“(...) eram mulheres... as mulheres mais belas que Harry já vira... só que não eram – não podiam ser – humanas.”

HP e o CdF — p. 86

Beren Ronald Snape era o meio-irmão de Lúthien. Seus olhos eram negros como a noite assim como os cabelos de corte baixo com um charme displicente e não proposital. Os lábios sempre se abriam em um sorriso de deboche automático.

Ele era o professor de Poções de Hogwarts. E aceitou com muito desagrado quando o diretor Coward deu a posição de vice-diretora para a novata professora de Defesa Contra as Artes das Trevas, Abigail Potere. Na verdade, Beren estava indisposto com muitas das decisões que o diretor tomava desde a chegada da mulher. Parecia que a Srtª Abby, como gostava de ser chamada, tinha mais poder que o próprio diretor no castelo.

Beren ouvia a conversa entre o diretor e Abigail em seu escritório, depois de adentrar sorrateiramente. Ele queria dar uns gritos com o diretor sobre a influência dela em Hogwarts, mas não perderia um diálogo dos dois que pegou sem querer.

Depois do ataque de dementadores à professora de Feitiços, com certeza Abigail daria uma palavrinha com o diretor sobre “sua opinião”. E Beren não ia deixar que ela fizesse o que bem entendesse. Hogwarts estava se transformando em uma espécie de parque de diversões para a vice-diretora.

Abigail Potere, como Beren espiou, estava na cadeira em frente à escrivaninha do diretor. A mulher, de varinha em punhos, que não soltava faíscas enquanto ela a batia em sua mão, de cabelos loiros muito claros presos em um coque severo, olhos azuis e pele clara, com um ar de desdém ameaçador e sem uma ruga sequer, estava com as pernas cruzadas e seu tom de voz era brando e firme.

O homem gorducho e velhote que era o diretor Coward, os cabelos brancos e ralos, o bigodão brega e o olhar submisso, ouvia o discurso implacável de Abigail sem se mover, sentado na cadeira atrás de sua escrivaninha. Tinha um ar de extremo interesse por sua fala.

— Ela não voltará, Cole. Nosso corpo docente estava infectado com ela, de qualquer forma.

O diretor Cole Coward nem parecia ouvir as palavras de Abigail. Apenas assentia com a cabeça, concordando com tudo.

— Quero pedir que contrate um professor, Cole. Já conversamos sobre isso, mas...

— Mas isso é decisão do diretor, certo, Abigail? – Beren entrou na sala sem se anunciar, visivelmente irritado.

O diretor deu um pulo da cadeira, como se saísse de um transe, olhando abobado para Beren. Abigail não pareceu surpresa.

— Beren. – Abigail sorriu. – Devo presumir que há um motivo excepcional para interromper minha reunião com o diretor?

Beren a fitava com aversão enquanto as duas cabeças se voltaram para ele. O diretor Coward parecia envergonhado, mas Abigail incentivava Beren com um sorriso.

— Não há um motivo excepcional, Abigail. Que tal eu expor os meus motivos pessoais? Que você chegou e já fez mais mudanças que nem mesmo os fundadores de Hogwarts conseguiram? Que tal falarmos da aluna que você deixou abrigada aqui nas férias de verão quando isso não é permitido em nenhuma hipótese?

Abigail faiscou um olhar para ele.

— Você não é uma pessoa injusta, Beren. Nunca foi. Por que eu mandaria a Srtª Ayra de volta ao orfanato quando temos conforto aqui? Ela é uma aluna exemplar.

— Ela é apenas uma aluna! E como todos os alunos ela deve voltar para casa nas férias! Merlin, nem Harry Potter ficava...

— Voltando ao passado, Beren? – Abigail deu uma risada de desdém – Estamos em outra Hogwarts.

O diretor Coward deu um pigarro alto antes de se adiantar:

— Eu permiti que a Srtª Ayra ficasse em Hogwarts porque...

— Porque ela pediu! – Beren acusou, apontando para a mulher.

Coward ficou escarlate.

— Você se atreve a insinuar que a Srtª Abby tem mais poder que eu neste castelo, você se atreve... – murmurou Coward impaciente, se remexendo desconfortável.

— Insinuar não! Afirmar! – disse Beren entredentes.

Abigail meramente sorria para os dois.

— Ela tem um espaço na Floresta Proibida e no lago que ninguém pode chegar perto. Ela tem aquele animal perigoso na frente de seu escritório! – Beren continuou.

— Pois se quiser adentrar minhas clareiras, Beren, é muito bem-vindo, mas eu não sugeriria. E o animal na porta do meu escritório é uma esfinge. – um sorriso de malícia nasceu nos lábios da vice-diretora. – Essa encenação me parece inveja. Eu soube que você era o primeiro candidato ao cargo de vice-diretor. Eu cheguei e tomei de você. É difícil conter a ira, Beren?

Coward olhava para os lados, como se procurasse ajuda. Beren fitava Abigail com vontade de pular em seu pescoço. Então se virou para o diretor:

— Prove que não está totalmente dissimulado por essa mulher. Contrate uma professora.

— Como é? – perguntou Coward.

O sorriso de Abigail sumiu.

— Ou então convide-a para ser diretora logo de uma vez!

Coward parecia ter sido esbofeteado. Não olhou mais para Abigail. Deu um gemido antes de dizer, tentando parecer uma ordem da qual ninguém podia discordar:

— Faça você. Apresente-me uma candidata decente, professor Snape.

Um sorriso perpassou os lábios de Beren. Abigail olhou nos olhos do diretor para argumentar:

— E quanto à nossa decisão, Cole?

— A reunião está encerrada. – sussurrou o diretor em um fio de voz. – Vocês podem se retirar, eu preciso de ar.

— Ou um soco na cara. – resmungou Beren.

Abigail colocou a xícara de chá na mesa e respingou por todos os lados, tamanha sua ira. Girou o corpo na cadeira até Beren e seus cabelos reluziram um brilho anormal para a iluminação do escritório. Coward prendeu a respiração.

Abigail não se levantou, contrariada. Beren, no entanto, encostou a mão em seu ombro, disposto a não deixá-la dar continuidade à “reuniãozinha” com o diretor. Abigail abriu um sorriso de desdém antes de descruzar as pernas e se levantar levemente da cadeira. Beren a vigiava sem vergonha nenhuma.

Seus olhos se cruzaram e Beren aguardou que ela passasse primeiro pela porta de carvalho com uma aldrava em forma de grifo que levava à escada de saída.

— Cole, eu voltarei. – anunciou Abigail sem colocar os olhos no diretor.

A respiração dele era audível e desconfortável. Beren olhou dela para o diretor gorducho atrás de sua cadeira com uma expressão irritada. O salto de Abigail rangeu no chão.

Quando ela passou por Beren, começou um diálogo aos sussurros. Ele ficou atrás dela quando passaram pela porta de carvalho e encontraram a escada, que começou a girar para baixo como uma escada rolante.

— Você é muito atrevido, Beren. – disse Abigail com um sorrisinho, já na escada.

— Só gosto de defender meus princípios. Aqui não é sua casa, Abigail. Você não vai varrer para fora o que quiser nem deixar entrar o que acha bonito.

— Você parece uma criança que perdeu o quarto para o irmãozinho mais novo, Beren. – rebateu Abigail.

— E você devia aprender que as coisas não podem te agradar o tempo todo só porque o diretor tem uma queda por você, Abigail. Sua mulherzinha mimada.

A mão de Abigail encontrou a porta para o corredor. Seus olhos faiscaram uma leve malícia para o professor de Poções. Ela girou o corpo para Beren antes de abrir a porta.

— Você está com ciúmes?

— Claro que estou. – Beren respondeu, sustentando seu olhar. – Estou com ciúmes de Hogwarts.

Então Abigail ficou em silêncio. A mão que se encostava à porta foi até seu coque imaculado e ela soltou os cabelos. Eles batiam em sua cintura e dançavam sobre força de vento nenhum. Seus olhos azuis encontraram mais firmemente os olhos negros do professor de Poções e ele perdeu as palavras. Perdeu o fôlego.

A boca de Beren se abriu em um discurso cortado. Ele enlaçou Abigail pela cintura e a puxou contra si. Beijou a mulher que odiava porque parecia o certo. Seus princípios o abandonaram. Um desejo obcecado surgiu em sua mente e só os lábios de Abigail poderiam cessar aquela vontade...

Antes que pudesse se perguntar o que estava fazendo, Abigail o empurrou de leve.

— Não é a mesma coisa. – sussurrou abruptamente Abigail ainda bem próxima dele.

Beren olhava para ela como se tivesse levado o soco que queria dar na cara do diretor Coward. Não deu tempo de falar nada. Abigail saiu pela porta batendo o salto devagar no chão e virou na curva do corredor, prendendo os cabelos de qualquer jeito.