Os 5 Eu's De Nero

2 Capítulo 2 - Antes que a tempestade chegue.


Notas iniciais
Renata está a procura de emprego, ainda que não precise. Nero também, as coisas estão difíceis, mas, a vida é cheia de surpresas.

Mais um dia se abateu sob a cidade. Diga-se, aliás, que bela cidade. O sol iluminava toda a sua extensão, e o verde parecia mais verde, as cores, exaltadas. Nessas belas paisagens é que a vida mostra seu contraste. Nero, após reunir certa quantia, perto dos mil, foi em direção ao banco depositar o dinheiro. Ele havia vendido dois quadros que pintara. Ambos havia sido uma encomenda, a difícil tarefa de pintar uma família inteira. Até o filho bastardo teve direito a um lugar na pintura. Nero simpatizou com o rapaz, o jovem Rubens. Dotado de bom humor; além de boa taxa de educação, o filho bastardo do "seu Arnaldo", proprietário de um mercado, possuía modos muito superiores aos de seus irmãos, filhos "legítimos do matrimônio", como costumava dizer sua madrasta, em uma piada interna da família. O bastardo até propusera que tomassem algo e saíssem à procura de diversão alguma noite dessas. Nero aceitou é claro. O jovem pintor não nutria vícios, pois, ironicamente, parava pouco antes disso acontecer. (...)

Um elemento desconhecido estava se aproximando enquanto Nero caminhava. Ele já estava perto do banco, e, ainda assim prolongou a marcha. Logo, dobrou a esquina, na tentativa de enganar o sujeito, este que continuou a sua espreita, e fora ainda mais esperto: Começou a ir mais rápido! Ambos já estavam muito próximos quando Nero apenas sentiu algo frio em suas costas... Não era medo, não era o clima, não era o frio do anseio, ou o frio do pânico. Era um frio característico de metal, o gélido da arma cujo meliante portava. O que fazer? Revidar? Derrubar o assaltante? Não para Nero, ele apenas fez o que o homem lhe pediu:- Passou-lhe a carteira. O rapaz se foi, o pintor, sentou-se. Injuriado e com as mãos na cabeça, suspirando em uma tentativa de extravasar o que sentia, por ter de entregar um dinheiro que não fora nada fácil de ser conquistado... Posteriormente, a única opção era a mais sensata, ir até uma delegacia e prestar uma queixa. Procedimentos "irrelevantes" como pensava, mas, a única coisa que lhe restava fazer. Não havia como recuperar seu dinheiro, não este, e foi até uma escolha até bem fácil...

Escolher entre o dinheiro e a vida é uma decisão muito fácil, não é mesmo?

Em uma conversa com Rubens, o jovem pintor confessara sua insatisfação com o acontecido.

– É realmente revoltante, — concluiu Rubens.

– Nem me diga. E fora os retratos que pintei para a tua família, estou completamente sem trabalho. Está ficando cada vez mais difícil de guardar algum dinheiro. Preciso correr atrás do prejuízo.

– Entendo. Caso eu saiba de alguma coisa, eu te aviso Nero. Mas agora você precisa relaxar. Venha comigo e vamos tomar vinho em um bom bar boêmio!

Rubens se mostrava-se sempre um bom amigo, e em meio à bebida naquele bar atraente, de muito boa qualidade e requintado; os dois puderam aproveitar a noite. Rubens era de baixa estatura, tinha um aspecto carismático e fala mansa. Uma personalidade peculiar e uma palavra de respeito. Apesar de que zombassem pelo fato do mesmo ser filho bastardo, pouco ou nada se importava, vide que sua verdadeira mãe, segundo ele mesmo, era sua madrasta — a Sra. Carlota. Dentre muitas piadas e brincadeiras leves e inofensivas é que ela o criou, zelando sempre pela dignidade e autoestima do garoto, seu pequeno bastardinho. Sempre o protegendo como se fosse seu próprio filho, e até mais que os outros. Bonito de ver era como ele falava da dita cuja, se sua voz era mansa, ficava por duas vezes mais. Segundo ele, Carlota o ensinara a ser seu filho, ainda que não fosse sua mãe. O pintor contagiou-se com a história, mas pouco quis contar sobre a sua. O que acabara por instigar seu amigo, este que perguntava consecutivamente sobre o passado e os pais de Nero, em razão do mesmo não ter nascido naquela cidade.

– Foi uma boa noite, muito divertida. Obrigado por tudo Rubens, agora vou dormir, preciso pintar um quadro de um milhão de dólares amanhã! Disse Nero, despertando gargalhadas em Rubens.

– Vá-se a — disse o amigo. E quando vendê-lo, é você quem vai me pagar uma dose!

– Combinado! Replicou.

No instaurar da noite;

Com um pesadelo medonho é que Nero estava acordando todas as noites. Épocas sim épocas não eles vinham à tona. O mais intrigante era que muito pouco deles se lembrava. Apenas levantava-se ligeiramente, e quando percebia já estar suado, procurava passar uma toalha sobre a face. Após mais um pesadelo, Nero parou um pouco, observou seu quarto, suas coisas todas bagunçadas, algumas fotos de infância de pessoas as quais ele nem reconheceria se visse novamente, presentes, cartas antigas, todas sob a mesa. O silêncio da noite parecia inspirador, logo começou a refletir sobre a vida, a se lembrar dos fatos e até mesmo a rir ali sozinho, em meio ao seu mundinho particular cheio de telas, esculturas e alguns livros velhos que nunca lera; todos cheios de poeira.

Na manhã que se consolidou, sua primeira missão foi a de fazer café. Empunhou a garrafa, pegou também o coador, o pó e a água. Ulteriormente ao preparo, o aroma que se estabeleceu após o término foi uma delícia. Cheirinho de café bem feito, cultura implícita e sutil; eis uma característica positiva de um camarada tão preguiçoso. O artista precisava sobreviver, e nem só de arte pode viver um homem, não um amador como Nero. Não sem o reconhecimento e prestígio necessários para que seus trabalhos fossem titulados “obras de arte”. Quando já estava indo para o mercado comprar algumas frutas e legumes, fora abordado por Rubens, que todo entusiasmado lhe indagou:

– Você está precisando de trabalho extra para conseguir algum dinheiro, certo?

– Sim! – Respondeu-lhe.

– Então eu acho que tenho um perfeito para você.

–Sério?

–Sim, é daqui a alguns dias e vão pagar relativamente bem! – Disse-lhe Rubens, observando atentamente a alegria e curiosidade despertada em seu amigo.

Para Renata, o dia começou cedo, logo pelas 07:00 h ao acordar-se, ouviu um som, “O que é isso?” – pensou. – “Meu celular, é óbvio!” – concluíra indo devagar e bocejando ao seu encontro.

– Filha, sou eu.

–Mãe! – Disse-lhe, empolgada.

– Como você está minha pequena?

– Estou bem mãe, procurando algum emprego, e vocês aí?

– Estamos bem minha filha. Olha cá, você não precisa trabalhar, nós te manteremos aí, daremos um jeito!

– Mãe, eu não gosto de estar gastando um dinheiro seu e de meu pai, vocês poderiam estar usando ele com coisas mais importantes.

–Filha, e para nós há coisa mais importante do que você?

– Ah, mãe... (...) – apreciando o que sua mãe lhe dissera, sorriu.

Já fazia algum tempo que Renata havia sido aceita em uma universidade e decidira sair de sua cidade. Eis um mundo completamente diferente do seu antigo, e certamente a saudade às vezes apertava. Apesar disso, logo se dispersava com as mil e uma atrações da cidade grande; garota sonhadora. Por possuir uma grande beleza, vivia em meio a paparicos e a aproximações, algumas vezes até um pouco superficiais. Possuía uma sensibilidade aguçada, e portava consigo amizades sinceras, tais como a de Cássia, colega de quarto.

– “Já está ficando tarde!” – Pensou. Tratou de arrumar rapidamente suas coisas e dirigiu-se ao banheiro para tomar uma ducha. “Nada como essa água refrescante” – disse a si mesma. As gotículas d’água caindo sob seu rosto, enquanto relaxava e limpava sua mente de pensamentos inquietantes. Após o banho, já portando seus materiais e sua bolsa, dirigiu-se à universidade para mais um dia de batalha. O mais engraçado era que Renata se deliciava com as disciplinas. A história da arte, as aulas teóricas, as práticas, as brincadeiras que o pessoal fazia. Extrovertida como de costume, entrava no meio da farra e também fazia piadas, dava sua opinião; outrora firme e crítica. O tempo passava rápido como um turbilhão, e quando menos imaginava, as aulas acabavam. Renata voltava para casa, estudava um pouco, descansava, e algumas vezes saía se divertir com Cássia e as demais amigas.

A vida contagiante, os bares e baladas eram de contagiar qualquer um que tivesse saído de uma cidade pequena cheio de sonhos e curiosidades sobre o mundo. Os holofotes dispersaram sua atenção, aquilo era outro mundo! E moça bonita como tal, menos do que assediada e admirada não haveria de ser. “Vou tomar só mais um drinque” – pensava consigo, “aproveitar o resto do dia e me preparar para o seguinte” -, logo o fim de semana chegaria e ela poderia ir além, ou até mesmo visitar seus pais, o que vinha se tornando uma possibilidade cada vez mais próxima. Sua mãe e pai eram de classe média, e os gastos da moça na cidade grande não eram assim elevados para eles, inclusive não se importavam em proporcionar uma vida agradável para a “pequena”, como costumava dizer sua mãe. Ter uma filha cursando uma universidade longe de casa era motivo de orgulho, ainda que de vez em quando um amargo de saudade lhes viesse à tona. A pequena já não era tão pequena como antes; era uma mulher. Não dizia mais “mamãe” ou “papai”, como de costume em sua infância, e, nem mesmo se escondia por de trás de seus pais. A pequena, que agora era grande e bela, via o mundo como um mar de caminhos obscuros, esperando por um alguém corajoso, e eis que ela o era. Mesmo assim, algo não mudara na pequena, o zelo por sua família. Sua vida cotidiana e sua diversão poderiam atrapalhar-lhe um pouco e fazê-la não dar tanta atenção aos pais, mas que filhos não são assim? O zelo continuara, e ela demonstrava isso a cada reunião familiar e jantares tradicionais, até mesmo não admirando todos eles.

– Uma festa a fantasia!

– O quê?

– Uma festa a fantasia, Re. Vamos amiga, temos de ir nessa.

– Mas é claro. Só não tenho uma fantasia. ”- lamentou. “Do que você vai se fantasiar?”– Perguntou, demonstrando grande curiosidade.

– Vou de Alice! – Disse Cássia.

– Não acha que está um pouco velinha não? – Tirando um bom sarro da colega.

– Ah, sua engraçadinha, e você, vai do quê?

– Não faço a menor ideia, mas vou pensar em alguma coisa legal.

Na noite da festa a fantasia Renata estava se mostrando indisposta. “Não estou com vontade de ir, Cássia, vão você e as meninas” – repetiu várias vezes. “Vamos logo “rechata”, vai ser legal, e vai estar cheio de rapazes.” – concluíra, com um suspiro provocador para com a moça. “Não, obrigada” – insistiu. Cássia era persistente, e, no fundo, Renata estava reanimando-se com tal festa. “Ok, eu vou!”- Disse-lhe, após alguns minutos. “Sem mais enrolação!” – afirmou Cássia, puxando-lhe pelas mãos e empurrando-a em direção ao seu quarto para que se arrumasse.

Chegando ao local, este que estava demasiadamente lotado, as amigas trataram de ir tomar alguma coisa leve para que depois aproveitassem para dançar. E foi indo em direção ao bar e a multidão toda fantasiada, inclusive de gladiadores, marinheiros, homens-cerveja entre outras figuras engraçadas e até bizarras, que, Renata deu-se de cara com um rosto familiar. Ficou boquiaberta e de leve ameaçou abrir um belo sorriso; pois bem a sua frente, estava Nero.

Notas finais
Capítulo concluído e corrigido, espero que gostem. Abraços
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.