Os últimos dragões
13 Capítulo XIII
Rhaella caminhava pela ilha, os pés calçados em botas leves que deixavam marcas suaves na terra úmida. O vento marítimo bagunçava seus cabelos prateados, e ela respirava profundamente o ar salgado enquanto seguia seu caminho. A tempestade recente deixara a paisagem mais selvagem, com folhas caídas e galhos quebrados espalhados pelo chão. Ela gostava da sensação de liberdade que a natureza indomada trazia, longe das paredes do castelo.
Viserys a alcançou, as passadas rápidas e determinadas dele contrastando com o andar calmo e seguro de Rhaella.
— Onde você vai? — ele perguntou, a curiosidade e a desconfiança evidente em sua voz. — Posso ir com você?
Rhaella olhou para ele, seus olhos lilases tão claros quanto o céu da manhã. Ela assentiu em silêncio, permitindo que ele a acompanhasse. Eles seguiram lado a lado por um tempo, o silêncio entre eles pesado, mas não desconfortável.
—- Não te incomoda a proteção exagerada de Daemon? Ele te trata como se você fosse feita de vidro — Finalmente, Viserys quebrou o silêncio, com um tom provocador em sua voz. Rhaella parou, virando-se para encará-lo. Sua expressão era serena, mas havia uma firmeza em seus olhos que Viserys não pôde ignorar.
— Não — ela respondeu calmamente. — Daemon me ama.
Viserys esboçou um sorriso sarcástico, arqueando uma sobrancelha.
— Um homem sempre ama mais o poder — ele provocou, esperando ver alguma reação em sua companheira de caminhada. Mas Rhaella não se abalou. Mesmo com sua estrutura aparentemente frágil, ela olhou para ele com uma convicção inabalável.
— Daemon não é assim — ela respondeu, sua voz firme. — Daemon é fogo, e eu sou sangue. Nós somos verdadeiros dragões, Viserys. Fomos feitos para queimar juntos.
O fogo nos olhos dela era inegável, e Viserys percebeu que, apesar de sua aparência etérea e delicada, Rhaella tinha uma força interior que poucos podiam compreender. Ela não era apenas protegida por Daemon; ela era sua igual, sua parceira em todos os sentidos. Juntos, eles eram como duas chamas unidas, alimentando uma à outra em um fogo que poderia consumir o mundo se assim desejassem.
Rhaella e Viserys chegaram a uma praia deslumbrante, onde a areia branca encontrava o mar azul profundo. O som das ondas quebrando suavemente na costa era tranquilizador, e o céu estava claro, sem nuvens à vista. Viserys ficou em silêncio, contemplando a vastidão do oceano e pensando sobre a estranha e inesperada jornada que o trouxera até ali.
De repente, o som do bater de asas interrompeu seus pensamentos. Daemon aterrissou com seu dragão, a criatura colossal pousando com um estrondo que fez a areia voar para todos os lados. O dragão rugiu, um som poderoso que reverberou pela praia e fez com que Viserys se encolhesse instintivamente. Merax pousou ao lado, as escamas translúcidas refletindo o sol como o arco-íris
Viserys se virou para Rhaella, que estava ao seu lado, um sorriso contente no rosto.
— Por que você não voa com a mesma frequência que Daemon? — ele perguntou, sua curiosidade se misturando com uma pitada de inveja pela liberdade que ela parecia ter.
Rhaella apenas sorriu, um sorriso enigmático que não revelava muito.
— Às vezes, é mais importante saber quando ficar do chão e quando voar — ela respondeu com um tom de sabedoria tranquila, algo que não conferia com sua idade.
Viserys observou enquanto Daemon e Rhaella se aproximavam. O casal se encontrou perto dos dragões, e o gesto que eles trocaram era tão natural quanto a brisa do mar. Daemon encostou sua testa na de Rhaella, e ela fez o mesmo, o gesto carregado de uma intimidade profunda e silenciosa, algo que Viserys nunca sentiu com ninguém. Então, com uma suavidade quase poética, eles se beijaram, um beijo que parecia selar não apenas um momento, mas um vínculo duradouro.
Viserys notou que os dois dragões também imitaram o gesto. Perto dos dois, as grandes criaturas encostaram suas cabeças uma na outra, em um gesto de afeto que espelhava o dos seus cavaleiros. O príncipe ficou surpreso com a semelhança, percebendo, mesmo com inveja, que o que havia presenciado não era apenas uma demonstração de carinho, mas uma conexão profunda entre os dois seres e suas feras. A cena, embora bela, o deixou com um sentimento de desconforto, um lembrete de que, apesar de todo o seu poder e desejo de controle, havia algo aqui que ele ainda não conseguia compreender completamente.
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Jaime Lannister começou a ser atormentado por sonhos que o arrastavam de volta àquela noite fatídica, quando ele se tornou o Regicida. No silêncio sombrio da Fortaleza Vermelha, ele revivia cada momento do golpe que ceifou a vida de Aerys II. Mas, nesses sonhos, a sala não estava vazia. A loucura do rei não era a única presença assombrando aquele espaço.
Uma garota apareceu, tão etérea quanto um espectro, com olhos lilases que brilhavam como ametistas sob a luz pálida das estrelas. Seus longos cabelos prateados, uma marca inconfundível da Casa Targaryen, flutuavam ao seu redor como se fossem movidos por uma brisa que Jaime não podia sentir. Ao lado dela, uma figura ainda mais imponente se ergueu — um guerreiro, forjado nas profundezas da Antiga Valíria, a própria essência do fogo e sangue. Sua armadura era negra como a noite, e seus olhos ardiam com uma fúria contida, uma tempestade de séculos.
Eles o observavam em silêncio, suas presenças tão pesadas quanto uma sentença de morte. Enquanto Jaime empunhava sua espada para desferir o golpe final no rei louco, ele sentia o olhar fixo dos dois, como se suas almas estivessem testemunhando e julgando cada movimento seu. A lâmina descia, cortando o ar com uma precisão letal, mas dessa vez o golpe parecia ressoar de forma diferente, como se as pedras frias ao redor absorvessem o som, tornando-o eterno.
A donzela e o guerreiro nada diziam, mas sua simples presença preenchia o salão com um peso esmagador, como se Jaime estivesse sendo confrontado não apenas com a morte de Aerys, mas com algo muito maior, algo ancestral, enraizado na própria essência dos Targaryen. O silêncio deles era mais ensurdecedor do que qualquer grito, e Jaime acordava, noite após noite, com o coração disparado, incapaz de escapar da sensação de que a história estava longe de ser concluída.
Jaime encontrou Cersei em seus aposentos, o rosto dela suavizado pela luz dourada das velas. Ele se aproximou, seu semblante mais sombrio do que o habitual, os pensamentos ainda presos ao sonho que o atormentava. Enquanto ele falava, relatando cada detalhe daquela visão perturbadora, Cersei o ouviu em silêncio, a expressão calma e sem traços de inquietação.
Quando ele terminou, Cersei soltou uma risada baixa, inclinando a cabeça de lado.
—- Você está começando a soar como Robert, Jaime. Sonhando com fantasmas do passado, vendo inimigos e monstros onde não há nada além de sombras — o sorriso dela era tranquilizador, mas havia uma pontada de desdém em seus lábios.
Jaime tentou sorrir, mas a imagem dos olhos lilases e do guerreiro valiriano ainda pairava sobre ele, como um nevoeiro que não se dissipava.
— Cersei, esses não eram apenas sonhos. Pareciam... reais, como se estivessem aqui, agora — ele olhou para o chão, como se estivesse procurando sua própria consciência de volta. — Eu sinto o cheiro de lavanda da garota, sinto o cheiro do aço valiriano da armadura do guerreiro e…sinto o cheiro do sangue de Aerys.
Ela riu novamente, desta vez um pouco mais alta, como se a ideia fosse absolutamente ridícula.
— Você está deixando as histórias antigas te afetarem, irmão. Dragões, garotinhas de olhos llilases, guerreiros valirianos... Isso tudo é coisa de velhas lendas e de homens que não conseguem enfrentar a realidade.
Jaime não respondeu de imediato, a dúvida enraizada profundamente em sua mente. Ele sabia que as palavras de Cersei tinham um tom de desdém, mas, em seu íntimo, ele não podia afastar a sensação de que aqueles sonhos eram mais do que simples produtos de sua mente cansada. Algo estava se movendo nas sombras, algo que ele mal começava a compreender.
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As notícias sobre o desaparecimento de Viserys chegaram a Porto Real como um sussurro, uma marola de rumores que crescia até se tornar uma tempestade de preocupações na mente de Robert Baratheon. Ele estava no salão do trono, a luz do dia se esgueirando pelas janelas enquanto escutava o relatório de Varys, que contava sobre a jovem Targaryen e suas atividades em Essos. A menção a dragões fez o sangue de Robert ferver.
— Dragões — Robert resmungou, sua voz carregada de desdém e inquietação. Ele levou uma mão pesada à barba, puxando-a enquanto caminhava pelo salão. — Esses malditos dragões... se ainda há um sopro de vida nesses monstros, é culpa nossa por não ter acabado com todos eles quando tivemos a chance.
Petyr Baelish, que estava por perto, não pôde deixar de notar o tom perturbado do rei. Com um sorriso malicioso, ele se aproximou, sempre pronto para provocar e plantar sementes de dúvida.
— A garota dos seus sonhos, Majestade — disse ele com a voz sedosa — seria Daenerys Targaryen?
Robert parou de andar, o queixo se erguendo como um urso que foi cutucado.
— Não — respondeu ele com firmeza, embora houvesse uma incerteza subjacente em seu tom. — Não sei como... mas tenho certeza que não.
Baelish arqueou uma sobrancelha, intrigado.
— Então, quem é ela, essa mulher que assombra seus pensamentos?
Robert olhou para o vazio, as lembranças dos sonhos o atormentando. Ele via os olhos lilases, os cabelos prateados, mas algo nela era diferente, algo que ele não conseguia colocar em palavras.
— Não sei, Petyr. Mas o que quer que ela seja, não é Daenerys. Há algo... antigo nela, algo que não pertence ao mundo que conhecemos.
Baelish permaneceu em silêncio, mas seu sorriso afiado mostrou que ele estava absorvendo cada palavra. Robert, no entanto, se afastou, perdido em seus pensamentos, enquanto o peso das ameaças que se aproximavam de Westeros começava a se acumular, ameaçando a frágil paz que ele tanto lutou para manter.
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Na grande sala de audiências, iluminada pela luz suave que entrava pelas altas janelas, Daemon estava sentado em uma cadeira imponente, como um verdadeiro senhor, com Viserys ao seu lado, atento às lições que recebia. Rhaella, por sua vez, estava próxima, de pé com a postura graciosa, observando com olhos serenos, mas atentos. Seus cabelos prateados caíam como uma cascata brilhante sobre seus ombros, refletindo a luz suave do ambiente.
À frente deles, um pequeno grupo de habitantes da ilha expunha suas preocupações. Eram problemas comuns, questões de colheitas, disputas por terras, e a necessidade de reforçar os diques antes das tempestades de outono. Daemon ouvia com paciência, absorvendo cada palavra com uma expressão pensativa.
Quando o último dos aldeões terminou de falar, Daemon voltou seu olhar para Rhaella, que permanecia em silêncio ao lado deles.
— Rhaella — ele disse com suavidade, — tem algo a dizer?
Viserys franziu o cenho, surpreso. Ele olhou para Daemon e depois para Rhaella, como se não acreditasse no que estava ouvindo.
— Por que você ouve uma mulher sobre assuntos tão importantes? — ele perguntou, a voz tingida de desdém.
O silêncio caiu sobre a sala por um momento, pesado como o ar antes de uma tempestade. Daemon virou-se lentamente para encarar Viserys, seus olhos escuros com um brilho perigoso.
— Você pergunta por que ouço uma mulher? — Daemon repetiu, sua voz calma, mas com uma intensidade que fez Viserys estremecer.
Rhaella permaneceu em silêncio, seus olhos fixos em Daemon, como se estivesse aguardando sua resposta, sem a menor perturbação em sua expressão.
Daemon levantou-se, aproximando-se de Viserys.
— Eu ouço Rhaella — ele começou, cada palavra carregada de significado, — porque ela vê o que muitos não veem. Ela entende o que poucos compreendem. Ela é sangue de dragão, assim como eu, assim como você. E um verdadeiro dragão conhece o valor da sabedoria, não importa de onde venha.
Viserys ficou em silêncio, olhando para Rhaella, que agora devolvia seu olhar com um leve sorriso, como se a provocação não tivesse importância alguma. Ele percebeu, talvez pela primeira vez, a força silenciosa que emanava dela, uma força que não precisava ser exibida para ser sentida.
Daemon voltou-se para Rhaella, como se a discussão com Viserys não tivesse importância alguma.
— Então, minha senhora — ele disse suavemente, — o que você sugere?
Rhaella inclinou a cabeça, seus olhos brilhando com um pensamento profundo.
— Os diques precisam ser reforçados antes das tempestades, mas também devemos preparar a colheita para a estação fria que se aproxima. Envie homens para os campos e outros para os diques. Assim, garantimos que o povo tenha comida e segurança.
Daemon assentiu, satisfeito.
— Então, que assim seja.
Viserys observou em silêncio, sua mente trabalhando em silêncio enquanto tentava entender a dinâmica entre Daemon e Rhaella. Ele começava a perceber que, na ilha, as coisas eram diferentes. Daemon não era apenas um guerreiro, e Rhaella não era apenas uma mulher. Eles eram algo mais, algo que Viserys ainda não compreendia completamente, mas que começava a temer.
Naquela noite, a lua estava alta no céu, suas luzes prateadas refletidas nas águas agitadas que cercavam a ilha. A tempestade que havia se formado ao longo do horizonte ainda não havia chegado, mas o vento trazia o cheiro do mar e de algo mais profundo, algo antigo. Rhaella estava na varanda do quarto, os olhos fixos no mar revolto. Seus cabelos prateados dançavam ao ritmo do vento, e seu vestido esvoaçava ao redor de sua figura esguia, criando uma visão quase etérea.
Daemon, observando-a em silêncio por alguns instantes, aproximou-se, pousando as mãos firmes sobre os ombros dela, sentindo a tensão em seus músculos.
— Rhaella — ele murmurou suavemente — o que te preocupa? Por que está assim, tão distante?
Rhaella não respondeu imediatamente. Seus olhos permaneceram fixos nas ondas que batiam contra as pedras da ilha.
— O mar está agitado — disse ela finalmente, sua voz baixa e distante. — Algo está acontecendo, Daemon…
Daemon franziu o cenho, seu olhar seguindo o dela, tentando ver o que ela via.
— O que está acontecendo? — ele perguntou, com uma nota de preocupação em sua voz.
Rhaella inclinou a cabeça levemente, como se estivesse escutando algo que só ela podia ouvir.
— Há algo errado — ela sussurrou. — Algo se aproxima, Valíria está tentando nos avisar…
Daemon apertou os ombros dela com mais força, tentando transmitir algum conforto.
— Seja o que for, enfrentaremos juntos — disse ele, sua voz firme, mas carregada de preocupação. — Nada nesta ilha, nem no mar ou em Valíria, poderá nos ferir.
Rhaella permaneceu em silêncio, mas seus olhos brilhavam com uma mistura de medo e curiosidade. Ela sabia que algo estava vindo, algo que iria mudar o curso de suas vidas. A garota virou o rosto para ele, os olhos de lavandas melancolicas refletindo suavemente o rosto dele.
— Fomos feitos para queimar juntos, Daemon.
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