Os Bons Devaneios de um Louco

1 Os Bons Devaneios de um Louco


A loucura move mundos e sistemas, paradigmas e dogmas celestiais. Foi a loucura que inflamou Nero a incendiar Roma. Foi a insânia que levou Sade a desafiar as normas do seu tempo. Foi a demência que conduziu Jeanne d'Arc e os seus franceses à vitória e glória divina. Em resumo, a loucura é quase Deus, talvez com menos barbas e responsabilidades.

Lars era um homem louco, um bicho claramente demente. Demente mas decente, na maioria dos casos. Certos dias desperdiçava-os bebendo. Às noites, embrenhava-se a fundo nos seus livros, manuais de antigos sábios gregos e hebraicos, de médicos e duvidosos necromantes. O seu intuito era nobre: desvendar os segredos mais profundos da sua psicose. Enfim, ser normal, era esse o seu desejo. Possuía uma inteligência prodigiosa apesar dos seus sentidos serem por si próprios alterados. Desde criança que gostava de ler e desde a infância que respirava o ar do mundo como mentalmente doente.

Foi no livro do necromante Hergaestus de Moria que encontrou mais respostas aos seus desígnios. Não podemos censurar as escolhas de vida do pobre Lars visto que, na sua altura, pouco se sabia das naturais causas e afeções da doença mental. Para além disso, as vozes que o rapaz ouvia no interior da sua cabeça asseguraram-lhe que as palavras do mago eram dignas da mais valorosa confiança. Leu o velho tomo de uma ponta à outra, sem comer nem dormir (como era maluco, não lhe fazia muita diferença), consumindo os numerosos esquemas e diagramas, silogismos e arcaismos gramaticais. O seu cérebro teria fritado se não estivesse já em mau estado. Por fim, chegou a uma conclusão que, na altura, lhe pareceu ser o mais viável possível: sacrificar ao Diabo sete crianças e sete virgens.

Como disse, na altura, pareceu-lhe extremamente viável. Com um grande saco de batatas e uma corda, correu a aldeia em busca de crianças e virgens para sacrificar. Não foi difícil visto que raciocinou (e muito bem) que as crianças costumavam ser virgens e, sendo assim, uma criança que tivesse nascido entre vinte e poucos de agosto e vinte e tantos de setembro valia por virgem também. Abençoada cabeça! Abençoado raciocínio da santa genialidade!

Ia já na sexta criancinha indefesa quando passou por Berto, o xerife do vilarejo, homem dado e afável, com o seu bigode ruivo farto e bem cuidado, sempre pronto a ajudar. Achando suspeito ver o maluco da aldeia com um grande saco às costas, tomou a iniciativa de perguntar o que se passava. O nosso Lars, que não gostava de mentir e era também excecionalmente parvo, respondeu-lhe com a maior das franquezas: estou a raptar crianças virgens. Disse isto com uma felicidade característica da sua ingenuidade e estupidez. "Estou a raptar crianças virgens! Yupi!"

De início, Berto pensou tratar-se de uma mera alucinação do pobre coitado. Só quando, após visitar a casa dele à noite, o viu a desenhar pentagramas sinistros nas paredes é que tomou consciência do perigo. Esgueirou-se pela porta (que o parvo deixara aberta) e, numa excelente demonstração de furtividade e treino militar... PIMBA! Que audácia! Que mestria! Um simples mas bem direcionado golpe na nuca levou automaticamente o doido ao desmaio. Bom trabalho, xerife Berto! O seu povo deve estar muito orgulhoso de si!

Quando Lars acordou na prisão foi diretamente libertado. Isto porque, afinal, não raptara ninguém. As crianças que supostamente colocara no saco nem sequer existiam. Fora tudo uma alucinação sua. Contudo, agora que pensava nisso, algo nele estava diferente. Enquanto pensava, chegou à conclusão de que estava mesmo a pensar, o que era estranho por si só. Já não ouvia vozes na sua cabeça. Estava curado da sua loucura, curado por uma pancada na cabeça. Quem diria que, por vezes, uma boa pancada é mesmo o melhor remédio. Quando voltou para casa (após agradecer ao excelentíssimo "psiquiatra" Berto) reparou que não encontrava o manual de Hergaestus de Moria em lado algum. Que loucura! Afinal de contas, o que raio acontecera realmente nesta história toda? Quem sabe, quem sabe...

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