Capítulo V: Os Três


Era uma densa noite de inverno em um vilarejo do País do Sul. A neblina densa escondia as ruas no breu da madrugada… Um breu que escurecia a visão e o coração dos moradores daquela região.

Um som de vidro quebrando interrompeu o silêncio em um dos casebres, fazendo o filho mais novo da família Barbôssa, Renéh, acordar assustado. O que poderia ser? Seriam os monstros das histórias que seu pai contava? Sim, de certa forma…

O coração da criança gelou, pois ela ouviu um grito desesperadamente alto de mulher, dentro da sua casa. E na mesma hora, ele reconheceu ser a voz de sua mãe.

Com os lençóis pendurados no corpo, o garotinho se levantou de sua cama e foi correndo para fora do quarto. Não sabia o que poderia fazer, mas a coragem encheu seu coração. Pois sabia que havia algo sombrio em sua casa.

Como vocccês puderam! — Ele ouviu uma voz berrar, descontroladamente. — Vocês todosss, indignosssss. Sem honra!

Renéh então tentou correr ainda mais para alcançar a porta mais ao fundo, mas parecia que o corredor de sua casa ia se esticando, tornando o encontro com sua mãe quase impossível.

Pai! — clamou sua voz, que ele mal sentia sair da boca. — Papai!

Mas ele também pôde ouvir um grito de dor do pai, muito pior do que o da mãe. E entrou em desespero ao saber que ambos estavam sofrendo.

O corredor parecia mais distante, tal como deformado e esticado. E foi quando ele percebeu que era tarde, pois o grito do pai e o grito da mãe se mesclaram em um único berro desolador, ecoando e fazendo as paredes da casa vibrarem como em um terremoto.

E da porta que queria alcançar, algo pavoroso desceu: um rio de águas grossas, imundas e vermelhas como sangue. E esse rio arrastou a criança, que tentou lutar pela própria vida, mas foi afogando. A criança havia falhado…

Então Renéh acordou abruptamente, sentindo o nariz bater com força contra o chão. Seu corpo estava tremendo, todo ensopado de suor frio e com o pé enroscado na rede da qual acabara de cair. Estava em choque, e precisou de bons segundos para controlar a respiração rápida e forte. E então… ele chorou.

E ali ficou por vários minutos, tentando não fazer barulho. Se sentindo frágil, inútil e incompetente. Pois o trauma daquela noite ainda lhe marcava; a noite em que perdeu seus pais e não conseguiu fazer nada para ajudá-los.

Quando as lágrimas se foram, um vazio bateu em seu peito. Originado da vida que levava e dos sonhos que, por mais que não demonstrasse, ele tinha. No fim, a casca de bem-humorado e desleixado servia como uma forma de aliviar a dor que sentia. Mas quando ela vinha nessa intensidade, não havia para onde ir.

Então se arrastou pelo chão, ainda impactado, e encostou as costas em uma das paredes de madeira do veículo. Após pensar um pouco, tirou seu diário de bordo do bolso, e começou a escrever:

Diário de Bordo

Ano 2.222 da Era Vermelha. Qualquer dia aleatório… Mais um dia de serviço.

Uma observações observação: eu penso devagar, então desculpe as rasuras.

Pensei que o resto do dia fosse ser bem qualquer coisa. A cozinheira nova foi bem mais simpática do que aparentava, apesar das unhas sujas. Mas estou acostumado a comer coisa pior do que a ração o almoço dos inquisidores.

Hoje eu senti falta de como as coisas eram, antes daquele dia maldito… Não lembro de muita coisa, mas a música, o cheiro de comida fresca e o rosto da família já seriam o suficiente pra desejar voltar no tempo. Ocorre que toda lembrança boa vem seguida dessa merda desses sonhos. E tudo parece desabar… Até mesmo hoje, como Primeiro Comandante dos Inquisidores, nada disso preenche o meu coração.

Bom… A verdade é que não tenho motivo pra reclamar. O contrato com Sabáh está acabando, e finalmente não vou dever mais nada a esse bando de loucos. O trabalho deles é sujo… Saquear vilarejos inteiros a procura de magos, princesas e ouro. Mas soube disso desde que entrei. Agradeço ao nada por não precisarmos machucar ninguém inocente…

— Comandante — disse então voz acima de sua cabeça, interrompendo sua escrita. Numa janela do teto, surgiu o Inquisidor Bulgar

— Me chamando assim parece tá escrito Comandante Renéh Barbôssa na minha certidão de nascimento. Pode chamar pelo nome, irmão.

— Desculpe — riu-se sutilmente Bulgar —, força do hábito. É que já estamos a cerca de quinze minutos da praia. O general pediu para aprontarmos nossas tropas.

— E você pode fazer isso no meu lugar? — perguntou Renéh, se espreguiçando. — Não dormi bem hoje.

— É claro, com… Ahn, Renéh.

— Boa, garoto. Agora vai lá ser feliz, vai.

A janela se fechou e Renéh voltou-se ao bloco de papel:

Acho que é isso… Estamos chegando à bendita missão de uma facção dos revoltados, que agora inventou de não liberar mais recursos para o…

Então Renéh parou e viu que não tinha mais nada de relevante para escrever. Tomando ar, ele preparou as facas duplas no cinto marrom, vestiu o peitoral de couro cor vinho e guardou na bainha sobre as costas a espada curta, companheira de exploração. Ainda faltavam mais alguns objetos a ser guardados, quando uma voz disse, alto:

— Revisitar o passado nunca é legal, não é?

Assustado, Barbôssa olhou para trás. Demorou até sua visão se ajustar, mas por fim viu que a voz saiu de dentro das celas. E ele percebeu que era Athos, o mago.

— E o que você tem a ver, hein, gradeado? — cortou-lhe Renéh, rispidamente.

—Nada — respondeu Athos, de forma ríspida. — Se é pra ser assim, amigo, eu só queria pedir encarecidamente para das próximas vezes dormir em seu aposento.

— Claro, chefe — ironizou Renéh. — E posso saber o porquê, ô “senhor”?

— Deve ser porque toda vez que você sonha com… Tudo aquilo.

Renéh o olhou curioso.

— Você viu meus sonhos? — perguntou lentamente — Seu fofoqueiro!

— Não por querer, pode apostar — esclareceu Athos. — É mais por instinto. Sonhos são como a alma se manifesta espiritualmente, e os resíduos pairam por aí. E eu acabo lendo. Contra a minha vontade, só para deixar claro.

— Vocês são birutas — brincou Renéh.

— Ele é um mago — comentou outra voz, feminina, da cela à esquerda. Renéh pôde ver então o olhar severo de Kara, apoiada mais ao canto. — Achei que estivesse bem óbvio.

— Olha se não é a realeza dos Ferreiros… — debochou Renéh. — Tá se sentindo confortável no trono novo, bonitona?

— É um verdadeiro desprazer ter que ouvi-lo — disse ela, sem olhar em sua cara.

— Todas dizem isso. Mas a senhora tem total direito de se manter calada, tá bom? Para o bem geral de vosso reino… E de qualquer um que tenha ouvidos.

— Ah, isso eu concordo! — exclamou Athos. — Não de você dar as ordens, mas dela ficar calada.

— Pare de puxar assunto com o inimigo, seu idiota! — disse Kara, rispidamente, para Athos. — De que lado você está?

— No momento, de quem fala menos e deixa eu pensar! — cortou Athos.

— Ôh, vamos cessar a festinha aí! — exclamou Renéh, batendo contra a mesa. — E você, estranho!

— Mago!

— Então… Estranho, ora! Não foge do assunto não…

Barbôssa caminhou em direção à cela de Athos, com passos calmos. Viu que ao lado havia um pergaminho escrito: “Estritamente perigoso — Não mantenha contato.”

—Então… — começou Renéh. — Mago, não é? Que coisa. Achei que vocês se restringiam à lendas hoje em dia.

— Garanto a você que sou bem mais do que só uma história — afirmou Athos, indignado —, e você não deveria estar lá fora, capturando outros como eu?

— E eu vou. Espero lotar esse lugar logo de amigos seus pra você não ter que aturar a bonita ali sozinho.

—Entendo — comentou Athos, assustado, mas tentando manter o tom amigável. — É novo no ramo também?

— De prisioneiro, não — brincou Renéh. — Mas como guarda, já há alguns meses. Pagam bem, sabe, os Inquisidores… Você poderia se dar bem com eles, é bem educado. Eles prezam por ordem.

Athos riu.

— Justa proposta, mas acho que eu e seu general não nos daríamos muito bem. E quando digo “novo no assunto”, eu não estou falando dos Inquisidores.

Os dois se encararam. Renéh entendeu aonde o jovem mago queria chegar e soltou um sorriso de canto de boca.

— São poucas as pessoas que conseguem manter minha boca fechada. Parabéns.

— Então vocês vão se dar bem — ironizou Kara.

— Ela é sempre assim? — questionou Renéh.

— Eu sei lá! Eu a encontrei bem do nada.

— Achei que estavam juntos.

— Nem pensar! — exclamaram Athos e Kara, ao mesmo tempo.

— Quanto amor — ironizou Renéh.

— O segredo com ela é se fingir de surdo — cochichou Athos.

— Sem problemas — disse Renéh, mandando um beijo no ar para a jovem. — Bom, sobre os sonhos, eles foram só lembranças vazias. Coisas passadas.

— Vai fugir do assunto mesmo?

— Que assunto, cara? — questionou Renéh.

— Bom, achei que queria conversar mais sobre seus sonhos. Afinal, não deve ter muitos amigos pra falar sobre. Você então quer… Sei lá… Conversar?

— Eu não acredito — continuou a alfinetar Kara — que você esteja sendo imbecil ao ponto de puxar assunto com o seu adversário…

— Silêncio! — disseram os dois rapazes, e Athos continuou. — Caramba, mulher, eu estou o dia inteiro aturando você reclamar! Até mesmo o guarda inimigo é mais simpático! Deve ser por isso que eu tô conversando com ele e não com você!

E não teve como Renéh não achar graça e deixar um sorriso escapar pela situação.

— Enfim… — Respirou fundo o mago, ajeitando os óculos e voltando-se para Renéh. — Ela era sua mãe, não era? A mulher do sonho… Foi o que vi.

Renéh ficou algum momento em silêncio, desconfiado, e só depois que desviou o olhar um pouco para baixo assentiu.

— É, imaginei que sim. O jeito que você a enxergou, na forma de criança, é o jeito que um filho sempre enxergará sua mãe no plano espiritual.

— Plano espiritual?

— Uma longa história…

— Caramba, coisa de doido. Se eu soubesse que um mago poderia fazer essas coisas, eu teria caçado um pra fazer uns serviços pra mim faz tempo!

— Para o azar de Héreddah, há poucos por aí. E eu espero não ser o único…

Renéh viu uma certa tristeza nos olhos do rapaz e se compadeceu.

— É, eu também espero que você não seja o único — respondeu ele, consolando-o. — Pelo menos, não se eles forem tão simpáticos quanto você, meu bom.

O mago olhou-o agradecido. O ladrão então estendeu a mão.

— Barbôssa. Renéh Barbôssa.

— Athos, muito prazer — disse, retribuindo o aperto de mão. — Quer dizer que nem todos de vocês são tão ruins assim?

— Olha, eu não posso falar pelos outros. Tem uma galera aqui bem esquisita, na verdade. Por isso eu aconselho não se meter com qualquer um.

— Então, você não é como eles?

— Ah não, com certeza — riu-se Renéh. — Eu ligo muito pouco pra minha própria vida ao ponto de me importar com a dos outros. Tô aqui a trabalho.

— Deve ser uma vida difícil — afirmou Athos, sentando-se no chão.

— Nem tanto — disse Renéh, sentando-se também para colocar a bota —, mas a gente se acostuma. Eu sou um ladrão, né.

— Pasmem — ironizou a voz de fundo de Kara. — Achei que fosse um nobre.

— É, linda, se os reis como o seu pai fossem mais justos, não haveriam pessoas como nós. Tô aqui mais pelo… Pelo extra. E também pra tirar esses caras do meu caminho de uma vez por todas. Ao contrário de você, né, mago? Que aparentemente não se importar de ter Inquisidores te caçando.

— Eu sou apenas eu mesmo — disse Athos, com melancolia na voz —, sem tirar nem pôr. E assim eu fui fazer um teste para a universidade da minha cidade; e por conta do que apresentei, as teorias sobre os magos, eles vieram atrás de mim.

— Eita — comentou Renéh.

— Foi literalmente por nada! — disse Athos, frustrado. — Saí de casa com o sonho de fazer com que as pessoas enxergassem as coisas de maneira melhor. Mas, no fim, descobri o pior delas…

Renéh encarou o olhar desolado do jovem mago. Se compadeceu novamente. E Kara percebeu.

—Ué… Não entendi esse olhar — falou ela, se levantando. Renéh pôde ver que a jovem era tão alta quanto ele, e tinha uma postura que exalava respeito. — Não é isso que vocês andam fazendo? Entrando nos vilarejos dos outros, tirando deles a autoridade e liberdade que lhes é por direito? O que aconteceu com o coração do guardinha? A vida de bandido amoleceu os sentimentos?

— Abaixa o tom, moça — advertiu Renéh, revirando os olhos para encará-la. — Abaixa o tom e não fala do que você não sabe. Eu não toquei em uma pessoa inocente sequer.

Kara riu, debochando. Renéh se aproximou da sela, furioso, mas ela não se moveu.

— Perdeu a paciência? Abre essa jaula pra eu te por pra dormir.

— Gente, honestamente — interviu Athos —, não precisamos de mais violência…

— Eu nasci e fui criado no meio de pessoas humildes, garota — começou Barbôssa. — Sei muito bem que boa parte do povo é trabalhador. Sou a última pessoa que tocaria em alguém inocente por pura violência.

— Acho incrível a capacidade de Inquisidores pouco instruídos — ironizou Kara, balançando a cabeça de um lado para o outro — de saber “muito bem” quem é o povo calmo e trabalhador. Cada palavra sua faz eu ter mais certeza de que derramar o sangue de pessoas como você fará com que a minha honra cresça.

— Humildade mandou abraços — comentou Réneh. — A única coisa em que eu ajudo esses doidos é dominar as terras que não aceitaram as condições da Deidade.

— Ou você é burro, ou é idiota, só pode — concluiu a princesa, incrédula Kara. — Acha mesmo que eles saem armados até os dentes para apenas inferir medo em reis?

— Do que você tá falando?

— Ahn… Kara — interrompeu Athos, cauteloso. — A todo momento, ele tem falando sobre o que ele tem vivenciado como Inquisidor. É óbvio que não sabe de tudo. Muito menos sobre as outras invasões.

— Calma aí, gente. Calma… — Renéh começou a rir sozinho, concluindo (como de costume) algo errado. Kara semicerrou os olhos. — Mago, você é gente fina, mas se isso for alguma estratégia pra escapar, nem tenta perder seu tempo. Só falta vocês pedirem que eu abra as celas para ajudarmos as pessoas lá fora.

— Está mesmo tão convencido? — questionou Athos. — Então tente ir até a ala de registros de sua nave. Você tem acesso a ela, não?

— É claro que sim! — Renéh, indignado, começou a procurar as chaves com nomes de todos os setores para jogar na cara de Athos aquela da ala de registro.

E se surpreendeu, pois era a única que ele não tinha.

— Ué — disse ele, constrangido.

— Típico do meu tio — disse Kara, vendo a reação de Renéh. — Você é realmente muito lento. Não achou suspeito que, como um líder de tropas que é, você não tivesse acesso a um departamento tão importante?

— Suspeitei que ele não pudesse ir até lá, princesa — concluiu Athos. — E falo isso porque, pelo que vi nos seus sonhos, e bom… Posso estar errado, mas acredito que você tenha o coração no lugar. E Sabáh tem consciência de que se você soubesse de tudo o que os Inquisidores fazem, você jamais se uniria a eles.

Kara não respondeu de imediato. Entendeu o que Athos dizia como um jogo mental para convencer Renéh, mas a verdade era que o mago estava sendo sincero. E, por mais difícil que fosse aceitar, ela percebeu também que o ladrão não era de todo mau.

— Entende agora? — questionou ela, tentando ser simpática.

Renéh estava um pouco confuso. Para não demonstrar que dava certa razão aos dois, ele saiu da prisão e subiu alguns degraus até o largo corredor do veículo. Por um instante, pensou em ignorar o que foi dito e ir jantar, mas algo dentro dele o incomodou, quase como se sua consciência falasse.

—General — chamou Renéh, minutos depois, chegando ao convés. Sabáh estava dando algumas instruções aos Inquisidores ali presentes e pediu licença. Renéh reparou que ele estava armado até os dentes.

— Diga?

— General, eu fiquei pensando em uma coisa… O senhor disse na reunião passada que os Resistentes são espertos e também estratégicos. Então fiquei preocupado que pudessem invadir o veículo para tentar acessar nossos planos. O que acha de conferir…?

— A sala de arquivos está segura — disse Sabáh — e não precisa ser revista.

Renéh se assustou enquanto Sabáh o olhava, curioso. O zelo pelo local aparentemente era incomum. Então tentou desconversar.

— Bom, estou às ordens! — disse Renéh, rindo. — Vejo que o senhor já está trajado. Quer que eu prepare a equipe?

— Esta noite você ficará embarcado — afirmou Sabáh.

— Aqui dentro? Sem fazer nada? — estranhou Renéh. — Mas essa é a minha última missão, não?

—Sua última missão será tomar conta dos prisioneiros. Quando se trata de magos e princesas, todo cuidado é pouco. E outra… Combinamos que você não machucaria ninguém. Hoje, eu não posso lhe prometer isso. E não quero quebrar nosso acordo. Então fique na nave.

Sabáh saiu andando, e Renéh ficou parado. Então do bolso o ladrão retirou seu prêmio: o molho de chaves que ficava no bolso do general; chaves essas que o próprio não havia percebido que foram roubadas, graças ao contato visual fixo de Barbôssa.

Empolgado (algo que só acontecia quando trapaceava), Barbôssa saiu da sala e logo se direcionou para as escadas, para a sala da prisão.

— O negócio é o seguinte — disse Renéh, ao chegar. Athos levantou-se em um salto —, vocês vão me ajudar a abrir a porta da sala dos arquivos.

— Boa! — gritou Athos. — Eu sabia!

—Se empolga não! — sussurrou Barbôssa. — Sabáh e os outros caras estão saindo para a missão agora, mas ele provavelmente vai ficar de olho em mim. Vocês virão como meus prisioneiros. Mas antes de chegarmos à porta, precisamos distrair os guardas pelos corredores.

— O que? — questionou Kara, se levantando também. — Sair daqui acorrentada por um de vocês? Prefiro minha cela, obrigado.

— Por mim, também prefiro você aqui, acredite! — rosnou Renéh. — É por isso que ficarão de algemas.

— Aí passou do ponto, amigo — disse o mago, desanimado. — E se tivermos que lutar!?

— Ei, vocês têm a mim — reeespondeu Renéh, dando uma piscadela.

— Eu acho arriscado — questionou Kara a Athos. — Isso pode ser um motim montado pelo meu tio e por esse aí, para conseguir arranjar motivo de me condenar à morte por ter fugido da sua guarda… Cuidado!

Quando Kara exclamou, Renéh se virou rapidamente. Um Inquisidor estava parado na beira da escada, vendo ele libertar a princesa e Athos.

— Comandante! — exclamou o Inquisidor, mas Renéh não perdeu tempo: pegou as chaves e, com uma força descomunal, jogou-as em sua cabeça. E o Inquisidor caiu, desmaiado.

— É, ele tá do nosso lado — concluiu Athos, assustado com a cena. Kara ficou boquiaberta e em choque, enquanto segurava a mão estendida de Renéh, que a ajudou a sair.