Os 3

3 Asas de um anjo caído


Em uma quente manhã de sábado de outono, o vento fazia com que as folhas secas dançassem pelo ar enquanto Jane, Oliver e Julian caminhavam de volta pro apartamento dos três.

Oliver trajava uma camisa branca com alguma estampa qualquer, uma jardineira que ia até um pouco a cima dos joelhos e nos pés os inconfundíveis tênis verdes imundos. Jane, como de habito estava com um vestido, o da vez era um vestido negro com pequenas flores vermelha que Julian lhe dera em seu último aniversário. Seus cabelos cor de cobre estavam amarrados em um coque e seu rosto destacava com o uns óculos redondo que ela trouxera de uma cidade da qual ela viajara com sua turma da faculdade. O mais velho do trio, trajava uma calça preta com um rasgado sobre o joelho na perna direta, uma jaqueta xadrez vermelha amarrada na cintura e uma regata cavada dos Strokes.

Jane, que estava bem contente por estar com os dois namorados sorria o tempo todo. Os 3 andavam bem ocupados com os seminários e outros assuntos da faculdade e não tinham tempo pra se verem direito.

Eles estavam voltando de uma praça, aonde tinha uma pista de skate e que vários jovens iam pra lá pra escutarem música, conversarem, beberem e esquecerem um pouco do peso do mundo em suas costas.

Oliver, que tinha os olhos inchados pela insônia estava carregando a bolsa tiracolo da namorada e andava de mãos dadas com ela. Ele e Jane estavam colocando vários assuntos em dia.

Julian era o mais conversado dos três, sempre estava a falar, não obstante dessa vez ele estava calado até de mais. Como se algo o estivessem incomodando.

Não demorara muito e a caminhada acabara. Os três estavam no elevador do pequeno apartamento que dividiam desde que começaram a namorar. Ainda muito sorridente Jane sussurrava trechos de músicas que ela e seus namorados chegaram a conclusão que faziam parte da trilha sonora do namoro dos três.

Já dentro do apartamento, Julian fora pra biblioteca que os três construíram juntos, pegara um livro do Charles Bukowski e se depusera sobre o sofá com seus fones e não dirigira a palavra com ninguém. Oliver que estava muito cansado começara tirar a roupa ainda na sala e fora em direção ao banheiro e se jogara na banheira e a enchera com água fria. Depois de vários minutos sob a água ele criara coragem pra ir pra cama onde ficara lendo sobre Mitologia Grega até o cansaço de ter virado a noite o vencer.

A hora do almoço se aproximava. Jane fazia alguma comida vegetaria para os três almoçarem. Ela e Julian não eram vegetarianos, não obstante Oliver, o mais nojento dos três não conseguia sentir o cheiro de carne sem resmungar por minutos e dar falso sermão sobre o habito de se alimentar de animais.

Quando o almoço estava pronto, Jane dera um beijo em Julian o fazendo tirar o fone e então ela anunciara que a refeição estava servida. Ela caminhara até o quarto e vira o namorado despojado sobre a cama e não quisera o incomodar e então voltou pra cozinha e sentara com Julian.

O garoto, ainda incomodado evitava os contatos visuais com a menina que tentava a todo o momento puxar assunto, não obstante era cortada.

A noite aproximava e Oliver ainda permanecera na cama. Sua rotina era muito exaustiva, além das obrigações que os estudantes têm, ele escrevia todos os dias, tinha consigo o sonho de ter livros publicados.

O rapaz permaneceria adormecido se não fosse pela repentina tempestade de outono que trouxesse consigo inúmeros relâmpagos.

Ainda com a visão embaçada por causa do astigmatismo ele caminhara para a sala e vira Jane sentada em um canto, desconsolada, tomando café.

— Boa noite, branquinha. — disse o garoto se acomodando ao lado da garota.

Ela retribuíra com um sorriso seguido de um olhar para o chão.

— O que faz aqui sozinha? Cadê o Julian? — O garoto procurava o namorado pelo apartamento.

A garota desmontara, largara a xícara no chão e ajeitara o cabelo pra trás mostrando seu cabelo rosto corado por algum motivo.

No apartamento dos três, sempre havia alguma música tocando, não obstante a que acabara de começar a tocar preocupara Oliver. Era Clarisse, da Legião Urbana.

— Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado. — Sussurrou a menina evitando o choro.

— Quem diz que me entende nunca quis saber — O namorado completou preocupado. — O que está acontecendo?

— Acabou. Nosso perfeito sonho da adolescência acabou.

— Como acabou? Estamos vivendo ele.

— Estávamos. Alguém fez o favor de fuder com tudo.

Os dois assustaram com o barulho de um soco na parede da sala.

— Não é bem assim.

— O que está acontecendo? — Gritou Oliver confuso daquilo tudo.

A tempestade estava aumentando, e a música deixava o clima ainda pior.

“A falta de esperança e o tormento de saber que nada é justo e pouco é certo e que estamos destruindo o futuro e que a maldade anda sempre aqui por perto”.

— Ele achou outro alguém que aguente a insanidade dele.

— Não é bem assim? — Julian tentou se explicar evitando olhar pra Oliver que lhe encarava amargamente.

— Então você não quer mais saber da gente? — Oliver se levantou rispidamente — Se é que um dia quis saber.

Oliver começara a andar pro quarto com a respiração acelerada, Julian lhe segurara pelo braço. Oliver virou com repulsa e desdenhou o primo, ele não queria nem saber das explicações que ele tinha pra dar. O óbvio ele já havia entendido.

— Suma! — choramingou Jane.

— Isso não tem que acabar assim.

Oliver voltara pra sala com os olhos vermelhos por segurar as lagrimas e trazia consigo na mão o primeiro presente que ganhara de Oliver, uma exemplar de A menina sem qualidades autografado pela própria Juli Zeh que ele trouxera de uma das suas viagens.

Ele se escorou na parede e foi deslizando até estar sentado.

— Pensei que você era o nosso Alev. Pensei que seus dedos se encaixassem perfeitamente nas nossas costas como se tivessem crescido ali como asas de anjo. — Oliver soluçou não contendo as lágrimas. — Eu queria cortar suas mãos e ficar com elas nas nossas costas pra sempre.

— Mas não sou burra pra acreditar nessas mãos, não acredito em nada. Nada que venha de você. — Jane completou também tendo o orgulho vencido pelas lágrimas.

— Me perdoem, mas não teve como evitar. Aconteceu. —Novamente Julian tentava se explicar.

— Você fez com que eu perdesse meu tempo. — Jane chorava cada vez mais.

— Então nosso amor pra você foi uma “perca de tempo”, é isso?

— Quem fez isso ser uma perca de tempo foi você. — Oliver ainda estava inconformado.

— É doloroso pra mim, ainda não entendi o sentido do que fiz e da decisão que tomei, mas sinto que será melhor pra nós três.

— Talvez seja. — Sussurrou Oliver.

Um relâmpago clareou toda sala e uma próxima música iniciou, era You do The Pretty Reckless.

“You don't want me, no. You don't need me! Like I want you, oh, like I need you”

— Pensei que seriamos infinitos juntos como você nos propôs quando estávamos no Uruguai.

— E podemos ser.

— Se você quisesse terminar por qualquer outro motivo, continuaríamos amigos, mas você fodeu com outra guria Julian. Você entende o que fez? Você fodeu com tudo. É isso que você faz, você acaba com a vida de todo mundo. — Oliver gritou enquanto acendia um cigarro, ele não estava preocupado se Jane se irritaria com ele por isso.

— Não foi bem assim.

— Foi sim, você traiu nossa confiança. Você já nos tinha e foi caçar mais uma. — Jane ainda chorosa encarava o rapaz.

— Quem é ela? — Oliver soltou uma boa quantidade de fumaça pela boca.

— Evelyn. — Julian disse o nome da amante tão rápido que Jane e Oliver tiveram dificuldade pra entender.

— Quem? Não acredito que trocara a gente por aquela princesinha de aba reta que estuda com você. E aquele cabelo que parece água de salsicha. — Disse Jane rindo de nervosismo.

— Você também é ruiva. — Julian disse ríspido.

— Mas ela não pintou o cabelo com de papel-crepom alaranjado pra entrar no movimento “ruivos são as coisas mais lindas do mundo”. Cara, que nojo de você. — Oliver se levantou deixando o livro no chão e foi até a cozinha buscar uma xícara com café.

— Essa menina derreteu o nosso sonho de congelar o tempo e de escorregar na vida juntos. — Jane começara a chorar novamente.

— Eu te amei. Amei o Oliver também, mas pra mim não da mais. A Evelyn tem algo diferente, algo que leva embora todos os meus problemas.

— Leva o Oliver e eu embora, você quis dizer. — Jane deu outro sorriso.

— Já chega. Não vou ficar aqui escutando essas coisas. Não vou dormir aqui por hoje. — Julian suspirara.

E então ele fora em direção ao quarto, batera a porta e por lá ficara fazendo uma pequena mala. Agora, mais do que nunca Oliver e Jane tinham certeza que havia acabado. Aquela promessa de que viveriam pra sempre juntos havia sido quebrada.

A noite se adentrava e Julian ainda estava trancado no quarto arrumando suas coisas.

Aquela tempestade que estava abafando o grito dos três havia ido embora e eles já conseguiam ouvir o barulho da noite de Porto Alegre lá fora.

Oliver estava sentado no sofá trajado apenas por sua cueca box e Jane com uma regata azul e uma calcinha clara quando Julian saiu do quarto trazendo consigo uma mala de couro que parecia estar um pouco pesada.

Sem dizer nenhuma palavra ele caminhara até a porta e largara sua mala.

— Então é assim? — Disse Jane começando a chorar mais uma vez.

O garoto sem ação fora até ela e dera um abraço, mas ela não retribuiu, apenas respirou fundo pra sentir pela ultima vez o cheiro do ex-namorado. E então ele foi em direção a Oliver que olhava para o chão.

Julian voltara atenção a ele e arrastara uma poltrona até a frente do sofá aonde o garoto estava e sentara.

— As coisas são como são, não é? O sentimento humano não é justo por natureza. — Fora a forma que Oliver encontrara pra dizer um possível Adeus.

— Eu sempre escolheria você. — Julian se aproximou de Oliver, levara sua mão até sua face e lhe dera o último beijo.

Pelo amor que eles tiveram, Oliver sentia como se estivesse indo para o Inferno. Talvez ele quisesse morrer, talvez ele já se sentisse morto. Jane estava com a autoestima tão baixa que nada seria capaz de conforta-la. Graças a Julian, o vazio havia penetrado em cada capilaridade da guria.

— Ficar chateado é um sentimento pra quem se importa. Vocês não deveriam se importar comigo.

E assim Julian pegara sua mala, dera o ultimo sorriso e caminhara para fora do apartamento quebrando aquele laço entre os três.