Os Buscadores de Relíquias—O Buscador Errante
4 Capítulo 3
Notas iniciais
O vento soprava alto nos ouvidos de Daniel, fazendo-o abrir os olhos. O Buscador deparou-se com a rua, quando sentiu algo forçando sua perna para dar mais um passo. Daniel ainda envolto em um estado de sono forçou seu corpo para trás em uma tentativa de impedir sua queda do terraço.
Não entendeu, o motivo de não controlar suas pernas, achou que tratava-se de um pesadelo. O Buscador começou entender, que sua Alma de Ligação tinha possuído seu corpo e agora o forçava a se jogar do alto do seu edifício.
— Marcos pare com isso! — Advertiu Daniel colocando toda sua força, em sua perna. — Garanto que vou destruir sua alma com o Fogo Etéreo, antes de cair!
Daniel viu sua perna esquerda ficar à frente do prédio e inclinando para o precipício, a outra seguindo o mesmo caminho. Concentrou toda sua força na perna que ainda tinha controle, então forçou para trás. Não teve tempo de tentar se preparar para nada, quando sentiu que seu corpo chocando-se com o chão do edifício.
Seu sono desapareceu e no lugar um mar de ódio explodiu em seu peito. Queria poder desfazer sua ligação naquele momento, mas logo se lembrou de que isso o mataria.
— Saia de mim! — Exclamou Daniel ao bater a mão no peito. A energia etérea do Marcos fluiu para fora do seu corpo e, então estava novamente no controle.
A Alma de Ligação materializou-se ao lado do Buscador, que estava com raiva e indignação ao mesmo tempo, em seus olhos. Daniel vinha enfrentando as tentativas de Marcos, em tentá-lo matar, faziam exatos dois anos. No começo eram coisas simples, como tentar desequilibrar seus poderes no Modo Buscador, depois começou atrair várias almas para o seu humano e, por fim, estava possuindo o corpo do rapaz. Daniel já não aguentava mais as tentativas de suicídio.
Marcos queria ficar livre, a qualquer custo do seu humano de ligação, assim, poderia voltar ao Mundo Espiritual e seguir sua vida depois da morte. Só que estava ligado ao Daniel e somente depois da morte do seu humano teria sua liberdade novamente, desde então, teve a ideia de tentar adiantar a morte do rapaz.
— Queria muito não ter que fazer isso! — Exclamou novamente Daniel ao se levantar lentamente. O rapaz olhou para o cotovelo esquerdo percebendo uma leve ardência, pois deveria ter uma escoriação naquele lugar. Na barriga sem camisa tinha alguns cortes, mas nada grave. — Vou ter que te obrigar a ver uma coisa.
Daniel disse as duas frases e em momento algum olhou para Marcos. O Buscador foi na direção da porta, de acesso às escadas. Entrou e desceu dois lances, chegando ao corredor do seu apartamento. Daniel escolheu viver no décimo andar de um prédio, que fora apelido de Empire State Brasileiro, por causa da semelhança ao o original, porém este tem apenas doze andares. O jovem achou muito irônico a forma do prédio, por isso que resolveu morar nele, assim seria uma forma de estar perto dos seus pais que vivem nos Estados Unidos.
As paredes do corredor foram pintadas com um branco-perolado, a iluminação se dava de lustres em formatos de torneiras, com lâmpadas no lugar que deveria sair água. Era visível pares ao lado de cada porta. O piso de um mármore negro, tão escuro, que as pessoas achavam que deveria ser um tipo raro.
Logo viu a entrada do seu apartamento, no final do corredor e também notou caixas na porta ao lado da sua. Ficou curioso, pois ninguém morava naquele andar sem ser ele, então ter um novo vizinho ou vizinha chamou sua atenção. Passou em frente ao o outro apartamento. Não aguentou a curiosidade e olhou para ver se via algo, então viu uma mulher no meio da sala.
Daniel ficou olhando para a moça com seus cabelos pretos e cacheados, a pele bronzeada, quase chegando ser negra.
A moça se virou para pegar algo na caixa, então Daniel percebeu que a mesma ficou olhando na sua direção. Não sabia o que falar, quando Marcos materializou-se para ficar olhando sua cara e depois para a mulher, que deveria estar na casa dos trinta anos.
— Olá — disse a moça dentro da casa. — É você que mora no apartamento ao lado?
— Perdeu a fala? — Marcos perguntou para Daniel. O rapaz lançou um olhar carregado de ódio para o espírito.
O Buscador queria bater em Marcos depois de tentar realizar seu plano suicida naquela manhã.
— Oi — respondeu Daniel ainda olhando na direção de Marcos. Virou para a mulher percebendo seu olhar confuso. — Sim! Moro no apartamento ao lado.
Daniel chegou mais próxima da porta. Viu a sala e a cozinha cheias de caixas.
— Sou Daniel Antônio Silva. — Daniel cumprimentou. — Pode me chamar apenas de Daniel!
— Seus pais deveriam estar muito bêbados para dar um nome desses para você! — Exclamou Marcos ao ficar logo atrás do Buscador. Daniel revirou os olhos e abriu a boca para dizer algo, mas se lembrou que estava na presença de um Normal.
— Ana Julia Freitas. — Apresentou a mulher. Daniel apenas balançou a cabeça.
Ambos não falaram mais nada, então o silêncio recaiu sobre todos. Marcos começou achar graça da situação e foi para dentro do apartamento. Daniel não podia fazer nenhum movimento brusco, pois iria chamar a atenção da moça, que possivelmente não entendia sobre o mundo sobrenatural.
— Foi fazer exercícios? — Ana perguntou ao olhar para o corpo do rapaz.
— Sim e acabei me machucando! — Respondeu e exclamou ao mesmo tempo para Ana Julia. Viu Marcos sorrir atrás da moça. Daniel queria entrar no apartamento e dar uma surra na sua Alma de Ligação, mas logo abandonou a ideia, já que iria fazê-lo se arrepender de tudo que vinha aprontando. — Se precisar de alguma coisa é só chamar.
— Pode deixar — respondeu Ana. Daniel teve a impressão de ter visto algo no rosto da moça. Era como se quisesse falar mais alguma coisa ou perguntar, mas foi deixado de lado.
O rapaz saiu da porta e foi na direção da sua. Ao chegar na entrada, sentiu a ligação puxar Marcos fazendo-o aparecer ao seu lado.
Entrou na sala com um sofá de três lugares na parede ao lado esquerdo de quem entra. No outro lado uma bancada dividindo sala e a cozinha. Daniel nunca gostou de ter muito móveis em sua casa, então a cozinha só tinha uma mesa de dois lugares, uma geladeira branca, um fogão da mesma cor e a pia. No fundo um quarto sem porta que servia de lavanderia. Girou a cabeça, então viu sua televisão suspensa na parede.
Passou pela sala e seguiu por um pequeno corredor, com uma porta no lado direito, que era o banheiro. O quarto do Buscador ficava no final do mesmo. Daniel entrou e se jogou na cama, pois estava irritado demais para ter outra briga com Marcos. Ao correr seu olhar pelo cômodo, viu o guarda-roupa ao lado da porta, uma mesinha do lado esquerdo da cama. Lugar esse que estava cheio de papéis e livros. Também tinhas algumas das relíquias, que Daniel juntou nas últimas semanas.
Daniel procurou seu celular perdido no meio do lençol e logo discou o número do Joshua, assim que o encontrou. O rapaz chegou no seu limite, agora estava decidido levar Marcos para visitar alguém do seu passado.
— Diga! — Exclamou Joshua do outro lado da linha.
— Você achou aquele endereço que te pedi alguns meses atrás? — Daniel perguntou sem rodeio. Viu Marcos ficar visível nos pés da cama e também notou certa ponta de curiosidade no espírito. — Infelizmente vou ter que usar esse trunfo…
— Vou te mandar as coordenadas por uma mensagem — respondeu Joshua bruscamente ao cortar a fala de Daniel.
— Obrigado — agradeceu Daniel. — Pode ajudar com o portal?
— Sim — foi à única palavra do outro lado da linha.
O rapaz desligou o celular e colocou o aparelho ao lado da cama.
— Se tentar fazer mais alguma coisa hoje! — Comentou olhando para Marcos — Vou selar sua alma em uma pedra!
Daniel sabia que não iria conseguir dormir mais, porém, resolveu ficar deitado pensando em várias coisas e nada em ao mesmo tempo. Escutou quando seu celular tocou. Joshua mandou a mensagem.
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A sensação de viajar, em um portal feito por um bruxo, na maioria das vezes, não é confortável. Daniel havia viajado algumas vezes com a ajuda do Joshua. Ao entrar na passagem dimensional, sentiu cada partículas das suas células desfazerem-se e serem enviadas para o outro lado.
Abriu os olhos para perceber que estava em uma rua com casas de ambos os lados. Daniel olhou para endereço no celular, sendo na Zona Norte da cidade de Londrina. O Buscador achou que seria em algum lugar mais longe de Nascente Empírica, mas era apenas alguns poucos quilômetros.
— O que exatamente estamos fazendo aqui? — Marcos perguntou para Daniel. O espírito não estava visível, coisa que agradou muito o humano.
— Viemos ver umas pessoas — disse o Buscador sem nenhum sentimento na voz. Só que sua mente ainda estava indecisa, se realmente deveria fazer aquilo. — Não está reconhecendo o lugar?
O rapaz olhou nas casas do outro lado da rua para ver se via o número 1228. Não demorou muito, quando avistou a numeração em uma casa verde-limão, quase chegando à esquina.
— Tenho a sensação de reconhecer! — Exclamou Marcos ainda sem materializar-se no plano físico.
Daniel começou andar na direção da casa. Gostou muito da rua, pois havia várias árvores na porta de cada casa, assim, proporcionando uma grande sombra fresca para aqueles que estiverem fugindo do sol. Olhou em volta e não demorou perceber que quase todas as casas tinham o mesmo formato. Todas com telhados de cinco pontas, duas janelas na parte da frente e uma porta ao lado de uma delas.
— Não acredito! — Exclamou novamente Marcos. Daniel sentiu pela voz do rapaz, que o mesmo finalmente reconheceu o lugar. Já estavam na frente do endereço mostrado no celular — Você não ousaria fazer isso!
— Você não me deixou outra escolha Marcos. — Daniel disse ao bater palmas no portão.
Não demorou muito para surgir mulher uma na porta e vir na direção do Buscador. Notou poucas semelhanças da mulher com seu espírito de ligação. As únicas semelhanças entre os dois eram, a pele negra e os olhos castanhos, quase chegando ao preto.
— Posso ajudá-lo? — Perguntou a mulher. Daniel viu Marcos começar ficar visível ao seu lado.
— A senhora é Maria da Silva? — Quis saber. Ao dizer o nome da mulher, o Buscador notou a senhora ficar levemente desconfortável. Também percebeu que sua idade não passaria dos cinquenta anos.
Inclinou levemente a cabeça para olhar no rosto do Marcos. Logo viu o pânico espalhando-se na face, de sua alma.
— Sim! Quem gostaria de saber? — Perguntou novamente a mulher demonstrando ficar ainda mais desconfiada.
Daniel abriu a boca para responder, mas alguém surgiu na porta da casa e perguntou:
— Quem é querida?
— Não sei ainda querido — respondeu Maria ao olhar na porta.
— Vocês não me conhecem! — Daniel começou falar. Sua mente estava começando entrar em uma mistura de pânico e medo. — Sou uma das pessoas, as quais receberam os órgãos do Marcos!
O Buscador viu, o quanto suas palavras foram fortes para o casal aguentar. Daniel soube ainda no hospital que a família do doador não queria ser encontrada. Achou muito estranha, já que, quando uma pessoa doa parte do corpo de um ente, acaba que muitas pessoas ficam sabendo do ato de bondade.
— Mas… Como conseguiu nosso endereço? — Indagou o homem, que agora estava ao lado de sua esposa. Daniel viu que o senhor tinha mais ou quase sessenta anos. Era uma versão envelhecida de Marcos.
— Consegui uma forma de obter o endereço de vocês no hospital. — Daniel falou e teve que conter uma súbita vontade de rir. Não era acostumado a mentir para as pessoas e quando necessário, acabava rindo em algum momento, por causa da euforia. Tinha que enganar o casal de velhos para ter a confiança de ambos. — Meu terapeuta disse para achar a família, que fez a doação. Estou passando por um momento complicado na minha vida e agradecer vocês pela segunda chance de viver é uma forma, de também superar outros fatos do meu passado.
A mãe de Marcos aparentou sentir-se solidária pelo rapaz. O senhor ainda desconfiava das palavras de Daniel, mas apresentou-se ser flexível se usa-se as palavras certas. Tinha que fazer os pais de Marcos tocar o coração dele, pois não aguentava mais as tentativas de homicídio de sua alma.
O Buscador voltou a olhar para Marcos, que ainda estava paralisado.
— Você é o Daniel? — A mãe quis saber.
— Si.. Sim — respondeu. Foi pego de surpresa com a pergunta.
— Fui ao hospital para assinar umas papeladas — falou Maria, com um tom de voz vacilante. —, então fiquei sabendo que você estava internado e tinha acabado de receber o coração do meu filho. Vamos ter essa conversa lá dentro!
Maria abriu o portão de grades para Daniel entrar. Foram pela lateral da casa e chegaram à varanda na parte de trás. O local tinha uma mesa, duas máquinas de lavar-roupas e um tanque com duas torneiras. Olhou para mais ao fundo. Viu dois pés de árvores, que não reconheceu. Uma pequena horta de alfaces encostada no muro direito, com rosas no limite das verduras. O fundo do quintal era cheio de plantas e flores de vários tipos, fazendo assim, uma intensa mistura de cores e cheiros.
— Mexer com plantas é uma forma de terapia, sabia? — Perguntou a mãe de Marcos. Daniel saiu do seu devaneio e voltou olhar novamente para o casal. Tinha notado que sua alma havia desaparecido, mas logo o avistou perto de uma das árvores. O rapaz pode sentir a nostalgia de Marcos, pois, de certa forma, não estava sendo fácil voltar para sua casa depois de morto.
— Meu terapeuta comentou uma vez. — Daniel começou a falar ao voltar seu olhar para o casal. — Que mexer com plantas é uma ótima forma de superar um trauma ou algo relacionado! Não sou muito bom com seres vivos, então acabei partindo para letras. Gosto muito de ler e escrever, assim coloco tudo que estou sentindo para fora.
— Você é um Buscador — disse o pai do Marcos. Daniel não sabia se o homem estava perguntando ou simplesmente falando consigo mesmo. Olhava fixamente na direção do filho, dando a entender que era capaz de vê-lo, mas o Buscador sabia que isso era impossível. Ficou sem reação alguma com a frase, porém, fez de tudo para manter-se calmo.
Abriu a boca e fechou, pois não encontrava as palavras certas para dizer aos velhos, quando Marcos materializou-se perto de sua mãe.
— Acho melhor sermos francos! — Exclamou Maria junto do marido e não percebendo o quão próximo seu filho estava. — Minha bisavó foi bruxa, minha vó também, no entanto, a minha mãe nasceu com pouca magia para ser uma bruxa e muita para ser Buscadora. Também não sou nada! Não tenho todas as qualidades de uma Buscadora e, muito menos, de bruxa.
— Pensamos que nosso filho não teria nenhum tipo de magia — comentou o marido. — Achamos que nosso Pequeno Príncipe seria um humano, mas com você aqui na nossa casa…
— Não precisa ficar nervoso Josias. — Maria falou ao pegar a mão do marido em uma tentativa de acalmá-lo. — Pensei que doar os órgãos do Marcos não iria transformar ninguém em Buscador, já que as chances de acontecer eram raras.
— Aconteceu e isso mudou toda a minha vida. — Daniel começou a falar. — Não vim aqui para reclamar dessa minha nova vida! Vim para pedir ajuda de vocês com o Marcos, pois ele vem tentando me matar para voltar ao Mundo Espiritual.
— É bem o estilo do Marcos! — Exclamou Josias com uma voz pensativa. O rapaz notou que a menção do filho estar no mundo dos vivos não assustou os velhos. — O nosso filho era muito apegado conosco! E, a forma brutal que foi sua morte, acabou não dando tempo para nada. Acho, na verdade! Tenho certeza que ele voltou para tentar se despedir e acabou ficando preso ao seu corpo.
Marcos ainda continuava olhando para seus pais. Daniel sempre achou que o retorno da sua alma era algo ligado com sua vontade de viver. Uma coisa que soube nos seus anos de estudo é que, alguns espíritos perdem parte das memórias no processo de voltar ao plano físico, então achou que Marcos perdeu essa parte das suas recordações.
— Ele está aqui? — Perguntou Maria ao olhar envolta. Marcos se aproximou novamente dos pais e não parava de olhar em seus rostos. — Se quer mesmo a nossa ajuda, então nos deixe falar com nosso filho!
Daniel olhou para sua alma e o mesmo retribuiu o olhar.
— Êfurudii! — falou Daniel ao colocar sua mão direita sobre o peito. Sentiu a forte contração do seu coração, depois viu Marcos dissolver. A alma se espalhou como fumaça no vento. A energia etérea foi na direção do Buscador, fazendo-o ter a sensação de dormência no corpo e também da leve mudança, da temperatura no seu sangue. Daniel fechou os olhos, por alguns instantes e ao abri-los novamente, o lugar havia mudado de forma. A varanda estava vazia, as máquinas e até mesmo os pais do Marcos sumiram, mas então, tudo voltou ao normal.
Daniel deixou Marcos ficar no controle do seu corpo. Sabia do risco, em fazer a escolha, mas precisava deixar a família conversar.
— Mãe? — chamou Marcos através da voz do Daniel. O Buscador pode sentir poucas emoções de sua alma, sendo saudade e tristeza. Sentiu muita pena e queria realmente poder deixar os três juntos novamente, mas esse desejo era algo irracional, já que a morte deu sua última cartada e levou mais uma pessoa para seu lado. Daniel não temia a morte, pois sabia que é a única certeza que os seres vivos têm. Morrer é poder não sentir a dor de viver. — Mamãe!
— Filho! — Exclamou Maria ao ir à direção do Buscador. — Como senti saudades!
Humano e espírito viam pelos mesmos olhos. Viram o momento que lágrimas surgiram nos rostos do casal. Marcos deu dois passos na direção de sua mãe, mas parou. Queria poder abraçar seus pais, poder beijá-los ou ter sua vida de voltar, no entanto, lembrou-se que já não pertencia ao mundo dos vivos. Para ele qualquer forma de aproximação, acabava trazendo mais sofrimentos para aqueles que sempre deram amor e carinho. Marcos estava cansado de fazer as pessoas sofrer.
— Me abrace filho! — Ordenou Maria com as mãos estendidas para o Buscador. As lágrimas rolavam em sua face e um sorriso alegre e ao mesmo tempo triste, era visível em seus lábios. — Você pode estar dentro desse rapaz, mas é sua alma que está no controle…
— Seu plano foi ótimo Daniel — debochou Marcos ao dar novamente dois passos para trás e ficar de costas para sua família. — Me trouxe para ver meus pais e tentar fazer com que, pare de tentar te matar. Só que jamais vou parar com meu plano, pois quero minha liberdade de volta e nem mesmo eles podem te ajudar.
Daniel começou sentir sua poder começar ficar instável e seu coração começar doer. Tentou tomar o controle do seu corpo, mas Marcos estava totalmente no comando e usando a energia de ambos para matar o corpo de dentro para fora.
— Pare com isso filho! — Pediu Josias. — Não desconte sua raiva no pobre coitado!
Marcos virou para ficar novamente de frente, para com seus pais, quando sentiu algo quente no nariz. Passou a mão para ver o que era. A mesma voltou cheia de sangue.
— Vocês não entendem o que é viver ligado a um humano! Vocês não sabem o que é ver uma pessoa viver sua vida e você ter que ficar ao seu lado vendo tudo — gritou Marcos. A garganta de Daniel começou doer, fazendo assim, Marcos tossir e encher a boca de sangue. Cuspiu nos pés de sua mãe. — Voltei para tentar ter meu corpo de volta, quando descubro que cortaram e deram as partes para outras pessoas…
Daniel lutava dentro do próprio corpo para ter o controle, mas não estava conseguindo. Apenas podia ver a decadência se espalhando por tudo. Tinha que impedir Marcos de alguma forma, mas não sabia como.
— Obedecemos a sua vontade meu filho — sussurrou Maria ao dar mais um passo na direção do filho. — Você sempre disse que queria doar seus órgãos e apenas fizemos o que você havia dito para todos.
— Mentira! Isso é tudo mentira — bravejou Marcos. Daniel sentiu uma leve mudança da magia e aproveitou para tirar o poder de Marcos, mas a alma tinha mais força e, de nada adiantou.
Os dois não entenderam o que aconteceu nos próximos instantes, quando ambos sentiram algo os envolver, em um aperto carinhoso. Maria chegou mais perto e abraçou o corpo do Daniel, fazendo ninguém entender o que tinha acontecido.
— Veja sua vida Marcos! — comentou Maria. Daniel pode sentir a energia sair das mãos da mulher nas suas costas. Depois entrar em seu corpo.
Marcos e Daniel começaram ver várias cenas. Viram Marcos aprendendo a andar de bicicleta, viram a alma brincando com seu pai debaixo das árvores do quintal, que na época eram pequenas. Visualizaram uma cena de Marcos já adolescente falando que seu desejo em doar seus órgãos.
Maria soltou Daniel, que por sua vez, conseguiu ter o controle do corpo e desfazer o Modo Buscador.
Daniel tentou falar alguma coisa, mas não teve tempo para nada, pois sua visão estava sumindo. Apenas viu Josias envolver sua esposa em seus braços. Daniel não viu mais nada, não sentia nada e muito menos ouviu.
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Daniel abriu os olhos ao acordar de um profundo sono, sem nenhum sonho. Tentou levantar sua cabeça para ver onde estava, quando sentiu uma mão fazendo-o voltar para cama. O Buscador achou que não havia iluminação no lugar, mas logo percebeu que não conseguia ver nada.
Sentiu seu corpo todo ficar gelado. Sentiu o ar faltar em seus pulmões. E sentiu que era apenas um pesadelo.
— Não precisa se preocupar — disse uma voz, que logo Daniel reconheceu. Maria estava ao seu lado fazendo o deitar novamente na cama. — Estou curando seus ferimentos e no processo tive que restringir alguns dos seus sentidos!
O Buscador permitiu relaxar um pouco. Só de pensar que nunca mais poderia ver o mundo, acreditou que seria um dos piores castigos para uma pessoa que tinha o dom da visão.
— Por quanto tempo estou apagado? — Quis saber Daniel. Sentiu Marcos próximo da cama, mas não queria ter que conversar com sua Alma de Ligação.
— Algumas horas — respondeu Maria ao sair do lado do rapaz. — Falei com meu filho, enquanto você dormia — Daniel escutou a mulher estalar os dedos e sua visão voltou. —, para ver se conseguia trazer de volta meu antigo Marcos. Sei que veio aqui para isso! Não precisa dizer mais nada e espero te ajudar de alguma forma.
O Buscador levantou a cabeça para olhar na direção da mulher, mas à mesma já havia saído do quarto. Olhou pelo lugar para ver a decoração. Viu uma pequena mesa ao lado da cama, essa cheia de livros e papéis. Daniel chegou pensar que, o dono do quarto tinha acabado de sair, largando a bagunça para trás, mas sabia que aquele quarto pertencia ao Marcos e seus pais não tiveram coragem de mover nenhuma folha, em três anos. Da janela acima da mesa entrava a luz dos postes de iluminação, lembrando o rapaz que deveria ir embora. Girou a cabeça e, do outro lado, estava um antigo guarda-roupa.
— Desculpe-me — escutou Marcos desculpar-se. — Minha mãe falou várias coisas… Uma delas é que se conseguir te matar… Vou para o próximo corpo que tem alguma parte do meu.
Daniel esperou para ouvir o pedido de desculpas de Marcos, mas agora que estava ouvindo não sabia mais se seria capaz de conseguir desculpar sua Alma de Ligação.
— Não sei se posso aceitar! — Exclamou Daniel em resposta ao sair da cama. — Aguentei muita coisa nesses últimos anos e, agora realmente não sei o que falar.
— Entendo — disse Marcos ao olhar para porta. — Não quero mais ter que falar com meus pais…
— Já vamos embora! — Comentou Daniel e seguiu para a porta e saiu do quarto.
Saiu em um corredor, que tinha uma porta em frente. Porta essa que Marcos disse ser o banheiro. Daniel olhou para trás e viu o quarto do casal. Seguiu para frente e saiu em uma cozinha simples, com a entrada da sala ao lado. Os móveis, objetos e tudo era simples demais.
Daniel não queria ficar mais nenhum minuto naquela casa, então apressou-se para sair pela porta da cozinha e chegou à varanda. Logo avistou o casal ao fundo do quintal, quando levantou a mão para chamá-los, sentiu algo mudando. Sentiu a velha conhecida sensação de um portal. Não teve tempo, quando percebeu que estava caído no chão da sala do seu apartamento. Virou seu corpo para ficar deitado e veio perceber letras flutuando um pouco acima da sua cabeça dizendo: NÃO PRECISA AGRADECER!!!
O Buscador soube na hora, que Joshua o retirou da casa dos velhos e o trouxe de volta para sua casa.
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