Os Arautos de Héreddah - Livro I
7 Capítulo VII A Ameaça Escarlate
Capítulo VII
A Ameaça Escarlate
—Chegamos, Senhor — disse finalmente o Inquisi-
dor à Sabáh. O general, ainda com muita dor (mas sem demonstrar) disparou da ponta de sua lança uma poderosa rajada de energia no peito do Inquisidor, que caiu inerte.
— Senhor… — balbuciou de dor o Inquisidor ferido pelo disparo. Mas Sabáh assoprou os cabelos caídos sobre seu rosto, passou por cima do Inquisidor e saiu do veículo.
O general sabia que eles já haviam chegado há mais de quarenta minutos no Palácio da Cidadela, mas faltou-lhe coragem para deixar seus aposentos dentro da embarcação. Sua cabeça estava a mil, pois a missão de capturar a Rainha dos Cristais, que era relativamente simples, havia fracassado — e ele sabia que essa era a única que ele não poderia falhar.
Ao mesmo tempo, sabia que não poderia adiantar o inevitável. Levando consigo um dos mais poderosos machados que existe, forjado pelo calor do núcleo de Héreddah, Sabáh saiu do veículo e andou sobre a torre mais alta do lugar. Alguns Inquisidores que foram à fracassada missão o seguiram, fazendo sua guarda. Mal sabiam eles que poderiam estar marchando para a morte.
Temendo, mas com passos firmes, Sabáh finalmente chegou a uma imensa porta, que era velha e podre. A fechadura dela consistia em um buraco, no qual o general colocou a mão e sentiu ela ser espetada por uma farpa da porta podre. Assim, quando o sangue do general foi derramado sobre a porta, ela se abriu.
A princípio uma forte luz branco-avermelhada fez com que ele mal conseguisse distinguir o que via. Sabáh entrou vagarosamente no saguão circular, que tinha um teto da altura de um edifício de sete andares. No chão, antes coberto de tapeçarias, havia agora um grande pântano cheio de poços profundos e raízes mortas. Sabáh evitou olhar para baixo, pois sabia que iria se arrepender. Da última vez, crânios com cabelos estavam boiando sobre o lodo.
Portanto, o foco do general estava sobre a luz incandescente que vinha de algum lugar do final do saguão. Essa luz estava acima de uma enorme escadaria de mármore.
— General! — gritou um dos Inquisidores que o seguia, logo atrás.
— Senhor! — gritou um dos mais jovens, de apenas vinte anos.
Como Sabáh já esperava, as raízes mortas saíram do pântano abaixo e prenderam os soldados pelas pernas, puxando-os para as profundezas. Sabáh, inexpressível e sem olhar para trás, seguiu seu caminho enquanto seus soldados, que se afogavam, pagavam pela falha que tiveram na missão e iam morrendo um a um.
“Você falhou…” disse a Deidade, uma voz fantasmagórica vinda da forte luz, que aterrorizava tanto o coração de soldados quanto de reis.
— Não há justificativa — disse firmemente Sabáh, com dificuldade na fala, pois o ar ali era mais pesado do que qualquer outro. — Portanto, não poderia fugir da minha sentença.
A luz permaneceu em silêncio. O coração de Sabáh ficou tenso com a demora na resposta.
“Já reparou o que há nessas escadas, Sabáh?”
Sabáh estranhou a pergunta, pois esperava um golpe mortal. O general, enxugando o suor dos olhos, pôde perceber então, assustado, que haviam diversos vultos encapuzados, em cada grande degrau, prostrados na direção da luz. Eles sussurravam bem baixo.
— Servos? — questionou Sabáh, diminuindo a rapidez dos passos.
“Não… São fiéissssss… Servos podem falhar e trairrr…Mas fiéisssss… Esses jamaissss… Porque os fiéis tem uma noção tão ampla de eternidade, que todo o mundo material se torna insignificante diante da plenitude eterna… Você, por exxxemplo… Depoisss de tamanha falha… É apenasss um servo…”
— Minha… Essa não era minha intenção, milorde. Assim como… Das vezes em que sei ser recon… Reconhecido por vitórias, tenho que justificar minhas derrotas.
“…E é unicamente por esssse motivo que você continua vivo… Você é um dos melhores, Sabáh… O primeiro a não me trair, nem me desapontar realmente… Você muitas vezessss é meu músculo, e minha imagem para este mundo padecente… Seu sangue é de guerreiro, e sua nobreza está no foco em vencer qualquer batalha, custe o que custar. Mas esta missão, Sabáh… Ah, você sabe… Que esta missão é crucial…”
Sabáh engoliu em seco o pouco de saliva que o calor ainda deixou sobrar em sua boca.
“Aquele povo escondido pelos nativos… Como a Rainha… É a chave para que seu pai… Consiga concluir o plano que purificará Héreddah… Não podemos falhar novamente...”
— Eles fugiram em grupo. Houveram traidores entre os nossos Inquisidores. Uma traição inesperada.
“Sim… Traidores muito além desses que eu acabei de dar fim sob nossos pés. Mas já era esperado… O medo desse povo pela natureza divina se perdeu, general… Eles se tornaram individualisssstas; deuses de si mesmosss… Cospem e negligenciammm tudo o que fiz por elesss… Até mesmo sua sobrinha, a princesa dos ferreiros, parece não seguir o bom exemplo do próprio tio…”
— Nenhum deles significa nada para mim — afirmou Sabáh. — É por isso que eu estou aqui e eles têm a morte como o único destino a ser traçado.
“E o qual você acccha que é o seu?”
— Eternidade. Como esses fiéis a sua volta…
“Uma sábia respossssta… Mas para conseguir dar a você a vida eterna, e o trono que lhe é de direito… Nosso plano deve funcionar… Primeiro… Precisamos terminar a arma, o projeto pelo seu pai, o ferreiro… E até lá, eu continuarei buscando a localização do Povo dos Cristais, para que a arma funcione em plenitude… Só assim conseguiremos obter o nosso lugar na eternidade…”
— Assim será feito — afirmou Sabáh.
“Só que temos um problema… Eu enfrentei algo incomum nesta noite… Um poder que não via faz anos… Há um guerreiro da terra por aí… E pelo que as árvores me contaram… Há magos também…”
Sabáh se silenciou.
“Você não deve subestimá-los, general… Eles não podem se unir… Não novamente… Ainda mais com sua sobrinha, uma sangue real, tão próxima deles…”
Sabáh pensou, e concluiu horrorizado.
— Entendo, mestre. Eu matarei todos eles.
“Não… Todos não… Esfole os ossos do guerreiro e da sua sobrinha… Mas o mago… Traga o mago para mim...”
— Assim será feito.
“Ache-os, general…” disse a Deidade, obcecada. “Traga-os para mim… Pois a carne imolada deles se tornará o símbolo do sacrifício que nos elevará…”
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