Os Arautos de Héreddah - Livro I
10 Capítulo XI: A Invasão
Capítulo XI
A invasão
Jamais Renéh havia sentido algo parecido. Ele, Kara e Athos sentiram seus corpos viajando entre as raízes de Héreddah em uma velocidade inenarrável.
— Olha isso! — gritou Renéh para Kara, e para a garota sua voz ecoou como se estivessem tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Ele ousou abrir os olhos, e o que viu foi fabuloso: os três estavam envoltos em uma energia esmeralda muito viva, como chamas cor de esmeralda que ao invés de queimá-los, os conduzia pelas misteriosas raízes, rodando em volta de seus próprios eixos.
E sem explicação, Renéh se sentiu mais vivo do que nunca, como se sua própria alma ficasse mais corajosa!
— Isso… Isso é incrível — sussurrava ele.
— Acho que estamos chegando! — ecoou a voz de Kara. Foi então que o rapaz teve a sensação de que seu corpo se afinava cada vez mais, como um verdadeiro espaguete, e o mesmo aconteceu com seus amigos. Começou a sentir que estava passando por diversos paredões de folhas, que se tornavam cada vez mais secas e duras e batiam em sua cara.
Sem aviso, tudo parou.
— Cuidado! — disse Renéh antes de cair sobre Kara, que já estava caída sobre Athos. A sensação de deslizar pela terra deu lugar a ventos refrescantes, como os das manhãs de outono. Renéh já sentia seus pés baterem firmemente no chão, como se a gravidade retornasse sem avisar.
— Você está… — tentou perguntar Renéh.
— Não — já respondeu Kara, tonta e cuspindo para o lado enquanto retirava os pedaços de galhos de seus cachos. — Como é que se faz uma pergunta dessas depois disso tudo?
— Isso foi a coisa mais louca que eu já vivi — comentou Renéh, apavorado e empolgado. — A coisa mais louca até agora.
— O que… Quem… Ah não! — começou finalmente a balbuciar Athos. — Vocês não foram capazes de…
Mas não conseguiu formular a frase: um segundo depois, o jovem mago se virou para o lado, não conseguindo conter o vômito.
— Nós… Nós conseguimos? — questionou Renéh, cutucando todas as partes do corpo para ver se tudo estava no lugar.
— Silêncio! — exclamou Kara, se pondo de pé com dificuldade e tentando organizar os pensamentos. Só então a realidade veio a Renéh: olhando ao redor, o rapaz percebeu que estavam em uma travessa cercada de prédios dourados, e o sol era tão forte que anunciava um meio-dia muito diferente do Vale dos Arautos. Isso o colocou em estado de alerta.
— Estão ouvindo? — disse Kara, dando ouvidos aos instrumentos que eram tocados em algum lugar. — São canções… Olhe este edifício! Nós estamos… Nós conseguimos!
— Menos mal — disse Renéh, mesmo em alerta.
— Menos mal!? — Exclamou Athos.
— Silêncio! — Agora exclamaram Kara e Renéh, juntos, e Renéh continuou. — Olha… Confesso que trazer você aqui à força não foi a melhor forma de convencer alguém…
—Convencer? Vocês me sequestraram! — exclamou Athos. Estava vermelho de raiva; parecia que ia explodir.
— Mas como é dramático — disse Kara, balançando a cabeça negativamente.
—Vamos evitar esse tipo de comentário, princesa... Mesmo que seja verdade — terminou Renéh rapidamente, rindo para o mago. Mas ele continuava estupefato.
— Vocês estão nos colocando em risco! A todos naquele vale! E qual vai ser meu fim quando Mestre Al souber que estive aqui…
— Não se preocupe, nós assumiremos a culpa — disse Renéh sinceramente, piscando. Athos pareceu ainda mais incrédulo.
— Porque claro, ele se mostrou ser uma pessoa compreensiva! — quase gritou Athos.
— Quieto! Seu mestre está agindo errado e você sabe disso — disse Kara, decidida. — O código dos magos é muito direto. E sim, eu já os li! E outra: mesmo que você não se importe, ainda me deve uma.
— Não ser pego por eles lá mas acabar em uma jaula aqui na cidadela realmente faz uma grande diferença! E é claro que eu me importo, sua dissimulada. Eu só quero estar vivo e ser estratégico ao invés de agir por impulso!
— Ser estratégico ou abraçar a covardia sob pretexto de obediência? — questionou ela, sem se alterar. — Tem certeza de que acredita no que fala?
Athos parou com a mão no ar pronto para argumentar, mas de alguma forma sua voz morreu. O questionamento de Kara o atingiu tão profundamente que ele não conseguiu ver nela a líder política, mas alguém que viera salvar sua família.
—Não! Não adianta, não vou cair nisso! — disse Athos, tentando convencer a si mesmo. — Os magos não são movidos por sentimentos. Nós enxergamos o todo, o plano maior, o que vem além! Isso nos fez manter…
— Sim, isso é o que os magos devem dizer — comentou Renéh. — Mas e você? Acha certo ficarmos parados? É do avô dela que estamos falando.
E, novamente, a resposta morreu na boca do mago.
— E como iremos voltar!? — questionou Athos, vencido por fim pela própria consciência.
— Ahn… Esses prédios são bem grandes, não!? — disse Renéh, fingindo estar muito interessado em qualquer coisa que não desse a devida atenção a pergunta do amigo.
— Não sabemos — comentou Kara, observando uma multidão muito bem vestida passar no corredor mais à frente. — Pelo pouco que conheço, a passagem das raízes funciona a cada dez horas para viagens longas, então não podemos contar com o mesmo transporte com que viemos pra cá se quisermos sair vivos.
— É claro que você não vai dizer como, sua desconfiada! Diga, Renéh, como saímos dessa?
— Se você soubesse, pediria para eu não ter te contado — disse finalmente Renéh, dando um sorriso mais largo que o comum, ainda sem encará-lo. Athos simplesmente ficou em choque: eles realmente não tinham plano algum.
— Então… — retomou Renéh, agora verdadeiramente observando os prédios dourados que os cercavam. — Isso é que é a famosa Cidadela…
— Não — comentou a garota, e puxou-lhe pela mão para que ele visse, pela esquina, a avenida principal. — Isso é a Cidadela.
Demorou alguns segundos até que os olhos de Renéh se acostumassem com tamanha claridade. Mas quando percebeu, não teve outra reação a não ser não se arrepiar, pois era impossível não se impressionar. Eles estavam diante de uma longuíssima avenida com piso de mármore muito branco, cercada não por simples edifícios, mas por arranha-céus dourados, alguns cravejados de joias, que ultrapassavam até mesmo as nuvens.
Era como uma visão divina de incontáveis palácios banhados por uma luz mais forte do sol que, ao refletir no mármore da avenida principal, dava a sensação de que estavam num mundo além do físico.
— Eu… Eu nunca… — gaguejava Athos. Os olhos do rapaz estavam marejados de lágrimas — Isso é…
— É sim — comentou Kara, com leveza na voz —, nunca deixo de me impressionar toda vez que venho aqui. Nunca perde a…
— A magia — completou Athos, ainda extasiado.
Ainda admirando a paisagem, Renéh percebeu que a rua estava completamente lotada de pessoas muito bem vestidas. Embora suas vestimentas tivessem traços de suas culturas (fossem elas longas, finas, felpudas ou metálicas), todas tinham a tonalidade rubro-avermelhada.
— Percebeu também? — comentou Kara, tentando conter a empolgação do jovem guerreiro.
— Todos iguais. Parece então que pensamos no mesmo plano.
— Sim — comentou Kara. — Precisamos nos vestir como um desses habitantes para chegarmos no palácio despercebidos. Lá é o nosso objetivo.
Renéh seguiu com os olhos a direção que Kara apontou, e foi então que ele viu um colossal palácio de ouro e prata, diferente de todos os outros — já que sua forma era de uma quilométrica redoma com muitas torres fininhas, de arquitetura moderna. Renéh percebeu que alguns dos edifícios eram fixos, mas outros flutuavam ao redor do castelo sem apoio físico algum.
—Mago, acha que consegue uma dessas vestes para nós?
— Acho que sim… — disse ele. Ficou por pelo menos um minuto observando a avenida da esquina, e murmurou algumas palavras que fizeram suas mãos brilharem fortemente. Por fim, as roupas de três idosos saíram de seus corpos como se um tornado as tivesse retirado, e voaram rapidamente para a esquina.
— Bem que dizem que tem gente que não tem paz nem na velhice — comentou Renéh bem baixinho para si mesmo. Começou então a se vestir.
— Excelente, mago! — disse Kara, também colocando as roupas. — Agora escutem: vocês precisam entrar no castelo sem serem vistos.
— Como assim “vocês”? — questionou Renéh. — Achei que essa loucura toda te incluía! O que você fará nesse meio tempo?
— Irei atrás de Sabáh — respondeu ela, decidida.
— Do seu tio? — disse ele em um tom mais incisivo.
— Sim — concluiu ela, envergonhada, mas mantendo o olhar. — Ele tem algo que pode nos fazer sair daqui. Algo que posso convocar, mas primeiro preciso me encontrar com ele.
— E o que é?
— Como foi dito ao mago, se você soubesse, pediria para eu não ter contado — disse ela, esforçando-se para sorrir levemente.
— Você sabe que Sabáh é durão…
— E você sabe que eu também. Quem deve se preocupar é ele.
— Uou… — comentou Renéh, ainda sustentando o olhar da monarca. — Com essa ousadia toda, até se torna difícil não te chamar para sair caso o mundo não acabe.
— Tente ter intimidade comigo novamente e vai perder o que mal tem — respondeu ela, arcando as sobrancelhas —, se é que me entende.
— Caramba — comentou Renéh, protegendo “o que mal tem” e sentindo a dor física da ameaça só com as palavras de Kara.
— E eu achei — disse Athos, olhando constrangido para a situação entre o ladrão e a princesa. — Que teria uma morte honrada…
— Já disse a vocês! — exclamou ela novamente. — Não trouxe ninguém para a morte.
— Tá, e como te encontraremos depois? — disse Renéh. — Eu não conheço nada por aqui.
— Posso terminar de falar? Obrigado — E a princesa, por fim, retirou dois objetos ovais e metálicos cheios de linhas. — Essas são as pedras Kaedas. Localizadores de membros da Realeza dos Ferreiros. Muito usadas em…
— Guerras — sussurrou Athos — Para… Achar os corpos das vítimas aliadas após batalhas.
— Em resumo, na Cidadela elas só localizarão membros da minha família. Então, enquanto vocês carregam essa e vão atrás de meu avô, eu carregarei a minha para ir atrás de Sabáh. Eu confio a vocês a vida dele!
— Não vou te desapontar — disse com firmeza Renéh, encarando seus olhos castanhos claros.
— Não me prometa. Me prove isso. Agora, vamos!
— Ei! E como saberemos se você conseguiu uma forma de sairmos daqui? — questionou Renéh, quando a jovem começara a apontar uma arma besta para o alto de um dos edifícios.
— Vocês saberão — Ela os olhou, cheia de malícia. — Será um estouro!
E, apertando o gatilho de sua arma, Kara fez uma corda sair e se prendeu em uma das bandeiras do prédio ao lado do que estavam; correndo pelas paredes, a jovem começou a subir até desaparecer no topo.
— Ela sabe fazer um teatro, né? — comentou Renéh, e de repente olhou sem graça para Athos — Então…
— Não fale comigo! — respondeu o amigo, pegando a capa vermelha das mãos de Renéh e começando finalmente se vestir. Quando prontos, ele e Renéh saíram para a avenida principal.
Por sorte, o som do festejar vinha de praticamente todos os cantos, o que permitiu que Renéh e Athos pudessem se comunicar por debaixo da pesada roupa de pano. Havia também grandes rodas de dança organizadas e diversos instrumentos (desde violas até tambores e pandeiros) que faziam o mesmo ritmo. Grandes fogos de artifício eram estourados por todo o céu, emitindo uma nuvem de fumaça hora branca, hora rubra.
— Não entendo — comentou Athos, indignado, tomando cuidado para não tropeçar nas próprias vestes — como essas pessoas conseguiam comemorar sendo que o mundo é do jeito que é lá embaixo, conosco!?
— Me faço essa pergunta há cerca de vinte anos. De onde eu venho, é assim: toca um batuque e todo mundo esquece do fim do mundo.
— Queria ter esse otimismo!
— Não, você é inteligente demais pra se iludir assim. Às vezes, vale aceitar mais a verdade do que se encantar com a mentira. A queda é maior nesses casos.
Athos foi obrigado a concordar, e até se admirou com a resposta do rapaz.
— Sabe, ladrão, apesar de ter me sequestrado… Até que você tem um bom coração.
Renéh riu.
— Esse foi o melhor elogio que eu ganhei desde… Desde que… Eita, espera, nem lembro.
— Pois deveria — comentou Athos com sinceridade.
— Você não entendeu — riu-se Renéh, sem graça —, eu realmente acho que nunca recebi um elogio bacana assim.
— Caramba — comentou Athos, imaginando como seria sua vida sem os mimos de sua mãe. — Bom, eu posso soar um pouco implicante e certinho demais às vezes…
— Soar? Você tá sendo modesto — brincou Renéh. Athos riu.
— Mas é sério! Quando se faz algo de bom, merece ser elogiado. Veja você agora, me fazendo rir, mesmo depois de ter me sequestrado para um lugar onde se tem dez mil homens portando lanças enfeitiçadas.
— Eu sempre tento ser assim, amigo. Minha vida exige isso. Meu único alívio, às vezes, sou eu mesmo. E faço isso porque uma coisa que motiva a gente em momentos de crise é pensarmos no que faremos depois que sairmos dela.
— Eu espero que saiamos. Isso é suicídio, Renéh.
—Vai, segue meu conselho! Pensa que, quando a gente voltar, Állathor vai ficar orgulhoso do que você fez.
— Renéh, olha a cara daquele homem — comentou Athos, apavorado. — Se fosse possível ele ficar feliz uma vez na vida, ele arranjaria um jeito de colocar defeito na própria felicidade.
—Pois ai dele se não ficar feliz por sua coragem! Bom, então, pensa no seguinte: quando voltarmos, eu pago nossa rodada de cevada — propôs Renéh, muito grato.
— Agh, obrigado! Mas eu quero ficar bem longe da bebida — comentou Athos, com estômago embrulhado. — Tipo, de agora até meu último dia de vida.
Renéh achou graça. Foram poucos os minutos de conversa entre ele e Athos, e fazia pouco tempo que o conhecia. Mas para o jovem ladrão, foi como se o conhecesse há décadas, a ponto dele passar os minutos que se seguiram sorrindo sem nem mesmo ter consciência do porquê.
O pensamento feliz, porém, logo morreu.
— Senhores!? — disse finalmente uma voz às suas costas. Athos e Renéh foram obrigados a se virarem. — Senhores! Vocês dois!
Era um mestre de cerimônia, trajando longas vestes luxuosas.
— Ora, achei que estavam em perigo!
— Ah… E porque estaríamos? — indagou Renéh, não sabendo muito bem a voz que deveriam imitar em seu disfarce.
— Não souberam do escândalo de agora!? Três idosos foram vistos nus pela avenida. Disseram que suas roupas voaram magicamente para o céu. Francamente, em todos esses anos como mestre de cerimônia, nunca me deparei com uma desculpa tão esfarrapada por parte de idólatras extremos.
— Céus — sussurrou Athos, extremamente culpado pelo que fez. Renéh teve que se segurar para não rir, tal como uma pessoa que segura gases.
—Então, vamos! — disse o cerimoniário, dando tapas nas cosas dos dois rapazes sobre o manto vermelho.
— Pra onde!? — questionaram os dois.
— Ora, para a apresentação! — comentou o mestre, sem entender o porquê da dúvida dos dois. — Ou vão dizer que se esqueceram da dança da paz em frente ao palácio?
— Dança!? — exclamou Athos, horrorizado.
— Sim! — cortou logo Renéh, vendo a vantagem daquilo. — Como não nos lembrávamos!? A dança perto do palácio, Ath… Athigo-amigo!
— Ahhh — Athos foi compreendendo aos poucos o plano do amigo de se aproximar do local. — Como poderíamos ter nos esquecido!
— Pois é, algo que se faz a todo ciclo não é fácil de esquecer — comentou o mestre, sem entender. — Bom… Você e seu par podem ir em direção à grande praça na frente do palácio!?
— Par? — indagou novamente Athos.
— Grato, meu amor — disfarçou por fim Renéh, com voz de mulher para se passar como suposto par de Athos e se deixando levar pelo mestre de cerimônia.
— Você pensa muito rápido! — confessou Athos, boquiaberto.
— A vida ensina. Já foi pego com a mulher de outro? A gente tem que se virar em menos de trinta segundos. Isso aí que a gente passou agora foi moleza!
— Bom, veja pelo lado positivo.
— Qual?
— Ele achou que era você a senhora do casal! — riu-se Athos.
— Ah, sai fora!
Depois de muito andarem, foram chegando à praça na frente do palácio. Havia um número incontável de pessoas no local; um verdadeiro mar vermelho que só aumentou a preocupação de ambos.
“Sim, Héddarianos!”, começou a anunciar uma voz amplificada. Renéh logo reconheceu. “Mais um ano estamos aqui!”
— Eu não acredito! — exclamou Athos. — É o Hog! O Lorde de Prata!
Renéh estava incrédulo. Sobre um enorme palanque mais à frente, encontrava-se o Lorde Hog.
“Sim, habitantes! Aqui estamos em mais um ano para comemorar o dia de hoje, tão sacro quanto as Leis de Kazadhór.”
— É uma armadilha! — comentou Athos, assustado. — Ele nos trouxe aqui para nos dizimar!
Renéh pensou um pouco enquanto Hog fazia seu discurso.
— Não faz sentido ser uma armadilha. Ele não ganharia nada com isso.
— Mas…
“E agora, habitantes de Héreddah”, continuou ele, em voz alta, “peço para que vocês sigam comigo para o setor Sul!”
— Setor sul!? — comentaram os presentes, estranhando.
“Devido à superlotação, tivemos que nos reorganizar esse ano em um espaço maior. A prole anda cada vez mais alta nos países baixos, se é que vocês me entendem. Parecem coelhos se reproduzindo!”
A população gargalhou e, sem questionamentos, obedeceram às ordens de Hog.
— Ele quis liberar a passagem pra gente! — concluiu Renéh. Athos continuou desconfiado.
“Ah, e Inquisidores, por favor, façam a escolta da multidão. Não queremos nenhum problema de invasão neste grande dia.”
— Convencido, então!? — questionou Barbôssa.
— Jurei que vi ele piscando pra gente… Mas continuo não confiando nele.
— Agora vamos! — cochichou Renéh, vendo um caminho de pedras desgastadas que levava a um jardim à direita do castelo. — Aquela passagem não está sendo vigiada!
Com passos rápidos, eles seguiram até o jardim. Quando chegaram, perceberam que até mesmo as flores, embora de diferentes formatos, também eram vermelhas, em homenagem à Deidade. Algumas até mesmo se moviam e emitiam sons estranhos enquanto eles passavam por elas.
—Aqui! — disse Athos. Eles viram uma pequena porta gradeada no chão, quase como um bueiro. O mago logo apontou a mão para o local e exclamou “Eczasperá!”
A porta tomou o brilho habitual azul de magia, estalou alto e saiu rolando pela grama.
— Isso parece ser o esgoto! —
— É o que temos para hoje… — cochichou Renéh, evitando sentir muito o odor do local.
— Ei! — gritou então uma voz metálica, vinda de suas costas. Renéh virou rapidamente e logo viu três Inquisidores com as lanças apontadas para o garoto. Ferrou, pensou ele.
— Herbógias! — gritou Athos, antes que o ladrão pudesse ter tempo de correr na direção dos soldados. Através do feitiço do mago, as plantas que se moviam logo atrás amarraram os Inquisidores, apertando-os de tal maneira até ficarem inconsciente.
— Você é bom, hein, grandão — comentou Renéh, olhando para os soldados. — É, acho que encontramos um disfarce melhor!
— Então temos que ser rápidos! Isso são truques; em breve eles estarão em pé.
Menos de três minutos depois, eles trocaram as roupas dos senhores desnudados e estavam agora vestido como Inquisidores.
— Poderíamos tentar entrar pela porta da frente, não acha!? — perguntou Athos.
— Sem ofensa, mas já viu como ficamos ridículos nessas roupas? Você parece um botijão encapado e eu um abajur murcho. Sem condições, colega.
— Faz sentido — Athos realizou que finalmente teria que ceder ao esgoto. — Vou primeiro, para iluminar!
Athos, que era mais gorducho, teve de entrar no bueiro com as costas para o chão. Não era possível ver onde ele chegaria, já que estava escuro; mas o lodo que ali se encontrava e a pouca luz do sol davam a entender que era uma rampa.
— Bom, lá vou eu — disse por fim Athos, já com o corpo todo dentro do local, enquanto abraçava sua lança pelo peito. — Acho que vou precisar de um empurrãããããão!
— Ai caramba, foi forte demais! — Renéh logo respondeu, após empurrá-lo. O ladrão viu o amigo escorregar esgoto abaixo, porém a chama que ele conjurou fez um rastro de luz, mostrando o caminho à frente (um túnel de esgoto aparentemente sem fim). Sem perder tempo, Renéh pulou.
A parte boa foi que Renéh conseguiu ver o caminho devido a luz. E ficou de fato impressionado: não era um simples bueiro, mas toda uma rede de esgotos, formada por diversos túneis que faziam incontáveis curvas. Em alguns momentos as paredes laterais e o teto que os cercavam sumiam, e ele conseguia ver fileiras e fileiras de outras redes de água — até mesmo uma de fogo — que formavam túneis e mais túneis. O local era colossal.
Sem aviso, ele sentiu um vento gelado sobre o rosto e percebeu que não havia mais um chão para deslizar. Só aceitou seu corpo caindo até bater forte contra a água.
— Céus — comentou ele, tentando não submergir na poça que batia em sua cintura, e que possuía um odor extremamente desagradável. Estava em uma câmara de pedras altas, iluminada por uma fraca luz que vinha do teto, a qual tinha a impressão de estar mais de um quilômetro de altura de sua cabeça. Não demorou muito, e da passagem por onde ele fora expelido, surgiu Athos (mesmo descendo primeiro, chegou depois) que, ao invés de cair bruscamente sobre as águas, foi flutuando vagarosamente até um rochedo mais próximo.
— Ué — comentou Athos — Achei que você viria logo atrás. Eu ia fazer um feitiço de amortização de queda.
Renéh parou de tentar tirar a alga pegajosa de seu rosto e apenas o respondeu com um olhar sério.
— É, não funcionou — comentou Athos, desviando o olhar do amigo e vendo uma porta maciça ao lado, e murmurando pela segunda vez “Eczáspera!”, o que a fez se romper em duas.
— Ótimo! Agora você não tem um feitiço de perfume!? — comentou Renéh, suplicante, sentindo o dor de suas vestes. — Eu vou ser preso por atentado ao pudor se passar perto de alguém fedendo assim.
— Tenho um desodorante, ajuda?
— Vou precisar de um engradado — respondeu Renéh, começando a andar pelos túneis de pedras negras. — Enfim, essas passagens são mesmo as do esgoto. Alguma delas deve nos levar até a prisão. Segundo o que indica a pedra que Kara nos deu, alguma dessas passagens deve nos levar até o ferreiro-avô. Consegue iluminar o caminho pra nós!?
— Solaris — exclamou Athos, e outra chama amarelada surgiu flutuando entre ele e Renéh, acompanhando seus passos. — Acha que a maluca da princesa está segura?
— A princesa sabe se virar. Ela é mais durona do que nós dois juntos. Bom, pelo menos é assim que eu prefiro pensar.
E isso era verdade, pois nesse meio tempo, na parte superior do palácio, Kara conseguiu formar todo um caminho pelos altos prédios de Héreddah sem dificuldades, salteando entre suas cordas. E sem saber, ela abateu boa parte dos Observadores acima das torres pelas quais passou, evitando assim um ataque aéreo quando fugissem.
Kara carregava o título real como uma homenagem à família, já que a palavra “Princesa” não destacava metade de suas qualidades. Pois a cada prédio saltado e a cada inimigo que caia sobre seus pés, ela lembrava de seus intensos anos de treinamento. Nunca tivera tempo para festejos — ou mesmo para entender seus sentimentos — já que desde criança foi treinada para ser como uma máquina, alguém que não poderia falhar, pois tinha todo um reino pelo qual zelar. O senso de nobreza em seu peito ardia de forma tamanha que era sua vontade fazer sempre o certo, ainda que perdesse muito de si própria no processo.
Por isso ela não poderia falhar. Aquela era a grande missão de sua vida — até agora. E não era apenas o destino do mundo que estava em risco, mas de seu avô, a figura paterna mais presente que já teve.
Correndo pelos telhados e deslizando sobre as paredes íngremes das torres de ouro, ela alcançou após certo tempo a passagem mais segura para se entrar no castelo por cima: um vitral no qual estavam desenhados monstros aprisionados. Abrindo com cuidado para evitar ruído, ela entrou na torre, que se por fora era luxuosa e grande como as vizinhas, por dentro era escura e mal acaba.
Finalmente! pensou, ao perceber que chegara na torre da prisão; mas a alegria durou pouco. Era como um grande túnel cilíndrico, no qual havia uma larga escada caracol enferrujada que descia nos arredores das paredes (paredes essas revestidas pelas grades dos prisioneiros que ali se encontravam). E, circulando a escada, havia nada menos que vinte Inquisidores.
A ação deveria ser rápida, e por sorte já tinha sido pensada há dias: para ter uma visão completa do primeiro andar da prisão, novamente ela disparou a corda da arma no teto interno da torre e se pendurou, ficando de cabeça para baixo. De seu cinto, a princesa então tirou uma pequena zarabatana de aço yriliano, munida de vinte pequenos e letais dardos. Bastou apenas alguns segundos para estudar a movimentação repetitiva dos guardas na prisão circular, e ela percebeu que seus caminhos se entrelaçavam em duplas a cada dez segundos, na ronda pelas escadas.
Friamente, ela apertou a engrenagem da arma besta e a corda pendurada no teto a fez descer com velocidade, em movimentos circulares, de cabeça para baixo. O som da corda se desenrolando sobre a arma chamou a atenção dos Inquisidores de cada ponto da escada; portanto, antes que chegasse ao décimo andar, ela levou a zarabatana aos lábios e soprou duplamente por dez vezes a cada andar que alcançava, acertando os inimigos exatamente como havia calculado, no momento em que estivessem próximos um dos outros, para facilitar o disparo.
Não houve tempo de reação: o movimento foi rápido, inesperado e extremamente bem sucedido. O tempo de ação dos dardos era de um segundo, e nenhum deles sequer representou ameaça à princesa dos Ferreiros, pois caíram pela escada circular, sem ação.
— Mas o que é isso!? — exclamavam os prisioneiros, sem entender (nem mesmo ver) quem ou o que os derrubou. Todas as celas se manifestaram.
— Silêncio! — Ela pediu (quase ordenando) com sua voz rouca. — Quero saber onde está o general dos Inquisidores!
“Como assim!?”, começaram os prisioneiros. Todos pareciam estar ali há dias: os cabelos imundos corriam pelo rosto e as roupas tinham o aspecto molhado e preto, como se vestissem trapos.
— O general não fica na prisão! — disse um dos prisioneiros.
— Quem é você? — exclamou outro prisioneiro.
— Silêncio! — ordenou ela, em alto tom dessa vez, mas assustada. — Ele tem que estar por aqui!
Só que os prisioneiros nada sabiam. E o desespero tomou conta do seu coração.
—Por favor, nos liberte! — disse um dos prisioneiros.
Uma explosão de súplicas começou em seguida, e deixou a princesa, antes vingativa e com o objetivo de sair dali, agora sem reação.
— Devemos estar quase lá! — Comentou Renéh perto de onde Kara estava, com Athos aos tropeços às suas costas.
—Espero que sim — comentou o mago. — Mise-
ricórdia! Esse cheiro que você tá exalando é insuportável. E olha que você usou todo o meu frasco do perfume!
— Te dou outro quando sairmos daqui, some isso à cevada bem gelada que tomaremos!
—Eu já te disse, Barbôssa, eu não vou beber tão cedo!
— Ei, espera! — comentou por fim o ladrão. Renéh olhou para trás e percebeu que as cores da parede a seu lado era bem diferente das demais. — Ela é mais clara que as outras. E dá pra ouvir algo por trás.
Athos encostou o ouvido.
— Parece uma corrente de ar. E também vozes, mas como conseguiremos…
— Dá licença, dá, filho — pediu Renéh, impaciente, afastando Athos. E com um único soco, a parede se desfez em diversos pedaços com um grande estrondo, revelando um ambiente escuro e inóspito.
— Incrível — comentou Athos pelo feito do amigo, e direcionou a chama que iluminava o corredor para a passagem secreta que acabaram de descobrir. Renéh entrou em seguida, e percebeu que estavam em uma saguão enorme, grande até demais para caber naquelas paredes mais acima.
— Ali! — apontou Athos para o meio do saguão. E só então perceberam um círculo de chamas vermelhas assustadoras. — Ele está ali. O ferreiro Mór, o avô de Kara!
— Ali no meio!? — disse Renéh, olhando com calma as chamas. — Bom, é fogo, não é? É só você dissipar com magia.
— Não é fogo. É magia em forma de fogo… — comentou ele, andando em volta das chamas. — Uma magia incomum… Nunca ouvi falar dessa energia.
— Lembra um pouco o disparo das lanças — comentou Renéh, segurando a que estava em sua mão mais forte. — Será que elas podem ser úteis?
— As lanças são energias provinda de cristais. Embora sejam, de certo modo, místicas, podem ser consideradas apenas reservas de energia. Isso aqui é diferente. É como se estivesse vivo.
E realmente aparentava. Poderia ser impressão de Renéh, mas as chamas crepitavam no formato de rostos de pessoas em grande sofrimento. Mas também em outras formas, como letras.
— Consegue ver isso? — disse Athos
— Os rostos? Sim…
— As letras — concluiu o mago. — Elas estão em idioma primordial.
Athos pegou rapidamente o grimório das vestes, murmurou algumas palavras até que ele flutuou a sua frente, passando as páginas rapidamente até chegar na que ele precisava.
— É uma mensagem subliminar.
— Daquelas tipo “alô, maligno”, que vem de trás para frente nas embalagens de alguns produtos? — brincou Renéh. — Vivi pra ver isso pessoalmente…
— É um feitiço de proteção regrado. É simples de fazer, mas para quebrar que é um problema.
— Então não é simples, né, amigo? — corrigiu Renéh.
— É tão simples que subestimaram quem tentasse vir atrás dele e não ocultaram seus segredos. Veja o alfabeto no grimório; ele em forma de poema diz: “Para ter o que se deseja, trocar de olhos precisará. Não pelo ar, não pela força, mais pela mente deve desvendar”.
Renéh parou por uns poucos segundos.
— Pelas estrelas, acho que estamos condenado, Athos. Nem se isso fosse aplicado no exame nacional de ensino eu descobriria o que é.
— Mas é fácil! — disse Athos, andando em círculos. — Precisamos alcançar o que está lá dentro. Mas sem força bruta, e sim de dentro pra fora.
— Então é ele que deve sair, e não a gente que deve ajudar? Oh, coroa! Acorda aí!
Nenhuma resposta foi ouvida.
— Suspeitei. Deve estar desmaiado.
Athos andou um pouco mais, até que finalmente encarou Renéh com firmeza, que o olhou desconfiado:
— Não vou entrar, nem vem.
— E nem vai precisar. Mesmo com sua força, acho que você nunca mais seria o mesmo se passasse por aí. Preciso que você se conecte com o chão.
— Com o que!?
— Com o chão, homem! Bom, com a terra, melhor dizendo. Eu conheço um feitiço. Usei uma única vez e deu… Quase certo.
— Quase? — questionou Renéh.
— É um troca-olhos. Eu trocarei de mente com ele por alguns momentos e executarei, de dentro pra fora, um feitiço de libertação.
— E como você vai chegar até lá, bonito!?
— Não vou chegar até ele. Tenho você como ponte para alcançá-lo.
Sem cerimônia, Athos se ajoelhou e segurou o braço de Renéh, conduzindo-o a fazer o mesmo. Olhando para o círculo, ele direcionou a mão de Renéh para o chão.
— Preciso que você se concentre, como na noite em que fugimos nos Inquisidores. Preciso que você sinta a terra. Sinta ela sob seu controle.
— Eu nunca fiz isso assim, Athos… Pelo menos, nunca de forma intencional.
— Ora, mas você conseguiu naquele dia! É por instinto, lembra? Os Guerreiros são instintivos. O que te motivou!?
Renéh pensou bem, e veio em sua mente a lembrança daquele dia, no qual temeu que as crianças e famílias perdessem seus entes queridos como ele perdeu.
— Conseguiu se lembrar?
— Sim — respondeu Renéh, seco.
— Você consegue. Você não é um ladrão. Você é um Guerreiro. Um dos três grandes arautos
As palavras de Athos transformaram o sentimento de agitação de Renéh em uma certeza. A mesma paz que ele sentiu na sala histórica. Sem jeito, mas decidido, ele apertou com tanta força o chão que este começou a rachar em sua mão. Tomando coragem, mesmo sem saber como fazia, ele então fechou os olhos, e uma sensação nunca antes sentida surgiu em sua mente.
Era como se ele sentisse cada passo a seu redor. Desde os joelhos dobrados de Athos ao seu lado até os corpos de vinte inquisidores que Kara deixou ali perto, era como se Renéh pudesse ver — literalmente enxergar — por uma determinada área. Cada formiga, cada pedra em erosão, cada chama que crepitava no círculo à frente. Até que por fim percebeu o corpo do Ferreiro.
Renéh não conseguiu notar, mas Athos encarou o amigo, e via seus dois olhos com um intenso, aterrorizante e fantástico brilho verde e esmeralda, que só aparecia quando os Guerreiros usavam suas habilidades.
— Concentre-se dentro do círculo! — exclamou Athos. E Renéh deixou de se distrair com todos os mínimos deslizes de terra que sentia para alcançar o corpo inerte do Ferreiro. Athos percebeu que o amigo havia conseguido quando, do chão, raízes verdes vivas saíram entre os paralelepípedos e envolveram as mãos do ladrão, e um caminho de raízes brilhantes da mesma cor se formou, por debaixo da terra, até o círculo.
Minha vez, pensou Athos. Segurando o ombro de Renéh, ele exclamou as palavras “corporeo-duo” e sentiu a sua consciência sair rumo ao chão, rodopiar entre as finas raízes de Renéh, passar sem danos por debaixo das chamas e alcançar a mente do Ferreiro dentro do círculo.
“Tertária!” berrou Athos pela boca do ferreiro, e as chamas vermelhas, emitindo um som como o de gritos em sofrimento, se dispersaram em azuis vivas.
Athos sentiu a consciência rodopiar rapidamente pelas raízes e voltar para si, dando um urro pela dor de cabeça que aquilo havia lhe causado. E Renéh, com muito esforço pois não queria terminar de ter a sensação de poder em suas mãos, desgrudou a mão do chão quebradiço.
— Conseguimos! — disse Athos, tonto.
— Abaixe-se! — gritou Renéh, pulando sobre Athos para fazê-lo ir ao chão. Inesperadamente, muitos disparos de lanças de Inquisidores e flechas choveram sobre suas cabeças.
— Expandium! — gritou Athos, apontando em direção aos tiros. A pequena bola de fogo azulada e inocente que ainda iluminava suas costas começou a crescer como uma labareda alaranjada e foi em direção a entrada da passagem secreta, formando uma grande parede de fogo que ocupou todo o corredor de pedras.
— A-há! Pegamos eles! — exclamou Renéh, às gargalhadas.
— Idiotas! — gritou uma voz conhecida. Renéh tentou não piscar para entender se o que viu de fato correspondia a realidade: passando pela parede de fogo sem sofrer um único ferimento, surgiu Kara, apontando uma lança na direção deles.
— Ei! Ai, minha cabeça… Princesa! — exclamou Athos aliviado, rindo e reduzindo o paredão de fogo a brasas.
— Como… — balbuciou Renéh, impressionado pelo que viu. — Como você passou… E não virou um torresmo…
— Seus idiotas! — berrou ela. — Vestidos como Inquisidores! O que acharam que eu ia fazer!? Eu poderia ter matado os dois!
Renéh ainda estava chocado demais para responder.
—Ela é uma descendente dos Ferreiros, Renéh — disse Athos, ignorando a bronca e feliz por ver a amiga a salvo. — É claro que não teria dificuldade alguma com o uso do fogo, mesmo que mágico. Sua pele é naturalmente resistente para suportar grandes temperaturas.
— O que estão fazendo aqui!? — comentou ela, aos gritos. — Vi de longe o que parecia ser uma festa de cores iluminando esse corredor!
Renéh, de boca aberta, apontou para o círculo, agora sem chamas e com o avô de Kara se erguendo com dificuldade.
— Meu… Meu avô! — disse ela, com uma voz emocionada e correndo em direção ao frágil senhor de longas vestes laranjas e vermelhas, calvo e que lembrava muito a própria Kara.
— Sim, minha querida, sim! — disse ele, com a voz fina. — Estou bem! Cuidado com os abraços ou me derrubará!
— Vocês conseguiram! — disse Kara, olhando-os com gratidão.
— Nas horas vagas, a gente faz isso — Renéh fez uma referência. — De nada.
— Haverá tempo para agradecer — comentou ela, evitando as lágrimas. — Agora é tempo de sobreviver. Vamos logo!
— Agora mesmo! Só um momento! — comentou Renéh, e se aproximou mais do fundo do grande salão. — Quando minha mão estava na terra, eu senti uma coisa. Pessoas… Aqui! estão vendo isso!? É uma cadeia. São celas! Athos, ilumine aqui!
O mago fez a chama surgir mais próximo, e então muitos prisioneiros adormecidos acordaram de dezenas de celas em volta deles. Era a prisão da qual Kara veio.
— Quem são vocês!? — comentaram alguns.
— Vocês apagaram a chama vermelha! — exclamaram diversas vozes, surpresas.
— Tio… Me leva daqui com você! — disse uma criança que aparentava não comer há dias.
— É claro que sim, amiguinho — disse Renéh, profundamente tocado, e pegou sua Lança Inquisidora para abrir os portões das grades.
Mas Kara logo a abaixou.
— Nem tente! Não sabemos nem mesmo se vamos conseguir sair daqui.
—Você não disse que ia fazer uma visitinha pro seu tio?
— Ele não estava aqui — assumiu Kara, envergonhada. — E por isso mesmo, não podemos levar metade da Cidadela de carona!
— Princesa, sugiro que você repense o que está falando.
— Parem vocês todos! — gritou ela. Estava visivelmente em grande estresse. — Não estou falando que quero isso, que gosto disso. Estou sendo racional. Racional, mago! Se não conseguirmos retirar meu avô daqui, Sabáh concluirá seus planos e não haverá um segundo round. Com o quê acha que devemos nos importar mais? Com uma parte com um todo?
Kara olhou para Athos, que continuou calado. A razão em quererem concluir a missão sem arriscar e o peso na alma de deixar os civis para a morte o deixou sem saber o que pensar.
Finalmente, Renéh quebrou o silêncio.
— Se me lembro bem, realeza, foi esse pensamento que dividiu Héreddah e fez com que a Deidade tomasse o poder.
— Renéh, se acalme. Kara tem um ponto — disse Athos. — Eu também quero salvá-los, mas…
— Que “mas” o que, maluco! O que a gente não pode!? Olha onde chegamos! Damos um jeito!
— Não podemos! — discordou Kara.
— E o que nos fará diferente dos que vieram antes? — indagou Renéh.
— Não tente me comparar! — Disse ela com firmeza. — Não preciso de ninguém pra me ensinar a história. Eu não nasci apenas ouvindo-a como a você. Eu a vivi! E sofri na pele isso!
— E continua agindo como uma imbecil!? Sim, imbecil — gritou Renéh, impedindo a jovem de se manifestar. — Você e todo o seu clubinho real sempre fechando os olhos pra gente como nós! Gente como eles!
Renéh apontou para os prisioneiros, e estes por sua vez não tiveram outra reação senão gritarem a favor de Renéh. O ladrão esperava que a princesa colocasse a mão na consciência ao ouvir a voz do povo, mas ela, visivelmente confusa, só sabia balançar negativamente a cabeça.
— Tá vendo! É por isso que eu quero leva-los também! Nós, e eu me incluo nisso, enxergamos o mundo como a maioria, de baixo pra cima, não como vocês, da visão do trono! A vida no andar de baixo é bem diferente da realeza!
Um silêncio profundo reinou entre os que não eram prisioneiros. Por um segundo, eles esqueceram que estavam correndo contra o relógio do fim do mundo.
— Podemos dar um jeito, Kara — manifestou-se Athos.
Kara ainda estava imóvel.
Por fim, foi a vez do Ferreiro Mór se manifestar, com a sua voz fina.
— É meu filho falando, ou minha neta!? Pois pelo que me lembro, minha neta prometeu fazer tudo diferente de seu pai!
Kara o olhou, temerosa.
— Não podemos falhar, vô… — disse ela, fazendo todo esforço do mundo para evitar de ouvir os clamores dos presos.
— Não vamos falhar — gritou Renéh, considerando o debate como vencido e disparando contra as fechaduras nas celas. — Você nos conduz para a saída, já que conhece o palácio melhor do que qualquer um. E vocês, povão, bora sair daí!
As portas uma a uma caíam no chão, e os gritos de agradecimento tornaram-se mais altos à medida que os civis se aproximavam. Até mesmo Kara recebeu agradecimentos, o que a fez ficar sem resposta, tamanha era sua vergonha.
— Não acredito que você e ela pensaram por um momento em deixá-los para trás! — cochichou Renéh para Athos, enquanto corriam pelos corredores mais atrás.
— Eu não a julgo — comentou o mago, mas logo complementando, ao ver o olhar de indignação do amigo: — Mas ei, no fim, eu não faria o mesmo! Na verdade, se você não tomasse a frente… Confesso que não saberia o que fazer.
Renéh não sabia se aquilo era um elogio, mas não havia muito tempo para pensar: a saída que procuravam parecia nunca chegar! Tinham a sensação de que andavam sempre pelos mesmos corredores de pedra, já que o caminho nunca mudava. E por diversas vezes tiveram de pedir silêncio aos prisioneiros, que não se continham de excitação, o que fez o medo deles serem pegos aumentar os batimentos cardíacos do jovem ladrão.
Tudo mudou de repente, quando se viraram e se depararam com uma imensa porta negra.
— Eu derrubo — disse Kara, já sacando um pequeno objeto metálico da bolsa.
—Espera, precisamos ver quem tá aí atrás — pediu Renéh, e primeiro colocou as mãos no chão. Ele teve de se concentrar novamente na vontade de conseguirem fugir dali, mas dessa vez ficou mais fácil, já que a adrenalina e a motivação eram mais intensas. Com sua conexão com as raízes, ele sentiu, do outro lado da porta, um lugar muito amplo cheio do que parecia ser caixotes de madeira, e muitos passos de um lado para o outro.
— É um hangar. Mas há muitos deles — disse Renéh baixo, para que só Athos pudesse ouvir. O silêncio entre eles reinou até Barbôssa continuar: — E sinto algo bem grande no meio do salão… Conectado a trilhos…
— Os Dirigíveis — deduziu Athos, aliviado. — Temos chances de sair daqui.
— Eu não consigo proteger a todos — comentou Kara, firme. — Não sozinha.
—Deixe eles comigo — comentou Athos, apontando para os prisioneiros. — Eu os escoltarei em segurança para a embarcação. Vocês dois lidam com os que puderem.
— Eu tenho que cuidar de meu avô — comentou Kara, em tom de desconfiança.
— E nós temos que sair vivos — implicou Renéh, em tom mais amigável. — Agora tente não me atrapalhar caso caia indefesa.
Um silêncio reinou até que ela sussurrou: “veremos quem cairá primeiro, ladrão.”, desafiando-o. Renéh segurou o sorriso e Athos revirou os olhos.
—Quando eu disser agora — preparou o mago, à frente dos prisioneiros e apontando a mão gorducha para a porta negra. Kara e Renéh se posicionaram. — Agora!
Athos explodiu de longe a porta, fazendo seus destroços acertarem as cabeças dos Inquisidores mais próximos a ela. A luz do sol os banhou num piscar de olhos, e Renéh adentrou com Kara o grande hangar, iniciando o desafio de não morrer.
— Invasores! — gritou um dos Inquisidores. Eram mais adversários do que esperavam. — Invasores no hangar quatro!
— Vão! — exclamava Renéh para Athos e para o Ferreiro Mór, enquanto derrubava os primeiros cinco em menos de dez segundos. — E eu vi esse arranhão na sua cara, princesa!
— Reforços! — clamou um Inquisidor antes de receber uma saraivada da besta de Kara na entrada da máscara, onde ficavam seus olhos.
Athos então foi à frente dos prisioneiros e com uma mão fez cair sobre eles um véu místico, perolado e transparente que impedia as rajadas dos Inquisidores, enquanto com a outra levitava os caixotes para irem rodopiando contra os inimigos. Com um leve gesto, ele então abriu a porta do dirigível.
— Eles estão fugindo! — gritou um dos prisioneiros, tentando acertar os que corriam para um dos portões mais a frente — Eles buscarão reforços!
— Entrem logo! — berrava Athos para os prisioneiros. — Princesa, Réneh, precisam pará-los!
Kara e Renéh estavam ocupados, mas eram imbatíveis: de costas um para o outro, impediam que um círculo de Inquisidores os atacassem mutuamente. Renéh jogava os adversários contra a parede, como um bruto Guerreiro, enquanto a princesa atirava em pontos exatos da armadura dos inimigos, pois a vida toda estudara para derrubá-los com facilidade. Só quando Athos avisou pela quinta vez que Inquisidores estavam fugindo foi que eles conseguiram dar atenção, mas já era tarde: Eles já haviam alcançado a torre de comando, e mais reforços viriam.
— Vamos pegá-los! — gritou Renéh, mas Kara o segurou pelo braço.
— É tarde! — disse ela, ainda atirando para os que vinham de outras portas laterais. — Temos que fugir agora!
Pegando uma lança de prata do chão, Renéh correu junto a Kara, de costas, tentando acertar o máximo de homens que tentavam alcançar o dirigível. A princesa havia subido, mas quando foi a vez de Renéh, ele ouviu do lado de dentro.
— Estamos perdidos!
— Não diz uma coisa dessas, homem! — berrou Renéh — Não se deve dizer que estamos perdidos nem quando estivermos perdidos!
— Essa não! O veículo, Ladrão! — gritou Kara, também desesperada. — Ele está no topo do trilho. Precisaremos empurrá-lo por fora, para ele pegar velocidade pelos trilhos!
— Claro, por que não!? — Gritou Renéh, e se direcionou de volta para fora.
— Não — disse a princesa — Enlouqueceu!? Mesmo com toda força do mundo, você não aguentará uma frota de Inquisidores sozinho.
— Ele não está sozinho — disse Athos a ela, e invocou novamente o véu perolado sobre ele e Renéh — Vamos!
— Esse é meu garoto — agradeceu Renéh. — E olha que ele disse que nem queria vir!
Athos e Renéh voltaram para o cenário da batalha, onde, mesmo com a proteção do escudo, sentiram o impacto das rajadas mortais dos Inquisidores. E estendendo os braços, fazendo toda força do mundo, Réneh empurrou o veículo.
O terror subitamente tomou seus corações: um alarme estridente foi ouvido.
— Eles sabem! — continuou Athos, com a respiração presa. — Eles estão vindo!
— Não me diga! — berrou Renéh, sentindo então o dirigível começar a descer pelos trilhos.
— Não vou aguentar muito! — Athos sentia os pés se arrastarem para trás devido ao impacto das rajadas das lanças.
— Atirem sem parar! — gritaram os Inquisidores. Os disparos triplicaram; uma grande onda vermelha jorrou sobre eles.
Renéh evitou olhar, mas quando se virou para empurrar o veículo com as costas, viu que ele já descia com certa velocidade. Mas seu coração quase saiu pela boca quando notou que o escudo estava cada vez mais fraco. Era o fim.
Então mil outras rajadas foram disparadas, mas dessa vez a favor de Renéh e Athos, exterminando um terço da legião de Inquisidores que os atacava. Sobre suas cabeças, os dois heróis puderam ver que, da janela do dirigível, surgiu Kara, apontando uma enorme metralhadora do próprio veículo para seus Inimigos e disparando contra eles com sangue nos olhos.
— Nunca critiquei! — berrou Renéh, que começava a sentir o veículo descer leve demais. — Athos, conseguimos!
— Corram — berrou Kara do alto, ainda disparando. Mas não daria tempo: o veículo já descia em tal velocidade que os três começaram a sentir ele se distanciar.
— Não vamos conseguir! — falou Renéh. E a esperança foi dando lugar ao desespero completo.
— Onde está a princesa… — questionou Athos, não a vendo mais atrás de si.
—Virem-se! — gritou de repente Kara. Sem que percebessem, ela havia surgido deslizando em alta velocidade logo atrás deles, segurando uma grande corrente que se estendia até o dirigível. E colidiu diretamente com os dois companheiros, abraçando ambos e fazendo com que os três fossem presos pela mesma corrente.
— Mas o que é isso!? — gritou Athos sem entender; mas Renéh logo entendeu a loucura: ela amarrou as correntes em suas cinturas e pernas enquanto deslizavam velozmente sobre o chão polido do hangar. — Ah não, nós vamos ser arrastados!
— É o jeito! — tentou avisar ela. Mas antes que terminasse, eles sentiram que o chão havia acabado; haviam saído do hangar e estavam caindo em alta velocidade, pendurados pela cintura e pelos pés na corrente, e vendo a grande avenida da Cidadela e seus prédios colossais passarem voando ao lado deles enquanto eram arrastados pelo ar.
— Você é doida! I-n-s-a-n-a! — berrava Renéh, sem saber se o grito era pelo medo de morrer, pela surpresa de não terem morrido ainda ou por quão bem sucedidos eles estavam sendo.
— Veja! — Gritava Kara — Eles estão tentando nos puxar de volta.
— Ahhhh! — gritava Athos, verde de enjoo e tentando apontar para algum lugar.
— Calma, amigo — berrava Renéh, sem calma alguma. — Eles só estão nos puxando! Não vamos cair!
— Ahhhh, o alarme! — Athos começou a girar como um peão no ar, gritando. Renéh segurou com dificuldade sua corrente no ar e teve de segurar o riso.
— Calma, amigo! Eles não vão conseguir nos alc…
— Cuidado! — berrou Kara.
— Ahhhhhh — berrou Athos.
O grito de Renéh sumiu na garganta quando ele entendeu: às suas costas, medindo três metros e batendo as longas asas que deixavam um aterrorizante rastro rubro e esfumaçado no ar, surgiu um enxame de diversas criaturas aladas, com quatro asas e muitos dentes.
— Mírata! — berrou Athos, e quatro jatos de luz saíram de suas mãos. Mas não acertaram uma criatura sequer. — São as Aves de Vérbaras! O ninho de criaturas de Kazadhór!
— O cara deu pra criar pássaro agora!? — berrou Renéh, sentindo a corrente subir mais um pouco.
— O alarme! — respondeu Kara — Foram convocados para nos impedir. E olhem. Céus! Eles estão destruindo os alicerces dos trilhos da nossa embarcação. Se ela não voar a tempo…
— Mírata! Falta pouco — gritou Athos, vendo o fim do trilho se aproximar e o veículo acima deles começar a tomar uma grande velocidade. — Não podemos perder agora! Mírata!
Renéh então viu que tinha pelo menos mais quinze grandes alicerces do trilho restantes para o veículo passar antes de ganhar a velocidade de voo, e viu que as Aves de Vérbaras chegariam até eles bem antes do percurso finalizar. Foi quando estavam quase sendo puxados para a porta através da corrente que teve coragem de falar:
— Não! Eu fico!
— O que!? — disse Kara, já na porta do dirigível e sendo puxada pelos prisioneiros recém-libertos acima.
— Eu tenho um plano pra nos livrarmos deles!
— Não precisaremos disso! — gritou Athos, também subindo finalmente a bordo. — Em breve, estaremos voando em alta velocidade.
— E eles também! Não podemos deixar com que nos sigam e arriscar uma perseguição aérea! Apenas me deem mais corrente. Vou precisar!
— E o que pretende fazer!? — disse Kara, incrédula, cedendo mais de sua corrente para ele, que se preparava para outro salto. — Faltam menos de quatro alicerces!
— Dar o troco — respondeu ele, olhando com malícia para as aves que se aproximavam enquanto elas derrubavam os alicerces há dez metros de distância. E sem pensar, preso pela corrente, se jogou novamente.
Kara e Athos gritaram, mas o vento forte abafou o som de medo dos amigos de Renéh. As criaturas estavam há dez metros de distância, então era agora ou nunca. Pendurado no ar abaixo do dirigível, flexionando o corpo de forma lateral com a ajuda da corrente, ele desceu quase à altura do chão da Cidadela, passando disparado pelas cabeças dos cidadãos que corriam devido ao alarme, até finalmente conseguir deslizar e correr pelas paredes douradas dos primeiros andares dos prédios a seu lado, que passavam em alta velocidade.
Como se isso não fosse loucura suficiente, ao perceber a corrente o puxando para cima (sinal de que o dirigível já estava no ar), Renéh tomou um impulso descomunal nas paredes de um dos edifícios, fazendo com que suas janelas rachassem pelas forças de seus pés. Saltou da superfície do prédio e foi violentamente em direção à base dos três últimos alicerces.
O impacto contra a construção foi ensurdecedor: o Guerreiro, com seu corpo virtualmente indestrutível, colidiu contra a base do primeiro alicerce, fazendo-o se destroçar; e ele sentiu uma dor descomunal ao fazer o mesmo no segundo e no terceiro
Como ele deduziu, as criaturas que os caçavam não esperavam que isso fosse um ataque: os alicerces caíram para trás em uma nuvem de poeira, som e caos, um a um, causando grande confusão na direção dos pássaros vermelhos, confundindo sua rota e fazendo-os colidirem ou serem até mesmo esmagados no chão.
O corpo de Renéh, que deveria ceder à dor, vibrou com a vitória. A corrente o puxou de volta para o dirigível, que a essa altura voava com imensa velocidade para longe da Cidadela, enquanto Barbôssa admirava sua magnitude agora à distância.
E muitos gritos de comemoração jorraram quando ele entrou finalmente de volta no dirigível. Kara estava concentrada dirigindo o veículo, mas Renéh se surpreendeu com seu brado de vitória.
Athos estava à frente de Renéh em estado de choque, tentando assimilar o que aconteceu. Mas Renéh só teve a reação de puxá-lo para um forte abraço, cheio de gratidão.
AVISO DO AUTOR:
Prezado Leitor,
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Espero que tenham gostado!
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