errante e nunca vai ganhar uma boa quantia!

— Ganho uma ótima quantia — comentou Daniel friamente. Pensou em deixar Camilla falando sozinha e ir para seu apartamento, mas sabia que a mulher iria atrás. — Você não pode me obrigar entrar para a Sociedade das Relíquias, já que trabalho segundo as leis, ou seja, não uso meus poderes em normais ou na frente deles. Vamos deixar uma coisa bem clara? Vou trabalhar sozinho, pois não quero ter que receber ordens e muito menos ser estudado…

— Acha mesmo que pode fugir da Sociedade, por muito tempo? — Perguntou Camilla ao lançar um olhar frio e sério. Daniel pode sentir o peso dos olhos pretos da mulher. — Em algum momento vai precisar da nossa ajuda e quando isso acontecer! Obrigarei a entrar para ordem. Não posso deixar um Buscador Com Sorte passar tão facilmente! — Daniel viu um sorriso doentio formar-se nos lábios da mulher. — Você não entende o quanto pode ser grande.

O Buscador colocou a mão livre no peito e disse a palavra de fusão em pensamento. Esperou o processo terminar, enquanto ainda escutava as palavras da mulher em seus ouvidos. Estranhou muito Camilla parar de falar e ficar olhando para seu rosto. Daniel começou andar, sem nenhuma vontade de responder novamente a Buscadora.

Quando ultrapassou a mulher, acabou dando de cara em algo. Esticou a mão e sentiu que uma parede invisível fora criada para bloquear seu caminho.

— Ainda não terminei com você! — Camilla disse com um tom alto. — Sabe que desrespeitar um oficial da Sociedade é passível de pena de morte?

— Mas eu terminei com você, Camilla! — Falou severamente. — Você realmente é um oficial, mas só obedeço a Corte Cúbica. Você apenas faz parte dela! Nunca assinei nenhum contrato que estava sob suas ordens, então você não pode mandar me matar ou muito menos sentenciar à Prisão Cúbica.

Convocou seu poder e desferiu um murro na parede invisível, quando escutou o barulho de algo se quebrando, então começou andar sem olhar para trás, mas sabia que Camilla o olhava com raiva, mas não iria fazer nada, já que vários humanos saíram do prédio e outros dobraram a esquina.

— Ainda vamos nos ver Daniel! — Disse a mulher. O rapaz não fez questão de prestar muito a atenção e entrou no seu prédio.

Notas finais
Espero que tenham gostando!