Capítulo X

O socorro
inesperado

—Quê! Você!? — exclamou Athos, saltando para trás.

— Sim, eu mesmo — respondeu Hog, com um sorriso no rosto, batendo palmas. Renéh estranhou seu jeito tão pomposo. — Ah, minha cara princesa. Finalmente, mesmo depois de eras, acredito que alguém da minha sociedade e alguém do seu povo tenham a mesma opinião sobre o assunto.

Kara não concordou nem discordou, apenas o observou com certo interesse.

— Não é de hoje que este vale demonstra não ter pulso para agir como deve. Enquanto esses seres discutem o óbvio, Kazadhór chega cada vez mais perto do que quer. E, seja lá o que isso for, acho que devemos nos preocupar!

— Não estamos interessados em sua ajuda, Lorde — disse Athos, firme.

— Ei, espera aí, o cara nem terminou de falar! — interrompeu Renéh. — Vai, moço. Fala.

— Não é de se estranhar que todos os magos tenham receio de ficar à sombra enquanto seus parentes se vão — comentou Hog. — Parece que é parte de sua natureza, a covardia.

— Ora, como se atreve! — Athos começou a andar em direção a Hog.

— Ei, calma, cara! — interrompeu Renéh, correndo em direção a Athos e o segurando pelo braço. O amigo, percebeu Barbôssa, estava com as bochechas vermelhas de tanto ódio. — Do que vocês estão falando!?

— Não vale a pena puxar acontecimentos históricos agora. O presente revela que há alguns — e dou ênfase nisso, porque não são todos — que se acham incapazes de arriscar para fazer o que é certo. Meu velho amigo Állathor é um deles.

— Como se a ficha da Irmandade de Prata fosse limpa! Eles são traiçoeiros, Renéh! Os Lordes de Prata não têm as mesmas crenças que nós temos. Eles acreditam que toda e qualquer instituição político-mística está fadada ao fracasso, e se aliam a nós no intuito de conseguirem cargos de poder para depois destruí-las por dentro.

Houve muitos segundos de silêncio em que ninguém parecia capaz de falar nada, até que Renéh começou, meio sem-graça.

— Bom… Não é querendo apoiar ninguém, mas você há de convir que isso aconteceu quando optaram por apoiar a Deidade no passado, não?

— Como assim, Renéh!? Isso é generalizar!

—Então, claro que não estou falando de todos, mas…

—Exatamente! — exclamou Hog, com ar de lógica. — E fico feliz em saber que você consegue notar o óbvio, rapaz.

— Mas vamos com calma também, animadinho! Isso não quer dizer que vocês sejam isentos de interesses próprios. O que vai ganhar com isso?

— Ora, o mesmo que todos vocês! — respondeu Hog, parecendo óbvio. — A oportunidade de continuar vivo, o que por si só seria bem interessante.

— Isso é verdade — frisou Renéh para Athos, depois de pensar um pouco.

— Mas também a oportunidade de ter a Cidadela livre para que meus ideais sejam propagados, e não há nada de errado nisso, Senhor Quintillantum. É o sonho de todo homem que suas ideias conquistem o mundo. O legado é importante, e são vocês, os mais novos, que vão levá-lo daqui pra frente. Afinal, pode achar que não entendo sua dor, neto de mago, mas assim como aconteceu com vocês, sobraram poucos dos meus.

—O que não faz falta nenhuma, diga-se de passagem! — exclamou Athos, mais uma vez com a face corada.

— Caraca, que audácia é essa! — exclamou Renéh, rindo de incredulidade.

— Brigas não resolvem nada, Athos — disse, finalmente, Kara. Ela se aproximou de Hog. — Meu povo nunca teve motivos para desconfiar de vocês da Irmandade, mesmo sabendo que não são as pessoas mais éticas. Mas eu… Eu não tenho escolha no momento. É mais do que o fim dos tempos… É a minha família que está lá.

Hog abriu ainda mais seu sorriso, deixando transparecer quase todos os dentes brancos da boca.

— E é exatamente por isso que não vamos decepcionar um ao outro, não é, princesa?

— Comece por você — disse ela, cheia de atitude.

— Certamente, começarei. Acho que o mago também concorda com os seus aliados, não?

— Óbvio que não concordo! — respondeu Athos. — Aliás, se chegou a esse ponto, serei obrigado a falar com o Mestre Állathor.

— Ah que isso, amigo — começou Renéh, quase batendo os pés. — Vai complicar mais ainda as coisas!?

— Ah, você não faria isso — seguiu ameaçadoramente o Lorde, colocando a mão em direção às costas.

—Tente a sorte! — exclamou Athos, e suas mãos brilharam. — Não vou arriscar o destino de Héreddah por…

Mas então o mago parou de falar. O que parecia uma pequena agulha o acertou no ombro. Ele olhou, os olhos reviraram e depois caiu pesadamente na grama.

Renéh viu que Kara estava com a mão estendida para ele.

— Problema resolvido — disse ela. Havia lançado nele um dardo sonífero.

— O que!? — sussurrou mais incrédulo ainda Renéh.

— Ele não pode nos denunciar. Certamente seremos acusados de traição. E o efeito do veneno dura minutos, Lorde, então aconselho que diga logo como pode me ajudar a salvar meu avô da Cidadela.

— Claro, majestade! — Hog fez um falsa reverência a ela. — Inclusive, se quiserem vocês podem deixar o mago comigo.

— E quando a gente voltar, ter que enterrar ele? — disse Renéh. — Nem pensar! Ele vai conosco.

— É claro que não! — exclamou Hog, agora exasperado. — Vocês não terão tempo para carregar um corpo pela Cidadela, ladrão!

—Misericórdia! Meu nome não é ladrão, é Bar-
bôssa! E de qualquer forma, precisamos dele. Ele mostrou saber umas coisas que podem nos ajudar a sair de lá vivos.

— E como acha que vai reagir quando souber que está num lugar que não queria!?

—Eu salvei vocês. Ele me deve uma. Aliás, era isso que eu ia dizer antes de você botá-lo pra dormir, princesa!

O que pode ter sido um tímido sorriso escapou pelo canto do rosto de Kara.

— Então, que seja! — disse Hog, dado por vencido. — O plano é simples: há semanas, a Cidadela está se preparando para comemorar o Dia Mundial da Paz. Boa parte do palácio fica aberto para exposição artística. Grandes líderes da Távola discursarão no local e, o principal, há um enorme desfile com muitos dos povos que aceitaram de bom-grado se sujeitarem à Cidadela, e que trazem, portanto, muitas oferendas à Kazadhór.

“A questão é que não dá para chegar voando e nem andando até a Cidadela. Todos os dirigíveis e veículos, bem como convidados que entrarão na Grande Avenida, ficarão à mercê de uma intensa revista que guardará o lugar. Haverá mais de trezentos soldados nos chãos, sem contar uma guarda aérea que tomará conta do trilho das aeronaves.

“Também deverão ter cuidado com Observadores, que são uma classe militar dos Inquisidores armada para distância; eles ficam em alguns dos edifícios mais altos de Héreddah. Em resumo, é uma possível missão suicida, onde se tiverem a mínima falha, perderão suas vidas.”

— Ok — disse Renéh, receoso e quase arrependido depois de tudo que ouvira. — Então quando o senhor vai nos dizer como a gente pode entrar? Porque até agora por cima, pelos lados e pelo centro, não dá, né?

— Certamente há, jovem ladrão. Állathor não confia muito em mim, mas eu ouvi sua conversa com este aprendiz sobre o resgate que comandaram com os povos nativos. Ele me contou que você tem uma certa… Familiaridade com a terra. Estou correto?

— Bom… — começou Barbôssa, cautelosamente. — Digamos que sim.

— Ele é descendente dos Guerreiros da Terra — disse, por fim, Kara.

— Que curioso — comentou Hog, com um sorriso de quem só estava esperando a confirmação — Muito curioso…

— É pra falar assim pra todo mundo, é? — perguntou Renéh, advertindo Kara com o olhar. — Sinceramente, acho que podemos ser mais modestos com isso!

— Falou o moleque que deu um soco com uma mão de terra na frente de uma penca de civis — comentou Kara, sem olhar para ele — Enfim… Lorde, pode explicar de uma vez como o fato dessa criatura ser um Guerreiro nos ajudará?

— Carreguem o “senhor-pesado” e eu os mostrarei. Venham — pediu Lorde Hog.

Com um certo grau de dificuldade para não serem vistos, Renéh e Kara arrastaram o inerte Athos pelo Vale enquanto seguiam Hog. Tiveram que desviar o caminho por duas vezes atrás dos campos, e quase entraram no rio para não serem percebidos pelos guardas do local (já que seria bem estranho serem vistos carregando alguém desacordado).

Eles desceram uma pequena ladeira que ficava atrás da casa onde Renéh passara a noite, e seguiram por mais duas fendas, depois por mais quatro, até começarem a perceber que havia muitos caminhos iguais.

— Mas isso é um labirinto! — exclamou Renéh, virando-se por outro caminho de pedras idêntico ao que acabara de passar.

— Ora, claro que sim! Achou que um lugar dessa importância ficaria no topo das montanhas? Bom, finalmente chegamos!

Eles então pararam. Estava extremamente escuro, a ponto da pouca luz do luar que entrava entre o topo das montanhas ser a única que os banhavam.

— Pois bem, aqui está!

Hog apontou mais à frente e, com dificuldade, eles viram uma raiz, de idade anciã, saída do chão. Renéh ficou impressionado pois ela fazia pequenos movimentos e emitia um som abafado, como se vibrasse.

— Ela… Ela está…

— Viva — respondeu Hog ao garoto. — Mais viva do que qualquer um de nós, eu posso dizer.

—Eu sei que está… De alguma forma… É como se eu a sentisse nas minhas mãos, mesmo à certa distância.

— Em tempos passados, os Guerreiros da Terra espalharam raízes como estas por todo o mundo — comentou Hog. — Elas têm uma conexão mística entre uma ponta e outra. Resumindo: você é capaz de viajar entre elas!

— Uou — disse ele, espantado, ainda encarando a planta. — Mas… Como é que eu faço isso mesmo?

— Esperava que pelo menos nisso, você obtivesse a resposta — olhou Hog, assustado.

— Tente tocá-la! — exclamou Kara. Havia muita apreensão em sua voz.

O rapaz se aproximou com a mão estendida, e bastou apenas alguns passos para que a raiz começasse a respirar ainda mais densamente; pequenos traços verdes bem brilhantes começaram a surgir desenhados por toda sua superfície.

— É isso… Segurou bem Athos? — perguntou Barbôssa, e Kara confirmou. — Então… Agora, é só não morrer.

— Boa sorte — disse Hog, tendo sinceridade pela primeira vez na voz. — Vão precisar.

— Era mais fácil não dizer nada — respondeu Renéh, dirigindo um sorriso amarelo para o Lorde. Por fim, segurou a mão da princesa e, sem medo, tocou na raiz de uma vez.

O brilho emanado da raiz provavelmente foi visto do espaço, de tão forte que foi. Renéh sentiu uma onda de calor repentino, como se saísse da água fria dos rios direto para os ventos mais quente de verão. Então, sem saber ao certo como — e se isso era possível até então —, ele sentiu seus pés saírem do chão, seu corpo começar a se contorcer como se fosse feito de borracha e, finalmente, descer velozmente sobre a terra.