Notas iniciais
Esse demorou um pouco mais para sair, mas me foi bem difícil descrever essa parte. Sinceramente, espero que o trabalho tenha valido a pena e que tenha ficado bom.

IV

Pensando agora, eu entendo porque ele disse que era uma missão “Incomum” para ser usada como “rito de passagem”. Porque é lógico: eu nunca tinha feito nada do tipo.

– A alguns metros para dentro da floresta – ele tinha dito – vocês vão encontrar uma imensa clareira. Nela, há um acampamento, um acampamento grande de caçadores. Eles estão nessa mata caçando animais para conseguir as peles, mas já desmataram muitas árvores também. E o pior: eles têm um animal favorito – olha para Chuva de Sangue – que são os lobos.

Chuva de Sangue começa a rosnar baixo. De um modo mortífero. Lembro-me logo que lobo é a forma natural dele (e de todos de sua tribo, se me lembro bem), então não posso culpá-lo por achar isso um sacrilégio.

–Vocês devem eliminá-los – prossegue Hank – mas a missão tem que ser feita à surdina. Nós não queremos chamar a atenção dos humanos, não tão perto de nosso caern. E nenhum deles deve sobreviver.

–Espere.

Ele me olha apático.

–Você quer que eu mate humanos no meu... “rito de passagem”?

–Hm. Você quer dizer então que você não sente a força, a ira de Gaia agora mesmo? Isso não te ofende? Não te revolta, Theodora?

–Hm. Sim. Mas nunca matei antes.

Lobo em Pé ri.

–Até hoje, não é? – e ri novamente – Mas relaxe, depois que se aprende, é fácil – Nossa. Ele parecia um indiozinho tão pacífico.

Hank assume uma postura séria. Encara-me muito profundamente. Chega a ser desconfortável.

– Isso é parte de ser um Garou, Theodora. É assim que as coisas são. Você só não fará isso se achar que não pertence a esse mundo. Isso é escolha sua.

A loira bufa. Chuva de Sangue está me observando.

Eles falavam como se eu já pertencesse a esse mundo. Eu acabei de conhecê-los, mas por alguma razão, eu quase confiava neles, pelo que eles deveriam sentir-se honrados. Eu não era assim. Mas talvez fosse pedir demais me pedir para sair matando sem nem saber o porquê. Ou não.

Eu fiquei apenas calada. Tendo visto isso como um consentimento, imagino, Hank continuou explicando a missão.

–Não vamos nós todos. Como estamos em oito agora, nos dividirei em dois grupos de quatro. – olha para mim significativamente – Você, Theodora, irá com Chuva de Sangue, Lobo em Pé e – aumenta a voz — você, Mendez – ele realmente parece estar empolgado, mas não irracional ou descuidado, apenas seguro. Hm... Acho que ele será um bom parceiro de time. – Vocês irão a noroeste, que é onde está o acampamento deles. Ajam quietos, não chamem a atenção e eliminem todos. Acima de tudo eliminem todos.

Todos nós assentimos com a cabeça, inclusive eu.

–Eu, Gina, César e Gile vamos ficar aqui, para apagar nossos rastros. Encontramos vocês no caern, tudo bem?

Novamente todos assentem com a cabeça, além de um pequeno rosnado em concordância de Chuva de Sangue.

–Eu acho que você vai precisar disso, mana – me diz Lobo em Pé. Na sua mão, uma faca, apenas um pouco maior que um facão de cozinha. Lâmina de folha larga, um fio. O cabo tinha o tamanho exato para uma mão minha fechar-se – Consegue usar?

Sorrio.

–Vou me virar.

O clima entra automaticamente em clima de tarefa importante a ser cumprida. Todos começam a conversar sobre isso, decidindo modos de fazerem tudo o que devem fazer. Começam a falar de não só outras missões, mas também das pessoas do caern, um lugar onde... hm, a Película é mais fina, é isso? Foi-me dito que a Película era um “tecido da realidade”. Separa o mundo real do espiritual, que disseram ser habitado por espíritos, o que eu ainda não sabia se acreditava.

–Acho que já estamos prontos, então – diz Lobo em Pé, que ficou como líder da missão, como Hank mencionou durante os planejamentos – Podemos ir?

Eu assinto, junto com os outros dois.

–Criança? – Hank chama, já quando eu estou na borda da floresta. Eu me viro.

– Boa Sorte.



Andar numa floresta à noite, com uma escuridão da Meia-Lua, parece mais fácil do que realmente é nos filmes que os idiotas adolescentes americanos costumam assistir. Neles, você não tropeça nas raízes com tanta frequência, não existem animais estranhos e hostis em todo o canto, não há milhares de insetos em cima de você todo o tempo. Nos filmes, o personagem corre e continua sem fazer muito barulho, mesmo sabendo que o som ecoa. Nada de estalar de folhas secas, nada de os personagens terem que andar bem devagar se não quiserem chamar a atenção. Mas aqui, na vida real, é assim.



Nós nos movemos muito lentamente. Primeiro, pela escuridão e segundo, para não chamarmos a atenção, nem com nossas formas, nem com nosso barulho. O único que parece ter facilidade com isso é Chuva de Sangue, que pareceria, se me fosse possível ler a expressão de um lobo, irritado com nossa demora. Estava quase sempre à frente, e parava e nos olhava frequentemente com um olhar de desgosto e pressa raivosa. Depois de uns vinte minutos de caminhada, o grupo começa a se permitir pequenas interações, e apenas por meio de sussurros. Lobo em Pé corre rapidamente e quase silenciosamente até Chuva de Sangue, e imagino que tenha a intenção de falar-lhe algo.

–Você tem família, Theodora? – O sussurro vem de Mendez, o soldado. Eu não tinha reparado que ele estava do meu lado – Quero dizer, família humana. Longe daqui.

Minha garganta fica seca ao lembrar-me de Anthony. Não sei se por desgosto por culpa das memórias que tenho dele, que são todas ruins, ou por culpa e talvez até certa dor, já que me disseram que eu o matei. Eu ainda não acreditava nisso, mas considerava a possibilidade. Na realidade, fazia sentido.

–Não.

–Isso é ruim. Não acho recomendável que nós vivamos nesse mundo 100% de nosso tempo. Se você não tem família, deve manter contato com seus amigos.

Bufo, fazendo escárnio, mas não respondo nada.

Ele parece estranhar. Talvez ache que eu estou agindo como uma criança petulante e teimosa. Ou talvez, apenas ache que eu tenho vergonha.

–Eu sei o que você deve pensar. Que eles não vão te aceitar. Mas você não deve falar a eles, Theodora. Além de essa regra estar presente na Litania, eles jamais iriam...

–Relaxe – interrompo – não é uma preocupação que você precisa ter quanto a mim. Eu não tenho amigos. Não tenho família. Não tenho laços.

–Ah.

E daí, volta o silêncio. Ele parece pensar, talvez esteja até constrangido. Engraçado. Com essa história de tribos, estou tendo algumas surpresas. A tribo dele, chamada de Presas-de-Prata, é a tribo que geralmente governa dos Garou. E eu não tenho boas ideias sobre governantes e pessoas que manipulam o poder. Antes de conhecê-los, posso dizer talvez que já não simpatizava com eles. Mas Mendez parece um pouco diferente, talvez. Mais humilde. E menos metido do que imaginei.

–Eu tenho família, sabe. Longe daqui. Minha mulher e minha filha. Ela só tem um ano.

Eu poderia sorrir nesse momento. Mas não é do meu feitio.

– E como você concilia uma vida com a outra? Elas nem ao menos sabem, imagino.

–Não, claro que não. Eu não sei... Acho que só faz parte de mim, sabe? Eu sou um Garou, e sou também um marido, um pai, um soldado do exército americano. Até agora, nada foi muito complicado.

–Há quanto tempo? – eu pergunto. Olho para ele significativamente.

–Pouco mais de três anos – ele responde, e ele parece que entendeu.

Eu não consigo me imaginar fazendo esse tipo de coisa, essas missões, por três anos. Mas eu não quero coisa alguma para mim também. Se eu fosse fazer faculdade, teria feito Direito. Mas não creio que faria. Eu acredito que fosse continuar no meu maldito emprego como garçonete, naquele bar nojento, o resto da vida. E eu sempre seria amarga.

–Mas fique tranquila. É mais fácil com o tempo. Quanto mais tempo você passa entre nós, mais fácil fica. E você descobre, quando tenta, que não consegue deixar essa parte de você sumir.

Agora sim, eu sorrio. Apenas... Sombriamente.

–Imagino que não.

Reparando novamente no caminho, começo a reparar que estamos chegando perto. Em algum lugar à frente, há luz. E parece que estamos chegando numa clareira. Lobo em Pé e Chuva de Sangue, que vão à nossa frente, param e fazem sinal para nós andarmos ainda mais lentamente. E, dessa vez, procuram se camuflar. Quanto mais perto, mais tempo detrás de árvores eles levam, antes de seguir caminho. Eles estão na borda da mata, quase dentro da clareira, agora.

Mendez para, estende a mão à minha frente, em minha barriga, me impedindo de prosseguir. Está sempre com os olhos na clareira, mas sussurra, praticamente no meu ouvido.

–Se você precisar, me chame. E, para qualquer caso... – ele põe algo na minha mão e a fecha. Eu reparo imediatamente que é uma arma. Parece-me uma pistola, e é pequena. – É suja, mas pode ser útil. Tente usá-la só para salvar sua vida. Chama muito a atenção.

Quando eu olho para ele, ele já não prestava mais atenção. Estava indo à minha frente. Juntou-se a Lobo em Pé por detrás de uma árvore. E eles estavam observando.

Eu fui à direita. Procurei uma árvore que pudesse me esconder. Logo à minha esquerda, estava Mendez, e à esquerda dele, Lobo em Pé. Chuva de sangue estava alguns metros à minha direita. E estávamos todos observando o acampamento.

Eram várias tendas, uma ao lado da outra. Tendas grandes, e deveriam ter umas 10. Logo à frente, entre nós e elas, havia equipamentos espalhados pelo chão, como serras e armas, de grande porte, bem diferente da pistola que eu tinha na mão. Pedaços de troncos de árvores também estavam presentes, espalhados, como se fossem restos. A clareira era grande, e as tendas estavam no meio, nos impedindo de ver o que havia no lado que ficava por detrás delas.

Ninguém passava. A noite estava quieta, sem muitos movimentos. Era uma boa oportunidade, e Chuva de Sangue reparou nisso. Deu um rosnado baixo para chamar a atenção, e Lobo em Pé se aproximou de mim, quando Chuva de Sangue começou a se afastar. Ia cada vez mais para a minha direita, como se fosse... Contornar as tendas.

–Relaxe – sussurra Lobo em Pé — Ele só vai matar a sentinela.

Alguns minutos depois, Mendez começa a avançar. Ele faz um sinal rápido para Lobo em Pé e saca uma faca. Lobo em Pé assente, e Mendez penetra na clareira, andando lentamente, em direção a uma das barracas.

Lobo em Pé se vira para mim, ele também sacando um facão.

–É hora, Theodora. Você consegue?

Eu assinto, sem nada dizer. É hora de ter foco e me concentrar.

–Então, boa sorte.

E nós saímos, andando lentamente e lado a lado.



Lobo em Pé escolheu uma barraca à minha esquerda, a que estava diretamente em frente a ele. Eu fiz o mesmo, com a barraca logo à direita da dele. Eu o vejo puxar o zíper e entrar, então decido fazer o mesmo.



Na minha barraca, iluminada por uma luz de vela, tinham duas pessoas. Dois homens. Um, que estava deitado à esquerda, era de uma constituição larga e forte. Cabelo raspado e costas largas, pois era só o que eu conseguia ver dele. O da direita era mais franzino e mais baixo. Os dois estavam deitados em sacos de dormir, e o da esquerda, o mais forte, tinha um cobertor marrom por cima dele. No meio deles, duas canecas de água.

O da direita me ouviu entrando. Acordou demoradamente, mas despertou. Quando me viu, eu já estava quase por cima dele. Ele arregalou os olhos e tentou me agarrar abrindo os braços, mas antes disso, tapei sua boca, para que não fizesse barulho, e usei toda a minha força – que era considerável – para cravar minha faca em sua garganta.

O lado bom: eu consegui. Ele morreu rapidamente, sem fazer muito barulho, e o outro continuava dormindo. O lado ruim: eu perdi minha faca, pois não conseguia tirá-la dele. Ela deve ter se prendido no chão. E enquanto eu fazia força tentando puxá-la, o grandão começou a remexer-se. Imediatamente, paro com as tentativas e, talvez inconsequentemente, pulo em cima dele. Antes que ele acorde, eu tento virar seu pescoço enquanto o silencio, procurando quebra-lo.

Mas foi tarde demais. Ele acordou.

Ele se levanta. E ele me agarra e me joga no chão. Com o impulso, eu caio por cima do corpo do seu parceiro, e ele se vira, tirando a faca do chão. O cara começa a me bater, mas eu aproveito esse momento e tiro a faca do pescoço do morto. Quando ele me vê fazendo isso, começa a gritar.

–PESSOAL! ACORDEM! TEMOS INTRUSOS AQUI!

Eu fico imediatamente enraivecida. Minha ordem era fazer tudo em silêncio. Desse jeito, todos vão acordar. Minha tolerância a ferrar as missões em grupo é muito baixa. Odeio ser a culpada de uma falha que cause danos coletivos.

Como ele se levanta, procurando talvez sua arma – que está ao lado de seu saco de dormir, como eu tinha observado – eu cravo a faca em seu pé. Ele grita de dor. Literalmente grita. Nesse meio tempo, eu me empurro para longe dele, ainda meio sentada, e me ajoelho em uma perna. Eu quero calá-lo, merda. Eu saco a minha arma.

–PESSOAL! ACORDA! ELES ESTÃO ARMADOS!

Merda.

Foram dois tiros que eu disparei, um atingiu a garganta e outro o peito. Antes mesmo que ele esteja morto, já começo a escutar a confusão. Gritos e estampidos de armas atirando. Gente correndo. Eu pego minha faca novamente, guardo a pistola e saio da tenda.

Lá fora, vejo um pandemônio. Até tochas eu vejo nas mãos de caçadores. O barulho é muito alto... eu fico tão espantada e irritada com isso tudo, que foi minha culpa, que não reparo em dois caçadores vindo em minha direção. Quando reparo, já estão bem perto, e não sei como lidaria com os dois. Aponto a pistola novamente na direção de um, mas antes que eu atire, Chuva de Sangue mata o outro. Vejo suas mandíbulas fecharem direto no pescoço do que estava atrás. Quando ele se vira para checar o parceiro, ele também encontra a morte nas mandíbulas de Chuva de Sangue. Quando ele deixa o corpo do caçador cair, ele rosna para mim, mostrando os dentes. E corre na direção contrária, até o Lobo em Pé, que está sob um ataque que o deixa encurralado no meio de vários deles. Alguns armados, outros não. Chuva de Sangue começa a imediatamente atacar todos os caçadores. Eu me foco tanto nisso, na raiva que estou sentindo, que acabo não controlando meu próprio corpo. Corre-me uma sensação estranha, de mudança. Quando reparo, estou diferente... Um pouco mais hirsuta, um pouco mais baixa e com certeza mais forte.

Para perto de mim, corre Mendez. Ele está correndo, e disparando contra três caçadores, sem acertar nas primeiras tentativas. Os caçadores também tentaram atirar algumas vezes. Eu vejo Chuva de Sangue sendo arremessado para longe, talvez com um tiro. Ele se levanta, encontrando bastante dificuldade. Lobo em Pé... Ele está sendo acertado. Chuva de Sangue rosna e tenta correr de volta para lá, mas certamente está meio debilitado, inclusive mancando um pouco do lado direito traseiro.

Eu tento me focar em Mendez. Até agora, ninguém acertou ninguém. Mas, para ajudar, eu aponto a pistola. Eu miro na orelha de um, que está de lado para mim, e acerto. Ele cai. Mas isso distrai o Garou, e o faz olhar para mim. Quando ele o faz, um dos caçadores acerta seu ombro esquerdo. Eu começo a tremer de fúria, fui eu que causei isso. Mendez tenta atirar nele, mas acaba acertando o terceiro, à direita, mais próximo de mim do que dele. Acerta a perna desse caçador, que larga a arma. Enquanto isso, o outro, que o acertou, acerta outro tiro no mesmo ombro.

A última coisa que me lembro foi o grito de dor de Mendez.

Notas finais
E aí? Valeu a pena esperar ? Rs..